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China: um comunismo neoconservador?

A campanha em andamento na China me parece muito próxima do velho procedimento conservador de querer aproveitar os benefícios do dinamismo capitalista, mas buscar controlar seus aspectos destrutivos por meio de um Estado-nação forte responsável por promover valores patrióticos.

Do Blog da Boitempo, 18 de Novembro 2021
Por Slavoj Žižek


A campanha chinesa contra as grandes corporações e a abertura de uma nova bolsa de valores em Pequim dedicada a promover pequenas empresas, podem ser vistas como movimentos recentes contra o corporativismo neofeudal, ou seja, como tentativas de trazer de volta um capitalismo “normal”. A ironia da situação é evidente: um regime comunista forte cujo poder é ameaçado por grandes corporações busca aliados entre pequenos capitalistas “normais”… É por isso que acompanho com grande interesse os escritos de Wang Huning, membro do Comitê Permanente do Politburo do Partido Comunista da China e diretor da Comissão Central de Orientação sobre a Construção da Civilização Espiritual.

Wang se autodenomina um neoconservador. Ora, o que significa isso? Se confiarmos no que diz nossa grande mídia, Wang é mente por trás dessa nova orientação da política chinesa. Quando li que uma das medidas recentemente impostas pelo governo chinês era a proibição do “996”, devo admitir que minha primeira associação foi sexual. Para bom entendedor, “69” refere-se a uma conhecida posição em que um casal realiza sexo oral simultaneamente. Assim, eu imediatamente associei “996” a alguma prática mais pervertida que estaria se espalhando na China envolvendo dois homens e uma mulher (já que há uma falta de mulheres lá). Depois fui aprender que “996” refere-se, na verdade, a um ritmo de trabalho brutal imposto por muitas corporações na China (uma jornada de trabalho das 9h às 21h, 6 dias por semana). Em certo sentido, no entanto, eu não estava totalmente errado. A campanha em andamento na China tem um objetivo duplo: promover mais igualdade econômica, incluindo melhores condições de trabalho, e eliminar a cultura popular ocidentalizada de sexo e consumismo.

O que significa portanto ser um neoconservador nas condições atuais? Em meados de outubro de 2019, a mídia chinesa lançou uma ofensiva promovendo a alegação de que “as manifestações na Europa e na América do Sul seriam um resultado direto da tolerância do Ocidente em relação às manifestações de Hong Kong”. Em um comentário publicado no Beijing News, o ex-diplomata chinês Wang Zhen escreveu que “o impacto desastroso de uma ‘Hong Kong caótica’ começou a influenciar o mundo ocidental”, ou seja, que os manifestantes no Chile e na Espanha estariam de alguma maneira seguindo o exemplo de Hong Kong. Mais ou menos na mesma linha, um editorial do Global Times acusou os manifestantes de Hong Kong de “exportarem revolução para o mundo”:

O Ocidente está pagando o preço por ter apoiado os motins de Hong Kong, que rapidamente acarretaram explosões de violência em outras partes do mundo – um prenúncio dos riscos políticos que o Ocidente não tem condições de administrar. […] Existem muitos problemas no Ocidente e há todo tipo de correntes ocultas de insatisfação latente. Muitas delas acabarão se manifestando da mesma forma que ocorreu com protestos de Hong Kong. […] A Catalunha é provavelmente apenas o começo.

Embora a ideia de que as manifestações em Barcelona e no Chile estariam sendo pautadas por Hong Kong seja um tanto forçada, essas explosões trouxeram à tona um descontentamento geral que obviamente já estava lá, à espreita, apenas esperando um gatilho contingente qualquer para eclodirem – tanto que mesmo quando a lei ou medida particular era revogada pelas autoridades, os protestos continuaram. A China Comunista joga discretamente com a solidariedade daqueles que estão no poder em todo o mundo contra populações rebeldes, alertando o Ocidente a não subestimar a insatisfação popular latente no interior de suas próprias fronteiras – como se, por baixo de todas as tensões ideológicas e geopolíticas, todas essas potências compartilhassem um mesmo interesse básico em manter o poder… Mas será que essa defesa funcionará?

Wang é um pensador autêntico. Definitivamente não se trata de uma versão chinesa de um Aleksandr Dugin, e não devemos descartar suas medidas como uma mera desculpa para impor um controle total do Partido Comunista sobre a vida social do país. Wang está respondendo a um problema real. Trinta anos atrás ele escreveu um livro intitulado América contra a América, que elencava didaticamente os antagonismos presentes no estilo de vida estadunidense, incluindo seus lados mais sombrios: desintegração social, falta de solidariedade e valores compartilhados, consumismo niilista e individualismo… Aqui, vale dizer, o populismo de Trump é uma falsa saída: trata-se de um clímax da desintegração social porque introduz a obscenidade no discurso público, privando-o assim de sua dignidade – algo não só proibido como totalmente inimaginável na China. Definitivamente nunca veremos um alto político chinês fazendo o que Trump faz publicamente: se gabar do tamanho de seu pênis, imitar os sons orgásticos de uma mulher… O medo de Wang era de que a mesma doença pudesse se espalhar para a China. Ora, é exatamente isso que parece estar acontecendo agora no nível popular de cultura de massas, de modo que as reformas em curso são uma tentativa desesperada de combater essa tendência.

Mais uma vez: será que isso vai funcionar? Sou um tanto cético.

Em primeiro lugar, vejo na forma pela qual a campanha em curso está sendo feita uma tensão entre conteúdo e forma: o conteúdo (a promoção de valores estáveis que mantêm uma sociedade unida) é imposto na forma de uma mobilização que é vivenciada como uma espécie de estado de emergência imposto pelo aparelho de Estado. Embora o objetivo seja o oposto do da Revolução Cultural, há semelhanças no que diz respeito à forma da campanha. O perigo que vejo é que tais tensões podem acabar produzindo uma descrença cínica na população. De maneira mais geral, a campanha em andamento na China me parece muito próxima do velho procedimento conservador de querer aproveitar os benefícios do dinamismo capitalista, mas buscar controlar seus aspectos destrutivos por meio de um Estado-nação forte responsável por promover valores patrióticos.

Carlo Ginzburg propôs a ideia de que é o sentimento de vergonha do próprio país, e não o amor por ele, que talvez seja a verdadeira marca do pertencimento nacional. Um exemplo supremo desse tipo de vergonha ocorreu em 2014 quando centenas de sobreviventes e descendentes de sobreviventes do Holocausto compraram um espaço de anúncio na edição de sábado do New York Times condenando aquilo que chamaram do “massacre dos palestinos em Gaza e a ocupação e colonização em curso da Palestina histórica”. “Estamos chocados com a desumanização racista extrema contra os palestinos na sociedade israelense, que atingiu um ponto absolutamente intolerável”, dizia o comunicado. Talvez, hoje, alguns israelenses reúnam a coragem para sentir vergonha diante do que Israel está fazendo na Cisjordânia e mesmo no interior do próprio Estado de Israel – não, é claro, no sentido de uma vergonha de ser judeu, mas, pelo contrário, de sentir vergonha pelo que a política israelense na Cisjordânia está fazendo com o legado mais precioso do próprio judaísmo. “Meu país, certo ou errado” é um dos lemas mais repugnantes e ilustra perfeitamente o que há de errado com o patriotismo incondicional. O mesmo vale para a China hoje. O espaço no qual podemos desenvolver esse pensamento crítico é o espaço do uso público da razão. Na famosa passagem de seu “O que é o esclarecimento?”, Immanuel Kant opõe os usos “público” e “privado” da razão: “privado” não refere-se ao espaço individual de alguém em oposição aos laços comunitários, mas à própria ordem institucional-comunal da identificação particular de alguém; enquanto “público” diz respeito à universalidade transnacional do exercício da razão de alguém:

O uso público da razão de alguém deve ser sempre livre, e apenas ele pode produzir o esclarecimento entre os homens. O uso privado da razão pode porém muitas vezes ser muito estreitamente limitado, sem contudo por isso impedir notavelmente o progresso do esclarecimento. Entendo contudo sob o nome de uso público de sua própria razão aquele que qualquer homem, enquanto sábio, faz dela diante do grande público do mundo letrado. Denomino uso privado aquele que o sábio pode fazer de sua razão em um certo cargo público ou função a ele confiado (KANT, 1985, p. 104-105)

É por isso que a fórmula iluminista de Kant não é “Não obedeça, pense livremente!”, nem “Não obedeça, pense e se rebele!”, mas sim: “Pense livremente, exponha seus pensamentos publicamente, e obedeça!” O mesmo vale para os que duvidam das vacinas: debata, publique suas dúvidas, mas obedeça aos regulamentos assim que o poder público os impuser. Sem tal consenso prático, a tendência é nos tornarmos uma sociedade composta de facções tribais – o que já está acontecendo em muitos países ocidentais hoje. Além disso, sem o espaço para o uso público da razão, o próprio Estado flerta com o perigo de se tornar apenas mais uma instância do uso privado da razão.

Há uma homologia estrutural profunda entre o autorevolucionamento permanente maoísta, a luta permanente contra a ossificação das estruturas do Estado, e a dinâmica inerente do capitalismo. Penso que Wang esteja silenciosamente ciente disso. Sinto-me tentado a parafrasear aqui a sacada de Bertolt Brecht que compara o roubo de um banco à própria fundação de um banco: afinal, o que são as explosões violentas e destrutivas de um Guardista Vermelho enredado na Revolução Cultural em comparação com a verdadeira Revolução Cultural, a dissolução permanente de todas as formas de vida exigida pela reprodução capitalista? Hoje, a tragédia do Grande Salto Adiante está se repetindo como comédia no Grande Salto capitalista modernizador: no lugar do velho slogan “uma fornalha de aço em cada aldeia”, temos “um arranha-céu a cada esquina”.

Alguns esquerdistas ingênuos afirmam o legado da Revolução Cultural e do maoísmo em geral ainda age como uma força contrária ao capitalismo desenfreado, refreando seus piores excessos, mantendo um mínimo de solidariedade social. Mas e se no fundo for exatamente o oposto? E se, de uma forma não intencional e por isso ainda mais cruelmente irônica, a Revolução Cultural, com seu apagamento brutal das tradições do passado, no fundo foi o choque que criou as condições para a explosão capitalista em curso? E se a China tiver que ser acrescentada à lista de Naomi Klein de Estados nos quais uma catástrofe natural, militar ou social abriu caminho para um novo surto capitalista?

A suprema ironia da história é, portanto, que foi o próprio Mao quem criou as condições ideológicas para o rápido desenvolvimento capitalista ao dilacerar o tecido da sociedade tradicional. Ora, qual era o seu apelo ao povo, principalmente os jovens, na Revolução Cultural? “Não espere que alguém lhe diga o que fazer, você tem o direito de se rebelar! Portanto, pensem e ajam por si mesmos, destruam relíquias culturais, denunciem e ataquem não só os mais velhos, como também o governo e os funcionários do partido! Se livrem dos mecanismos repressivos do Estado e organizem-se em comunas!” E o apelo de Mao foi de fato ouvido: o que se seguiu foi uma explosão da paixão desenfreada de deslegitimar todas as formas de autoridade, a ponto do Exército ter que eventualmente ser convocado a intervir para restaurar a ordem.

Com a guinada neoconservadora na China, todo um ciclo de política emancipatória se fechou. Em Notas para a definição de cultura, o célebre conservador inglês T. S. Eliot observou que há momentos em que a única escolha existente é entre a heresia e a descrença, quando a única maneira de manter viva uma religião é realizar uma cisão sectária de seu cadáver principal. Lênin fez isso em relação ao marxismo tradicional. Mao fez isso à sua maneira. Ambos fracassaram. Pra que a esquerda ainda tenha alguma chance, é preciso realizar essa cisão sectária.

Texto enviado diretamente pelo autor para sua coluna no Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.


Referência bibliográfica
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: o que é ‘esclarecimento’? Trad. Floriano de Sousa Fernandes. In: Immanuel Kant: textos seletos. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 104-105.

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Para saber mais sobre as diferentes interpretações da China contemporânea, confira o combo China composto por um exemplar de China: o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele, um exemplar de Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI, de Giovanni Arrighi e a última edição da revista Margem Esquerda, com dossiê “China: mercado e planificação?”
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China: o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele

A obra analisa a República Popular da China, gigante que se tornou, nas últimas duas décadas, a locomotiva do sistema econômico mundial. Afinal, o que é o socialismo chinês? Com uma postura crítica, os autores não desconsideram a complexidade da China e fogem de preconceitos ideológicos como enquadrar o país como mais um fracasso socialista ou, na via oposta, como um paraíso do comunismo realizado.

Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI, de Giovanni Arrighi
Referência inescapável para todos os que querem entender o fenômeno chinês. Aborda a preocupação do governo dos Estados Unidos e suas tentativas de conter a expansão chinesa, originada do crescimento econômico ocorrido nos anos 1990. Rejeita análises simplistas e investiga as causas e as consequências do crescimento da China.

Margem Esquerda 37, dossiê “China: mercado e planificação?“, organizado por João Quartim de Moraes e Fernando Garcia
A ascensão da China a potência mundial já é realidade há alguns anos mas continua desafiando explicações convencionais, não apenas as do “pensamento único” neoliberal como também as marxistas mais tradicionais. É este o tema de capa da nova edição da Margem Esquerda, que traz perspectivas diversas que buscam desvendar o enigma chinês. Veja aqui a apresentação da edição feita por Ivana Jinkings e Artur Renzo e confira o debate de lançamento com Elias Jabbour e Maurilio Botelho, com mediação de Bruna Della Torre.

Não perca o debate de lançamento de China: o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele Debate com Elias Jabbour, Dilma Roussef e Silvio Almeida, mediação de Tings Chak.


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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014), O absoluto frágil (2015), O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016) e o mais recente Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo (2020). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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