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Qual o futuro das vacinas brasileiras?

Mesmo a mais avançada, produzida pelo Butantan, encontra problemas para avançar nos testes e produção. Entre os motivos, o desmonte das universidades federais e a enfraquecida indústria do país


De OUTRASAÚDE, 19 de Janeiro 2022
Por Gabriela Leite



Em março de 2021, o governo de São Paulo e o Instituto Butantan anunciaram com alarde a produção da vacina ButanVac. Passaram-se dez meses e, apesar de ser o imunizante brasileiro mais adiantado, há dificuldades em concluir os testes preliminares. O principal motivo, neste caso, não é má notícia. Ocorre pela boa aceitação do país às vacinas já disponíveis, o que dificulta os experimentos de fase 2 e 3 – as que utilizam seres humanos para verificar se a vacina é segura e se há forte resposta imune pelos participantes. Como muitos já estão vacinados, a comparação da eficácia não pode ser feita com aqueles que receberam placebo. Mais recentemente, o Butantan fez uma alteração da investigação, para experimentar os resultados da ButanVac como dose de reforço. A pesquisa encontra-se na fase 2, e realiza testes com 6.496 voluntários.

Outra vacina em produção que também está encontrando dificuldades é a produzida pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, ligado à USP, e o Instituto do Coração (InCor). Os pesquisadores desenvolveram um imunizante via spray nasal – que, segundo o médico e pesquisador-chefe do estudo, Jorge Kalil, poderia ser uma arma poderosa contra a variante ômicron, que se instala justamente na parte superior do sistema respiratório. Kalil afirma que as pesquisas estão paralisadas devido a um problema na parte de tecnologia de produção. Segundo ele, há uma grande dificuldade em encontrar indústria com a tecnologia necessária para sua fabricação – embora não falte dinheiro ou conhecimento científico para produzi-la.

Há ainda ao menos outras quatro vacinas sendo produzidas, segundo registro da Anvisa. São elas a Versamune, da USP; SpiNTec, da UFMG, S-UFRJvac, da Federal do Rio de Janeiro e outra desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará. Estão na fase 1, que realiza testes com animais, e com exceção daquela da UFC, todas estão realizando os trâmites para iniciar a fase 2. Há uma similaridade óbvia entre todas: são produzidas por universidades públicas brasileiras. Justamente aquelas cujo orçamento previsto para esse ano é 15,3% menor do que o de 2019, e que veem-se à beira do colapso…


GABRIELA LEITE
Gabriela é editora, designer e produtora audiovisual de Outras Palavras.

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