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Abismo de desigualdades

Do IHU, 01 Dezembro 2021
Por Giulio Albanese



"Diante do que está acontecendo, o Papa Francisco pediu repetidamente a suspensão temporária do direito de propriedade sobre as vacinas. Mas seus apelos, é triste reconhecê-lo, caíram em ouvidos surdos. E dizer que a pesquisa, a produção e a difusão da vacina contra o covid-19 poderia ter sido a grande oportunidade de realizar o sonho de um destino comum para a humanidade", escreve Giulio Albanese, missionário comboniano fundador da Agência Misna, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 29-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Desde a última quinta-feira, a imprensa internacional tem dado grande destaque à nova variante do covid-19, chamada Ômicron, encontrada na África do Sul, capaz de muitas mutações e por isso potencialmente resistente a anticorpos e vacinas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) a definiu como preocupante. Nesse ínterim, os mercados despencaram: primeiro as bolsas de valores asiáticas, depois a Europa e finalmente Wall Street. Para os mercados financeiros, foi a pior black friday em mais de setenta anos.

As únicas ações que tiveram ganhos, como era previsível, foram as farmacêuticas; no mais, os investidores abandonariam os assets que consideraram mais arriscados. Deve-se notar que o ciclo de vacinação, de acordo com o Africa Centers for Desease Control and Prevention, foi completado em nível continental por 6,66 por cento da população, enquanto aqueles que receberam a primeira dose são 9,89 por cento.

Considerando que os habitantes da África são mais de 1 bilhão e 300 milhões, não é surpreendente que o continente em questão represente o viveiro de todo tipo de variantes. Diante do que está acontecendo, o Papa Francisco pediu repetidamente a suspensão temporária do direito de propriedade sobre as vacinas. Mas seus apelos, é triste reconhecê-lo, caíram em ouvidos surdos. E dizer que a pesquisa, a produção e a difusão da vacina contra o covid-19 poderia ter sido a grande oportunidade de realizar o sonho de um destino comum para a humanidade.

Até porque, pensando bem, o lema da Agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável até 2030 reza o seguinte: “Ninguém vai ser deixado para trás!”, “No one left behind!”. Infelizmente, mais uma vez, entre as belas propagandas de intenções e a dramática realidade cotidiana existe um abismo, o das desigualdades. A verdade é que hoje o dinheiro, como escreveu o filósofo Umberto Galimberti, tornou-se o "gerador simbólico de todos os valores". Por outro lado, se o dinheiro aumenta quantitativamente, até se tornar uma condição universal para a realização de qualquer propósito, deixa de ser um meio e passa a ser o propósito principal, neutralizando os bens e as necessidades humanas.

No entanto, deve-se reconhecer que nem sempre foi assim. No século XX, por exemplo, houve dois grandes médicos virologistas, Jonas Salk e Albert Sabin, que se opuseram ao que os filósofos definem justamente "a heterogênese dos fins", ou seja, a mudança do dinheiro de meio para fim.

Salk e Sabin tinham muitas coisas em comum. Ambos de origem judaica, imigrados da Europa oriental para os Estados Unidos e descobridores de duas vacinas contra a poliomielite (uma injetável com vírus inativado e outra oral com vírus atenuado). Ambos, apesar das pressões comerciais, não quiseram patenteá-las para que pudessem ser difundidas a todos, especialmente aos pobres. Curiosamente, os dois cientistas nunca receberam o Prêmio Nobel. A propósito: os nazistas mataram duas netas de Sabin. A quem lhe perguntou se sentia desejo de vingança, o grande virologista respondeu: “A minha vacina salvou muitas crianças na Europa, esta não é uma esplêndida vingança? Foi meu presente para todas as crianças do mundo, embora muitos tenham insistido para que eu patenteasse a vacina”. Sabin continuou a viver com o simples salário de professor universitário.

Como observa o Dr. Gianfranco Morino, médico missionário em Nairóbi (Quênia) e fundador da ONG World Friends: “O cientista não é um grande homem só por suas descobertas científicas e tecnológicas, mas sobretudo por seu valor ético e humanitário. Caso contrário, desculpem, até mesmo os cientistas que trabalham em sigilo conivente para projetar as armas mais sofisticadas seriam considerados grandes homens...”. Uma coisa é certa: não é lícito jogar a toalha. Como Salk escreveu: "A esperança está nos sonhos, na imaginação e na coragem daqueles que ousam transformar os sonhos em realidade".

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