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Conheça Iemanjá, orixá celebrada no dia 2 de fevereiro

'Fica uma estatueta dela e aí têm as comidas e frutas', conta Eduardo, 11, praticante da umbanda


Dia de Iemanjá - Catarina Pignato

Da Folha de São Paulo, 28.jan.2022 
Por Bárbara Blum



Se você já viu flores jogadas no mar, vidros de perfume na praia ou até já pulou sete ondinhas no ano novo, você conhece, pelo menos indiretamente, a orixá Iemanjá, celebrada no dia 2 de fevereiro, próxima quarta-feira.

Iemanjá é uma orixá, ou seja, uma deusa do candomblé e da umbanda –duas religiões com crenças vindas da África. Aqui no Brasil, a figura dela é de uma mulher de vestido azul e longos cabelos pretos, às vezes com enfeites de peixes e conchas, já que é a rainha do mar.

O nome Iemanjá vem da junção de três palavras da língua iorubá, idioma tradicional da região onde hoje fica a Nigéria: yèyé (mãezinha), omo (filho) e eja (peixe) e por isso ela é a "mãe cujos filhos são peixes". Em outras palavras, uma divindade dos mares, como explica o livro "Yorubá: vocabulário temático do candomblé", de Márcio de Jagun.

Figura querida de muitos brasileiros, Iemanjá tem, aqui, uma festa própria no mesmo dia em que, na religião católica, é celebrada Nossa Senhora dos Navegantes, protetora dos marinheiros e pescadores.

Nas cidades de praia e, principalmente, em Salvador, na Bahia, o dia 2 de fevereiro é de muita festa. A praia do Rio Vermelho, um bairro famoso da cidade, fica repleta de pessoas que levam oferendas para o mar em homenagem a Iemanjá.

Flores, perfumes e espelhos são alguns dos itens que a orixá tradicionalmente ganha de presente, mas dá para festejar sem deixar lixo na praia.

"Tem uma questão ecológica que precisa ser pensada. Sabemos que lançar ao mar determinados produtos é um desrespeito à natureza. Se Iemanjá é o mar e a deusa das águas, não é jogando coisas lá dentro que vamos garantir que a festa se perpetue. Sendo ela a deusa das águas ela vai nos ouvir independentemente de jogar o frasco de perfume ou não", diz a professora Waldete Tristão, autora do livro infantil "Conhecendo os Orixás: de Exu a Oxalá", indicado ao prêmio Jabuti.

A festa não se restringe às cidades de praia. Eduardo Lovato, 11, chegou a ver até conchas, areia e água do mar serem presenteadas para a orixá nas celebrações do terreiro de umbanda que frequenta com a família, em Jundiaí.

"Fica uma estatueta ou imagem dela e aí têm as comidas e frutas que representam ela", conta.

Ele começou a frequentar o terreiro aos 9 anos depois que os pais aderiram às cerimônias. "É bom, me dá um alívio e tira tudo de ruim", diz.

Fã da festa de Erê, evento da umbanda celebrado em setembro com doces e incorporação de espíritos infantis, ele veste branco por escolha própria nas giras, nome dado às reuniões na umbanda, e decidiu que vai se batizar depois do aniversário de 12 anos, em abril.

Segundo a professora Waldete, nas origens africanas, Iemanjá era vista como a orixá da fertilidade, associada à colheita do inhame na região do rio Ogum –nome de outro orixá– que deságua na capital da Nigéria. Dentre as comidas favoritas da orixá estão peixe e ovelha.
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Ilustração da HQ "Contos dos Orixás" DivulgaçãoMAIS

Waldete conta que esse processo de mistura das religiões, que coloca juntas Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá, foi muito usado pelos povos africanos que vieram escravizados ao Brasil para manter vivas as suas crenças, mas que, hoje, pode trazer alguns problemas.

"Essa interpretação que vemos de Iemanjá, com cabelos longos e veste azul, é muito distante da mãe africana de seios fartos que reinava e era cultuada às margens do rio Ogum", conta Waldete.

No Brasil, a figura de Iemanjá é retratada como uma mulher branca e vista como equivalente à santa católica –duas interpretações que, segundo a professora, são erradas. "O problema não está na popularização da figura de Iemanjá, mas o problema está em quem tenta embranquecer, tirando os traços negros."
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Casa de Iemanjá, na Praia do Rio Vermelho BBC News Brasil/Tatiana Azeviche/SeturMAIS

Desde 2003 existe uma lei que inclui o ensino de cultura e história afro brasileiras nas escolas, mas, segundo Waldete, a prática ainda não chegou a um ponto ideal.

"A mentalidade racista impede que esse conhecimento chegue às pessoas", diz, "terreiros e pessoas não são atacados só por serem de candomblé, mas por serem pessoas negras, por ter a ver com uma história e uma cultura que os conecta aos povos africanos".

TODO MUNDO LÊ JUNTO

Texto com este selo é indicado para ser lido por responsáveis e educadores com a criança

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