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Na mirra trazida pelos Magos se encontram amor e morte

Do IHU, 07 Janeiro 2022
Por Bruno Giurato


"É um aspecto heterodoxo que a tradição ocidental sempre enfatizou pouco ou nada, quase certamente para se distanciar do paganismo. Mas é um aspecto presente: a figura de Cristo é primeiramente a figura de um exorcista e taumaturgo, que cura os corpos, perdoa pecados, livra de possessões, obsessões, subjugações", escreve Bruno Giurato, em artigo publicado por Domani, 06-01-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

De forma diferente da árvore de Natal, que é um ícone, o presépio é uma obra de arte narrativa e “performativa”. Não é por acaso que nasceu por obra de Francisco de Assis como um presépio vivo, com pessoas reais que o colocaram em cena. Sua qualidade móvel, iridescente, narrativa mais que icônica, se reflete também nos gestos de quem hoje "monta" o presépio: a criança é colocada na manjedoura no dia 25 de dezembro, o riacho deve estar presente, deve realmente escorrer, com água verdadeira (na San Gregorio Armeno, rua napolitana conhecida pelos presépios, como na Amazon vendem o kit-rio com a bomba), o musgo era buscado em algum muro da infância; nós, os sulistas, quando crianças, sempre recebíamos uma recomendação. Quem montava o presépio tinha que saber contar uma história para cada personagem: “Este é o Benino e ele dorme, é o pastor que não queria trabalhar, toca flauta e dorme, e enquanto dorme sonha com o presépio, sonha consigo mesmo, e todos os outros: pastores, boi, burrico, Jesus, José, Maria, Magos. Se você o acordar, o presépio desaparece".

A epifania não é um estado de coisas, é um evento. A origem da palavra (grego: epi-faino) indica a repetição de uma manifestação. A manifestação se repete não de maneira idêntica - seria simples compulsão - mas de maneira diferente a cada vez, dependendo da época e da pessoa ou grupo de pessoas que a encenam. O sagrado é uma questão de aparições rítmicas.

Quanto mais os gestos e os símbolos são obscuros, ambíguos, pouco investigados, suscetíveis ao desaparecimento, mais poderosos eles são, porque por sua vez são suscetíveis, para expressá-lo com empatia, de maravilha.

Símbolo complexo

O símbolo mais obscuro e menos compreensível da Epifania é a mirra.

A história do Evangelho (Mateus) nos fala sobre um número não especificado de Magos. Que não eram reis, como afirmava o venerável Beda, séculos depois, mas eram astrônomos-astrólogos, xamãs: sábios segundo o antigo modelo. Seus nomes vêm do protoevangelho armênio da infância de Jesus: Gaspar, Melchior, Baltazar. Este último é tradicionalmente representado com pele escura, portanto de origem africana, e temos representações figurativas suntuosas dele em Jan Gossaert, em Albrecht Dürer, em Hieronymus Bosch, em Pieter Bruegel o velho, e muitos outros.

O Evangelho de Mateus fala de três dons: ouro, incenso e mirra. Esta última teria sido oferecida pelo "mago negro". O ouro seria o símbolo da realeza, o incenso da divindade, a mirra da morte.

O que está fazendo um símbolo de morte na história e na iconografia da manifestação de um menino divino é o lado mais complexo do símbolo.

A Commiphora myrrha é uma árvore espinhosa e de aparência intimidante. É nativa da Península Arábica (Omã, Iêmen) e da África (Djibouti, Etiópia, Somália, nordeste do Quênia). No final da estação das chuvas, é coletada a resina que sai do tronco, de forma natural ou por meio de cortes feitos na casca. A mirra é um perfume muito característico, é um bom fixador para outros perfumes; tendo propriedades desinfetantes e cicatrizantes, era usado por egípcios e judeus para os procedimentos de embalsamamento. A raiz hebraica da palavra é “m-r-r”, portanto “mor”, aquela aramaica “mur”, aquela árabe “mor”. O significado permanece mais ou menos o "muito amargo". Os filólogos poderiam explicar a proximidade com o termo hebraico "myr", morte: a assonância também é evidente em grego, latim e na nossa língua.

De acordo com a narrativa do Evangelho (Marcos), um cálice contendo vinho e mirra havia sido oferecido a Jesus durante a crucificação (a mirra também tem propriedades analgésicas), mas Cristo o recusou.

Segundo a tradição católica e ortodoxa, Maria de Nazaré, Maria Madalena e Maria de Cleofas estavam levando mirra para a cura ritual do cadáver de Cristo. Mas encontraram o túmulo vazio.

A mitologia


A mirra aparece frequentemente associada com a morte, mesmo em tradições anteriores e colaterais. Nas Metamorfoses, Ovídio conta a história do jovem guerreiro e semideus Átis, dos cabelos impregnados de mirra, que acaba morto por Perseu em uma poça de sangue, com seu amante Licabas.

O mito grego de Mirra é uma parábola extremamente simbólica de amor, morte, renascimento ambíguo.

Mirra, filha do rei de Chipre Cíniras, está apaixonada pelo pai por causa de uma maldição de Afrodite. Uma das muitas maldições de Afrodite. Ela consegue, graças à ajuda da ama Hipólita e com a ajuda das trevas, passar doze noites com ele. Até que Cíniras percebe e persegue-a com a espada para matá-la. Afrodite, compadecida, a transforma na árvore da mirra, cuja resina seriam as lágrimas amargas derramadas pela jovem. Após nove meses, a planta se rompe, Adônis sai e é confiado, durante um terço do ano, a Perséfone, esposa de Hades, deus do submundo.

A leitura que Vittorio Alfieri faz do mito da Mirra, por outro lado, já é totalmente moderna, quase protofreudiana. Mirra está apaixonada pelo pai, mas não consome o incesto, acaba se matando por vergonha de seus próprios sentimentos: um sacrifício diante do tabu.

Voltando à epifania: a oferenda da mirra seria uma prefiguração da paixão e morte de Cristo. Mas é uma leitura que deveria ser revista com base na ideia de Santo Agostinho da triplicidade do homem. Segundo o bispo de Hipona, o ser humano é composto por espírito, alma e corpo. O espírito é intelecto em um sentido pré-racionalista, é um com o divino, se revela somente na oração, é eterno e incorruptível. Ouro. A alma são os movimentos emocionais "sutis", difíceis de decifrar. Incenso. O corpo é a materialidade, a mortalidade, a fadiga. Mirra.

A dimensão erótica


Mas há um aspecto inusitado que faz a diferença. A mirra é mencionada várias vezes no Cântico dos Cânticos, o livro mais erótico do Antigo Testamento. Obviamente, estamos em uma fase muito anterior à contraposição "espírito versus matéria" da forma como a modernidade a entende: o carnal nunca é apenas carnal, é também indicação sapiencial direta, voltada para o eterno. Assim reza o Cântico: “O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios” (1, 13); "O seu rosto é bonito como um jardim de plantas perfumosas. Os seus lábios são como lírios que deixam cair pingos de mirra" (5, 13); “Levantei-me para abrir-lhe a porta; minhas mãos destilavam mirra, meus dedos vertiam mirra, na maçaneta da tranca” (5, 5).

De fato existe, mais no Oriente do que no Ocidente, uma linha de tradição e interpretação que atribui à mirra um valor como símbolo sapiencial e taumatúrgico. Para as comunidades cristãs do Oriente, a mirra foi e é um atributo de Cristo como Sábio médico. Entre outros, o atestam o Livro da Caverna dos Tesouros, e conta-o no Milhão Marco Polo que, em suas viagens à China, coletou várias tradições cristãs orientais.

É um aspecto heterodoxo que a tradição ocidental sempre enfatizou pouco ou nada, quase certamente para se distanciar do paganismo. Mas é um aspecto presente: a figura de Cristo é primeiramente a figura de um exorcista e taumaturgo, que cura os corpos, perdoa pecados, livra de possessões, obsessões, subjugações.

E como podemos ver, na narração da Epifania os símbolos, em particular os menos relembrados, manifestam oscilações imprevisíveis. Eles são, de fato, recipientes de narrativas distintas, não estereotipadas, não redutíveis a fórmulas. Não são estados de coisas, são eventos. E, também, recipientes de maravilhas.

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