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As lições não aprendidas nos anos da pandemia. Artigo de Nicoletta Dentico

Do IHU, 03 Janeiro 2022
Por Nicoletta Dentico




"A desigualdade de vacinação que maculou 2021 não será remediada em 2022 se um pequeno grupo de governos continuar a se demonstrar sensível às razões das multinacionais dos medicamentos e indiferente ao direito à saúde. Se não mudarmos o curso, não haverá tratado pandêmico que resista", escreve Nicoletta Dentico, jornalista e analista sênior de políticas em saúde global e desenvolvimento, que atualmente lidera o programa de saúde global da Sociedade para o Desenvolvimento Internacional (SID), em artigo publicado por Il Manifesto, 02-01-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há três anos, nesta época, não tínhamos ainda conhecimento do grande e assustador evento que teria abruptamente interrompido as cinéticas da globalização e marcado a história com um arrasto inacreditável não só de natureza sanitária, mas com efeitos explosivos também na esfera psicológico-existencial, social e econômica. Uma
Chernobyl no campo da saúde, assim foi definida.

Tantas coisas aconteceram nestes dois anos totalmente inesperadas. Algumas positivos, além de toda expectativa, como o rápido desenvolvimento das vacinas e - mais recentemente - de novas terapias contra a Covid.

Nunca antes houve um esforço científico dessa magnitude: 23 vacinas diferentes aprovadas em um ano em todo o mundo e centenas em desenvolvimento. Estima-se que essa incrível virada tenha salvado a vida de 750.000 pessoas apenas na Europa e nos Estados Unidos. Porém, muito mais coisas deram errado.

Muito errado. A Covid definiu 2021, um ano que ficará para a história pelas inúmeras comissões, painéis, cúpulas que, pelo menos em palavras, pretenderam aproveitar as lições desta pandemia, para não nos encontrarmos na mesma situação da próxima vez - porque com certeza haverá próximas vezes.

Novas comissões despontam no horizonte: a comunidade internacional decidiu de fato - em uma recente assembleia ad hoc da Organização Mundial da Saúde (OMS) - embarcar na negociação de um novo tratado pandêmico. Quase como se aquele pandêmico fosse um aceitável novo status do mundo, a figura desajeitada de uma nova ordem das coisas, e não o resultado de um fracasso histórico de visão e governança em escala mundial. Mas na véspera do terceiro ano de Covid-19, há lições importantes a compartilhar.

A primeira é que agir imediatamente é fundamental, mesmo à custa do exagero. Entre janeiro e fevereiro de 2020, por motivos inexplicáveis, o mundo não entendeu que o vírus desconhecido que estourou em Wuhan não ficaria confinado à China. Bastaram poucas semanas para que o novo patógeno amplamente anunciado em outros países transbordasse. É verdade que anteriormente outros coronavírus, como o SARS em 2003 e o MERS em 2012, não haviam causado pandemias. Também é verdade que as autoridades sanitárias pagam caro pelo anúncio de alarmes por emergências que depois não se cumprem; a OMS foi criticada pelo Parlamento Europeu em 2009 por declarar a pandemia de gripe H1N1, um evento com efeitos não particularmente graves. O mundo inteiro sabe que o princípio norteador de qualquer resposta a emergências de saúde é preparar-se para o pior, com investimentos adequados e treinamento de pessoal. Mas raramente acontece. A escolha, tentada várias vezes ao longo de dois anos, de aguardar que a evolução do vírus se manifestasse plenamente antes de tomar as medidas necessárias para alterar sua trajetória, pressupõe a decisão de tornar o vírus muito mais perigoso e abrir caminho para a pandemia.

A segunda é que a política continua a ter domínio sobre a saúde pública. Em dois anos de pandemia, vimos de tudo. Quantos líderes políticos colocaram em risco a vida de seus cidadãos, explorando a crise, menosprezando-a ou espalhando mentiras, só porque a verdade sobre a COVID-19 poderia prejudicar seus destinos políticos? Na Europa, chefes de governo consideraram a pandemia como uma oportunidade para uma bonificação social nacional lucrativa para os cofres do Estado. Em muitas partes do mundo, as medidas de emergência serviram aos autocratas da vez para "fazer uma limpeza", livrando-se de adversários políticos, ativistas e jornalistas, ou para impor regimes de desajeitada (in) segurança. No Brasil, o negacionista presidente Bolsonaro, emulando o descriterioso Trump, permitiu que o vírus circulasse sem ser perturbado em um país desigual e com estruturas sanitárias insuficientes para as necessidades da população.

Como se não bastasse, detonou três ministros da saúde e deixou à própria sorte inteiras comunidades indígenas da região amazônica. Haverá um juiz em Brasília ou em Haia capaz de impugnar os crimes do presidente que, alheio aos 600 mil mortos, pretende ser reeleito em outubro próximo? O que sabemos com certeza científica é que se o vírus tivesse estourado nos Estados Unidos em vez de Wuhan, as consequências teriam sido muito piores, independentemente do arroubo antichinês de Federico Rampini. Apesar de 824 mil mortes, os programas de vacinação nos EUA continuam envoltos em um inescrupuloso desvio ideológico e até mesmo usar a máscara identifica politicamente, em uma polarização que tira o respiro mais do que o vírus.

Na fase extrema e talvez terminal do capitalismo financeiro dominada pela "busca obsessiva de sempre novos campos da vida social, da existência humana e da natureza para serem transformados o mais rápido possível em dinheiro", para citar Luciano Gallino, o cinismo geopolítico dá as cartas contra as razões da saúde global. A comunidade internacional se resigna às novas variantes para não ceder à polêmica questão da suspensão dos direitos de propriedade intelectual em tempos de emergência. Perdemos um ano e a história nos julgará severamente. A desigualdade de vacinação que maculou 2021 não será remediada em 2022 se um pequeno grupo de governos continuar a se demonstrar sensível às razões das multinacionais dos medicamentos e indiferente ao direito à saúde. Se não mudarmos o curso, não haverá tratado pandêmico que resista.

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU


No dia 13 de janeiro (quinta-feira), às 17h30, o Prof. Dr. Alexandre A. Martins – Marquette University – EUA e o MS Felipe Mello – USP, apresentarão a conferência Patógenos e a arrogância humana. O que a pandemia revela sobre nós. A atividade integra o IHU ideias, que tem como objetivo fomentar o debate sobre temas da atualidade, abrangendo as áreas de atuação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.



Patógenos e a arrogância humana. O que a pandemia revela sobre nós

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