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A representação e seus limites

Do A Terra É Redonda, 05 de Janeiro 2022
Por JOÃO ANGELO OLIVA NETO*




Prefácio do livro recém-lançado de Paulo Martins

Os catorze capítulos deste livro não deixam de tratar de nenhum aspecto relevante acerca da “imagem” na Antiguidade clássica e devo lembrar que por “imagem” deve-se bem entender o resultado de uma série de meios: pintura em parede e em vaso, mosaico, “escultura” em pedra, em metal, em vidro, escultura, assim dizendo, que se diversificou já em tempo antigo em suportes vários, como altos e baixos-relevos em portas, escudos, elmos, moedas; como camafeus, gemas, taças, anéis, pingentes, tiaras, broches, o que bem prenuncia o tamanho da matéria.

No passado imediato o livro provém da tese de livre-docência homônima que o autor defendeu em 2014, com muito brilho e valentia, como pude, arguidor e presidente da banca, bem testemunhar: a porta é sempre estreita. E agora diante da honra e do privilégio de prefaciar o livro vejo-me em dificuldades porquanto também nos “Prolegômenos” Paulo Martins é generoso ao rastrear, retrospectiva não menos do que introspectivamente, a origem primeira do percurso, deixando a quem quer que fosse quase nada por dizer.

Creio que assim fez porque a livre-docência, sendo sempre e apenas título, depois do mestrado e do doutorado, e não também um cargo, é a culminância na carreira propriamente intelectual do professor universitário, e realizá-la traz-nos à memória quando, onde e até porque tudo começou – o que enfim é exercício estimulado pelo próprio “memorial” integrante das provas. Pois bem, quase nada ficou por dizer, e esse nadinha que faltou, fresta por onde o olho testemunhal pode ver muito, há de mostrar também como, a meu ver, tudo começou.

Colegas no bacharelado de grego e latim, alunos de professores do naipe dos falecidos José Cavalcante de Souza e Francisco Achcar, irmanados a colegas discentes, como Roberto Bolzani Filho e Adriano Machado Ribeiro, que hoje são colegas de docência, conhecíamos bem mais do que, sem essas despretensiosas as conversas, nos teria sido dado então conhecer sobre o pensamento de Platão e sobre o enredo da Eneida, de Virgílio. Estávamos, posso dizer, confortáveis com o que sabíamos, por exemplo, sobre as diferenças entre o mundo sensível e o mundo inteligível de Platão, conhecimento que, mercê da própria antiguidade, era correto, seguro e certo, ao quase de tornar-se mera informação.

Assim também ocorria quanto à Eneida, cujas duas metades – viagem de Eneias e a guerra que travou na Itália – aprendêramos que são a soma em ordem inversa da matéria da Ilíada e a da Odisseia homéricas – as erráticas viagens da Odisseia narradas primeiro, do canto I ao VI, e os duros combates da Ilíada, narrados depois, do canto VII ao XII. Pois bem, naquela errância, semelhante à de Ulisses, Eneias aporta em Cartago e, explorando o lugar, depara-se com uma pintura mural em que vê justamente os combates em Troia, que acabara de deixar, e seus protagonistas, entre os quais ele mesmo! Eneias vê-se a si mesmo na pintura e conclui que já é lenda.

Apreciávamos o passo em que Ulisses, hóspede na corte dos Feaces, ouve o canto de Demódoco, cuja matéria são as gestas do próprio Ulisses, que então conclui que também já é lenda. E então admirávamos o modo como Virgílio, imitando embora Homero, substitui o canto de Demódoco por um meio diferente de narrar, já não o canto, mas a pintura, e creditávamos o procedimento à emulação, em que se imita, tentando-se, porém, variar e superar o modelo, o que não era incorreto.

Mas havíamos também aprendido que existia um significado iniciático na viagem de Eneias, esse estranho herói a quem, derrotado em Troia e expatriado em busca de outra pátria, era necessário, na perspectiva de Virgílio e das lendas que fazem romanos descender de troianos perdedores, deixar de fato para trás tudo que ainda mantivesse do caráter troiano, para que a Roma que ajudasse a fundar não padecesse da vulnerabilidade de Troia, cidade que por afeição ao amorável e ao belo pôs a perder a própria existência. A viagem de Eneias não era então só um navegar ao poente, mas era também percurso para dentro de si, viagem que fazia para conhecer-se a si mesmo e também as novas e dificílimas condições em que ele apenas sobrevia.

Ora, não era difícil sob tal perspectiva perceber a importância do canto VI da Eneida, em que Eneias no mundo infernal, instruído pelos Manes do pai, trava conhecimento com a realidade mesma das coisas que já haviam acontecido, as que aconteciam e as que ainda haviam de acontecer. Eneias a partir de então sabe de vez quem é. Em outras palavras, era fácil perceber ali o repto do pensamento de Platão, apropriado inteligentemente por Virgílio: Eneias naquelas ínferas plagas do canto VI, que são também o além, penetra o mundo inteligível, toma conhecimento das coisas mesmas e por isso agora sabe, conhece. E assim para nós as coisas ficaram por alguns anos e não estavam mal paradas.

E foi então, no começo dos anos 1990 que, a meu ver, se deu o lance decisivo que, como tudo que é genial, é simples e, na própria simplicidade, é brilhante! Foi quando pela primeira vez na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas se viu a importância de estudar as imagens na literatura por meio da literatura, ou melhor dizendo, das letras. Relato tal como vi e ouvi: eu já era docente e Paulo Martins pós-graduando, e numa tarde depois de uma de suas aulas de pós-graduação ele chega e diz: “você não acha que Eneias a contemplar a pintura no canto I corresponde ao mundo sensível e progressivamente ele mesmo a presenciar depois a máquina do mundo no canto VI corresponde ao mundo inteligível de Platão?”

Não são muitas as vezes em que temos a experiência de ver simultaneamente tudo e simultaneamente saber naquele átimo que estamos vendo tudo. Li certa feita que John Lennon queria ter escrito Alice no País das Maravilhas. Poderia eu também pensar em inúmeros livros que queria ter escrito, mas naquele instante eu só queria ter tido aquela ideia! Queria eu ter vislumbrado que Eneias a contemplar as pinturas está para o mundo sensível, assim como penetrar ele o mundo infernal e ver as coisas elas mesmas está para o mundo inteligível de Platão. E hoje orgulha-me ter-lhe dito a Paulo exatamente isso, justamente naquela hora, e ter repetido sempre que podia, a quem quer que fosse e nas muitas aulas que dei sobre a Eneida em Literatura Latina.

Pois creio nesse conceito de ideia, que se pode dizer “insight”, “vislumbre”, “sinapse”, ou o que for, que é sempre o lance da inteligência. Acredito sim que os resultados das pesquisas acadêmicas são de todos, tanto quanto as ideias que lhes deram origem são só daqueles que as conceberam, só daqueles a quem os deuses bafejaram, e assim devem ser creditadas. Descobri que quem prefere não dar créditos é precisamente quem não tem nenhuma ideia própria. Em boa verdade, a passagem em que Eneias, contemplando as pinturas, se vê a si mesmo não era apenas a imitação emulativa do passo homérico, mas era também a ampla apropriação do pensamento de Platão para Virgílio construir um herói que, assim, por mais que guardasse evidentes analogias com Ulisses e Aquiles, como já disse, é de todo diferente de qualquer herói homérico e não podia em absoluto existir em Homero, pois que Ilíada e Odisseia são muito anteriores a Platão.

A Eneida, sendo embora emulação imitativa da Ilíada e da Odisseia, contém, todavia, por decisão deliberada de Virgílio, inserções de disciplinas que nos tempos homéricos ainda não existiam como tais, como, entre outras, a retórica, a história, a tragédia, a comédia e também a filosofia. As dívidas se pagam: não ser poeta arcaico tem seu preço, mas parece ter alguns bons prêmios. Por causa do vislumbre de Paulo Martins, percebe-se que o repto de Platão na Eneida não se limita ao canto VI, mas começa bem antes, no canto I, que, portanto, prepara aquela viagem de autoconhecimento.

Pois bem, essa ideia germinal entre nós é de Paulo Martins e a foi a partir daquela dissertação de pós-graduação que ele percebeu para si e fez-nos perceber a nós, colegas e alunos, a importância das imagens nas letras antigas, porém não só as imagens propriamente icônicas – estátuas, pinturas e quantas outras arrolei acima –, que ele bem aprendeu (e agora ensina melhor) a olhar, ou seja, a ler e interpretar, senão também as “imagens textuais”, bem entendido, a presença destas mesmas imagens e de outras, todas agora descritas nos textos em prosa e em verso, das quais as écfrases que se leem (e veem) desde Homero são só o exemplo mais conhecido.

O percurso foi diversificando-se dado que as primeiras, isto é, as imagens físicas propriamente ditas, Paulo Martins buscou discriminá-las segundo o termo por que os antigos as designavam – statua, efigies, signum, simulacrum, sculptura, pictura, prósopon, agálma, éidolonetc – para mostrar como os antigos previam que fossem vistas e que significação gostariam que tivessem, e ele o fez (a diversificação prossegue), levando ainda em conta o espaço que ocupavam e os ambientes em que circulavam. Ora, espaço, ambientes dizem respeito à oposição entre esfera pública (o fórum, os passeios, as portas da cidade, prédios públicos, os templos) que é sempre explicitamente política, atinente aos negócios da república, e esfera privada (a casa, a vila, o escritório, os jardins particulares, as joias, os artefatos), que numa sociedade aristocrática, censitária e escravocrata, talvez não o seja menos, mas há de ocorrer por via indireta, por ser atinente ao ócio.

Quanto às imagens textuais (a diversificação continua), o autor começa com distinguir de um lado, digamo-lo com prefacial simplicidade, a descrição ocorrente nos poemas – a écfrase – e de outro, a descrição empregada nos discursos oratórios – a enargia ou evidência –, que é tropo retórico persuasivo de que temos, como tal, teorização antiga. Mas logo passa a tratar de objetos mais complexos, como certos espaços, cuja descrição é dinâmica porque pressupõe o movimento do observador, como ocorre com o palácio de Alcínoo na Odisseia e justamente o mundo infernal na Eneida. E enfim, além de distinguir descrições, o autor analisa como, segundo os antigos, as imagens se processam na alma do observador.

A multiplamente diversificada matéria que este livro expõe deriva, penso, daquela ideia primeira. Creio que me servi até aqui, sem dizer e sem saber, do conhecido evento biológico em que um organismo simples se transforma e se multiplica em organismos complexos e variados. A ideia de Paulo Martins foi assim genial porque foi genetriz de tudo que se pode hoje estudar relativamente à imagem no mundo antigo na Universidade. Por que dizer mais? Tudo aquilo que ela gerou o leitor poderá ver neste livro.

*João Angelo Oliva Neto é professor de Letras Clássicas na USP. Autor, entre outros livros, de O Livro de Catulo (EDUSP).



Referência

Paulo Martins. A representação e seus limites: pictura loquens, poesis tacens. São Paulo, EDUSP, 2021, 368 págs.

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