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A Colômbia e a silenciada guerra contra o povo

Do IELA, 28 de Fevereiro de 2022
Por Elaine Tavares



Desalojo constante da população - FOTO: Esneyder Gutiérrez / Arquivo EL TIEMPO

Não passa um dia sem que se leia nos jornais colombianos sobre o assassinato de algum ex-integrante das FARCs ou alguma liderança social. Ontem foi mais um, Gustavo Antônio Torres, na zona rural de Tibú. O ataque contra os sindicatos e movimentos sociais que lutam por direitos ou contra as políticas do governo é feito assim, cirurgicamente, com as mortes sendo muitas vezes computadas como crimes comuns ou apagadas como não resolvidas. O fato é que não pode ser coincidência que, um a um, os ex-combatentes das FARCs, que depuseram as armas depois dos acordos de paz em 2016, venham sendo “vítimas” de vinganças, assaltos, massacres e outros crimes aparentemente descolados de suas condições de ex-guerrilheiros. Quanto aos demais líderes sociais o caso é o mesmo. As mortes cirúrgicas já ocorriam antes dos acordos de paz e continuam agora da mesma forma, sem que os colombianos tenham a opção de “subir a montanha”, como antes acontecia, quando muitos dos perseguidos se aliavam às forças revolucionárias.

Os acordos de paz foram firmados na esperança de que o país pudesse seguir seu caminho por outra via que não a das armas. Mas, o que de fato aconteceu é que apenas a guerrilha largou as armas. O estado seguiu militarizado, as milícias paramilitares seguiram semeando o terror. Só neste ano de 2022, cujo segundo mês vai terminando, já foram 33 lideranças assassinadas, somando quase 1.500 pessoas de 2016 até agora. O governo acusa a guerrilha de matar os que decidiram seguir o caminho da paz, mas não há provas materiais de que isso seja verdade. Além disso, o número de assassinatos de líderes populares, sindicais e sociais, desvinculados das FARCs, é bem maior. Logo, o argumento não se sustenta. A verdade é que basta que alguém se destaque reivindicando direitos ou organizando comunidades e trabalhadores para que vire alvo.

A Colômbia é um país que tem dentro de suas fronteiras sete bases militares estadunidenses com o discurso de atuar no combate ao narcotráfico. Se assim fosse, seria de admirar a incompetência e a ineficácia desses batalhões, visto que ali estão há décadas sem conseguir dar fim à produção da droga, que é cada vez maior e eficiente. O governo de Ivan Duque tem propagandeado que conseguiu reduzir o plantio da coca no país, mas ao mesmo tempo se sabe que apesar disso a produção de cocaína cresceu. Um relatório da Organização das Nações Unidas sobre Drogas e Crime deu conta de que em 2020 foram produzidas 1.010 toneladas de cocaína, com um aumento de 8% frente ao ano de 2019. Também aponta que o maior consumidor da droga é o país do Tio Sam: os Estados Unidos.

Enquanto isso os movimento sociais ligados ao campo denunciam as fumigações criminosas do governo nas zonas rurais, exterminando plantações e obrigando comunidades inteiras a se deslocar pelas várias regiões do país. Uma realidade que faz com que muitas famílias acabem aceitando a proteção do narcotráfico e atuando no plantio da coca e na produção da droga, onde paradoxalmente têm menos chance de morrer.

Essa é uma realidade brutal que se expressa bem aqui na nossa América do Sul, sob nossos olhos e sem a devida atenção por parte da mídia comercial que é bastante pródiga em criminalizar a luta revolucionária das FARCs. Como bem já apontou Noam Chomsky em um de seus clássicos sobre a comunicação, os inimigos dos EUA recebem muita luz por parte da mídia, já os amigos têm seus crimes escondidos, quando muito divulgados em uma nota de rodapé.

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