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Os múltiplos Gabriel Boric

Do A Terra É Redonda, 25 de Dezembro 2021
Por MÁRIO MAESTRI*

O pôster do Video Show: Festival de Arte
pela Resistência Chilena.

Comentário sobre o artigo de Carlos Ominami

Em memória de Alfonso Chanfreau e Mário Caballero

Tarso Genro traduziu o artigo “O triunfo de Gabriel Boric” de autoria do ex-senador chileno Carlos Ominami, publicado no site A Terra é Redonda, em 23 de dezembro de 2021. Confesso que me assustei ao ler o “olho” do artigo: “Boric encarna a proposta das mais profundas transformações estruturais dos últimos 30 anos no Chile.” Mais ainda. Ominami compara o programa do neo-presidente ao da UP! Para terem uma ideia, a pauta reformista de 1970 quase assusta, por seu caráter avançado e radical. Além do cobre, entre outras coisinhas, a UP estatizou o sistema bancário! Todo ele.

Será que o Globo Terrestre tinha saído dos eixos? Boric estaria prometendo arrebentar, finalmente, a boca do balão! Ou o articulista estaria delirando. Mas logo me tranquilizei. Eram apenas afirmações retóricas. Ominami apresenta Boric como expressão da “governança” —que palavrinha terrível — e descreve como eixos programáticos do novo governo objetivos aguados no estilo tradicional de mudar alguma coisa para deixar tudo como antes. Um político de sucesso.

Da mesma geração e rio-grandense, conheço Tarso Genro há muito, sem jamais termos sido próximos, pessoal ou politicamente. Conheço-o desde os idos em que era dirigente do Partido Revolucionário Comunista (1980-1989), de viés marxista-leninista (maoísta). No contexto da implosão daquele partido, no qual militava também José Genuíno, Tarso Genro ingressou no PT, tornando-se um dos mais prestigiados e ativos dirigentes do petismo conservador do Rio Grande do Sul e, logo, do Brasil. Foi prefeito, governador, ministro.

Ominami, o “Chino”

Por esses azares da sorte, conheci Carlos Ominami há ainda mais tempo. E fomos amigos e companheiros de militância, bastante próximos. Nos anos 1971-73, ele estudava Economia e eu História, no Pedagógico da Universidad de Chile, um dos mais combativos centros universitários chilenos. Militei, por alguns meses, com o “Chino” — em realidade, era descendente de japoneses—, na mesma célula de “moradores” do Movimento de Esquerda Revolucionária — MIR. E, anteriormente, estávamos em oposição à política da direção de nossa organização, que julgávamos incapaz de expressar a enorme radicalização dos trabalhadores chilenos. Avaliação que se mostrou correta.

Após o golpe de 11 de setembro de 1973, ele se refugiou na Embaixada da Bélgica e terminou na França, onde concluiu seus estudos universitários em Economia. Eu escapei pela embaixada do México e terminei na Bélgica, onde me graduei e pós-graduei em História. Na Bélgica, com diversos camaradas, entre eles o historiador chileno Jorge Magasich, a enfermeira Maria Isabel Aguirre, o psicólogo Dário Paez e o sociólogo Ramon Letelier, seguimos ligados à resistência chilena, procurando apoiar a dificilíssima recomposição política e orgânica dos trabalhadores no Chile. Jorge Magasich acaba de publicar os dois primeiros volumes de uma monumental história da Unidade Popular, que esperamos que sejam traduzidos ao português. Sobretudo agora é fundamental que se conheça melhor no Brasil a realidade chilena.

Ladeira a baixo

Nos anos seguintes, acompanhamos o fortíssimo movimento de companheiros miristas “baixando as armas”. Ominami, com alguns outros nossos ex-camaradas, confluíram no Partido Socialista, acomodando-se aos novos tempos de colaboracionismo com o grande capital. Com eles foram nosso querido camarada Ramon Letelier, dirigente e administrador socialista prestigiado em Talca, por longos anos, durante os governos da Concertación. Recordo-me de Carlos Ominami como um militante singularmente inteligente, carismático, simpático, diria até mesmo afetuoso com seus companheiros. Um gentleman. Ele prosperou rapidamente nas filas socialistas, alcançando singular sucesso político e social, tornou-se senador e ministro de Estado. Mas deixemos o particular para mais tarde e nos elevemos, agora, ao geral.

Encurtando a história. Com a ditadura pinochetista fazendo água, politica e economicamente, era necessário tudo mudar no Chile para que o fundamental seguisse igual. Com as devidas relativizações, algo que hoje ocorre com o bolsonarismo. E quem diz isso não sou eu, mas Gabriel Salazar, meu brilhante professor de história no Pedagógico e camarada de militância no MIR, do “Chino” e meu. Gabriel Salazar, com hoje 85 anos, é reconhecido como talvez um dos mais destacados historiadores do século 20 e 21, tendo recebido, em 2006, o Prêmio Nacional de Historia de Chile.

Trocando o administrador

“No Chile — propõe Salazar—, as jornadas nacionais de protesto começaram em 1983, uma após a outra até 1987. O que isso significou para o capital financeiro internacional e as agências de classificação de risco? Que o Chile não era um país seguro, que não tinha governança. Pinochet era muito ditador, mas não tinha conseguido disciplinar sua sociedade, sua população, e não havia segurança para investir. O Golpe seria absurdo e inútil se não houvesse desenvolvimento. Isso implicava que Pinochet tinha que sair e, se fosse embora, teria toda a culpa pelos crimes e limparia o modelo neoliberal ”. (La Tercera, 20 de abril de 2016).

Em 1990, Patrício Aylwin (1918-2016) encabeçou a “frente ampla” que governou daquele ano até 2010. O candidato não podia ser mais tóxico, mas o importante era, diziam, se livrar do Ogro fascista — qualquer semelhança é mera coincidência! Integravam a denominada Concertación, além de outros partido menores, a poderosa Democracia Cristã, que, sob a direção do mesmo Patrício Aylwin, apoiara o golpe de 1973, e o Partido Socialista. (Não reclamem, companheiros, podia ser Alkmin-Lula!) Seguiram-se, a Patricio Aylwin, na presidência, Eduardo Frei Ruiz-Tagle (DC), Ricardo Lagos (PS), Michelle Bachelet (PS). A duração do mandato presidencial variou entre seis e quatro anos.

Consolidação do neoliberalismo

Os vinte anos de governos corridos da Concertación promoveram a consolidação do neoliberalismo no Chile. Não recuperaram o confiscado pela ditadura, não concederam nada de substancial e retiraram muito à população e aos trabalhadores. Com mudanças softs no político, continuaram a destruição socioeconômica neoliberal. Gabriel Salazar, propõe: “Então, eles (o imperialismo, o capital) tiveram que procurar políticos dispostos a administrar o modelo neoliberal sem mudá-lo muito. Aí está claro: o Partido Democrata Cristão, o Partido Socialista, o Partido Radical … todos aqueles que tinham sido de centro-esquerda agora aceitaram administrar o modelo neoliberal.” E remata, sem piedade: a “Concertación foi a garante do neoliberalismo no Chile”, “goste a ela ou não”.

Bem, e o que tem a ver meu antigo querido camarada e amigo Carlos Ominami nesta história. Muito, mas muito mesmo. Ele foi nada menos que o ministro da Economía, Fomento y Reconstrucción, de 1990-92, de Patricio Aylwin. Mutatis mutandis, e exagerando um pouco, ele foi o Guedes chileno! Foi um dos grandes articuladores do prosseguimento da política de terra arrasada neoliberal no Chile. Serviu em posições de destaque e prestigiosas, sem vacilar, os inimigos que jurara combater na juventude. Entre outras coisinhas, implementou ativamente a privatização das novas minas de cobre chilenas. E, como bom político burguês, procurou financiamentos eleitorais onde não devia. Mas esta é uma outra história. (El Dínamo. 24 de julho de 2018.)

Não foi apenas no Brasil

Podemos dizer que os governos da Concertación prepararam o terreno para o retorno da direita, com a vitória de Sabastian Piñera, em 2010, que bisou a presidência, em 2018, após novo governo de Michelle Bachelet, um outro tapa n’água. Muitos brasileiros, mesmo de esquerda, desconhecem que a situação catastrófica chilena atual nasceu do longo período pinochetista, de 1973 a 1990, que se manteve por dezessete anos. Realidade continuada, no essencial, pelos governos da Concertación, que governou por mais três que a ditadura! A cada qual, sua responsabilidade. Apenas para comparar, a Concertación governou mais seis anos que o petismo. Fora o último governo de Bachelet (2014-2018).

No Chile, a derrota da direita nas recentes eleições foi produto de um esforço titânico da população e dos trabalhadores chilenos, que surpreendeu o mundo pela criatividade, coragem, determinação e perseverança. Abriram o caminho à vitória de 2021 duríssimos combates nas ruas, através de todo o pais, com destaque para Santiago. A repressão foi duríssimas, com dezenas de manifestantes mortos e centenas feridos graves. Atualmente, encontram-se na prisão alguns milhares de presos políticos, à espera de anistia. Essas mobilizações foram ainda mais fortes do que as de 1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2014, que resultaram em vitórias confiscadas pela oposição e por governos colaboracionistas, hoje fortemente desprestigiados. Boric destacou-se quando das mobilizações estudantis e manteve-se distante dos antigos partidos da Concertación.

A população e os trabalhadores chilenos são como aves Fênix, que, mesmo arrasadas, ressurgem das cinzas, poderosas, em busca de seus destinos. Hoje, mais uma vez, encontram-se diante do impasse de 1970-73 e posto quando das múltiplas vitórias eleitorais confiscadas. Sobre o “triunfo de Boric”, devem construir necessariamente o triunfo da vontade popular, criando direções autônomas e classistas que apontem para uma ruptura estrutural com o ordenamento capitalista. Ruptura que estiveram a “dois dedos” de realizar, em meados de 1973. Sob a pena de soçobrarem outra vez. E não sou eu que diz isso. É a história.

*Mário Maestri é historiador. Autor, entre outros livros, de Revolução e contra-revolução no Brasil: 1500-2019 (FCM Editora).



Referências

SALAZAR, Gabriel: “El legado de Patricio Aylwin a Chile es el modelo neoliberal”. Natalia Olivares, 20 ABR 2016, La Tercera. https://www.latercera.com/pulso/gabriel-salazar-el-legado-de-patricio-aylwin-a-chile-es-el-modelo-neoliberal/

OMINAMI, Carlos: “Fue un gran error recibir dinero de SQM”. El Dínamo. 24 de julio, 2018. https://www.eldinamo.cl/nacional/2018/07/24/carlos-ominami-fue-un-gran-error-recibir-dinero-de-sqm/

MAGASICH, Jorge. Historia de la Unidad Popular – I : Tiempos De Preparación: De Los Orígenes al 3 de Septiembre de 1970. Santiago de Chile: LON., 2020. https://lom.cl/products/historia-de-la-unidad-popular-volumen-i-tiempos-de-preparacion-de-los-origenes-al-3-de-septiembre-de-1970

MAGASICH, Jorge. Historia de la Unidad Popular – II. : De la Elección a la Asunción: Los Álgidos 60 Días del 4 de Septiembre al 3 de Noviembre de 1970. Santiago de Chile: LON., 2020. https://lom.cl/products/historia-de-la-unidad-popular-volumen-i-tiempos-de-preparacion-de-los-origenes-al-3-de-septiembre-de-1970

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