Pages

O sol nasce ao Leste do FMI: a Argentina também mira na China e na Rússia

Da Carta Maior, 30 de Janeiro 2022
Por Carlos A. Villalba




Créditos da foto: (Reprodução)


Mostra o homem
como não continuar com o conflito até o seu amargo final.
Mediante uma sábia pausa na metade do caminho,
consegue o homem alcançar a sua tranquilidade, e que tudo acabe bem.
Buscando a adequada ajuda, tudo se realiza.
A pausa com cautela no meio do caminho trouxe fortuna,
não é propício atravessar as grandes águas.
I Ching, hexagrama 6: Sung (O Conflito)

As lendas contam muitas coisas. Na longa lista daqueles que se inspiravam no I Ching (ou “I King”, como preferia Borges), estão o sábio pensador chinês Confúcio, o psicólogo analítico Carl Jung, o beatle John Lennon e o escritor Herman Hesse. Cada um jogou as três varetas, ou as três moedas e, supostamente, com base nas associações que emergiram dos hexagramas, se moveu em determinada direção.

No entanto, há um “prócere”, justamente um chinês, que bebeu da sabedoria do “Livro das Mutações”: Mao Tsé-Tung. Depois de 22 anos de luta, de escalar algumas das mais altas cadeias de montanhas da Terra, navegar rios sem precisar de barcos, atravessar pontes de corda esgarçadas e sob fogo inimigo, atravessar pântanos sem limites, em abril de 1949, o Grande Timoneiro raciocinou a partir do I Ching para chegar à crucial decisão de cruzar ou não o rio Yangtze e retomar a ofensiva contra o regime antipopular de Chiang Kai-shek. No final, ele decidiu que seu Exército Vermelho devia avançar e, apenas cinco meses depois, proclamou a constituição da República Popular da China, em Pequim, arrancando o país da Idade Média rural e lançando as bases da superpotência que seu país se tornou hoje.

Não é fácil imaginar o presidente argentino, Alberto Fernández, seu ministro da Economia, Martín Guzmán, e menos ainda o seu invisível secretário de Assuntos Estratégicos, Gustavo Béliz, apelando aos hexagramas para decidir até onde estender a negociação com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e seus aliados locais, que queriam que o déficit fiscal caísse durante o corrente ano para 1,9% do PIB, objetivo muito mais exigente que os 2,9% que a Argentina finalmente conseguiu estabelecer no acordo – pior ainda, queriam uma meta de 1,4% para o ano eleitoral de 2023, mas terminará sendo de 2,5%.

Esses números, em geral incompreensíveis para quem vai se beneficiar ou ser prejudicado pela equação, são decorrentes da diferença entre a renda e as receitas do Estado, e que na verdade significam as possibilidades de investimento que o governo terá nas diferentes áreas de sua responsabilidade e no aparato produtivo, as possibilidades de redistribuição para o gigantesco setor empobrecido da sociedade e, um detalhe essencial, nas ferramentas com que continuará a enfrentar a pandemia que assola o planeta.

Por trás de toda a numerologia tecnocracia há um objetivo único, simples, monetarista: quanto menor a diferença entre o que um governo investe e o que arrecada, maiores serão os recursos destinados ao pagamento dos juros e do capital da dívida, neste caso, que contratou outro – o ex-presidente neoliberal Mauricio Macri, antecessor de Alberto Fernández. Mais simples: quanto mais fome, mais frio, mais doenças, mais insegurança e mais, e mais… mais dólares serão entregues aos cofres estrangeiros.

Embora o Departamento de Estado e o Comando Sul tentem agir como se Washington fosse a capital do único polo de potência mundial, a realidade é totalmente diferente. O “fim da História” não aconteceu, os Estados Unidos navegam uma crise institucional como nunca antes, a economia chinesa já supera toda a União Europeia e as principais áreas econômicas do planeta se movem dentro de uma realidade “multipolar”, com o surgimento de instituições multilaterais muito mais dinâmicas, flexíveis ou “policêntricas”, que abrem possibilidades de diálogo, acordos e negócios entre países e regiões inteiras, impossíveis mesmo no mundo bipolar que se seguiu aos acordos posteriores à divisão geopolítica do mundo entre os Estados Unidos e a União Soviética, em 1945.

Apesar desse contexto, o FMI negociou o acordo exigindo da Argentina o respeito ao Princípio da Continuidade do Estado, ou seja, os 45 bilhões de dólares que, em 2018, a organização controlada pelos Estados Unidos concedeu a Macri, amigo de seu então presidente, Donald Trump, e que constituem uma dívida do Estado argentino. Independentemente de terem servido para que as corporações que saquearam o país tivessem apoio para a lavagem de capitais que estavam alojados em paraísos fiscais, sem jamais tocar o território argentino ou colaborar com os interesses nacionais – o para financiar a campanha macrista à reeleição –, o fato é que esse crédito terminou demolindo sua imagem como presidente e suas pretensões eleitorais em outubro de 2019.

Tampouco houve, por parte do organismo financeiro, o bom senso que permitisse conceder o direito recíproco de enfrentar a negociação contemplando as violações de seus próprios estatutos internos, apesar de, em seu relatório poético de 22 de dezembro passado, constar a pergunta sobre se foram seguidos corretamente os próprios procedimentos para a aceitação do plano macristas, considerado “frágil desde o início”. Tais erros foram aceitos, apenas com a ressalva de que, de agora em diante, serão revistas “as excecionalidades que são aceitas para a concessão de certos volumes de crédito”, como foi o caso argentino. Esses argumentos, no entanto, não ajudam na hora de negociar valores – ainda mais quando se trata de diminui-los. Mal foram suficientes para adiar as absurdas e imediatas prestações do empréstimo que a aliança macrista recebeu de braços abertos e irresponsavelmente.

O Oriente também existe

A partir de 1945, a Argentina iniciou uma trajetória de relações internacionais interessada em se articular com diferentes realidades políticas e econômicas, a partir da unidade do maior número de países da região e independentemente dos critérios do poder hemisférico, que sempre concebeu a América Latina e o Caribe como seu “quintal”.

Durante a década entre 1945 e 1955, o general Juan Domingo Perón levantou as “bandeiras” da soberania nacional e da independência econômica, rejeitou os acordos que levaram à constituição do FMI – foi preciso um golpe de Estado e um regime ditatorial de uma década, para empurrar o país para aquela armadilha econômica e financeira –, negociou com a esquerda e a direita do espectro político internacional e enfatizou a necessidade da geração de um espaço autônomo que, ao longo das décadas, foi chamado de Terceira Posição, Terceiro Mundo, Países Não Alinhados.

Em um cenário de visões compartilhadas com a Iugoslávia do marechal Josip Broz Tito, a Índia de Jawaharlal Nerhu, ou o Egito do “último faraó”, Gamal Abdel Nasser, o grande caudilho argentino, três vezes presidente do seu país, seguiu Mao e sua China com interesse, desde que aquela revolução deu os seus primeiros passos.

Essa marca de “Pátria Grande” e negociações radiais com diferentes áreas do poder econômico e político marcam o estilo de governos que tentam restituir a importância do Estado sobre o mercado, em sociedades onde a desigualdade e o empobrecimento são crescentes. O atual embaixador argentino na Rússia, Eduardo Zuain, expressou isso claramente: “Temos uma política externa autônoma e independente, que reconhece que existe um mundo multipolar, e a Argentina deve ter relações com todos os polos de poder que estão no mundo hoje”.

A volta da Argentina às garras do FMI, graças ao neoliberalismo de Mauricio Macri, tinha como objetivo garantir os negócios dos grupos econômicos que controlam o país e tentam permanecer no governo por mais quatro anos. Não só foram destruídas as possibilidades de crescer com a produção, mas também se dinamitou o caminho de um projeto de futuro que se mede em décadas. Em meio a esta verdadeira peste, se instalou o morango venenoso da pandemia mais criminosa da era moderna, no mundo inteiro.

Outros mundos

Nem tudo que reluz é ocidental no horizonte das possibilidades do terceiro milênio, nem a negociação com o FMI administrado pelos Estados Unidos é a única estação no caminho do crescimento com produção e inclusão social.

A globalização conecta todos com todos, e em todas as direções, o que enfraquece as cordas de qualquer marionetista e fortalece as possibilidades de negociação das diferentes periferias, negociações complementares e aumento da agregação de valor aos produtos locais.

Desde o início deste século, a América Latina, seus bens comuns, o mercado que constitui como um todo e a posição geográfica que ocupa no mapa, instalaram a região como ator de consideração pelas potências emergentes. A visão daqueles que governaram seus principais países fortaleceu essas condições.

No rearranjo desses laços, a Rússia, por exemplo, iniciou o século afirmando seu interesse em manter uma “relação mutuamente benéfica” com a região. Avançou uma "cooperação estratégica multidimensional de longo prazo", forjou laços “estratégicos” com o Brasil e desenvolveu sua cooperação econômica com Venezuela, Cuba, Argentina, Nicarágua e México. Reclinado neste novo espaço, o país trabalhou pela “construção de uma ordem internacional mais igualitária e democrática”.

A China, por sua vez, apresentou seu Livro Branco sobre a América Latina e o Caribe em 2008, no qual delineou sua visão sobre como fortalecer as relações e intercâmbios entre as duas regiões, em áreas que vão da política e economia à cultura, educação, paz e justiça. Cinco anos depois, durante o “Fórum do Cinturão e da Nova Rota da Seda”, o presidente Xi Jinping anunciou formalmente o projeto, que inicialmente se vinculou à Europa Ocidental, envolvendo 60 países, os quais detêm 75% das reservas energéticas conhecidas e 70% da população mundial.

Esta nova “Rota da Seda” constitui uma iniciativa de desenvolvimento de infraestrutura e conectividade que gera automaticamente relações comerciais e políticas, no caminho do país rumo à sua hegemonia no cenário internacional. Em menos de uma década, foram necessários investimentos de mais de 50 bilhões de dólares, destinados à construção de ferrovias, rodovias e portos.

Investimento, esse é o ponto onde radica a diferença entre as duas novas potências, certamente determinado pelo volume de cada uma de suas economias. A China compete de igual para igual em tamanho do PIB com os Estados Unidos, e essa posição depende de como é medida. Atualmente, o gigante asiático é o principal exportador mundial, com cerca de 13% do total. As sedes de 12 das 100 empresas mais valorizadas do mundo estão em seu território, com um plano de desenvolvimento para 2025 que visa criar empresas líderes globais em setores de alto valor agregado, como transporte aéreo, energia ou tecnologia.

Por se ainda era necessário mostrar ao mundo sua vocação para a liderança global, Xi Jinping anunciou, em 2017, que “todos os países, sejam da Ásia, Europa, África ou Américas, podem ser parceiros internacionais para cooperação na Iniciativa do Cinturão e a Nova Rota da Seda”. Ele não estava dizendo que pretendia substituir um aliado por outro, baseado em um modelo de relacionamento assimétrico, às vezes invasivo e até invasor, como tem sido a tradição de Washington, seus fuzileiros navais e suas organizações de crédito.

Xi explicou que seu país aspira a liderar uma nova forma de relacionamento político-econômico, baseado em seus “Cinco Princípios de Convivência Pacífica”: respeito mútuo pela soberania e integridade territorial, acordo de não agressão, não intervenção em assuntos internos, igualdade e benefícios compartilhados, convivência pacífica. Macri foi um dos que foi a Pequim ouvir o presidente chinês declarar que a América Latina constitui uma “extensão natural da Rota da Seda Marítima do Século XXI”.

O velho mundo

Uma semana depois de estar em Buenos Aires e Montevidéu em abril de 2019, o então chefe do Comando Sul, almirante Craig Faller, disse à Câmara dos Deputados estadunidense que a China constituía “a ameaça estratégica número um aos interesses dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe neste Século XXI”, juntamente com as “organizações criminosas transnacionais”

Poucos dias depois, quem foi a Buenos Aires para martelar o discurso sobre “o perigo chinês” foi o enviado especial de Joe Biden, Juan González, que buscava se associar ao projeto que a Argentina planeja e incluir no orçamento de 2022: a instalação de um polo logístico em Ushuaia, capital do província de Terra do Fogo, com o objetivo de interligar suas 13 bases permanentes na Antártida e abastecer navios de diversos países que vão à Antártica e apoiar grupos científicos em projetos de pesquisa.

Nada do que acontece na vizinhança polar e em uma das passagens interoceânicas do planeta está fora da perspectiva geopolítica. O esforço nacional também visa mostrar uma forte presença na região, com vistas ao futuro imediato, para manter posições diante da pressão britânica e norte-americana no debate sobre o Tratado da Antártida e os avanços ilegítimos que são tentados a partir das Ilhas Malvinas e de Punta Arenas (Chile).

O polo logístico em si não constitui uma base militar ofensiva e, além das fontes de financiamento a que o país tem acesso, o presidente Fernández garantiu ao enviado de Washington que “não haverá bases estrangeiras na Argentina”, frase que pretende afugentar o fantasma asiático, mas também fala os possíveis interesses estadunidenses destinados a instalar uma “base conjunta” no local, o que lhe permitiria controlar o tráfego de mega contêineres pela Passagem de Drake, uma alternativa ao Canal do Panamá.

Um mundo… possível

Os esforços de Mauricio Macri para se tornar um gendarme sub-regional de Washington seguiram o roteiro compartilhado pelas três grandes instituições estadunidenses que definem a linha a seguir na região: o Departamento de Estado, o Comando Sul do Exército e a Comunidade de Inteligência. Em troca, o país recebeu 44 bilhões de dólares – de um total acordado de 57 bilhões. Mas a principal solução para sair do poço onde o país se encontra é aquela que está sendo negociada com o FMI.

Os esforços de Alberto Fernández para governar o desastre deixado por Macri e, ao mesmo tempo, tentar salvar o maior número de vidas em meio à crise sanitária global provocada pelo coronavírus – que produziu mais de 375 milhões de contágios e cerca de 5,7 milhões de mortes no mundo, até este final de janeiro de 2022 –, acompanharam as negociações que levariam a esse “deserto prometido” que o governo argentino esperou por 24 meses, inclusive adiando muitas decisões, sem encontrar a épica em sua luta com Golias, sem valer-se da força da participação popular e, como sempre, se comunicando da pior maneira possível.

Libertada, pelo menos em parte, do peso de mais um daqueles ajustes tradicionais exigidos pelo FMI – que deixam terríveis e visíveis consequências em cada lugar em que são aplicados, como as desvalorizações dramáticas impostas em Angola, Egito, Gana, Malawi ou Paquistão, para citar apenas as suas cinco últimas “vítimas” –, a Casa Rosada pode celebrar o respeito pelo princípio da soberania e independência, já que impediu, por enquanto, o envolvimento dos técnicos do organismo internacional em temas relacionados à previdência social, políticas sociais ou leis trabalhistas.

A cereja do bolo desse esquema foi ter vencido a queda de braço contra os burocratas de Washington, sempre intransigentes, apesar de serem corresponsáveis %u20B%u20Bpelo desastre de macrista. Além disso, o governo de Fernández conseguiu que o Estado investisse mais do que o desejado pelo mercado e as corporações que o regem.

Do outro lado do mapa, também existem alternativas. Não é necessário ser um especialista em I Ching ou atravessar o Yangtze para entender que “buscando a ajuda certa, tudo se pode realizar”, que as portas não se abrem apenas com as chaves dos bancos, que a planificação estratégica dos objetivos a serem alcançados é uma ferramenta essencial para alcançá-los, e que as multidões mobilizadas devem cercar o que se projeta em cada uma das mesas de gestão. Tudo isso também ajuda a pousar em aeroportos como os de Pequim e Moscou.

Carlos A. Villalba é jornalista argentino, membro da Usina do Pensamento Nacional e Popular da Argentina e investigador associado al Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli

Nenhum comentário:

Postar um comentário