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O dramático esvaziamento dos grandes reservatórios brasileiros

Análise oportuna mostra que passou da hora de submeter os recursos hídricos do país a um rigoroso planejamento. Sob risco de a atual seca – o maior desequilíbrio em muitos anos – causar sério retrocesso em toda a vida nacional




De OUTRASAÚDE, 13 de Janeiro 2022
Por Flávio Dieguez


A revista Nature publicou no final de ano um alerta sério sobre a atual seca brasileira – a pior em muitas décadas, diz o artigo, em uma nação que produz mais de um terço da safra mundial de açúcar e quase 15% da carne bovina do mundo. O Brasil é o maior reservatório de água doce do planeta: “dois terços da que flui no rio Amazonas bastariam para suprir a demanda mundial”.

No entanto, grande parte do território nacional agora enfrenta a seca, asseveram os autores da advertência. Em 2021, entre março e maio, o clima seco na região centro-sul do país resultou em um déficit de 267 km3 (267 trilhões de litros) na água retida em rios, lagos, solo e aquíferos, em comparação com a média sazonal dos últimos 20 anos.

Esse desequilíbrio aparece no quadro abaixo (“O Brasil esturricado”) onde os pontos verdes são as grandes represas das hidrelétricas, e as partes mais azuis representam locais mais úmidos do que os valores históricos e as vermelhas, as áreas mais ressecadas do que o padrão usual. As regiões centrais do país, sedentas, foram fortemente ocupadas pelo plantio, historicamente. Esse dado é crucial, diz o artigo. “Em uma nação que depende da agricultura na medida de quase um quarto de seu PIB, culturas como soja, café e cana-de-açúcar e gado usam grande parte da água”.



Cerca de 13% da terra cultivada depende de irrigação, respondendo por 68% do consumo total de água – cerca de 68,4 bilhões de litros por dia. Nessas condições, é notável que durante décadas o governo tenha evitado reconhecer a seca como uma questão de segurança nacional e internacional. “A crise hídrica do Brasil é uma crise mundial”, assinala o artigo, afirmando que o país precisa de um plano nacional de mitigação da seca.

Administrar as crises hídricas requer relacionar as condições meteorológicas, hidrológicas, agrícolas e socioeconomicas. As secas de origem agrícola, associadas a declínio de umidade do solo, podem intensificar as secas hidrológicas, afetando lagos, rios e aquíferos rasos. A bacia do Rio Paraná tem papel importante por estar no centro da agropecuária brasileira. E nessa bacia estão instalados dois quintos da capacidade hidrelétrica brasileira, a segunda maior do mundo.

Não por acaso, as vazões dos rios da bacia do Paraná caíram para seus níveis mais baixos em 91 anos, esvaziando os grandes reservatórios hídricos nacionais – como se vê, com espanto, no gráfico a seguir (“Abaixo da marca d’água”) mostrando que o armazenamento de água está no negativo desde 2014. E nem se pense que é boa notícia a umidade extra de alguns locais da floresta amazônica, registrada no quadro acima.



Há motivo para crer que a imensa floresta tropical, habitat de 16.000 espécies de árvores, está a caminho de um ponto de inflexão, como analisa outro artigo na Nature, e poderá se tornar crescentemente mais seca. Ao longo do século passado, de fato, a temperatura média na floresta aumentou de 1 a 1,5 °C. E em algumas partes, a estação seca se expandiu nos últimos 50 anos, de quatro meses para quase cinco. Secas severas atingiram a região três vezes desde 2005. Passsou da hora de aplicar um rigoroso planejamento dos recursos hídricos brasileiros.


FLÁVIO DIEGUEZ
Jornalista, atuou na imprensa de resistência à ditadura (Movimento e Retrato do Brasil), editou Ciência Ilustrada, ajudou a criar a Superinteressante e participou da aventura de tentar erguer a Radiobrás, entre 2002 e 2005. É editor do site Outra Saúde.

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