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Raymond Williams, visionário do ecossocialismo

Britânico questionou teorias marxistas que reduzem o trabalho e a natureza a “recursos” que podem ser explorados e defendeu que intervenções humanas melhoram a vida num mundo de recursos finitos, inconcebível para o capitalismo sem limites


De OUTRASMÍDIAS. 27 de Janeiro 2022
Por Peter Hill, na Jacobin Brasil | tradução do Coletivo Leia Marxistas



Raymond Williams

Raymond Williams nasceu em 31 de agosto de 1921 e morreu em 26 de janeiro de 1988 aos 66 anos. Ele seria lembrado como um protagonista da esquerda intelectual na Grã-Bretanha – particularmente no seu país natal, o País de Gales – e como um dos pais fundadores dos estudos culturais.

Ele fez seu nome com uma série de análises detalhadas, criteriosas e teimosamente radicais da literatura, cultura e política, assim como romances e dramas – e é sobretudo este Williams “cultural” que é lembrado na esquerda moderna. Mas, nas últimas duas décadas de sua vida, ele embarcou em uma forma diferente de repensar a teoria e a prática socialista – menos conhecida, mas, no mínimo, mais relevante para os problemas que enfrentamos atualmente.

Raymond Williams foi uma das primeiras vozes a chamar socialistas e ambientalistas para trabalharem juntos, e ele apoiou essa urgência com sua própria pesquisa sobre como um projeto ecossocialista poderia repensar as relações entre o homem e a natureza.

O repensar do projeto socialista de Williams tinha como pano de fundo os anos 70 e 80, um período que viu a lenta fragmentação do pacto social-democrata do pós-guerra, em uma longa crise da economia global capitalista baseada em combustíveis fósseis. Muito demonizados por comentaristas conservadores posteriores como uma era de caos e ditadura sindical, os anos 70 na Grã-Bretanha parecem agora, em retrospectiva, revelar possibilidades de alternativas socialistas criativas. Este foi um período de grande militância da classe trabalhadora, políticas feministas e antirracistas crescentes e contraculturas pujantes – assim como as primeiras agitações do movimento ambientalista moderno.

No entanto, a década de 1970 também estava incubando uma dura reação de direita. Em 1979, os conservadores chegaram ao poder com Margaret Thatcher, com sua aliança profana de economia neoliberal e nacionalismo britânico reacionário. Durante os anos 80, este projeto político remodelou a Grã-Bretanha de uma economia baseada no carvão e na manufatura para uma economia de petróleo, gás e serviços financeiros. Ao mesmo tempo, esse projeto arruinou as antigas indústrias e comunidades da classe trabalhadora, condenando o movimento trabalhista e o socialismo à obscuridade por uma geração. A derrota da greve dos mineiros de carvão de 1984-1985 colocou o selo de uma nova ordem, cujas consequências ainda estamos vivendo.

Socialismo ecológico

Na época da greve dos mineiros, Williams havia feito vários apelos aos socialistas e (como eram então conhecidos) “ecologistas” para que unissem forças. Uma convergência entre socialismo e ambientalismo pode parecer senso comum hoje em dia, com um Green New Deal [Novo Acordo Verde] central para tantas agendas de esquerda, mas estava longe de ser óbvio nos anos 70 e 80. Os principais movimentos trabalhistas e socialistas (do Leste e do Oeste) muitas vezes pareciam surdos às preocupações ecológicas.

O movimento ecologista – em uma época anterior ao perigo das mudanças climáticas ser óbvio – muitas vezes parecia ingenuamente apolítico, apelando à estrutura de poder existente por uma “solução”. Outras vezes, era romanticamente conservador, o que Williams chamou de “uma espécie de elegante arrependimento por um mundo extinto, inocente, mais verde, mais pacífico”; ou mesmo abertamente reacionário, oferecendo soluções malthusianas para a “bomba demográfica” sob o disfarce de um retorno à agricultura de subsistência.

Estas armadilhas mal desapareceram hoje em dia. Williams foi um dos primeiros a defender sua superação em uma “convergência” transformadora entre os movimentos ecológico e socialista. O “socialismo ecológico” – embora “um pouco difícil de pronunciar”, admitiu Williams – seria a chave para enfrentar as crises presentes e futuras.

Olhando para o deserto em processo de desindustrialização em que havia se tornado a Grã-Bretanha do governo Thatcher, Williams argumentou que o movimento trabalhista havia caído em uma armadilha. O capitalismo sempre viu tanto a natureza quanto as pessoas como “matéria-prima” a ser “deslocada” e utilizada para a produção lucrativa. Os socialistas e sindicalistas haviam se acomodado com demasiada frequência em apenas argumentar a favor do crescimento econômico: a maneira de resolver a pobreza, ao que parecia, era simplesmente “mais produção”. Mas quando a produção não era mais lucrativa, o capitalismo podia cancelar o contrato e seguir em frente – como estava fazendo nos anos 1980 na Grã-Bretanha. A aquiescência do movimento trabalhista ao impulso do capitalismo para produzir mais – independentemente do que estava sendo produzido, ou das consequências ecológicas – tinha deixado a classe trabalhadora industrial diante da perspectiva de “sua própria redundância geral”.

Ao mesmo tempo, para Williams, as críticas ecológicas lançadas em termos de uma ordem pré-industrial “natural” não ofereciam nenhuma alternativa genuína. Este ambientalismo nostálgico, pensava ele, evitou não só as duras questões sociais e econômicas, mas também as ecológicas, pois era o mundo capitalista moderno que teria que ser transformado para garantir uma existência humana e natural sustentável.

Entre campo e cidade

A abertura de Raymond Williams aos argumentos do movimento ecológico foi baseada, em grande parte, em seus laços de longa data com as áreas e comunidades rurais. Ele havia crescido em uma vila na fronteira galês-inglesa – uma área agrícola, mas próxima aos grandes campos de carvão do sul do País de Gales. Williams manteve laços estreitos com esses distritos; todos os seus seis romances estão, pelo menos parcialmente, ambientados no sul do País de Gales, seu “país de fronteira” com a Inglaterra, e frequentemente mostram uma preocupação próxima com os detalhes das interações homem-natureza, incomum entre as pessoas de esquerda na Grã-Bretanha.

Williams sempre reagiu fortemente contra as tentativas urbanas – e socialistas urbanas – de se livrar do campo, ou da agricultura, tratando-os como marginal e irrelevante. Por outro lado, ele fez uma dura crítica às romantizações de direita do “campo” como um paraíso natural, pré-industrial, esvaziado do povo trabalhador que, tantas vezes, ajudou a moldá-lo.

Em O Campo e a Cidade, publicado em 1973, sem dúvida sua maior contribuição, Williams traça essas oposições ao longo da história da cultura literária inglesa, no contexto do crescimento do capitalismo na agricultura e na indústria. Ele conclui ligando essa história às crises contemporâneas: esgotamento de recursos e destruição ambiental, mas também as revoluções do Terceiro Mundo que haviam levado as populações rurais à vanguarda da luta social. “O campo” e seus problemas não podiam ser descartados como arcaicos ou marginais – não mais do que hoje, como quando os agricultores na Índia provocaram o que pode ter sido a maior greve da história.

Estes temas ressoavam fortemente com a identidade galesa de Williams, que ele estava redescobrindo nas últimas duas décadas de sua vida. Mais uma vez, contrariando a tendência das ortodoxias de esquerda de sua época, ele insistiu na importância do lugar e da comunidade nas visões do socialismo. Ele olhou além dos Estados-nação estabelecidos como a Grã-Bretanha, não apenas para abraçar o internacionalismo, mas também para reconsiderar a especificidade política de regiões e nações menores como o País de Gales.

Contra o nacionalismo britânico reacionário de Margaret Thatcher e a Guerra das Malvinas, ele argumentou que um Estado-nação como a Grã-Bretanha era “ao mesmo tempo pequeno e grande demais para uma política útil”. Muito pequeno porque não poderia ser realmente “independente” em um mundo capitalista globalizado, e só poderia tentar encobrir sua subordinação a forças maiores com retórica nacionalista. Muito grande porque não poderia representar o “desnível” e a “diversidade” de seus componentes – País de Gales, Escócia, Londres ou Liverpool. O argumento soa contemporâneo após o Brexit.

No entanto, a solução de Williams não foi a de buscar unidades “soberanas” cada vez menores. Ele preferiu “explorar novas formas de sociedades variáveis” onde diferentes tipos de decisões e interações democráticas ocorreriam em diferentes escalas. Isto pode soar estranhamente utópico para a esquerda de hoje, ainda geralmente confinada dentro de estruturas nacionais estabelecidas – mas é um horizonte que fazemos bem em não perder de vista.
Repensando o materialismo

A convergência do socialismo e da ecologia forçou Williams a repensar um dos principais fundamentos filosóficos do marxismo: o materialismo. Marx e Engels haviam fundado o materialismo histórico, oferecendo uma compreensão da história humana que começou a partir “da produção material da própria vida”, e não de “formas de consciência”.

Eles estavam construindo, mas também criticando, formas anteriores de materialismo, como as dos pensadores do iluminismo francês ou a de Ludwig Feuerbach, que Marx e Engels viam como abstratas, “mecânicas”, e insuficientemente históricas. Em vez disso, eles explicaram a história humana em termos de um processo dialético, no qual o “ser social” (ou vida material) determina a “consciência social”.

A reelaboração desta herança por Williams foi em parte motivada pelo marxista italiano Sebastiano Timpanaro, cuja polêmica lúcida no livro On Materialism [Sobre o materialismo] apareceu em inglês em 1975. Timpanaro acusou o “marxismo ocidental” mainstream – hegelianos e a Escola de Frankfurt, por um lado; Althusser e marxistas estruturalistas, por outro – de ter abandonado o materialismo.

Ele argumentou que essas tendências, com sua ênfase esmagadora na cultura e filosofia, e seu distanciamento das ciências naturais, estavam oferecendo um idealismo velado ao mesmo tempo em que afirmavam adotar o materialismo histórico. Contra isso, ele reafirmou a centralidade do materialismo para o marxismo, que deveria reconstruir suas ligações com as ciências naturais e reconhecer o poder restritivo da “natureza” sobre toda a história humana.

Williams recebeu o trabalho de Timpanaro com entusiasmo, mas também procurou levar a investigação mais longe. Ele concordou com a reafirmação de Timpanaro do valor do materialismo, como ele fez com grande parte de sua crítica ao marxismo ocidental. E apreciou a refutação de Timpanaro da noção triunfalista do “domínio da natureza”, que o marxismo havia tomado emprestado do pensamento burguês do século XIX. Mas ele discordava da alternativa de Timpanaro, um pessimismo materialista que insistia em restrições físicas inescapáveis: “a opressão do homem pela natureza”. A perspectiva trágica de Timpanaro, e suas lembranças da extinção definitiva da espécie humana, prenunciaram muito do pensamento ambientalista distópico dos dias de hoje, pois enfrentamos uma crise ecológica em uma escala pouco suspeitada nos anos 70.

A resposta de Williams olhou para além das “categorias abstratas” de “natureza” e “homem” para investigar de forma mais aberta e detalhada “os processos intrincados e constitutivos” das relações entre homem e natureza. “Quando dizemos natureza”, perguntou Raymond Williams, “estamos incluindo a nós mesmos?”. As forças físicas, ele nos lembra, não são simplesmente externas, mas, na verdade, constituem a vida humana, definindo nossas possibilidades, bem como nossos limites. E muito do que muitas vezes é visto como “natureza”, ou seja, separado dos humanos, foi profundamente moldado pelo esforço humano – embora quase sempre “dominado” ou controlado.

Diante dessas dificuldades, o pensamento de Williams poderia sugerir não um pessimismo trágico, mas um cauteloso otimismo da vontade. Este repensar forneceu a base para seu apelo por uma política ecossocialista: uma política que reconhecesse toda a extensão dos limites ecológicos, mas que colocasse as pessoas – todas as pessoas – em primeiro lugar. E como tal, levou a sério a capacidade dos humanos de intervir e mudar suas relações com a “natureza” – tanto dentro como fora deles mesmos.

Graças a esta ênfase nas interações ser humano-natureza, Williams também estava atento contra o uso indevido do materialismo: tentativas de lançar a política humana em termos de supostos “fatos” biológicos ou técnicos fixos. Ele argumentou vigorosamente contra o darwinismo social, que oferece a competição capitalista como ordenada biologicamente, e contra o determinismo tecnológico, que afirma que as forças técnicas ditam as formas da cultura humana (ambas as doutrinas têm visto desde então um grande ressurgimento, com o clímax neoliberal e a ascensão do Vale do Silício).

Poderíamos até aplicar os argumentos de Williams a outros “maus materialismos”, como Sophie Lewis os chama: “feminismos radicais” que impõem categorias biológicas essencializadas como armas contra pessoas oprimidas. Tentativas de consagrar o materialismo como um “sistema generalizado fechado” estavam fora de questão, pensou Williams – pois o valor único do materialismo está em “sua rigorosa abertura às provas físicas”. Todas as suas categorias estão “sujeitas a uma revisão radical” – pela investigação física e pela contestação social de significados e conceitos. O “empreendimento materialista” está, portanto, se movendo continuamente “para além de um ‘materialismo’ após outro”.

Isto ressoa com um apelo que Williams já tinha feito: imaginar as futuras sociedades socialistas como mais complexas e diversas do que a ordem capitalista, e não como mais simples ou mais uniformes. Ele criticou, por estes motivos, as utopias socialistas anteriores, mas também o “socialismo realmente existente” de sua época, no Bloco Oriental.

Nesta visão, certamente seria necessária uma ruptura decisiva com o capitalismo, mas a “transição para o socialismo” tornou-se menos a criação de uma “ordem” socialista com uma abordagem uniformizada e mais a abertura de um horizonte de vida social cada vez mais “ativo, complexo e móvel”. Nem o materialismo nem o socialismo, para Williams, devem ser congelados em formas fixas em determinados pontos de seu desenvolvimento – ambos devem permanecer abertos à negociação democrática, à argumentação e à evidência.

De produção a subsistência

Williams estava disposto a levar seu questionamento ao coração do próprio materialismo histórico. Suas “formulações” tinham sido, ele pensava, “ao mesmo tempo historicamente limitadas e insuficientemente materialistas”. Williams nunca tinha tido medo de desafiar as ortodoxias marxistas, mantendo um firme compromisso com o socialismo na prática e na teoria.

Ele questionou por muito tempo a noção de cultura como uma “superestrutura” determinada por uma “base” econômica – uma forma popular, voltando às formulações de Marx e Engels, de interpretar a proposta fundadora do materialismo histórico, de que o ser social determina a consciência social.

Nos anos 70 e 80, como vários antropólogos socialistas, historiadores e feministas, Williams estava procurando maneiras mais complexas de entender esta afirmação. A teoria cultural de Williams afirmava não apenas que a cultura em si é material, mas também que “os meios de comunicação” – a mídia, as telecomunicações, os precursores da internet – desempenhavam um papel importante como “meios de produção” em seu próprio direito.

Em seus últimos escritos, ele foi além disso, novamente, para desafiar o conceito central marxista de “modo de produção”. O impulso para dominar a natureza e “produzir” a partir dela quantidades abstratas de bens era especificamente capitalista, argumentou ele em Towards 2000 [Rumo a 2000, sem tradução em português], publicado em 1983. O foco na “produção” também era mistificador: suas desvantagens eram embaralhadas como “subprodutos” ou “efeitos colaterais”, e áreas inteiras de sustento humano – como o trabalho de nutrição e cuidado – eram relegadas a um estatuto secundário.

A orientação para a produção acabava vendo tanto as pessoas quanto a natureza como “matéria-prima” a ser explorada. Mesmo quando regimes socialistas de Estado ou movimentos trabalhistas tentaram desacoplar a produção do lucro, eles ainda tratavam a “natureza” como algo a ser dominado – e geralmente acabavam vendo as pessoas da mesma forma. Um verdadeiro ecossocialismo exigiria uma “mudança radical […] na própria ideia de produção” – nas relações dos seres humanos com a natureza, bem como uns com os outros.

Ao invés de “produção”, a alternativa de Williams seria organizada em torno de “subsistência”. Este conceito apontava, ele escreveu, para “um modo de vida e não uma forma de produzir”, mas era ao mesmo tempo “totalmente prático”, centrado em torno de “sociedades autogeridas, autorrenováveis… em um mundo vivo”. A orientação para a “subsistência” era antiga, datada de antes da ênfase capitalista na transformação e exploração da natureza, mas Williams rejeitava qualquer nostalgia de economias pré-capitalistas “naturais” ou “morais”.

Ao invés de visões pré-lapsarianas, Williams sugeriu uma escolha clara das intervenções humanas que “sustentam e melhoram a vida”, em comparação com as prejudiciais. A “subsistência” torna-se então uma forma de viver dentro de limites materiais rígidos – como o “crescimento” capitalista não poderia – em um mundo de recursos finitos, que tinha dependência das condições ecológicas. Mas também se tornou uma forma de repensar a pergunta feita por socialistas como William Morris: que modo de vida, que relações humanas, estamos criando?

Raymond Williams não teria afirmado ter encontrado todas as respostas. Mas como um dos escritores socialistas mais atenciosos do século XX, suas perguntas e propostas ainda hoje podem nos desafiar. O ecossocialismo está agora firmemente na agenda, mas a tarefa diante dele parece ainda mais desafiadora do que nos anos 80.

À medida que a crise climática se aprofunda, as tentações contra as quais Williams alertou estão muito presentes: por um lado, fechar os olhos para nossa situação ecológica enquanto depositamos nossas esperanças no “crescimento” capitalista ou no progresso tecnológico; por outro, um retrocesso no desespero apocalíptico, a suposição de que o desastre ecológico irá necessariamente encerrar todos os projetos humanos. O repensar do materialismo – um projeto sempre provisório, rigorosamente aberto a provas e argumentos – talvez nunca tenha sido tão necessário.


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