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Ecologia. O que diz a ciência

Do IHU, 06 Janeiro 2022
Por Angelo Tartaglia



"Uma vez que os pressupostos das relações entre os seres humanos mudaram, somente depois de ter aceitado a fraternidade universal não apenas em sentido retórico, pode-se pensar em abordar pragmaticamente as emergências globais atuais ou futuras. Se os alicerces forem corretos e nos colocarmos humildemente diante do jardim que nos foi confiado, a ciência pode nos ajudar", escreve Angelo Tartaglia, que foi professor de Física na Faculdade de Engenharia da Politécnica de Torino e é membro do Instituto Nacional de Astrofísica, em artigo publicado por Archivio Teologico Torinese, Nº 2, de 2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Premissa

A relação entre humanidade e natureza sempre foi central na história de nossa espécie e esteve sempre entrelaçada ao tema do divino. Em
tempos mais remotos ou no que resta hoje de populações "primitivas", a própria natureza é divinizada: eventos naturais anômalos são lidos como castigos infligidos por divindades iradas que será preciso tentar apaziguar com ritos apropriados. Na tradição bíblica e depois cristã, a
natureza coincide com a criação, e é o próprio Criador quem envia os flagelos naturais para admoestar os seres humanos e punir seus pecados. Para acabar com esses eventos extremos, como são chamados hoje, era necessário se arrepender e fazer reparações.

A forma tinha mudado, mas em última análise a orientação era a mesma da antiguidade e de outras culturas: a causa dos vários desastres naturais é sim o ser humano, mas como pecador, não pela forma como ele cultiva o solo, usa as águas ou produz as mercadorias que depois comercializa. Em suma, a responsabilidade é moral, não material. A situação começou a mudar com o início da "revolução científica" no Ocidente. No entanto, convém sublinhar que mesmo a nova forma de ver os fenômenos da natureza foi acompanhada por uma dimensão que poderíamos definir “ideológica”.

De fato, as estruturas sociais desde sempre foram “justificadas” por meio de uma narrativa que afirmava sua legitimidade a posteriori, geralmente revestida de uma aura de sacralidade. Com o declínio e depois a queda (em 1700) do Ancien Régime, surge uma nova ordenação social que se apresenta como artífice e expressão do "progresso": na narração dessa nova ordem, a ciência moderna assume um papel relevante. E a natureza? De ente divina, é transformada em objeto de (legítimo) domínio.

No plano religioso, o fundamento é buscado diretamente na Bíblia, Gênesis 1,28: “[...] e Deus lhes disse [...] Frutificai e multiplicai-vos; e enchei a terra, sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar e as aves dos céus e sobre todo o animal que se move sobre a terra”. Do lado secular, a "natureza" é tratada como um depósito (infinito) de "recursos naturais" que o ser humano, graças à ciência (e à técnica), explora para convertê-los em "riqueza", isto é, progresso.

As novas hierarquias sociais são definidas a partir da riqueza produzida pela manipulação dos recursos naturais destinados ao comércio, bem como (hoje cada vez mais) ao jogo financeiro. Em suma, a ideia é, em todo caso, que o ser humano é senhor e dono da natureza; não existem limites "naturais" para sua vontade. Do ponto de vista social, a nova ideologia converte, como acontecia no passado, uma situação de fato em uma situação de direito, aliás, de princípio. O egoísmo individual, de conotação enraizada empiricamente no ser humano, transforma-se em princípio fundador e motor do progresso.

As convenções que, com base no "egoísmo sagrado" [1] presidem às trocas de bens e serviços pretendem elevar-se a leis da natureza, bem mais robustas que aquelas que a ciência vai descobrindo, assumindo também que esta última, num sentido mágico, permitirá ultrapassar qualquer vínculo material. Não tendo tudo isso bases racionais particularmente sólidos, remedia-se apresentando este esquema como "óbvio" e "indiscutível". A economia de mercado baseada no exercício do egoísmo individual é praticamente sacralizada, suas convenções compartilhadas ou forçadas têm valor de dogmas e de fato o Mercado é divinizado, a ponto de afirmar que sua "mão invisível" proverá a resolver os problemas sociais e as injustiças, bem como os conflitos com o meio ambiente.

Com o peso crescente do mundo das finanças estamos inclusive perante “os Mercados”, que ecoam os Eloim bíblicos, levando o exercício do egoísmo individual a uma dimensão transcendente (o que “os Mercados” valorizam transcende justamente a dimensão material). Tudo isso vale para o lado anti ou simplesmente a-religioso, mas, como já aconteceu em séculos anteriores, também o Cristianismo histórico, dentro da nova ordem social, segue por caminhos paralelos especialmente no que diz respeito àqueles que derivam dessa ordem as maiores vantagens: o cristão que decide se dedicar a atividades empresariais o faz aplicando as regras da economia (esta economia) com o objetivo de enriquecer (é o egoísmo que impulsiona o progresso); uma vez rico, no entanto, ele terá que destinar a riqueza assim acumulada para o bem, com obras de caridade e esmolas.

Não é o caminho de São Francisco, mas provavelmente é o de Pietro di Bernardone, seu pai. Considerei útil começar com essas poucas reflexões gerais, uma vez que a crise atual decorrente do conflito humanidade/natureza se desenvolve contra esse pano de fundo e não pode ser enfrentada sem também reconsiderar as relações internas às sociedades humanas.

Natureza e complexidade

A ciência moderna procurou reconsiderar a maneira como olhamos ao nosso redor e interpretamos os fenômenos naturais. No início, os campos de reflexão foram, por um lado, em grande escala (os corpos celestes e suas dinâmicas), pelo outro, em escala elementar ao nosso redor: as leis do movimento e a relativa dinâmica. A abordagem foi por muito tempo a de isolar um fenômeno particular, observá-lo e tentar interpretar racionalmente o que acontece a fim de derivar alguma lei válida até prova contrária, isto é, até que um novo fenômeno a desminta, implicando em seu abandono ou na transformação em uma forma mais evoluída. O campo de observação se expandiu e se estendeu, dando vida àquelas que hoje são ciências clássicas, como a química, a biologia e muitas outras.

Prosseguindo, a ciência percebeu que, ao lidar com sistemas compostos por um grande número de componentes, a simples aplicação das leis que regem o comportamento das partes separadamente não é suficiente para explicar e descrever o comportamento do todo. Em suma, podemos dizer que sistemas formados por muitas partes em interação são algo mais do que sistemas complicados, no sentido coloquial do termo: hoje os chamamos de sistemas complexos e aos poucos foi se desenvolvendo um ramo científico especializado que os estuda.

Além da termodinâmica, as novas disciplinas, principalmente a partir da década de 1970, são representadas por teorias de nomes sugestivos, como "teoria do caos determinista" ou "teoria das catástrofes". O maior problema é que esses sistemas complexos, em seu comportamento, não se conformam à nossa intuição comum, que, em vez disso, tende a considerar implicitamente apenas a lógica de causa/efeito imediata e local. Nossa intuição elementar nos sugere que se, por exemplo, houver uma cadeira à nossa frente e aplicarmos sobre ela uma força adequada (por exemplo, um empurrão), ela cai; o resto do universo circundante permanece, impassível, apenas olhando. Mas vamos imaginar que estamos no palco de um teatro e que a cadeira esteja amarrada por uma miríade de fios (quase invisíveis) a tudo que está no palco: quando empurramos a cadeira talvez ela não caia, mas em compensação algo se move atrás de nós, no fundo ou na mesinha lateral ou tudo isso junto; talvez a cortina caia de repente.

Se colocarmos tudo isso em termos éticos, em um sistema complexo a nossa responsabilidade não se estende apenas às consequências imediatas, diretas e locais das nossas ações, mas também àquelas induzidas e remotas. Este é precisamente o cerne da questão: a natureza é um sistema complexo do qual nós fazemos parte. Este sistema praticamente não troca matéria com o exterior, mas não é isolado: a radiação solar chega até ele e o permeia e ele reemite para o espaço externo a energia que recebe. O que é relevante, entretanto, é que se trata de um sistema complexo composto por um número muito grande de componentes que interagem entre si e que nada, dentro dele, é realmente irrelevante; muito menos os comportamentos humanos.

Podemos acrescentar que este "sistema complexo" não é estático, mas dinâmico: ele evolui ao longo do tempo e pode ser imaginado como um conjunto de quase equilíbrios dinâmicos locais que se sustentam ou se perturbam ao longo do tempo. Uma imagem super simplificada pode ser aquela de um ciclista que mantém o equilíbrio enquanto pedala, mesmo que sua posição mude continuamente, embora dentro de certos limites. A configuração geral do sistema depende de uma série de parâmetros físicos e a interação contínua dos subconjuntos entre eles governa sua evolução. Em condições que poderíamos definir como “normais”, modificar localmente o valor desse ou daquele parâmetro produz efeitos que são também locais e aproximadamente proporcionais à extensão da mudança introduzida; não que não haja repercussões remotas e diferidas, mas são efeitos fracos que não despertam preocupações especiais.

O problema, nos sistemas complexos, no entanto, é que existem particulares configurações "críticas", ou seja, conjuntos particulares de valores dos parâmetros aos quais podemos nos aproximar lentamente, mas que, quando alcançados, podem dar origem a consequências absolutamente fora de escala em relação às nossas expectativas: mesmo uma perturbação muito modesta produz o que se chama de colapso. Esse conjunto de quase equilíbrios dinâmicos que formam o sistema global torna-se cada vez mais instável até que, tendo atingido o ponto crítico, todo o sistema "de repente" (isto é, em um tempo muito curto) se reorganiza em uma nova configuração de equilíbrio estável que pode ser muito diferente da anterior.

Mais do que as palavras (e nos mantendo a devida distância das fórmulas), alguns exemplos podem nos ajudar a entender o mecanismo. Vamos pensar em uma encosta de montanha. Está nevando e a neve se deposita gradualmente. Se tentarmos caminhar sobre ela, as nossas botas deixam pegadas e produzem pequenos movimentos locais na superfície. Se continuar nevando, o manto branco engrossa aos poucos e as pegadas que deixamos tornam-se mais profundas, mas no longo prazo, em relação à natureza da encosta, a carga geral de neve se aproxima de uma condição crítica: naquele ponto, até mesmo uma perturbação muito modesta, como a passagem de um montanhista ou talvez de uma cabra-montanhesa ou outro animal, desencadeia um processo muito rápido que faz com que toda a neve acumulada até aquele momento se precipite ruinosamente vale abaixo. É a avalanche, um colapso típico.

Outro exemplo é o desgaste progressivo de estruturas expostas a carga, como pontes ou viadutos (ou construções em geral). Também nesse caso, os noticiários nos fornecem exemplos dramáticos: o desabamento da ponte Morandi ou do viaduto de Albiano Magra. O desgaste das estruturas vai ocorrendo progressivamente por um tempo mais curto ou mais longo, mas depois o colapso é repentino. Entre os sistemas complexos com os quais estamos lidando está o que chamamos de clima: é o conjunto de todos os fenômenos ligados à circulação da atmosfera e das águas, bem como das relativas mudanças de estado da água (evaporação-condensação-solidificação com seu regime de precipitações).

Os fatores que contribuem para determinar a configuração climática global são numerosos e envolvem a composição da atmosfera, a conformação dos continentes e dos relevos, a natureza dos solos, a cobertura vegetal, a salinidade das águas oceânicas e muito mais. Ora, a ciência percebeu que nós (a humanidade) estamos mudando alguns desses fatores de forma cada vez mais acentuada, em particular a composição da atmosfera e a natureza dos solos das terras emersas. O mais conhecido entre os efeitos induzidos pela atividade humana é o chamado efeito estufa (conhecido desde o século XIX): através de processos de combustão e somando a redução do conteúdo orgânico dos solos e a destruição de muitas florestas estamos aumentando a quantidade de gases que alteram o clima (primeiro entre eles, o dióxido de carbono ou CO2), que tornam a baixa atmosfera mais opaca à radiação térmica que o solo emite para o exterior.

Em termos concretos, a temperatura média da superfície do planeta tende a aumentar, e a temperatura média do planeta tem uma influência muito marcante no arranjo climático: onde chove, quanto chove, como chove (ou cai neve ou granizo). O clima sempre mudou ao longo do tempo, mas o ponto-chave é a velocidade das mudanças. Nesse sentido, a ciência nos diz que estamos nos aproximando de um ponto crítico, como aqueles mencionados acima, e se chegarmos lá iremos de encontro a um ajuste repentino do clima, tão rápido que não nos permitirá uma readaptação sem consequências muito pesadas para grande parte da humanidade. Se quisermos evitar o colapso, devemos parar de introduzir maiores quantidades de gases que alteram o clima na atmosfera; traduzido: devemos parar de queimar combustíveis fósseis, derrubar florestas, esgotar os solos agrícolas de seu conteúdo orgânico, cobri-los com um manto impermeável (concreto e asfalto). Só isso.

O problema é que nossa forma atual de interferir nos processos naturais se tornou um componente estrutural da nossa sociedade e de nossa economia. Mudá-lo não é um fato puramente técnico, mas implica uma redefinição não banal das relações de dar e ter que existem entre nós, bem como da escala de valores sobre a qual orientamos a nossa vida. Não é de forma alguma algo simples e pequeno e, em vez de tentar, muitas vezes prefere-se o refúgio no negacionismo.

Vimos isso na história recente, e ainda presente, do COVID; nós o vimos se opor à abordagem científica a respeito da mudança climática; algum tempo atrás, lutamos contra os malefícios do fumo e assim por diante. Para além das irracionalidades individuais, quando a necessária reconversão acaba afetando as próprias hierarquias sociais baseadas substancialmente na riqueza, muitos dos que se beneficiam no momento das maiores vantagens se revoltam cegamente contra hipóteses de mudança do status quo, utilizando também os recursos abundantes de que dispõem para sustentar os negacionismos mais sutis com financiamentos (que do ponto de vista deles são "investimentos") e garantindo um acesso privilegiado aos principais canais de comunicação: isso já foi visto no passado no caso exemplar do fumo. foi visto em relação à questão climática.

Uma variante do "mudar tudo desde que nada mude" é a que mencionei no parágrafo anterior: a "magia" científica. Os “cientistas” de chapéu pontudo e varinha nas mãos vão resolver tudo: é preciso ter “fé” na ciência e, entretanto, não mudar nada nas estruturas da economia. A ciência (verdadeira) fez sua parte e a está fazendo. A novidade é que hoje, quando algo acontece no meio ambiente, conseguimos saber em boa medida porque acontece e qual é sua origem. A partir daí devemos, todos e cada um, assumir as nossas responsabilidades: “O Senhor Deus tomou o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” [Gen 2,15].

Ciência e economia

A economia é uma disciplina empírica que foi gradualmente se dotando de instrumentos formais bastante refinadas para se mover no meio das estatísticas relativas ao comportamento de grandes grupos humanos em matéria de produção e de troca. Dada a relevância do tema de que trata, tem progressivamente entendido (pelo menos em sua versão dita "clássica") elevar seu status também acima daquele das ciências naturais, promovendo algumas de suas bases empíricas ao posto de princípios fundamentais e de "leis da natureza", primeira entre todas o valor primordial e indiscutível do egoísmo individual. Como já mencionei na premissa, a economia (clássica) é a linguagem formal em que se expressa uma representação ideológica que justifica a estrutura social da humanidade agora globalizada, com suas hierarquias baseadas na riqueza.

Poderíamos comparar a economia (clássica) a uma espécie de "teologia" imprópria: a "teologia" do Mercado, que guia o progresso da humanidade por meio de sua "mão invisível", criando as condições para encarnar seu filho predileto, o Lucro. Na realidade, a economia e suas regras conflitam em vários pontos com as leis físicas e, infelizmente, o desfecho do conflito é óbvio: as leis da natureza não se deixam minimamente afetar. Encontramos uma primeira incompatibilidade na finitude do contexto material: a terra como um todo, e a biosfera em particular, têm um volume e, portanto, um conteúdo seja do que for, que é limitado.

Durante séculos, porém, o mundo material foi considerado como “praticamente” infinito e, portanto, em condições de sustentar outro dos axiomas centrais da doutrina econômica: o crescimento. O crescimento tem uma dimensão sacral inclusive mais marcada do que outros aspectos que mencionei até agora: é global e transversalmente invocado, desejado, exaltado. As objeções ao crescimento geralmente não são consideradas com base no mérito, mas são recebidas com indignação, zombaria e repulsa. Ainda assim, não é necessário uma formação científica particularmente refinada para entender que o crescimento infinito em um ambiente finito é materialmente impossível. Destaco o “materialmente” porque, justamente, a base da economia é material.

Como no caso dos vários negacionismos, também aqui alguns tentam negar a evidência refugiando-se no transcendente: o crescimento infinito da riqueza sem o crescimento das quantidades materiais manipuladas e trocadas. No mundo material, "nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma", como escreveu Lavoisier em 1700, "os Mercados", porém, como os Eloim, podem criar riqueza do nada ou trazê-la de volta ao nada, sem que matéria nem mesmo o perceba.

Então, por que não um crescimento sem crescimento? Enquanto isso, o que continua a crescer é a quantidade de toneladas manipuladas e transportadas e, ao mesmo tempo, a quantidade de quilowatts-hora exigidos para tudo isso. Independentemente dos vínculos impostos pela finitude do contexto, conhecida a bem da verdade, há muito tempo, a análise lógica e científica dos mecanismos de crescimento é capaz de evidenciar outro limite até mais estrito do que o da finitude do contexto. A economia se baseia, no seu funcionamento, nos fluxos de bens, serviços, informações que encarnam materialmente os circuitos comerciais na base das trocas; o crescimento econômico, portanto, implica um crescimento de todos esses fluxos. Pois bem, pode-se facilmente verificar que, em um sistema material em crescimento, a quantidade de recursos necessária para alimentar o crescimento (o "custo" material) aumenta mais rapidamente do que o próprio sistema. Um exemplo simples pode servir para esclarecer esse ponto.

Vamos pensar em um veículo que transporta algo; se queremos encurtar os prazos de entrega, temos que aumentar a velocidade: velocidade dupla, metade do tempo. No entanto, a quantidade de energia necessária para aumentar a velocidade aumenta com o quadrado desta última: velocidade dupla, energia necessária quádrupla. A “vantagem” obtida (a diferença entre o que cresce e o custo material do crescimento) tem, portanto, uma tendência característica: aumenta progressivamente até certo ponto, depois diminui muito rapidamente até se anular. O esquema é bastante semelhante ao já mencionado do colapso nos sistemas complexos.

A economia clássica conhece há tempo essa tendência cíclica (expansão-recessão) dentro de subsistemas específicos, sem, no entanto, compreender sua razão estrutural. A ideia é, em geral, mudar algo no subsistema dado, iniciando rapidamente um novo ciclo: a suposição subjacente é mais uma vez aquela de ter infinitas opções disponíveis para a reativação de novos ciclos. O sistema global, no entanto, com as opções dentro dele, de forma alguma é infinito. Outro aspecto importante do funcionamento da economia global está ligado às desigualdades. A observação desapaixonada do que está acontecendo nos diz que em todo o mundo, mesmo sob regimes diferentes, as desigualdades de renda vem crescendo há muitas décadas. O problema é reconhecido, aparentemente por todos, como algo muito sério e as receitas postas em prática incluem diversos expedientes (curas sintomáticas), cuja eficácia é episódica e não duradoura, exceto pela referência mágica ao remédio universal: o crescimento.

Pela observação do mundo real emerge, inclusive, que o crescimento não diminui, por si só, as desigualdades; muito pelo contrário. Mais uma vez, existem causas estruturais que podem ser rastreadas até um outro axioma da economia clássica: a competição. Competição e competitividade são novamente termos, como crescimento, que têm um valor sagrado: são indiscutíveis. Levantar dúvidas a respeito, mais uma vez, não abre espaço para análises racionais, mas é recebido com indignação, zombaria, repulsa: são dogmas. Porém, um mínimo de matemática mostra que o crescimento competitivo em um ambiente finito, além de não ser, como crescimento, possível, necessariamente produz diferenças crescentes. Sem recorrer, aqui, a fórmulas e algoritmos, basta referir-se ao jogo do Banco Imobiliário, cujas regras são justamente aquelas da competição em um campo de jogo limitado. Começa-se com pequenas diferenças entre os contendores e no final do jogo um tem tudo e os outros nada.

Conclusões

Em suma, o sistema econômico global baseado no egoísmo individual, no crescimento infinito da riqueza, independentemente de como for entendida, e na competição entre os egoísmos como força motriz do progresso é necessariamente insustentável e injusto. A insustentabilidade se manifesta hoje na forma de um conflito crescente e em curso com o sistema climático e de devastadoras desigualdades sociais.

Até agora, ciência e lógica. Para ir além, é necessário fazer referência a questões de sentido e a escalas de valores. Não há espaço para duplas morais: ninguém pode servir a dois senhores [Mateus, 6, 24]. Não podemos nos declarar irmãos e depois exaltar a competição, incutindo-a nas crianças desde o jardim de infância. Não se pode ser um bom guardião de um jardim que se pretende saquear todos os dias impunemente. Para enfrentar as emergências cotidianas e globais, é preciso em primeiro lugar uma profunda mudança de atitude e de mentalidade, que tem as características de uma conversão, não separada daquela exigida pela fé.

Uma vez que os pressupostos das relações entre os seres humanos mudaram, somente depois de ter aceitado a fraternidade universal não apenas em sentido retórico, pode-se pensar em abordar pragmaticamente as emergências globais atuais ou futuras. Se os alicerces forem corretos e nos colocarmos humildemente diante do jardim que nos foi confiado, a ciência pode nos ajudar.

Pondo de lado o mito do crescimento perpétuo e estabilizado o montante dos fluxos (de recursos materiais e energéticos) que nos são necessários, a ciência pode nos ajudar a racionalizar a organização geral das trocas, a otimizar a eficiência dos processos, a reutilizar da melhor forma o que é tradicionalmente considerado "desperdício". Descartando a fábula das fontes ilimitadas de energia "limpa" e a ilusão do moto perpétuo (que a ciência há muito provou ser impossível), uma economia substancialmente circular torna-se efetivamente praticável em vez de se reduzir a uma fórmula propagandística e retórica.



Tudo isso, porém, é válido se ao mesmo tempo os seres humanos forem concretamente tratados e mutuamente vistos não como "consumidores", mas como valores em si; se as relações entre nós não são baseadas na “competição”, mas na integração, complementaridade e colaboração. Petição de princípio? Sonho projetado além da história? Na realidade, até mesmo a economia concreta conhece formas em que, pelo menos dentro de um determinado grupo, as relações inclusive de produção/consumo se norteiam pelo critério da subsidiariedade e não da competição. Os sócios de uma cooperativa não mantêm, entre si, relações de competição, mas de partilha, tanto de custos como de vantagens, e de forma proporcional ao empenho de cada um. As cooperativas já existem e a lógica competitiva a relegam para fora do grupo, mas nada impede estender a complementaridade e a colaboração a uma rede mais ampla ou mesmo global formada por grupos já organizados dentro de si mesmos para cooperar. Se continuarmos a colocar no centro dos nossos comportamentos sociais a desconfiança e, aliás, o medo do outro iremos em direção ao desastre, que a ciência nos indica como iminente e, em certa medida, já em andamento.

Nota:


[1] A expressão foi usada no início de 1900 por Salandra com referência à política internacional do reino da Itália.

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