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Pandemia e combate à alienação

Da Carta Maior, 5 de Janeiro 2022
Por Emir Sader




Créditos da foto: A Revolta da Vacina, charge de Leonidas, publicada em 29 de outubro de 1904 na edição 111 da revista O Malho. (Reprodução/Nanquim)

A alienação – termo que caiu em quase total desuso – é essencial para a compreensão do mundo contemporâneo, isto é, as sociedades capitalistas. Alienar é, em principio, como diz sua expressão jurídica, entregar a outro o que é da gente.

No sentido econômico é entregar ao outro o que foi produzido por alguém ou, em termos sociais, os trabalhadores entregarem ao proprietário dos meios de produção o resultado do seu trabalho. Alienação é alienação do trabalho, da ação humana de criar valor e transformá-lo em trabalho alienado.

A ideologia capitalista trata de definir a relação entre o trabalhador e o capitalista como uma relação juridicamente privada, de iguais trocando serviços. Um produz o que pode, com os meios fornecidos por quem pode ter acesso a eles. Como se não fosse uma relação que definisse o caráter mesmo de toda a sociedade.

A luta contra a alienação é a luta para revelar e disseminar a consciência do significado dessa relação de expropriação do trabalho pelo capital.

Hoje, essa relação de alienação se expressa também de outra maneira: na tentativa de disseminar a consciência de que a não vacinação não é uma decisão individual, porque ela não tem efeitos apenas no risco da pessoa de ser afetada pelo vírus, mas na consciência de que cada um pode disseminar o vírus para os outros.

Convencer as pessoas a ser vacinarem é não apenas convencê-las a se defender do vírus e dos seus efeitos, mas também convencê-las de que seu comportamento individual tem efeitos – positivos ou negativos – sobre os outros.

Não há democracia sem combate à alienação. As teorias das elites, ao contrário, tratam de que as pessoas não interfiram no destino coletivo senão no momento do voto. Ainda assim, pregam a apatia como se fosse um sintoma de maturidade de uma sociedade e não de despolitização e falta de interesse no destino coletivo.

Quando se discutia a Assembleia Constituinte no Brasil, no momento em que houve uma marcha do MST para Brasília, um parlamentar propôs que se suspendessem os trabalhos da elaboração a nova Constituição, para que as decisões não fossem contaminadas pelas mobilizações populares. Como se eles estivessem decidindo os destinos do Brasil no reino da razão e as mobilizações dos sem terra agissem no plano das emoções, cuja ação perturbaria a racionalidade das decisões jurídicas e políticas sobre as leis.

Se considera que no País Vasco é onde se come melhor na Espanha e, talvez no mundo. Lá tem vigência uma sabedoria popular que diz que as pessoas só devem tomar as decisões importantes na parte da manhã, antes do almoço. O almoço é tão importante que, se a comida cai bem ou cai mal, altera completamente a capacidade de juízo das pessoas.

Da mesma forma, as teorias das elites consideram que a participação direta do povo introduz um elemento de irracionalidade, porque passa a considerar os interesses concretos da maioria da população, perturbando a neutralidade e a impessoalidade, que seriam indispensáveis para uma democracia.

Mas que, conforme os princípios da democracia direta grega, que lutava contra a ignorância, a apatia, a indiferença, tem que ser uma democracia de massas, com formas de participação direta da população nas decisões fundamentais dos governos. Como as extraordinárias experiências do orçamento participativo nos governos de Porto Alegre.

Hoje todos se consideram democratas. Se cometem as maiores arbitrariedades, como o golpe contra a Dilma, em nome da democracia. Mas, ao contrário dessa postura hipócrita, a democracia não se tornou um valor universal. Não importaria o desempenho do governo da Dilma no começo do seu segundo mandato, ela tinha sido reeleita democraticamente pelo voto popular para um segundo mandato e tinha o direito de exercê-lo.

Mas é certo que os referendos revogatórios, realizados na metade do mandato dos governantes eleitos, para que o povo confirme se o mandato está realizando os compromissos para os quais foi eleito, é um elemento indispensável, para que o voto não seja um cheque em branco, mas que exista controle da população sobre os eleitos.

Em suma o conteúdo da democracia não é somente seu conteúdo social e político – quem dirige, em nome de quem, para realizar o quê. É também a relação entre governantes e governados, entre os que ocupam os cargos de governo e os que os elegem. Não apenas como procedimento institucional, mas como relação de poder, para que a política não seja uma profissão exercida por burocratas, diante da passividade e da apatia da massa da população.

O poder popular tem que ser o objetivo da democracia, um processo sempre em construção, mas na direção do qual se tem que avançar continuamente. Senão o poder será sempre uma relação alienada entre os que entregam (alienam) seu poder de decisão nas mãos de representantes dos profissionais da política e não representantes dos interesses da massa da população.

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