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Petro estende sua mão ao centrismo para derrotar o uribismo no primeiro turno

Da Carta Capital, 26 de Dezembro 2021
Por Camilo Rengifo Marín



Gustavo Petro, o candidato presidencial pelo Pacto Histórico de centro-esquerda, estendeu a mão para a centro-esquerda, representada pela Coalizão Centro Esperança, para trabalhar juntos em uma proposta de unidade, visando vencer o neoliberalismo de Álvaro Uribe, pensando nas próximas eleições presidenciais colombianas, em maio de 2022.

Petro destacou que deve ser organizada uma reunião, que “não represente uma ruptura, mas sim a necessidade de unir todo o setor da população colombiana que se sente liberal e que defenda a proposta de consolidação de uma força política que se torne governo”, e deu como exemplo o recente triunfo de Gabriel Boric no Chile.

Enquanto isso, a população aguarda a confirmação dos candidatos para cada uma das cinco coalizões que concorrerão nestas eleições presidenciais. Até o momento, o único nome conhecido é o do representante do Centro Democrático, o partido que está no poder e que lançou a candidatura de Óscar Iván Zuluaga, ministro das Finanças do governo genocida de Álvaro Uribe, entre 2007 e 2010.

Líder político do partido de extrema direita Centro Democrático, o ex-presidente Álvaro Uribe publicou em suas redes sociais uma lista de insultos contra Gustavo Petro:“o DoutorPetro se incomoda porque eu sou do setor do agro, e porque eu não tenha recursos escondidos ou no exterior. Compreensível para um vagabundo, criador de polêmicas, fantoche que vive em mansões e usa trajes de luxo, que só produziu crimes, incitamento à violência e contratos com corruptos financiados por maletas de dinheiro”.

Enquanto isso, o ex-prefeito de Bogotá destacou que não existe mais uma polarização social tão marcada em torno ao seu nome em certas regiões, como poderia ter ocorrido nas eleições presidenciais anteriores, onde foi derrotado no segundo turno, na disputa contra o atual presidente da Colômbia, o uribista Iván Duque.

Petro está confiante na vitória em maio, e que esta pode se dar ainda no primeiro turno. Uma recente pesquisa mostrou que ele está se consolidando como favorito e que a imagem do presidente conservador Iván Duque continua em declínio: tem apenas 21% de apoio e quase 70% de desaprovação. Em todas as regiões do país a atuação do governante é mal qualificada, mesmo em áreas onde obteve grande quantidade de votos em 2018.

Faltando pouco mais de cinco meses para as eleições, todas as pesquisas apontam que Petro aumenta seu favoritismo entre os eleitores, vencendo todos os seus rivais em qualquer cenário possível. As eleições para escolher os próximos presidente e vice-presidente por um período de quatro anos teráo seu primeiro turno realizado no dia 29 de maio. Caso nenhuma candidatura obtenha mais de 50% dos votos nesse dia, os dois candidatos mais votados se enfrentarão em um segundo turno, marcado para o dia 19 de junho.

“O objetivo é vencer no primeiro turno, mas sem cair na arrogância”, disse Petro, em entrevista à imprensa local. Isso vai depender da “redução dos medos desnecessários” que se criaram em torno de sua figura, já que seu setor político nunca governou o país.

Independente dos partidos, o que a Colômbia tem atualmente são várias coalizões compostas por legendas e movimentos que compartilham propostas em comum, ideias einteresses eleitorais. Algumas delas promovidas pela direita, como forma de dividir o voto da oposição. No campo progressista está o Pacto Histórico, liderado justamente por Gustavo Petro, outrora membro da guerrilha urbana M-19, em uma convergência bastante semelhante àquela que se formou em 1991 para obter a maioria na Assembleia Constituinte.

No centro do espectro eleitoral encontra-se uma aliança de várias figuras proeminentes como Sergio Fajardo, Alejandro Gaviria, Ingrid Betancur e Jorge Robledo. Fajardo, o ex-governador de Antioquia, é o mais conhecido do grupo e tem um histórico de divisionismo no campo popular: foi a sua posição antiunitária em 2018 que facilitou o triunfo do porta-estandarte da extrema direita, Iván Duque.

À direita, com arestas muito regressivas e corruptas, está a coalizão Equipe Colômbia (fazendo alusão ao termo com a que o povo conhece a seleção de futebol do país) que reúne Federico Gutiérrez (Opus Dei), Alejandro Char (máfia caribenha), Barguil (latifundiário ligado ao paramilitarismo), Dilian Toro (ex-governador de Cali e ligado à máfia local) e Juan Carlos Echeverry (ex-ministro da Fazenda, fanático neoliberal).

Há outros candidatos sem coalizão, como Oscar Iván Zuluaga, o candidato de Uribe. Outro nome é o de Rodolfo Hernández, um outsider regional com ascendência por seus gestos imitando Donald Trump e seu discurso populista cheio de vulgaridades. Também há a candidatura de Luis Pérez, um influente líder da região de Antioquia, com grande peso no mosaico das regiões colombianas.

Enquanto isso, o governo de Duque, de extrema direita, aprovou a polêmica Lei de Segurança. A oposição aponta que esta viola o direito à vida, criminaliza protestos, legaliza o paramilitarismo urbano e permite que jovens e indígenas sejam fuzilados.

Petro não triunfou em 2018, mas – apesar da campanha implacável de terror da mídia – ele é o primeiro líder na história colombiana que reúne a maior votação da esquerda popular, com cifras próximas a nove milhões de votos. Para muitos analistas, a violência será uma das fórmulas promovidaspelo governo e pela extrema direita para tentar impedir a vitória de Petro e doseu bloco progressista, que terminariam derrubando o domínio de uma oligarquia sangrenta e corrupta que sequestra o Estado há décadas.

O exemplo chileno

Para o senador colombiano, o triunfo do jovem Gabriel Boric nas eleições presidenciais chilenas, vitória a partir da qual se espera “uma mudança de época na América Latina em muitos aspectos, especialmente na superação do sistema neoliberal, que governou permanentemente em países como Chile e Colômbia”, explicou.

Petro afirma que o exemplo chileno “é a base que explica o reconhecimento desta mudança”, e que por isso ele está “há mais ou menos cinco anos apelando ao diálogo, visando gerar uma unidade democrática, tão necessária no país. Por que pode haver diálogo no Chile e não na Colômbia?”, perguntou.

Petro fala em distribuição de terras e priorização ao cultivo das mesmas, levando em consideração que três mil pessoas possuem 80% das terras férteis do país. “Uma das maiores desigualdades que existem, porque não se produzem, nenhum país comete o erro de transformar suas terras férteis em pasto (para que se dediquem à pecuária), e por isso não conseguimos nos industrializar”, argumenta o senador, líder da esquerda colombiana.

“Estamos falando de cinco grandes empresas com contratos com o Estado, cinco transportadoras que estão usando suas exportações em esquemas de lavagem de dólares, então temos que trabalhar para que essas empresas paguem os seus impostos”, enfatizou Petro.

Camilo Rengifo Marín é economista, professor universitário colombiano e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la

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