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A partilha do inconsciente

Psicanalista retoma conceito de “mutualidade” para pensar o lugar do analista na relação com o paciente. Reflexão fundamenta a clínica pública instaurada em um espaço de transformação social na Vila Itororó, em São Paulo


De OUTRASPALAVRAS, 4 de Fevereiro 2022
Por Daniel Guimarães


Vila Itororó, onde foi criada a Clínica Pública de Psicanálise

Mutualidade é uma palavra introduzida na psicanálise pelo húngaro Sándor Ferenczi, a quem se pode atribuir o espírito radical do método psicanalítico como uma experiência de transformação no interior de uma relação que aponta para uma independência daqueles que dela participam.

Gostaria de trazer para esse texto um pouco da sua experiência, cheia de valor e interessante por si só, mas também porque ajuda sensivelmente a imaginar uma prática de construção de uma sociedade feita para e pelas próprias pessoas que dela fazem parte. É essa prática que anima a presente edição da revista Urbânia e a análise mútua do Ferenczi e de seus pacientes parecem uma boa abordagem.

Entre os psicanalistas, Ferenczi é bastante conhecido pela importância preferencial que dava para a clínica e os problemas próprios a ela. Ele se envolvia com o tratamento dos pacientes, se preocupava com a análise dos próprios psicanalistas quando isso ainda não era uma obviedade e, juntando um problema ao outro, tirava conclusões inéditas e fundantes sobre o psiquismo a partir dos efeitos da relação entre analista e paciente. Ferenczi, sempre com uma compreensão teórica debaixo do braço, mas disposto a acreditar antes na prática clínica, levou essa tensão ao máximo de seus limites, expandindo também a própria teoria. Foi responsável pela defesa da formação do psicanalista tendo o próprio método da psicanálise como núcleo desse processo. Tornar-se psicanalista é uma experiência com o inconsciente, muito além de uma apreensão consciente de determinada teoria.

Seu pensamento se fazia na prática e num certo momento se deu conta de que um dos motivos das resistências dos pacientes a avançar em suas análises estava no próprio inconsciente do analista. O seu interesse se voltou aos aspectos não analisados do analista, os seus próprios complexos, e os sentimentos e outras tantas reações do analista em relação ao paciente, não apenas do paciente em relação ao analista. Além da análise do analista, para que seus pontos mais delicados e reprimidos não impedissem as elaborações do paciente, pensou que em algumas circunstâncias seria possível e necessário que o analista também falasse de si com o analisando. Para pôr em movimento a análise do analisando na direção de sua autonomia, inclusive em relação ao analista, o analista deveria falar quando suas próprias questões estivessem inibindo a análise do analisando. Uma opção pela fala e não pelo silêncio, para que nenhum vazio se tornasse deserto de sentido. Para que o analisando não duvidasse de suas percepções ou de sua própria capacidade psíquica. Para que o analisando pudesse saber quando não era dele a dificuldade particular com algum conteúdo. Que a figura de autoridade poderia ter sua parte no impasse. Ferenczi acreditava em distribuir as responsabilidades e ao mesmo tempo se posicionar na situação, dissipando paranoias, silenciamentos vindos do outro… Algo bastante diferente das relações regulares entre crianças e adultos, alunos e professores, filhos e pais e assim por diante, diria Ferenczi. Uma aposta na inteligência, no desejo, na autonomia.

Essa prática, baseada em construir uma relação onde afetos e palavras autênticas pudessem ter espaço e assim transformar verdadeiramente a dinâmica psíquica da pessoa, ele chamou de análise mútua. Uma prática, disse ele, criada pelos pacientes.

A palavra “mútua” aqui diz sobretudo da implicação de todos os sujeitos no processo. A análise é do analisando, mas o analista está lá. Passa pelos dois, ainda que ocupem lugares e posições diferentes. Transforma os dois, mesmo que o analista não queira passar por uma transformação. A dupla está lá, implicada mutuamente. Mesmo que um analista não concorde com isso, ainda assim, esse fenômeno está ali para ser ou não incluído conscientemente no processo da análise e na construção teórica posterior.

É da história da psicanálise que algo dessa mutualidade sempre estivesse presente. Foi assim no começo do começo, em 1882-83, na história clínica de Josef Breuer e Bertha Pappenheim, ou Anna O., coautora daquele tratamento que incluía o médico e que o transformou. História que produziu efeitos também no jovem Freud que, ao saber daquela experiência, se interessou de forma decisiva pelos fenômenos da histeria e da terapia pela palavra. A posse da palavra pela paciente, exigida por ela e aceita por Breuer, subverteu a verticalidade da relação em que o médico sabia, ou tinha a autoridade para saber, o que se passava no corpo e na alma da paciente. Apenas pela colaboração inteligente e sensível com a paciente foi possível seguir adiante. O método, digamos, é esse. E assim foi sendo feita a história da psicanálise, no interior das relações entre analistas e analisandos e analistas entre si.

Vale a pena ler esse trecho de Breuer do caso clínico Anna O., nome dado por Breuer para sua paciente na publicação de Estudos sobre histeria, livro compartilhado com Freud em 1895:

“No campo, onde eu não podia visitar a doente diariamente, a coisa se desenvolveu da seguinte maneira. Eu chegava ao anoitecer, quando a sabia em hipnose, e removia-lhe todo o estoque de fantasias que haviam acumulado desde minha última visita. Isso devia efetuar-se de modo bastante completo se se quisesse obter um bom resultado. Ela então se acalmava inteiramente, no dia seguinte mostrava-se amável, dócil, diligente, até mesmo alegre; no segundo dia, cada vez mais temperamental, renitente, desagradável, o que recrudescia ainda mais no terceiro dia. Nessa disposição, mesmo na hipnose, nem sempre era fácil movê-la a se expressar, procedimento para o qual ela havia inventado o nome, apropriado e sério, de ‘talking cure’ (cura pela fala) e o humorístico ‘chimney sweeping’ (limpeza de chaminé). Ela sabia que, após ter se expressado, perderia toda a obstinação e ‘energia’, e quando (depois de uma pausa mais longa) já estava de mau humor, se recusava a falar, o que, então, eu tinha de arrancar-lhe, incitando, pedindo e utilizando alguns artifícios como o de proferir uma fórmula estereotipada do início de suas histórias. Mas nunca falava antes de ter se convencido de minha identidade, tateando cuidadosamente minhas mãos.”

Mutualidade não significa a fusão de dois que viram um. Ferenczi claramente aponta para um horizonte em que cada sujeito siga seu caminho livre das idealizações de um outro. No entanto, autonomia também não significa o abandono do outro. O outro segue incontornável na nossa formação como sujeitos, não há hipótese de sermos sem um outro, desde a dependência radical para existir, nascer, se proteger, alimentar e se apossar desses instrumentos de entrada na vida compartilhada que são a linguagem e os afetos.

Lembrei de Castoriadis, filósofo, militante, psicanalista, e sua aposta na autonomia como prática instituinte criadora de relações sociais. Ele fala sobre essa tensão entre sujeitos da seguinte maneira:

“Desde o momento em que a palavra, mesmo não pronunciada, abre uma primeira brecha, o mundo e os outros infiltram-se por todos os lados, a consciência é inundada pela torrente das significações, que vem, se assim podemos dizer, não do exterior e sim do interior.”

A autonomia, pra ele, não é a eliminação do discurso do Outro, mas uma outra relação entre o discurso do Outro e o discurso do próprio sujeito. É necessário um outro para que um sujeito possa existir. Daí a necessidade de preservar esse outro, reconhecer esse outro. E que esse outro, uma vez que é sujeito, também reconheça. Nesse cruzamento pode existir a mutualidade. Cruzamento num lugar essencialmente inconsciente, lá onde habita o sujeito, que, como lembra Castoriadis, não é a mesma coisa que o Eu da consciência. Lugar não geográfico das multidões de conteúdos transmitidos de sujeito para sujeito, de geração a geração. Lá onde podemos fantasiar ser apenas nosso quarto de intimidades, está a rua. A tensão entre íntimo e comum, entre particular e compartilhado, entre público e privado, podem ser pensadas por aí.

Pois bem, o Eu da autonomia não é um Si absoluto, asséptico, sem contaminações trazidas pelo outro. É antes uma instância que “reorganiza constantemente os conteúdos, utilizando-se desses mesmos conteúdos” feitos de coisas que já existiam antes e que seguem em transformação no e pelo sujeito.

Essa construção continuada de uma relação entre o sujeito e o outro me faz pensar que autonomia não é um fim em si mesmo, mas um meio. Um horizonte nunca alcançado que necessita de algumas ferramentas para se pôr em movimento. Penso então numa prática de emancipação como muito mais interessante como horizonte do que a chegada nesse lugar ideal de autonomia. A emancipação, como movimento, é um horizonte, mas também e sobretudo um agora.

Emancipação é emancipação de uma situação de vida desfavorável para uma menos desfavorável. Emancipação de uma condição sentida como desprazerosa para outra condição mais interessante de se viver. Emancipação de uma condição de subalternidade, de exploração, de sofrimento, enfim.

Aqui quem pode ajudar é Christophe Dejours, psicanalista que se dedica a pensar as dinâmicas e os efeitos das relações de trabalho do capitalismo contemporâneo. Além de pensar e atuar a partir do sofrimento do trabalho, Dejours se interessa pelos processos de emancipação, tanto por uma posição política, quanto por interesse clínico e teórico. Invertendo a clássica pergunta “por que as pessoas afetadas diretamente pelo capitalismo não se revoltam contra ele?”, Dejours se interessa em saber por que as pessoas em desvantagem continuam a se revoltar contra esse estado de coisas.

É na infância, na primeiríssima infância, que Dejours encontra uma possível resposta. O bebê, por mais frágil que seja, por mais difícil que seja através de sua própria motricidade, e por conta de sua embrionária noção de si mesmo e de outros objetos, alcançar a satisfação de suas necessidades, percebe aos poucos ter a seu alcance um grande poder sobre os adultos. Os adultos responsáveis e que desejaram essa criança, que estão encantados por ela, transformam suas vidas, mudam seus hábitos, a organização do tempo e de suas energias, para atender às necessidades do bebê. Não é exagero dizer que não se sabe quem está no comando da situação. Os adultos adivinham o que o bebê precisa e quer ou são os bebês que exigem, articulando táticas de convencimento, digamos? Provavelmente algo entre as duas posições, nessa redistribuição da libido dos adultos para a criança que, por sua vez, enche de libido a vida dos adultos, que reencontram ali, num arranjo inconsciente, a sua própria infância, a relação com os pais e a comunidade, os seus próprios traumas, reparações desejadas, fantasias infinitas.

Existe então algo em nós, uma experiência vivida, donde podemos imaginar ser possível transformar a realidade a favor dos nossos interesses, necessidades, desejos, mesmo estando em desvantagem de alguma forma. A partir da fome, do frio, da precariedade das condições, ou pela ampliação das possibilidades de amar, pela possibilidade de existir como se é. E essa experiência, que não prescinde de um outro, mas se faz na própria relação tensa e contraditória com esse outro, está na infância. No espaço coabitado por sujeitos em situações diferentes acontecem essas transformações, em outra complexidade que não a eliminação do outro ou uma conciliação pacificada entre desiguais. As tensões são da vida, a ausência das tensões é o fim da pulsação. E a tensão se dá por oposição, por conflito, por alteridade.

A situação analítica é a criação de um espaço comum desse tipo, um lugar que não é nem apenas do analisando, nem apenas do analista. Lugar de encontro, uma terceira coisa, que um antropólogo como Roy Wagner chamaria de cultura, outros psicanalistas chamariam propriamente de inconsciente, mas pode ser apenas um espaço psíquico de passagem, de construção de algo. Parece-me que nessa situação construída acontece algo que escapa aos objetivos mais imediatos de uma terapia.

Esse método, com esse entendimento, pode ser extrapolado para outros contextos e dele nascerem outras coisas interessantes.

Isso porque o conflito não é apagado. As diferenças não são esquecidas para simular uma boa coexistência. Não se trata de buscar um consenso, que em geral mais apaga diferenças do que as acentua. Pela psicanálise aprendemos que o apagado não deixa de existir, pelo contrário, segue atuando por onde for possível. Se trata de experimentar, no sentido de experiência, a prática política através da implicação de todos os sujeitos interessados e verificar as consequências dessa subversão nos polos do poder.
Clínica Aberta na Vila Itororó

Foi assim que trabalhamos na Clínica Pública de Psicanálise, experiência realizada entre meados de 2016 e fevereiro de 2020, na Vila Itororó Canteiro Aberto, no bairro do Bixiga, em São Paulo. A clínica fazia parte de uma história mais ampla naquele lugar. A Vila Itororó era um lugar bastante especial em que viviam muitas famílias que de outra forma não conseguiriam pagar para viver na região central da cidade. Um espaço muito diferente dos que estamos acostumados a ver hoje em dia nas cidades superconstruídas e impessoais. Chão aberto onde se podia brincar, casas próximas com uma qualidade de vizinhança íntima. Festas comunitárias públicas. Existia lá um jeito muito próprio de viver, interrompido pela disputa do uso daquele chão. O poder público, pervertendo sua função, decidira que aquelas pessoas deveriam sair de lá porque aquela área deveria pertencer ao público e não apenas a algumas famílias. O uso futuro do espaço e das construções seria no entanto um comercial centro cultural planejado, executado e gerido verticalmente. Contradições gritando. As famílias se organizaram, tiveram companhias dedicadas de pessoas solidárias e, na mesma medida que foram sendo retiradas de muitas formas do espaço de suas histórias de vida, conquistaram algumas compensações. Morar perto, para continuar tendo acesso aos equipamentos e serviços que existem no centro e não nas periferias, por exemplo.

O tempo permitiu a entrada de uma nova gestão na prefeitura, uma prefeitura com contradições mais favoráveis à população e lá se fez um centro cultural provisório durante as obras de reconstrução da vila. Esse centro cultural, chamado Vila Itororó Canteiro Aberto, se propunha a não ter uma programação definida por uma equipe, mas ser principalmente um espaço moldado pelos usos que o público faria dele. Essa sutileza faz toda a diferença.

Penso que a luta dos moradores da Vila criou um campo de atuação crítica. A existência deles e seu interesse por lutar e falar e viver seriam como uma interpretação psicanalítica sobre um conflito aberto na cidade. Os analisandos-psicanalistas da cidade eram eles. Nossa ideia original, na Clínica Pública, seria oferecer um espaço para que pudessem elaborar juntos os efeitos de todo aquele processo. Afinal, os psicanalistas precisam de sua análise. Aqui está um bom exemplo de um encadeamento de uma prática política pública levando em consideração a mutualidade.

Esse processo de elaboração não aconteceu, mas a clínica passou a existir em meados de 2016 atravessada pelo contexto em que se situava. A ideia de público ali mirava para a experiência viva e autoconstruída pela população, e não como propriedade privada do Estado. Assim como no núcleo do método psicanalítico, seriam as próprias pessoas que se utilizariam da clínica, entre elas os analistas, que dariam forma para a própria clínica. Uma construção em análise, para citar o título de um texto importante de Freud.

Assim, a cada acontecimento, a cada atendimento, a cada dia de trabalho, a própria clínica precisava responder àquilo que lhe era apresentado. As pessoas que vinham ao plantão matinal dos sábados e não conseguiam horário e conversavam juntas na entrada do galpão onde funcionava a Vila Itororó Canteiro Aberto inspiraram a criação de um grupo terapêutico. A dupla analista e paciente é quem inventava o lugar onde o atendimento aconteceria e por si só já produziam conteúdos nessa procura. Depois esses lugares eram registrados e se transformavam em imagens de consultórios abertos, imagem que foi se tornando parte da clínica, dando sentido a ela, fazendo com que os analistas, os pacientes e outras pessoas interessadas em fazer clínica dessa forma, pensassem a respeito das reverberações disso no processo psicanalítico.

Na Clínica Pública não oferecíamos um serviço, o que reconstruiria a assimetria da relação médico-paciente, de quem sabe para quem não sabe, numa dinâmica que afirma uma desigualdade de fundo. Estávamos lá construindo junto. É esse sentido de público que nos interessa.

A mutualidade não elimina as diferenças. Não se trata de simetria. É possível que os conflitos sejam incontornáveis, por exemplo na disputa sobre os rumos da organização do trabalho e da distribuição de riquezas de uma sociedade. É possível que mesmo num par analítico o objetivo seja a sua dissolução. Na formulação de políticas no interior do Estado, por exemplo ampliando os aspectos públicos e não privados dentro dele, parece também que não há compromisso verdadeiro possível entre campos de interesses antagônicos. A mutualidade pode ser pensada então de algumas formas: como implicação, responsabilização, e como encontro cujas tensões produzirão respostas específicas ao problema, no lugar de idealizações exteriores ao contexto. Talvez seja como nesse espaço inconsciente, singular e plural, próprio e compartilhado, que o público aconteça.


DANIEL GUIMARÃES
Fundador da Clínica Pública de Psicanálise, editor do site TarifaZero.org e ex-militante do Movimento Passe Livre. Nascido em Florianópolis, mora há dez anos em São Paulo

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