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A disparada desproporcional dos casos da ômicron

A rapidez com que a variante se espalha desconstruiu a lógica da covid. A OMS se animou: diz que pode estabilizar a pandemia. Gráficos de novos casos e de óbitos desde 2020 retratam bem a evolução da covid destacando sua metamorfose recente


Credit: Lona Mody


De OUTRASAÚDE, 26 de Janeiro 2022
Por Flávio Dieguez


O anúncio no final da semana passada de que a covid estava se aproximando abruptamente do patamar de 200 mil casos por dia, no Brasil, revela um novo horizonte pandêmico marcado pela velocidade estonteante de transmissão da variante ômicron. Responsável por praticamente 100% das novas infecções, estima-se que possa ascender a 1,3 milhão de casos por dia, nas próximas três semanas.

Não surpreenderia se a ômicron já estiver causando perto de 400 mil casos diários, avaliam especialistas da Universidade de Washington ouvidos pela imprensa. Conforme essa estimativa, poderá já estar acontecendo hoje até 280 mortes por dia, e esse número pode, de fato, estar subindo para 490 até início de março, no país. Parte dessa aceleração talvez se possa explicar pela ampliação dos contatos decorrente das festas de fim de ano.

Já a quantidade relativamente pequena de óbitos deve-se provavelmente a diversos fatores, entre os quais a alta proporção de pessoas já vacinadas no Brasil, perto de 70% da população brasileira adulta; a ocorrência de infecções passadas nos últimos dois anos; e a possíveis características distintas da ômicron. Essa distribuição é a que sugerem os estudos recentes da variante.

As hospitalizações seguem a escala relativamente reduzida das mortes: mesmo se subirem de forma acelerada, como alguns analistas preveem – das atuais 2.000 hospitalizações diárias para 8.000 por dia. Ainda estariam mais de três vezes abaixo do patamar de 25 mil hospitalizações registradas em abril do ano passado, apesar de então o volume de casos ter sido significativamente menor. Sempre muito cautelosa, a OMS declarou dia 25/1 que a celeridade de transmissão da ômicron pode estabilizar a pandemia no Brasil e no mundo. Ótima notícia.

Dados brasileiros atualizados em termos da evolução cronológica da pandemia mostram que ela atingiu o pico em março de 2021, com quase 80.000 óbitos mensais. Ainda nesse período, mas com tendência de declínio da doença, chegou-se ao pico do número diário de mortes: 4.249, no dia 8 de abril. O gráfico abaixo esboça o perfil da ameaça representada pela pandemia ao longo do tempo.



A evolução da doença medida em termos das variações diárias retrata bem a proporção entre o aparecimento dos novos casos e a gravidade relativa resultante das infecções. Vê-se como a covid recua com o avanço da vacinação, a partir de julho do ano passado – quando 40% da população tinha recebido ao menos uma dose de imunizante.

No início de março, os casos subiram de menos de 60 mil para cerca de 90.000, crescendo mais de 50%. As mortes também aumentaram em grande proporção, com crescimento da ordem de 30%. Em abril, passaram dos 3 mil falecimentos. Nesse momento, a lógica pandêmica mudou por completo, como se vê, no gráfico abaixo, pela disparada desproporcional dos novos casos.

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