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Depois de enchente, lama tóxica da Vale assusta comunidades do Paraopeba

Comunidades ribeirinhas do Paraopeba estão apreensivas quanto às consequências dos resíduos da mineração que vieram com as enchentes



Do O TEMPO, 17 de Janeiro 2022 


Água recuou, mas deixou para trás o que moradores suspeitam ser rejeitos de minério

Passado o susto inicial das enchentes e a análise preliminar do que foi perdido por causa do excesso de águas, a região do Médio Paraopeba começa a perceber que, desta vez, as inundações trouxeram muito mais do que a água barrenta e suas consequências históricas.

Agora, comunidades inteiras de bairros bastante povoados em áreas urbanas e comunidades rurais estão perplexas com os resíduos de uma lama diferente, mais pesada e extremamente grudenta, que esteriliza plantações e insiste em não sair de ruas, casas e comércios.

A mineração e o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, ocorrido há três anos, é a explicação mais imediata por partes dessas populações e de seus gestores. Acostumadas a lidar com cheias no rio Paraopeba, essas cidades estão diante de um fenômeno minimamente estranho.

“A água do Paraopeba recuou e deixou milhares de toneladas de rejeitos de mineração encobrindo centenas de casas e as lavouras de inúmeros pequenos e médios produtores rurais. Talvez por causa de um assoreamento mais intenso do rio, as inundações deste ano puxaram para fora do leito os dejetos do desastre de Brumadinho. Aqui, em Betim, mas não só em Betim como em todos os municípios da região, é uma catástrofe nunca vista antes. Não conseguimos estimar um valor fixo de prejuízo. É algo incalculável, pois, além da recuperação das casas e da retirada deste minério, é preciso dimensionar uma área específica para alocar tudo o que está sendo retirado”, explicou o prefeito de Betim, Vittorio Medioli.

Para Medioli, as propriedades rurais que estão devastadas vão sofrer agora um longo período de esterilidade por causa da lama tóxica que escorreu rio abaixo. “É lamentável e desanimador. A Vale deverá arcar com todo esse prejuízo. Esse acordo que foi feito com o Estado e que, até agora, as cidades, as mais atingidas pelo crime do Córrego do Feijão, não tiveram acesso a uma real indenização, têm que levar as novas consequências em conta. Isso tem que ser revisto, pois o prejuízo do rompimento está se revelando muito maior do que foi de fato. Rio assoreado, lama tóxica por todos os cantos, prejuízos econômicos às cidades, danos ambientais irreversíveis e uma dor humana imensurável”, disparou.

Segundo o prefeito, ele fará uma cobrança pública amanhã em uma das áreas onde a lama cheia de dejetos da mineração destruiu uma comunidade rural e inviabilizou as plantações de muitas famílias de produtores de hortifrúti. A cobrança também deve partir de moradores de bairros mais drasticamente afetados, como é o caso da Colônia Santa Isabel, no Citrolândia.

“Vamos para cima da Vale em busca de uma reparação. O que está ocorrendo agora não tem nada a ver com essa indenização que ela já assinou e propôs junto ao Ministério Público. Isso que está acontecendo é um novo dano que ela está causando aos moradores. É responsabilidade direta dela”, afirma Thiago Flores, morador do bairro e que teve a casa inundada.

O prefeito de Betim também quer envolver outros prefeitos da região e a comunidade científica para levar amostras dessa lama decorrente das enchentes para testes laboratoriais, já que, na visão dele, todo o dejeto pode carregar elementos químicos danosos à saúde de moradores e também colocar em risco as atividades agrícolas praticadas em cidades que margeiam o rio Paraopeba, um dos principais cinturões verdes da região metropolitana de Belo Horizonte.

Moradores já enviaram amostras para análise

A trégua nas chuvas nos últimos dias permitiu que os moradores começassem a limpar suas casas. Ligado às causas sociais, Thiago Flores descreve o cenário como impactante.

Segundo ele, a Colônia Santa Isabel historicamente tem duas fontes de enchentes: o córrego Bandeirinhas e o rio Paraopeba.

“Com a enchente do Bandeirinhas, a gente consegue limpar uma casa com rodo, vassoura, água. Você consegue expulsar toda a lama da sua casa. A enchente do rio Paraopeba você tem que tirar com enxada e carrinho de mão. O que fica nas casas e nos quintais das pessoas é o minério de ferro. É um barro tão pesado que não dá pra encher a pá e levantar”, relata.

De acordo com a liderança comunitária, as máquinas que estão sendo utilizadas para transportar a lama retirada das casas só conseguem encher metade da pá carregadeira para não ultrapassar o peso máximo de segurança.

Os moradores recolheram amostras da lama e enviaram para análise química do projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para confirmar cientificamente a contaminação e a origem dos rejeitos.

Flores também expressa preocupação com problemas de saúde futuros que podem ser ocasionados pelo minério. “Quando parar de chover e o sol abrir, isso vira uma camada fina que o vento leva para o ar, e vamos começar a respirar esse pó”, diz.

Posicionamento da Vale

Procurada para comentar a situação enfrentada pelos moradores, a Vale disse que, desde o último fim de semana, tem atuado com foco na assistência aos moradores atingidos, em garantir a segurança de suas equipes e em apoiar o poder público e a Defesa Civil com recursos e equipamentos para prestar assistência humanitária à comunidade.

“Em Betim, a empresa efetivou a entrega de mais de 25 mil litros de água mineral, além de cestas básicas, produtos de limpeza, higiene pessoal e EPIs. Além disso, a empresa disponibilizou barcos e caminhões para resgate de atingidos. Nossas equipes de Relacionamento com a Comunidade e Relacionamento Institucional estão em contato permanente com os moradores e o poder público para colher demandas, dar informações e prestar o suporte necessário”, informou a empresa.

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