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Morreu Desmond Tutu, rosto do combate ao Apartheid

O arcebispo sul-africano, vencedor do Prémio Nobel da Paz pela sua luta anti-racista, tinha 90 anos e continuou a ser uma voz ativa na defesa da justiça social, dos direitos LGBT e na crítica ao poder.


Do Esquerda, 26 de Dezembro, 2021 



Desmond Tutu em 2014. Foto de Bokmässan/Flickr.

O arcebispo sul-africano Desmond Tutu, símbolo da luta contra a segregação racial e vencedor do Prémio Nobel da Paz, faleceu na madrugada deste domingo aos 90 anos na Cidade do Cabo. O religioso tinha sido diagnosticado desde o final dos anos 1990 com um cancro na próstata e, nos últimos anos, tinha sido internado várias vezes devido a infeções.

Em 1984, o seu nome tornou-se conhecido mundialmente depois de ter vencido o Prémio Nobel da Paz “pelo seu papel como líder unificador na campanha não violenta para resolver o problema do apartheid na África do Sul” dizia a nota oficial de atribuição do galardão. Internamente, já o era há muito pelo seu lugar destacado na Igreja Anglicana. Derrotado o regime, próximo do então presidente Mandela, cunhou o termo “nação arco-íris” para designar a nova situação política. Tornou-se em seguida presidente da Comissão de Verdade e Reconciliação, destinada a investigar os crimes da época do segregacionismo.

Na ocasião da sua morte, o presidente do país, Cyril Ramaphosa, declarou que este é “outro capítulo de luto na despedida da nossa nação a uma geração de notáveis ​​sul-africanos que nos legou uma África do Sul libertada”. Mas este notável nos últimos anos de vida foi muitas vezes uma pedra no sapato do partido do poder, o ANC. Para além disso, aquele que politicamente se definia como socialista, também não se coibiu de defender os direitos LBGT(link is external) e a eutanásia contra o conservadorismo, de atacar a corrupção e de tomar várias posições pela justiça social. Não teve igualmente medo de enfrentar Israel, apelando ao boicote e defendendo os direitos do povo palestiniano.

90 anos de luta

Desmond Mpilo Tutu nasceu a 7 de outubro de 1931 em Klerksdorp, perto de Joanesburgo. Tornou-se professor mas abandonou o ensino por considerar que este servia para preparar a população negra para servir a minoria dominante. Entrou depois para a Igreja Anglicana. Foi ordenado padre em 1960, chegou a bispo do Lesotho, entre 1976 e 1978, depois Bispo Auxiliar de Joanesburgo e reitor de uma paróquia no Soweto, antes de se tornou Bispo de Joanesburgo. Foi secretário-geral do Conselho Sul-Africano das Igrejas. Acabaria por se tornar finalmente Arcebispo da Cidade do Cabo.

Enquanto ocupava estes cargos ia-se destacando como voz da justiça racial. Em 1988, por exemplo, apelava ao boicote nas eleições municipais, arriscando uma pena de prisão. No ano seguinte, em agosto, conheceu em primeira mão o gás lacrimogéneo policial à porta de uma Igreja na Cidade do Cabo e no mês seguinte foi mesmo preso por se recusar sair de um comício que tinha sido proibido.

Já como Arcebispo, apelava internacionalmente às sanções económicas contra o governo. No seu papel de dirigente da Igreja Anglicana nacional também enfrentou polémicas internas como a que resultou de uma proibição do clero aderir a partidos políticos.

Polémico foi também o seu papel à frente da Comissão de Verdade e Reconciliação. Acusou os líderes do anterior regime de terem mentido nos seus testemunhos mas também o ANC por supostamente ter cometido abusos dos direitos humanos durante a luta contra o apartheid.

A sua relação com este partido foi conflituosa. Para Tutu, o ANC tornou-se um partido de poder, que criou uma nova elite política e que passou a estar mais próximo da elite económica do país do que das camadas populares pobres. Apelou, por exemplo, à destituição do ex-presidente Jacob Zuma, na sequência de acusações de crimes sexuais e de corrupção.

Este também não seria propriamente seu admirador. O arcebispo não fazia parte da lista oficial de convidados do funeral de Nelson Mandela, o que, perante a indignação generalizada, acabou por ser corrigido. Mas Tutu, em conferência de imprensa, não poupou críticas. Reafirmou que não votaria no ANC. “Sonhámos com uma sociedade que seria compassiva, que faria as pessoas sentir que importavam. Não nos serve uma sociedade em que temos pessoas que vão para a cama esfomeadas, em que muitas das nossas crianças ainda têm aulas debaixo de árvores”, disparou então.

Politicamente, Desmond Tutu criticou o capitalismo afirmando que “todas as minhas experiências com o capitalismo, infelizmente, indicaram que encoraja algumas das piores características das pessoas. Comer ou ser comido. A sua base é a sobrevivência do mais forte. Não consigo aceitar isso”. Contudo, era tido como um moderado, tanto na luta anti-apartheid como neste seu socialismo. Era crítico dos governos do bloco de Leste e chegou a afirmar, em 1985, que odiava o marxismo-leninismo “com todas as fibras do meu ser”. E criticado por vezes à esquerda pelo seu lado conciliador.
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