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Guia para compreender o pós-desenvolvimento

Ideia de que é preciso superar o conceito de “progresso” – eurocêntrico e linear – difunde-se pelo mundo. Dicionário recém-lançando no Brasil compila visões e práticas que podem conduzir a uma mudança de paradigmas indispensável


De OUTRASPALAVRAS, 16 de Novembro 2021
Por Ashish Kothari, Ariel Salleh, Arturo Escobar, Federico Demaria e Alberto Acosta | Imagem: Xul Solar, Dragão (1927)



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Os textos a seguir são o Prefácio e cinco dos cem verbetes do
Pluiriverso — Dicionário do pós-desenvolvimento,
publicado pela Elefante, parceira editorial de Outras Palavras
Evite a Amazon: Pluriverso está disponível no site da Editora Elefante

Pluriverso: um dicionário do pós-desenvolvimento convida os leitores a mergulhar em uma profunda experiência de descolonização intelectual, emocional, ética e espiritual. Nossa convicção comum é de que a ideia de “desenvolvimento como progresso” precisa ser desconstruída para abrir caminho às alternativas culturais que nutrem e respeitam a vida na Terra. Esse modelo de desenvolvimento ocidental que domina o planeta é um construto homogeneizante, comumente adotado pelos povos ao redor do mundo sob intensa coerção material. O contratermo “pós-desenvolvimento” comporta uma miríade de críticas sistêmicas e maneiras de viver para além desse paradigma. Assim, este dicionário se destina a repolitizar o debate atual a respeito da transformação socioecológica, enfatizando sua multidimensionalidade. Pode ser útil para o ensino e a pesquisa, para inspirar ativistas de movimentos sociais e como introdução aos curiosos — até mesmo àqueles que estão no poder, mas já não se sentem tão confortáveis com seu mundo.

O livro não é, de modo algum, o primeiro a abordar o tema do pós-desenvolvimento. O Dicionário do desenvolvimento organizado por Wolfgang Sachs, publicado há mais de trinta anos, fez escola. Outros títulos importantes são: La invención del Tercer Mundo: construcción y deconstruccióndel desarrollo [“A invenção do Terceiro Mundo: construção e desconstrução do desenvolvimento”], de Arturo Escobar; Le développement: histoire d’une croyance occidentale [“O desenvolvimento: história de uma crença ocidental”], de Gilbert Rist; e The Post-Development Reader [“Antologia do pós-desenvolvimento”], organizado por Majid Rahnema e Victoria Bawtree. As contribuições feministas incluem Staying Alive: Women,Ecology and Development [“Manter-se viva: mulheres, ecologia e desenvolvimento”], de Vandana Shiva, e The SubsistencePerspective: Beyond the Globalised Economy [“A perspectiva da subsistência: além da economia globalizada”], escrito por Veronika Bennholdt-Thomsen e Maria Mies. Além desses, os trabalhos de acadêmicos ativistas como Ashis Nandy, Manfred Max-Neef, Serge Latouche, Gustavo Esteva, Rajni Kothari e Joan Martínez-Alier contribuíram enormemente para desenhar os contornos do futuro pós-desenvolvimentista.

O que faltava, até agora, era uma compilação transcultural de conceitos concretos, visões de mundo e práticas que surgem ao redor do planeta, capaz de desafiar a ontologia moderna do universalismo em prol da multiplicidade de universos possíveis. Esse é o significado de reivindicar um pluriverso. A ideia de criar uma coletânea como esta começou a ser discutida por três de nós — Alberto Acosta, Federico Demaria e Ashish Kothari — em Leipzig, Alemanha, por ocasião da IV Conferência Internacional sobre Decrescimento, em 2014. Um ano depois, Ariel Salleh e Arturo Escobar se juntaram ao projeto e começamos a planejá-lo seriamente, até chegarmos à atual centena de verbetes. Temos consciência das lacunas temáticas e geográficas, mas oferecemos este livro como um convite para explorar o que vemos como “modos relacionais de existência”. Isso significa reconstruir a política como meio de senti-la profundamente. Foi dessa maneira que, durante a edição — como em qualquer ato que exige cuidado —, deparamos com os limites da nossa própria reflexividade cultural, incluindo as vulnerabilidades, e, portanto, descobrimos novas formas de compreensão e aceitação. “O pessoal é político”, como dizem as feministas.

O livro dialoga com uma confluência global de visões econômicas, sociopolíticas, culturais e ecológicas. Cada ensaio é escrito por alguém seriamente engajado na visão de mundo ou prática abordada — de resistentes indígenas a rebeldes de classe média. Agradecemos a paixão e o comprometimento desses autores, muitos dos quais aceitaram imediatamente o convite para contribuir. Eles tiveram um prazo de entrega curtíssimo e foram pacientes com nossos comentários editoriais — o vaivém inevitável das tentativas de alcançar o máximo de acessibilidade e consistência.

Nosso dicionário se diferencia de outras publicações do gênero por ser dividido em três partes, e cada uma delas representa a transição histórica sobre a qual os acadêmicos e ativistas do século XXI se debruçam:

(i) O desenvolvimento e suas crises: experiências globais. O conceito de “desenvolvimento”, já ultrapassado há algumas décadas, precisa ser reavaliado como uma questão de urgência política. Nesta primeira seção, reconhecidos ativistas acadêmicos dos cinco continentes refletem sobre essa ideia e sua relação com as múltiplas crises da modernidade.

(ii) Universalizando a Terra: soluções reformistas. Aqui apresentamos um leque de inovações desenvolvidas sobretudo no Norte global e frequentemente promovidas como “soluções progressistas para a crise”. Uma revisão crítica de sua retórica e prática expõe as incoerências internas e sugere que tais ideias tendem a se tornar distrações lucrativas e ecologicamente perdulárias.

(iii) Um pluriverso popular: iniciativas transformadoras. Esta seção principal do livro é um compêndio de práticas e visões de mundo, antigas e atuais, locais e globais, que emergem das comunidades indígenas, camponesas e pastoris e de vizinhanças urbanas, além de movimentos feministas, ambientalistas e espirituais. Por múltiplos caminhos, todos chegam à justiça e à sustentabilidade.

As visões e práticas contidas neste dicionário não propõem a aplicação de um conjunto específico de políticas, instrumentos e parâmetros para escapar do “mau desenvolvimento”. Em vez disso, sugerem o reconhecimento de pessoas que têm outras perspectivas sobre o bem-estar planetário e de suas habilidades para protegê-lo. Elas procuram fundamentar as atividades humanas de acordo com os ritmos e os limites da natureza, respeitando a materialidade interligada de todas aquelas vidas.

Esse conhecimento indispensável precisa ser mantido em segurança entre os bens comuns, e não privatizado ou mercantilizado. O ponto de vista e as práticas oferecidas aqui colocam o Bem Viver acima da acumulação material. Como regra, reverenciam a cooperação em vez da competição e enxergam o trabalho como um meio de vida prazeroso, e não como um “meio de morte” do qual precisamos fugir nos fins de semana e nas viagens de ecoturismo. Da mesma forma, em nome do “desenvolvimento”, a criatividade humana é frequentemente destruída por sistemas educacionais tediosos e homogeneizantes.

Os verbetes deste livro são avaliados de acordo com critérios como: os meios de produção econômica e reprodução social são controlados de forma justa?, os humanos estão construindo relações de apoio mútuo com os não humanos?, todas as pessoas têm acesso a modos de vida significativos?, há justiça na distribuição intergeracional de benefícios e malefícios?, as discriminações de gênero, classe, etnia, raça, casta e sexualidade, tradicionais ou modernas, estão sendo eliminadas?, a paz e a não violência estão difundidas por toda a vida comunitária? Essas perguntas guiam a proposta deste dicionário: ajudar na busca coletiva por um mundo ecologicamente sábio e socialmente justo.

Concebemos o livro como uma contribuição à jornada sobre a Tapeçaria Global de Alternativas, que fortalece a esperança e a inspiração pelo aprendizado mútuo, cria estratégias de defesa e ação e constrói iniciativas colaborativas. Ao fazê-lo, não subestimamos os desafios epistemológicos, políticos e emocionais de reconstruir nossas próprias histórias. Como escreveu Mustapha Khayati, em Captive Words [Palavras cativas] (1966):

[…] toda crítica ao velho mundo foi feita na língua daquele mundo, ainda que diretamente contra ela […]. A teoria revolucionária tem sido obrigada a inventar seus próprios termos, a destruir o sentido dominante de outros termos e estabelecer novos significados […] correspondentes à nova realidade embrionária que precisa ser libertada […]. Toda práxis revolucionária sentiu a necessidade urgente de um novo campo semântico e da expressão de uma nova verdade […] porque a linguagem é a morada do poder.

Estamos ao seu lado na luta!


ASHISH KOTHARI, ARIEL SALLEH, ARTURO ESCOBAR, FEDERICO DEMARIA E ALBERTO ACOSTA
Autores de Pluriverso: Um dicionário do pós-desenvolvimento

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