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A sociedade dividida e a natureza destruída. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves



Do IHU, 06 Janeiro 2022
Por José Eustáquio Diniz Alves


"Se a humanidade ultrapassou a capacidade de carga da Terra, o remédio indicado é a redução do peso das atividades antrópicas e a diminuição da sobrecarga econômica sobre os ecossistemas", escreve José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e pesquisador em meio ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 05-01-2021.

Eis o artigo.

“Estamos em um carro gigante, acelerando na direção de uma parede de tijolos e todo mundo fica discutindo sobre onde cada um vai sentar” - David Suzuki

O mundo vive uma grande crise climática e ambiental. As emissões de gases de efeito estufa continuam aumentando a despeito de todas as Cúpulas da governança mundial. O aquecimento global e a perda de biodiversidade são evidências de ultrapassagem de duas fronteiras planetárias que podem gerar um grande colapso ecológico global ainda no século XXI. Utilizando um verso de uma canção de Marília Mendonça para refletir o atual “pacto suicida” da insustentabilidade ambiental: “Ninguém vai sofrer sozinho. Todo mundo vai sofrer”.

O diagnóstico do imbróglio atual é simples: a humanidade ultrapassou a capacidade de resiliência do Planeta e a Pegada Ecológica já está mais de 70% acima da Biocapacidade da Terra. Como a economia é um subsistema da ecologia é preciso adaptar a primeira em relação à segunda. A produção e o consumo humano não podem crescer infinitamente em uma Terra finita. A destruição dos ecossistemas implica o fim da civilização.

Sabemos qual é a doença e sabemos qual é a receita. Se a humanidade ultrapassou a capacidade de carga da Terra, o remédio indicado é a redução do peso das atividades antrópicas e a diminuição da sobrecarga econômica sobre os ecossistemas. Comensais gulosos precisam se adaptar ao tamanho do banquete, pois a comida está ficando cada vez mais cara. Se não é possível aumentar indefinidamente o superávit de bens e serviços, a alternativa é reduzir o déficit ambiental.

A figura abaixo, da Global Footprint Network, mostra que a Pegada Ecológica estava em 20,9 bilhões de hectares globais (gha) em 2017, para uma Biocapacidade do Planeta de 12,1 gha. O déficit estava em 73%. A solução é reduzir a Pegada Ecológica para a casa de 12 bilhões de gha, pois, como bem lembrou Deborah Danowski, “não tem mais mundo pra todo mundo”.






Há 5 maneiras para reduzir a Pegada Ecológica global no curto e médio prazo:

1) diminuir a produção de bens e serviços;

2) modificar o estilo de produção e consumo (fazendo uma mudança na matriz energética, mudando a dieta alimentar, reduzindo o luxo e o lixo, etc.);

3) avançar com a tecnologia e a eficiência produtiva; 4) reduzir as desigualdades sociais e regionais; 5) reduzir o tamanho da população.

A primeira alternativa requer o decrescimento do Produto Interno Bruto. Porém, simplesmente diminuir a produção e a renda agregada significa empobrecer a nação. Assim, é uma alternativa amplamente minoritária no pensamento mundial, pois existe a “doença” do crescentismo e do desenvolvimentismo. Governantes, partidos políticos, empresários, sindicatos, associações de trabalhadores, igrejas e a sociedade civil em geral querem aumentar a produção e o consumo. De modo geral, o empresário quer aumentar o lucro, o trabalhador que aumentar o salário, o Estado quer aumentar os impostos e a nação quer aumentar seu poder geoestratégico. Por tudo isto, a perspectiva de decrescimento econômico é muito difícil de ser colocada em prática. Os países pobres, por exemplo, querem diminuir a pobreza e reivindicam o direito ao desenvolvimento e a um alto padrão de vida.

A segunda alternativa requer mudanças tecnológicas e nas opções de consumo. A mudança da matriz energética, por exemplo, é fundamental para sair dos combustíveis fósseis e avançar nas energias renováveis, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Esta transição já está ocorrendo, mas em um ritmo muito lento, ainda mais que existem países, como a Índia, que dependem muito da produção e uso do carvão mineral. Além disto, as grandes empresas de petróleo não querem abrir mão dos subsídios que recebem e nem abandonar as reservas comprovadas de hidrocarbonetos. A mudança na dieta alimentar é uma outra necessidade, mas muita gente não quer abandonar o consumo de carne e o produção de alimentos orgânicos encontra resistência em termos de preço e de escala produtiva.

A terceira alternativa é talvez a menos discordante, pois os avanços tecnológicos que produzem ganhos de eficiência permite produzir mais (gerar mais riqueza) e reduzir os impactos negativos sobre o meio ambiente (menos degradação ambiental). O problema, como mostrou o economista inglês William Jevons, é que o aumento da eficiência ao invés de diminuir a o consumo de determinado bem, acaba por aumentar a demanda agregada. Isto é o que se chama de “Paradoxo de Jevons”, que ocorre enquanto o mundo vai ficando mais produtivo, mas a produção global não cai.

A quarta alternativa advém da possibilidade de haver menor crescimento e com a redução das desigualdades. O crescimento do padrão de consumo dos países pobres, poderia ocorrer em função do decrescimento do padrão de consumo dos países ricos. O mesmo poderia ocorrer dentro de cada território nacional, com a adoção de uma melhor distribuição de renda. Isto implica deixar os pobres um pouco mais ricos e os ricos um pouco mais pobres. Teoricamente é uma proposta justa e que contribuiria para uma maior harmonia social, todavia, é muito difícil de ser colocada em prática, especialmente numa situação de baixo crescimento econômico ou de decrescimento da riqueza nacional ou global.

A quinta alternativa implica reduzir o volume das populações nacionais e global, o que contraria a tendência dos últimos 12 mil anos, quando a população mundial cresceu 2 mil vezes, passando de cerca de 4 milhões de habitantes no ano 10 mil antes da Era cristã para 8 bilhões de habitantes em 2023. A redução da população dos países ricos traria um alívio mais rápido no grau impacto sobre o ambiente e a redução da população dos países pobres ajudaria nas políticas de redução da pobreza.

Os países desenvolvidos possuíam uma população de 1,27 bilhão de habitantes e os países mais pobres (“muito mentos desenvolvidos”) 1,1 bilhão de habitantes em 2020, conforme mostra os gráficos abaixo. Segundo as projeções da Divisão de População da ONU os países mais ricos vão ter um pequeno decrescimento populacional e devem chegar (na projeção média) a 1,2 bilhão de habitantes em 2100, enquanto a população dos países mais pobres deve ter um grande crescimento e chegar a 3,1 bilhões de habitantes em 2100. Os países de renda média possuem cerca de 6 bilhões de habitantes atualmente e devem chegar a 7 bilhões no final do século. Devido à política de filho único e o envelhecimento populacional, a China deve perder cerca de 400 milhões de habitantes entre 2020 e 2100. No total, a população mundial deve chegar a 8 bilhões em 2023 e a um patamar acima de 10 bilhões em 2100.

Os países ricos tendem a resistir ao decrescimento populacional porque isto implica um aumento ainda maior da alta proporção do envelhecimento populacional, o que dificulta a manutenção do elevado padrão de vida. Já os países pobres apresentam altas taxas de crescimento populacional, o que fortalece a ideologia do engrandecimento nacional, embora uma estrutura etária jovem e uma alta taxa de dependência demográfica dificulte a redução das taxas de pobreza. Assim, por um motivo ou outro, há uma resistência à diminuição da população. Além do mais, os países pobres dizem que o principal problema ambiental e climático do mundo ocorre devido ao alto consumo dos ricos, enquanto os ricos reclamam do alto crescimento populacional dos países pobres e da migração Sul-Norte.





Desta forma, as alternativas para evitar um colapso ambiental existem, mas são de difícil aplicabilidade, pois há muitas divergências entre as nações e muita discordância internamente em cada país. A confrontação interna e internacional tende a aumentar na medida em que os danos ambientais vão impactando progressivamente toda a população mundial. Os mais poderosos vão tentar socializar os prejuízos e privatizar os benefícios. O fato é que, com a crise climática e ambiental, a discórdia tende a superar a harmonia e a tragédia dos comuns fica mais evidente, pois a atmosfera virou uma grande lixeira da poluição gerada pela civilização.

A conjugação de crises – climática, ambiental, energética, insegurança alimentar, etc. – funciona como uma panela de pressão que envolve quatro ingredientes: trabalhadores sem emprego e renda, elites brigando pelo poder, governo em crise e disputas internacionais entre potências em confronto. Os anos dourados de crescimento econômico, paz e prosperidade tende a dar lugar a um ciclo de instabilidade, polarização e violência política. Como disse Beto Guedes: “A lição sabemos de cor, só nos resta aprender”.

A COP26, em Glasgow, teve o mérito de reconhecer a gravidade dos problemas climáticos, mas, ao mesmo tempo, mostrou como é difícil conciliar interesses e perspectivas tão diferentes e como é dificultoso colocar em prática os ensinamentos da ciência. Em um mundo fragmentado, polarizado, sem liderança e egoisticamente preocupado com os interesses particulares, é quase impossível que se constitua e se consolide uma vontade geral em benefício do bem comum. A ação política requerida para levar à frente uma transição do modelo econômico e social da magnitude que o momento exige necessita uma governança forte e convergente capaz redirecionar um mundo tão desigual, injusto e insustentável em termos ecológicos. Mesmo havendo consenso de que é preciso evitar a possibilidade de um colapso ambiental falta união na hora de decidir o caminho a ser trilhado.

Assim, não é de estranhar que a procrastinação e a enrolação prevaleceram sobre as ações concretas para deter a temperatura abaixo de 1,5º C acima do nível pré-industrial. Os países precisavam iniciar a redução imediata da produção e consumo de combustíveis fósseis, mas nada foi feito para reduzir os subsídios e eliminar no médio prazo a queima dos hidrocarbonetos.

A Índia, por exemplo, alegou necessitar de usinas de carvão mineral para manter o crescimento econômico visando garantir o lucro dos empresários, a grandeza do Estado e também para reduzir a pobreza, embora todos estes objetivos sejam incompatíveis com os atuais níveis de poluição que são insuportáveis nos rios e nas grandes cidades indianas. Por outro lado, os países ricos não garantiram as promessas de ampliar os recursos financeiros para apoiar a mitigação e a adaptação dos países pobres. Foi falado em reduzir o desmatamento, mas não imediatamente e o reflorestamento ainda faz parte de um cenário distante. Por isto, a juventude denunciou que a tônica da Conferência de Glasgow foi o blá-blá-blá e a maquiagem verde.

desenvolvimento que começou com a Revolução Industrial e Energética ocorrida no final do século XVIII tem seguido um caminho insustentável, já que a humanidade tem se enriquecido de maneira desigual e injusta, enquanto o meio ambiente se empobrece com a degradação dos ecossistemas. Ou seja, as desigualdades sociais são um barril de pólvora e a emergência climática deixará o mundo cada vez mais quente. Não existe desenvolvimento verde, uma vez que o verde está sendo desbotado e apagado.

Essas lições foram antecipadas de maneira clara no livro “Limites do Crescimento, um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade”, liderado pelo casal Meadows e que completa 50 anos em 2022. Os autores construíram um modelo para investigar cinco grandes tendências de interesse global: o ritmo acelerado de industrialização, o rápido crescimento demográfico, a desnutrição generalizada, o esgotamento dos recursos naturais não-renováveis e a deterioração ambiental. Estas tendências se inter-relacionam de muitos modos e a obra busca compreender suas implicações num horizonte de cem anos. A principal conclusão do livro está resumida neste parágrafo: “Se as atuais tendências de crescimento da população mundial, industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição de recursos naturais continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um declínio súbito e incontrolável, tanto da população quanto da capacidade industrial” (p. 20).

De fato, os limites do crescimento e a degradação ambiental estão aumentando a carestia e afetando milhões de pessoas. O índice de preços dos alimentos da FAO bateu todos os recordes em 2021 e a Era da comida barata acabou. Desta forma, o aumento dos custos econômicos e a aceleração do aquecimento global tende a aumentar a discórdia social e a sociedade dividida não consegue reverter a degradação ecológica, muito menos garantir o bem-estar populacional. O trem está indo para o abismo, mas não existe consenso nem para parar a máquina e nem para dar um cavalo-de-pau no veículo. As pessoas se preocupam mais com o fim do mês do que com o fim do mundo.

O filme “Não olhe para cima”, do diretor Adam McKay, mostra como a sociedade reage a um perigo iminente de fim do mundo, desde a obtusidade dos líderes políticos, a polarização ideológica, a espetacularização do noticiário da mídia, o pandemônio das interações nas redes sociais, o negacionismo, as fake news, as teorias da conspiração e as falsas promessas das empresas de tecnologia. O filme da Netflix (2021) retrata uma sociedade dividida e apática e a governança nacional e internacional incapaz de diagnosticar e apresentar uma receita viável para evitar o colapso civilizacional e ambiental. O asteroide, na verdade, é a emissão de gases de efeito estufa. A paródia satírica estrelada por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence pode ser interpretada como uma ironia sobre a forma como a humanidade lida com os problemas do aquecimento global e da 6ª extinção em massa das espécies.

O artigo “Does Austerity Cause Polarization?” (Hubscher et. al., 03/06/2021) analisa, em nível macro, 166 eleições desde 1980 e conclui que a austeridade fiscal (que ocorre devido à baixa produtividade econômica) é uma causa substancial da polarização política e, portanto, da instabilidade política em democracias industrializadas. Ou seja, a escassez gera maior divisão política e maior polarização na sociedade. Como diz o ditado popular: “Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”.

O mundo está num impasse. Ao invés da harmonia do tripé economia, sociedade e ambiente o que a política global enfrenta é o trilema do crescimento deseconômico, a sociedade dividida e o ambiente degradado. A crise ambiental agrava a crise econômica e acirra as divisões da sociedade, dificultando as ações para evitar o círculo vicioso de perdas e danos do colapso ecológico, que já se manifesta por meio do aumento dos custos dos crescentes desastres ambientais. Portanto, não é uma tarefa simples romper com todos estes impasses. E o tempo para remediar a situação está cada vez mais curto.


Referências:



Evelyne Hubscher et. al. Does Austerity Cause Polarization?, Researchgate, 03/06/2021. Link disponível aqui.

MEADOWS, D. et. al. Limites do Crescimento. Um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade, Editora Perspectiva, 2ª ed., São Paulo, 1978. Link disponível aqui.

ALVES, JED. Economia Ecológica e dinâmica demográfica global e nacional: cenários para o século XXI, Economia Ecológica, 24/06/2021

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