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Caso Marcus Matraga: seis anos de violência e impunidade em comunidade no Baixo Sul da Bahia

Seis anos após o assassinato do professor aposentado da UFBA, inquérito policial segue inconcluso. Aonde foi o grupo especial criado pelo governador Rui Costa para a apuração do crime? Quais os resultados apresentados?


Da CartaMaior, 3 de Fevereiro 2022
Por Marta Cerqueira Melo



Créditos da foto: Marcus Vinícius durante palestra na sede do Ministério Público do Estado da Bahia em 2015


No dia 04 de fevereiro, o assassinato do psicólogo e professor Marcus Vinícius de Oliveira completa seis anos. Professor aposentado do curso de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e reconhecido por suas contribuições aos campos da saúde mental e da luta antimanicomial no Brasil, Marcus Matraga – como era conhecido nas redes sociais – foi executado com tiros na cabeça.

O crime ocorreu na véspera do carnaval de 2016, na comunidade de Pirajuía, localizada no município de Jaguaripe, município do Baixo Sul da Bahia. O professor foi atraído para uma emboscada, quando chamado para prestar socorro a uma amiga por alguém que se apresentou como neto da mulher. Dona Fia, como era conhecida, teve sua condição de saúde agravada após o trauma da perda do amigo naquelas condições, e faleceu poucos meses depois.

Matriarca do Samba de Roda de Pirajuía, ela foi imortalizada no dossiê que fundamentou o tombamento do Samba de Roda do Recôncavo Baiano como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, no ano de 2005.



Marcus Vinícius e Dona Fia na residência do professor em Pirajuía.

Após a ampla repercussão da notícia do assassinato, o próprio governador Rui Costa recomendou a criação de um grupo especial para apuração do crime que, no entanto, segue sem solução.

O principal suspeito de mando da execução teve sua prisão decretada por participação em organização criminosa ligada ao tráfico de drogas em setembro de 2016 e conquistou o direito à liberdade no início de 2019, quando voltou a frequentar e desenvolver suas atividades em Pirajuía.

Recentemente, se tem notícias de derrubadas de cercas em terrenos que fazem limites com as áreas que o suposto mandante da execução de Marcus Vinícius se apropriou na comunidade. Tal fato fortalece a linha de investigação que foi levantada na época do assassinato, de que se tratava de um crime fundiário, cuja motivação estava ligada à sua atuação na defesa da integridade do patrimônio natural de uso comum em Pirajuía frente aos interesses da grilagem. Como o inquérito nunca foi concluído, os fatos são relegados ao campo da especulação.



I Acampamento Marcus Matraga: um tributo à vida, realizado em apoio às ameaças sofridas por residentes em Pirajuía após o assassinato do professor em junho de 2016. Foto: Nanna Teixeira.

A comunidade, localizada na margem da BA-534, nas proximidades de Salinas das Margaridas, possui extensa faixa de manguezal. Esse ecossistema, além de ser protegido pela legislação ambiental brasileira, serve de habitat para inúmeras espécies animais, possibilita o sustento de diversas famílias que vivem da pesca artesanal e da mariscagem, convertendo-se também em espaço comum de lazer para quem ali vive.



Barcos utilizados para a prática da pesca artesanal em Pirajuía. Foto: Nanna Teixeira

Historicamente ameaçados pelos empreendimentos de carcinicultura que se constituem como atividades predatórias às áreas de manguezal, os terrenos à beira-mar no entorno da Baía de Todos os Santos têm se convertido nos últimos anos em amplo objeto de especulação imobiliária, estimulada pela iminente construção da Ponte Salvador-Itaparica.

Pirajuía não é uma exceção. Além do professor, outras três pessoas foram assassinadas na comunidade entre dezembro de 2015 e fevereiro de 2016 - algo totalmente alarmante no (antes) pacato vilarejo. A marca dessa violência, que se arrasta e presentifica por meio de uma série de desapropriações, ameaças e silenciamentos, se mantém viva há seis anos. A impunidade que se impôs como resposta é precisamente a força que nutre não apenas a memória, mas a experiência cotidiana da violência na comunidade.

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