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Mito e antivacinação

Do A Terra É Redonda, 23 de Dezembro 2021
Por RICARDO PAGLIUSO REGATIERI*



Imagem: Karolina Grabowska

A oposição à vacina baseada nas verdades delirantes oferecidas pelos holismos românticos e pelas teorias conspiratórias

“Do mesmo modo que os mitos já levam a cabo o esclarecimento, assim também o esclarecimento fica cada vez mais enredado, a cada passo que dá, na mitologia”.[1] Essa frase resume o programa de investigação crítica da sociedade contemporânea levado a cabo por Max Horkheimer e Theodor Adorno em Dialética do esclarecimento. Iniciado e terminado durante a Segunda Guerra Mundial, esse livro começa com um capítulo sobre o esclarecimento, que é concebido como “o fundamento teórico dos seguintes”,[2] nos quais se discute a indústria cultural e elementos do antissemitismo.

A tentativa de entender a barbárie nazista, mas também a dominação por meio da cultura de massa nas sociedades democráticas, corresponde ao contexto histórico do livro. Horkheimer e Adorno buscaram compreender de que maneira o nazismo pôde mobilizar toda uma nação para a destruição dos judeus e ao fim e ao cabo para sua autodestruição, bem como de que forma a indústria cultural produzia individualidades formatadas pelos clichês. Esse esforço se deu na contramão daquela atitude que Walter Benjamin descreveu, em suas Teses sobre a história, como o “assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX ‘ainda’ sejam possíveis”.[3]

No quartel histórico atual, no qual têm prosperado líderes autoritários, mentiras e obscurantismos, um fenômeno em especial chama a atenção em alguns dos países mais prósperos do mundo: a recusa a vacinar-se contra o coronavírus. Enquanto em vários dos países mais pobres do planeta a vacinação não avançou por falta de doses ou por questões logísticas, parece que, em países de renda média ou baixa, quando há vacina, há adesão da população. Mas em outros que dispõem de estoques para vacinar mais do que o total de seus habitantes, o grande obstáculo tem sido a atitude contrária à vacina. Na Europa ocidental, onde se generalizou a obrigatoriedade do passe sanitário para acesso a restaurantes, bares, universidades e equipamentos de esporte e lazer, têm sido constantes em vários países marchas contra tal obrigatoriedade, protestos contra o que constituiria uma restrição da liberdade e todo tipo de teoria conspiratória sobre as razões ocultas para a vacinação em massa que a mídia não divulgaria.

Países como Alemanha (70%), Áustria (71%) e Suíça (67%) apresentam taxas de vacinação[4]abaixo da meta estipulada por seus governos e são palco de demonstrações públicas de resistência à vacina. Especialmente no caso desses países, não deveríamos desconsiderar o papel de correntes românticas como a antroposofia e diversas formas de naturopatia na gênese de disposições antivacinação[5]. De modo geral, essas correntes apregoam que vacinas – aí compreendidas as imunizações contra todas as doenças – perturbam o sistema imunológico dos indivíduos em sua tentativa de proteger-se de infecções.

A essa visão vitalista somam-se muitas vezes narrativas conspiratórias a respeito da inexplicável rapidez na produção das vacinas contra o novo vírus, de sua eficácia não comprovada, e do fato de que elas na verdade fariam parte de um grande projeto secreto dos governos e das indústrias farmacêuticas para controlar (ainda mais) os indivíduos. Contra a imposição das doses que comprovadamente salvam vidas, invoca-se a liberdade, que após décadas de neoliberalismo não significa mais do que a vontade e a crença subjetivas de indivíduos autocentrados. Incapazes, desnecessário dizer, de pensar no coletivo, no bem-estar e na saúde de todos.

Na Alemanha, os rebentos tardios de Rudolf Steiner, o fundador da antroposofia no início do século XX, têm constituído a linha de frente antivax no país. Médicos antroposóficos, escolas inspiradas por seu pensamento holístico[6]e adeptos desse estilo de vida são apenas a parte mais visível de uma concepção romântica e mítica do corpo e da natureza que, para além de seguidores ativos, faz em boa medida parte do senso comum alemão – e de países e regiões de fala alemã como a Áustria e a maioria da Suíça.

Na Áustria, o fracasso em ampliar a vacinação após um lockdown para pessoas não vacinadas levou o governo a impor a vacinação obrigatória de todos os cidadãos a partir de 1º de fevereiro de 2022, assim como o fez o governo da Indonésia. Áustria e Indonésia se juntarão assim ao Turcomenistão, ao Tadjiquistão, e à Micronésia, onde tal medida já entrou em vigor. No parlamento alemão, há propostas tramitando para o estabelecimento da vacinação obrigatória a partir de fevereiro próximo.

Na Suíça, as autoridades dos cantões estão em estado de alerta por conta da difusão de medicinas alternativas para a prevenção e o tratamento da COVID-19. “Valérie Soukhérépoff, pêndulo na mão, prescreve cápsulas à base de cogumelos em seu consultório na região de Basel. Ela abriu sua empresa no começo da pandemia e as cifras de seu negócio chegam a dar vertigem. ‘No primeiro ano, fizemos 302.000 francos suíços e, neste ano, o dobro’”[7]. Uma malsucedida tentativa de fortalecimento do sistema imunológico estampou as manchetes dos jornais suíços nas últimas semanas: um homem, que ingeriu partículas de prata diluídas em leite, chegou à urgência hospitalar com “fortes dores abdominais e o coração disparado” e foi diagnosticado com argiria, uma intoxicação grave decorrente da ingestão desse metal; “[s]ua pele se tornou azul e ficará assim para o resto da vida”[8].

Nos Estados Unidos (61%), cuja taxa de vacinação é ainda mais baixa do que as dos três países europeus acima citados[9], não se estabeleceu nada como um passe sanitário, em sintonia com as raízes históricas do país. Lá, não parece ser a naturopatia, e sim a afirmação da liberdade individual que desconfia de qualquer autoridade ou poder central, que esteve na gênese da constituição do país, a alimentar a oposição à vacina. Essa disposição histórica desembocou, anos atrás, em Donald Trump, sua conclusão lógica.

A despeito de seu presidente negacionista e antivacina, no Brasil (67%)[10], aparentemente, a agitação política reacionária nas redes sociais e as mentiras – chamadas de fake news – não têm impedido que as pessoas busquem se vacinar. No final de novembro, a cidade de São Paulo, onde a vacinação se iniciou no país, atingiu a marca de 100% de sua população com esquema vacinal completo[11].Isso permite supor que, caso a vacinação tivesse avançado no plano nacional no mesmo ritmo em que pôde avançar na cidade e no estado de São Paulo, a porcentagem de brasileiros vacinados estaria hoje próxima ao total da população. Uma explicação possível para essa receptividade é que as últimas três ou quatro décadas de campanhas de vacinação do SUS, que universalizaram a aplicação de vacinas no país, tenham habituado os brasileiros a se vacinar, de forma que teorias conspiratórias relativas à imunização não tiveram grande efeito por aqui em termos de recusa em receber as doses.

A oposição à vacina na figura de holismos românticos ou da entronização de uma concepção antissocial de liberdade é reveladora de movimentos regressivos no coração das democracias liberais do centro do sistema mundial capitalista. A política da convicção, da verdade individual, que corresponde à era da hiperconexão e das redes sociais, representa a forma contemporânea do mito. Para Achille Mbembe, os “regimes psíquicos contemporâneos” são marcados por um “desejo de mitologia”: “A expansão acelerada da razão algorítmica (que sabemos servir de apoio decisivo à financeirização da economia) anda de mãos dadas com a ascensão do raciocínio mítico-religioso”[12].

A glorificação do número e do cálculo e o crescente aperfeiçoamento de meios que não se conecta à preocupação pelos fins debilitaram historicamente o enfrentamento de tendências como as críticas romântico-reacionárias, que se geraram no interior do processo do esclarecimento. Dito de outro modo, o progresso sem limites fez-se acompanhar da neutralização da reflexão sobre seu próprio rumo. Por outro lado, aintransparência do aparato social, que se intensifica dia a dia, fomenta a produção e o consumo de explicações fáceis que prometem acesso imediato à verdade. As teorias conspiratórias e a fascinação por holismos de todo tipo encontram solo fértil nesse ambiente[13].

A oposição à vacina em nações que se encontram entre as mais prósperas democracias liberais do mundo expõe aquilo que Adorno, referindo-se ao radicalismo de direita na Alemanha da década de 1960, chamou de feridas ou cicatrizes da democracia[14]. Atitude antivax e autoritarismo fazem parte da mesma constelação, na medida em que ambos partilham o negacionismo da ciência e a crença em teorias da conspiração. Pode-se aplicar aos opositores da vacinação aquilo que Adorno havia afirmado a respeito dos adeptos de movimentos autoritários: “evocam sempre a verdadeira democracia e acusam os outros de antidemocráticos”[15].

Nos dois casos, energias antissistêmicas são capturadas e postas a serviço de fins regressivos. Os governos da Áustria e, ao que parece, também da Alemanha – impondo vacinação compulsória contra a COVID-19–, da Suíça – praticamente expulsando da vida social aqueles que não possuem o passe sanitário –, e dos Estados Unidos–concebendo a saúde pública como não podendo afrontar a liberdade do indivíduo –, revelam a incapacidade de enfrentar a regressão ao mito que irrompe no mundo assim chamado “civilizado”. Tal enfrentamento deveria passar por uma desconstrução refletida das verdades delirantes oferecidas pelos holismos românticos e pelas teorias conspiratórias.

*Ricardo Pagliuso Regatieri é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autor, entre outros livros, de Capitalismo sem peias: A crítica da dominação nos debates no Instituto de Pesquisa Social no início da década de 1940 e na elaboração da Dialética do Esclarecimento.



Notas

[1] Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 26.

[2] Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 15.

[3] Walter Benjamin. “Sobre o conceito da história”. In: Walter Benjamin. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura, Obras escolhidas, Volume 1. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 226.

[4] Tracking Coronavirus Vaccinations Around the World.https://www.nytimes.com/interactive/2021/world/covid-vaccinations-tracker.html. Os dados se referem à porcentagem da população que recebeu o esquema vacinal completo. Atualizado em 19/12/2021. Consultado em 21/12/2021.

[5] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2021/11/23/antroposofia-o-movimento-que-pode-explicar-a-baixa-vacinacao-em-paises-germanicos.htm

[6] Por exemplo, as escolas Waldorf, presentes em diversos países, entre eles o Brasil.

[7] RadioTélévision Suisse.https://www.rts.ch/info/regions/jura/12707406-le-recours-aux-naturopathes-face-au-covid19-inquiete-dans-le-jura.html. Consultado em 13/12/2021.

[8] RadioTélévision Suisse.https://www.rts.ch/info/regions/jura/12630653-intoxique-par-des-particules-dargent-il-a-desormais-la-peau-bleue-a-vie.html. Consultado em 13/12/2021.

[9] Tracking Coronavirus Vaccinations Around the World. https://www.nytimes.com/interactive/2021/world/covid-vaccinations-tracker.html. Os dados se referem à porcentagem da população que recebeu o esquema vacinal completo. Atualizado em 19/12/2021. Consultado em 21/12/2021.

[10] Tracking Coronavirus Vaccinations Around the World. https://www.nytimes.com/interactive/2021/world/covid-vaccinations-tracker.html. Os dados se referem à porcentagem da população que recebeu o esquema vacinal completo. Atualizado em 19/12/2021. Consultado em 21/12/2021.

[11] https://www.capital.sp.gov.br/noticia/capital-atinge-100-1-do-publico-adulto-vacinado-com-duas-doses-ou-dose-unica

[12] Achille Mbembe. Políticas da inimizade. São Paulo: n-1 edições, 2020, p. 89.

[13] Sobre essas questões, ver: Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997; Theodor W. Adorno. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Editora Unesp, 2019; Theodor W. Adorno. Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp, 2020

[14] Theodor W. Adorno. Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp, 2020, p. 51

[15] Theodor W. Adorno. Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp, 2020, p. 64.

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