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Não é breve, este é o século mais longo da história. Artigo de Alberto Negri

Do IHU, 21 Fevereiro 2022
Por Alberto Negri, filósofo italiano, em artigo publicado por Il Manifesto, 20-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.



"E esse foi o maior erro da Europa: pensar que o século XX havia acabado. Na realidade, não é o "breve século", como escreveu o marxista britânico, natural de Alexandria, Eric Hobsbawm. Este é o século mais longo da história da humanidade. E continua ainda hoje no chamado terceiro milênio. Gostem ou não", escreve Alberto Negri, filósofo italiano, em artigo publicado por Il Manifesto, 20-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O que é uma guerra? A primeira coisa que acontece é que a luz se apaga, como vi acontecer em Bagdá, Cabul, Sarajevo, Belgrado, Beirute, Damasco, Trípoli, Mogadíscio. A luz também pode não voltar mais por anos, substituída pelo zumbido dos geradores, enquanto o céu é iluminado pelos traçadores dos projéteis. Os europeus parecem ter esquecido disso e só agora se assustam por causa do incêndio artificial da Ucrânia, que poderia interromper o fluxo regular de gás russo.

No entanto, os europeus tiveram uma guerra recente no coração da Europa, na ex-Iugoslávia, mas a vivenciaram como o aspecto de um distante conflito étnico e religioso de um remoto século XX.

E esse foi o maior erro da Europa: pensar que o século XX havia acabado. Na realidade, não é o "breve século", como escreveu o marxista britânico, natural de Alexandria, Eric Hobsbawm. Este é o século mais longo da história da humanidade. E continua ainda hoje no chamado terceiro milênio. Gostem ou não.

Naquela época, todos pensavam, por trás de uma tela feita de ilusões e ignorância, que o 1900 tinha terminado com a queda do muro de Berlim em 1989 e depois com a subsequente dissolução da União Soviética. Certamente mudavam regimes, fronteiras territoriais, novas nações nasciam e fenomenais ideologias que haviam movido o mundo foram arquivadas às pressas: mas os povos não podiam desaparecer, com sua história, suas tradições, suas crenças. Assim, no final do século longo, ressurgiram de uma forma diferente aqueles que pensavam serem fantasmas do passado, como os impérios enterrados pelo tempo, daquele russo ao otomano. Talvez hoje não estamos chamando tranquilamente Putin de "Czar" e Erdogan de "Sultão"? Hobsbawm fazia terminar o século com o desmoronamento da União Soviética. Na realidade, o século era difícil de morrer e o fim da Iugoslávia, com repetidas guerras no coração da Europa, o envolvimento de grandes potências e países vizinhos, demonstrava isso.

Com o fim da Iugoslávia, se dissolvia um dos últimos estados multiétnicos e multirreligiosos da Europa. Mas há sempre um preço a pagar pela indiferença.

Sempre retorna à memória aquilo que havia dito a nós, cronistas, em seu apartamento popular de Belgrado, Milovan Gilas, braço direito do marechal Tito, aquele que havia negociado com Stalin para impedir uma invasão soviética da Iugoslávia: "Aqui estamos acertando as contas da Segunda Guerra Mundial".

Entre massacres e limpezas étnicas com milhares de mortos e milhões de refugiados não era difícil acreditar nele.

Perto de Srebrenica, em julho de 1995, durante o massacre de mais de 7.000 muçulmanos bósnios, vi uma mulher pendurada em uma árvore em um mato: ela havia se enforcado para não acabar nas mãos das milícias; seu marido havia se explodido com uma granada. Nem era preciso procurar os mortos: de manhã você era acordado pelo cheiro de cadáveres em decomposição ao sol e ao calor.

Mas esses relatos o europeu médio, envolvido com as férias de verão, não os queria ouvir e até hoje mantém virada a cabeça para o outro lado. Ele acorda agora porque além do cheiro dos mortos, ele sente o cheiro de gás e de crise econômica. Sem esquecer a arrogância de Biden que desfralda a acusação contra a Rússia dos "pretextos" de guerra, esquecendo que os Estados Unidos fabricaram pretextos vergonhosos para as aventuras bélicas no Vietnã, Kosovo e Iraque 2003.

Nada de breve século! Em 1992, com o colapso da Iugoslávia, a república da Macedônia declarou independência e a 100 quilômetros de Salónica as pessoas saíram às ruas para protestar em frente à estátua do mega Alexandros. Gregos e eslavos lutavam pela herança do nome. Demorou quase trinta anos para resolver essa disputa com a assinatura do acordo Prespa em 2018 e a mudança do nome da República da Macedônia para Macedônia do Norte.

Por favor, não chamem mais o 1900 de breve século. O amigo Davide Hearst, diretor do Middle East Eye - de origem polonesa, ucraniana e judaica - lembra que em 1941, quando o Terceiro Reich invadiu a URSS, os nazistas foram saudados como libertadores do duro regime soviético. O total de baixas civis durante a guerra e a ocupação alemã da Ucrânia foi estimado em quatro milhões, incluindo 1,6 milhão de judeus. De acordo com o Simon Wiesenthal Center, "a Ucrânia, até onde sabemos, nunca conduziu uma única investigação sobre um criminoso de guerra nazista local, muito menos processou um perpetrador do Holocausto". Nem se falou a respeito nos dias de memória. Hoje na Ucrânia de Kiev ávida pela OTAN, um perseguidor e criminoso como Stepan Bandera, que jurou fidelidade a Hitler, é considerado um herói nacional e as milícias e os grupos que se reportam a ele são institucionalmente a Guarda Nacional Ucraniana que treina os civis e incita à guerra.

Chamem novamente de breve século, se tiverem coragem para tanto.

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