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Individualismo global e interesses econômicos dificultam luta contra mudanças climáticas

Carlos Bocuhy aponta que países não estão educando novas gerações do ponto de vista ambiental nem incentivando a solidariedade, prejudicando países mais pobres


Do RBA, 1 de Janeiro 2022
Por Carlos Bocuhy


Roberto Parizotti

Em seu texto, Bocuhy relata como os efeitos do colonialismo ainda afetam o Brasil no combate à devastação ambiental, por exemplo, na Amazônia

São Paulo – O negacionismo orientado por interesses econômicos, a desinformação e o egoísmo global são fatores que prejudicam o combate às mudanças climáticas, criando um cenário de injustiça ambiental que prejudica sobretudo os países subdesenvolvidos. Apesar de as populações ao redor do mundo terem adquirido, de uma forma geral, uma maior consciência em relação à preservação do meio ambiente nos últimos anos, o individualismo ainda se sobressai ao interesse público e à necessidade de se criar uma sociedade sustentável. A análise é do presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), Carlos Bocuhy.

Em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual, o especialista alerta que os países não estão educando as novas gerações para uma prática mais solidária. Pelo contrário, a diplomacia global e as práticas comportamentais individuais mergulham ainda mais em uma realidade baseada no egoísmo. Segundo ele, um dos exemplos dessa distorção se dá quando se observa que países ricos têm sua economia baseada na poluição atmosférica, enquanto são as nações mais pobres que sofrem as duras consequências dos impactos desse modo de produção.

“Vamos pegar o exemplo de Tuvalu, um país pequeno que está desaparecendo por conta das águas. Próximas a ele estão as Ilhas Fiji. Essa população não tem capacidade de sobreviver em outro lugar, porque ela não tem recursos e países vizinhos também não possuem recursos para recebê-los. Portanto, há uma injustiça ambiental. Enquanto os grandes países provocam poluição, eles também se recusam a ajudar os subdesenvolvidos atingidos pelo problema. Se você bate no carro de outra pessoa, você paga o dano. E isso deveria se aplicar também às mudanças climáticas”, explica Bocuhy.

O ambientalista afirma que os países do chamado G20 são responsáveis pela quase totalidade das emissões de gases de efeito estufa. Recentemente, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Bocuhy aponta que tais países seguem envoltos “nos efeitos embriagantes do consumo exacerbado destinado a poucos e por pouco tempo, ignorando um enorme metabolismo humano que caminha para a insegurança hídrica e alimentar”.

Brasil-colônia e mudanças climáticas

Em seu texto, Bocuhy relata ainda como a história do colonialismo ainda afeta o Brasil no combate à devastação ambiental, por exemplo, na Amazônia. Segundo ele, a proclamação da República, que foi “amena”, não rompeu laços com as elites econômicas de raízes colonialistas. A partir disso, é possível perceber essas laços por meio da composição do Legislativo federal, com a chamada “Bancada do Agronegócio”, que não abre mão de seus poderes e privilégios.

“O Brasil tem elementos piorados desse egoísmo, porque somos oriundos de um modelo de colonização que não foi rompido. Nosso país não buscou uma independência a partir de uma luta popular, um rompimento com as raízes do colonialismo, foi algo mais consensual na própria coroa. Foi tudo pacificado. O Brasil tem em suas raízes uma grande injustiça social que reflete nos dias de hoje. O Bolsonaro é a maior representação disso, principalmente quando fala sobre a Amazônia e defende a devastação dela”, afirmou o presidente do Proam.

O especialista afirma ainda que há um grupo de pessoas que têm consciência dos problemas das mudanças climáticas que serão enfrentados pelo planeta, mas mesmo assim negam os riscos pois não querem abrir mão do estilo de vida. “É sabido que as grandes empresas de petróleo fizeram lobby para estimular o negacionismo, ou seja, há a proteção de interesses econômicos, despreparo da sociedade e o individualismo. A humanidade ainda abriga setores que possuem um pensamento que não leva em conta o interesse público, apenas o pessoal”, lamentou.

Na avaliação dele, o processo educativo a longo prazo é o único método de transformar as atitudes individuais em coletivas. “Essa transformação passa pela área individual, através da simplicidade individual, e também das políticas sociais. Para buscar essa mudança, as pessoas precisam ter informação e um alto nível de conforto. A grande maioria da população precisa perceber essa necessidade e mudar seus hábitos. O que precisamos é provocar essa condição de conhecimento para dar esse salto de comportamento para a sustentabilidade”, acrescentou.

Confira a entrevista


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