Pages

Produção de Felicidade

Da Carta Maior, 22 de Dezembro 2021
Por Fernando Nogueira da Costa



Créditos da foto: (Reprodução)

A Economia da Felicidade afirma: ela pode e deve ser produzida ativamente. Não nasce sozinha, mas a infelicidade nasce sim quando a pessoa, sem passar grandes necessidades para viver, vive apenas se entediada com sua vida.

A regras propostas por pesquisadores da felicidade para sua produção são sete:

1. ter atividades diversas, criativas e não alienantes;

2. viver em sociedade exige vivenciar em conjunto, compartilhar benefícios mútuos de maneira altruísta;

3. concentrar no aqui-e-agora, ou seja, estar presente – e não se imaginar no passado ou no futuro, nem tampouco viver a pensar em outro lugar;

4. não achar a vida ser só felicidade e jamais se conformar com o “não há como mudar” – devemos ter serenidade para aceitar o imutável, coragem para lutar pelo alterável e sabedoria para distinguir um do outro;

5. ter expectativas realistas significa trabalhar para obter objetivos possíveis;

6. ter bons pensamentos implica em bem pensar sem viver a comparar;

7. obter felicidade com trabalho criativo e reconhecer, felizmente, não ela não ser permanente, pois necessitamos aprender a ser antifrágil...

Os economistas da felicidade desejam afastar a atitude individualista da busca cega de riqueza e trocar essa atitude para se obter a melhoria das condições de vida reais. Não se pode tratar a felicidade como fosse uma simples sensação privada, sem nenhuma ligação intrínseca com o viver bem.

Se fosse este o caso, uma droga ou uma estimulação cerebral poderiam ser os meios mais baratos e mais eficazes para alcançá-la em curto prazo. E perdê-la no vício em longo prazo... A euforia perpétua, via uma droga estimulante do cérebro, seria um estado de felicidade idiota, só permanente em um fictício “admirável mundo novo”.

Por qual razão não se deve admitir, diretamente, a nossa preocupação ser com a vida boa? Deixemos a felicidade surgir por si mesma!

A felicidade, compreendida como um estado de espírito, é algo tão trivial como um acaso. Não pode ser então o bem supremo a ser buscado eternamente.

A cultura vivenciada permite-nos falar, rigorosamente, em termos sido felizes por algum tempo passageiro. É rigoroso lembrar a posteriori de determinada fase de vida como tivesse sido a mais feliz se na época não se tinha condições de comparar com o futuro?

Isso ocorreria apenas se esquecêssemos as mazelas do dia-a-dia e só fixássemos em determinados aspectos passageiros da vida. Essa lembrança seletiva leva a definir “uma vida feliz” como fosse composta de muitos momentos casualmente felizes.

É socialmente possível medir a felicidade tal como em um PIF - Produto Interno da Felicidade? Sem ser uma média ponderada de indicadores do desenvolvimento humano é imensurável as felicidades individuais como agregativas ou serem estimadas através de uma média per capita... É tal como a gravidez, não se pode estar mais ou menos...

Uma visão holista da felicidade sugere aos investigadores não afirmarem os habitantes de um país serem sempre felizes até morrer! Vida boa é a meta social possível.

Não são dinheiro, idade, gênero, aparência, inteligência ou grau de educação, os determinantes de nossa felicidade. Dinheiro e prestígio ou poder costumam estar no topo de nosso sistema pessoal de valores, inclusive à frente da família e dos amigos.

A maior parte das pessoas no Ocidente rico vive de modo equivocado em relação aos valores materialistas dessa escala. Elas priorizam o dinheiro, querem ter tudo e fazem escolhas equivocadas de modo sistemático, por exemplo, no consumismo.

O projeto de independência %uF01nanceira é “o sonho de vida” mais frequente nos países ocidentais. Todos seus habitantes almejam ter segurança %uF01nanceira, mas a maioria de nós nunca a alcança de modo a ser, realmente, “independente”.

O algoritmo 1-3-6-9-12 indica a partir dos 35 anos, a pessoa ter acumulado em reserva financeira, a cada década, esses múltiplos de salários anuais. Assim, aos 75 anos com 12 vezes o salário anual terá condições de manter o padrão de vida alcançado por mais 20 anos sem receber mais renda do trabalho.

Autonomia é a meta para autodeterminação da própria vida. Infelizmente, muitos sacri%uF01cam essa liberdade por um salário mais alto, onde perderá o livre-arbítrio.

Na escala dos “economistas da felicidade”, os maiores produtores de felicidade são os relacionamentos com outras pessoas, ou seja, com a família, o(a) companheiro(a), os filhos e os amigos. Depois vem o sentimento de fazer algo de útil ou altruísta. De acordo com as circunstâncias, isto é, quando as perdemos, valorizamos a liberdade e a saúde.

Riqueza é um conceito relativo. Somos tão ricos quanto nos sentimos, e as pessoas de nosso convívio oferecem, não raro, o parâmetro para esse sentimento.

Economistas da Felicidade estimaram, para o mundo ocidental rico, a partir da renda pessoal anual de cerca de US$ 20 mil (próximo de R$ 120.000 / ano) a felicidade não aumentaria na mesma proporção da elevação das faixas dos rendimentos. Este valor em reais (acima de R$ 10 mil / mês) representa só a renda dos 5% mais ricos no Brasil. A dedução óbvia é não só esses ricos podem ser felizes. E 95% da população ser infeliz.

Quem compara, perde. A luta para aumentar o padrão de vida, em relação à de outros, é pessoal e socialmente infeliz. A sociedade como um todo não pode elevar a sua posição em relação a si mesma. A luta social é por bens básicos: são necessidades tais (condições sine qua non) de modo a qualquer pessoa, se não os possuir, ter perda ou danos sérios.

Esses bens básicos são bons em si mesmo – e não atuam apenas como um meio para alcançar outro bem. Pertencem à vida boa, de maneira geral, não apenas a algum conceito particular e/ou local da vida boa.

Bens básicos são objetos de discernimento, não de medição estatística. Eles representam qualidade de vida – e não quantidade de dinheiro. São sete os essenciais:

*saúde: sem ter impedimento do próprio corpo;

*segurança: sem sofrer por violência física ou econômica;

*personalidade: ter espaço privado para se assumir por inteiro;

*respeito: ser mútuo, ter e receber tolerância, atuar com civilidade;

*harmonia com a natureza: o animal humano necessita desse convívio adequado;

*amizade: dar e receber afeto desinteressado, com igualdade e solidariedade;

*lazer: ter atividade criativa em lugar de trabalho alienante.

Richard Layard é um consultor ouvido pelo Partido Trabalhista britânico. Diz: quando as pessoas vivem no limite da sobrevivência, o progresso material, de fato, as torna mais felizes. Mas, quando o desconforto material está ultrapassado, a renda adicional torna-se muito menos importante em vez de os nossos relacionamentos uns com os outros: com a família, com os amigos e dentro da comunidade.

Se os governos podem e devem ter por objetivo maximizar a boa vida, e não se limitar simplesmente a aumentar a renda, isso poderia afetar certas escolhas específicas no campo das políticas públicas?

Os impostos, até certo nível, podem ajudar a melhorar o equilíbrio entre o trabalho e a vida privada dos cidadãos. Com isso, aumenta o senso geral de bem-estar na sociedade. Eles funcionam como uma taxa sobre a poluição, no caso, sobre o esnobismo de pessoas ricas, quando elas menosprezam pessoas pobres de posição social inferior.

Aquilo mais almejado pelas pessoas é o respeito. Elas procuram alcançar o status econômico porque isso o proporciona. Significa a política pública garantir, para todos os jovens, o acesso a uma aprendizagem, inclusive Ensino Técnico, se assim desejarem.

A política social deveria tentar realizar algo novo, apesar dos efeitos limitados obtidos sobre a nossa vida privada. Divórcios e lares desfeitos, por exemplo, em 2019, atingiram 383.386, enquanto o número de casamentos foi 1.024.676. As crianças oriundas de lares desfeitos estão mais propensas a sofrerem de depressão quando se tornam adultas.

Para as proteger, o Estado deveria agir no sentido de tentar tornar a vida em família mais viável, estabelecendo melhores horários escolares, horários de trabalho mais flexíveis, creches com regulamentos adequados.

Deveria também haver mais tempo livre, no local do trabalho, para permitir o exercício da maternidade e da paternidade. Aulas de Educação Parental e Educação Financeira deveriam também ser obrigatórias no currículo escolar e uma prática automática para os pais obterem maturidade antes de casarem e do nascimento de um filho.

Conforme mostram as pesquisas, o desemprego é experiência de vivência tão difícil quanto a do divórcio. Ela ofende a nossa necessidade de nos sentirmos necessários para a sociedade. A redução da taxa de desemprego deveria ser um objetivo prioritário.

Em um Projeto Social-Desenvolvimentista, para salvar o Brasil, a urbanização das favelas deve ser prioritária não só por gerar emprego e renda para seus moradores. Dotadas de todas as necessidades básicas – abertura e asfaltamento de ruas e avenidas, teleféricos, redes elétricas e de esgoto, abastecimento de água e coleta de lixo, presença de rede comercial e bancária – elas se transformariam em bairros populares, inclusive com segurança pública sem milicianos.

Favela é autoconstrução sem planejamento do Estado. É necessária sua presença com todas as políticas públicas: saúde, educação, segurança, etc. São direitos da cidadania.


Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor do livro digital “Segredo do Negócio Capitalista: Alavancagem Financeira” (2021). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.

Nenhum comentário:

Postar um comentário