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Wilson Cano, um farol contra o crepúsculo

Uma revisita à obra e ao percurso de um ''intelectual genuinamente brasileiro e economista crítico''


Da Carta Maior, 31 de Outubro 2021
Por César Locatelli



Créditos da foto: Wilson Cano (Reprodução/ECO/Unicamp)


Os economistas e seus modos de pensar sua área de conhecimento variam enormemente. Há os que creem que suas “leis” são válidas em qualquer arranjo econômico, independentemente da história e da região do mundo. Talvez cheguem a acreditar mesmo que seus dogmas poderão encontrados em sociedades de outros planetas que ainda não conhecemos. Estes economistas compõem o pensamento econômico, hoje hegemônico, conservador. Eles atendem pelo nome de ortodoxos, neoclássicos e/ou neoliberais e podem ser vistos, ouvidos e lidos em todos os “grandes” meios de comunicação de massa.

Wilson Cano, bem ao contrário, alinhava-se com um grupo que não tem tanta oportunidade assim de mostrar suas ideias ao grande público. Lutava por um caminho bastante distinto, crítico ao conservadorismo. Buscava na história, nos arranjos sociais e políticos, o que determinava o estado da economia de uma região ou nação.

Crítico aos descaminhos do neoliberalismo, “Wilson Cano manteve, sem concessões, compromisso com a luta pela superação do subdesenvolvimento brasileiro, só possível, para ele, por meio de um Estado autônomo capaz de estabelecer políticas soberanas que libertassem o país da dependência externa imposta pelo imperialismo.” Como afirma a apresentação da edição especial da revista Economia e Sociedade, com o título “Wilson Cano, um farol contra o crepúsculo”.

O convite para revisitarmos a obra e o percurso do professor Wilson Cano, feito pela revista do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, também é compartilhado pelo lançamento do livro Wilson Cano - A questão Regional e Urbana no Brasil, editado pela Associação Brasileira de Economistas pela Democracia.

Entre os temas que têm nos afligido nestas duas décadas de século XXI, a industrialização e sua reversão ocuparam a maior parte da pesquisa do professor Cano, que segundo Danilo Severian e Antonio Corrêa de Lacerda, assim destaca os principais fatores da desindustrialização brasileira:

1) A política cambial vigente a partir do Plano Real (1994). Longos períodos de valorização da moeda brasileira, se por um lado serviram de “âncora dos preços”, por outro, prejudicaram a competitividade da produção e da exportação dos produtos industriais brasileiros;

2) A abertura comercial desde 1989, ainda no governo Sarney, quando se iniciou um processo de desmonte da proteção existente para a indústria brasileira, que foi ampliada no governo Collor, em 1990 e intensificada no governo de Fernando Henrique Cardoso, a partir de 1994, a qual prevalece até os dias de hoje;

3) As taxas de juros reais elevadas, que tanto leva ao “rentismo” dos agentes como inviabiliza o crédito e o financiamento para a produção;

4) O investimento direto estrangeiro. Embora tenham sido relevantes os influxos desses capitais ao longo das últimas décadas, eles pouco contribuíram efetivamente para elevação da Formação Bruta de Capital Fixo, uma vez que concentrados em fusões e aquisições de empresas já existentes e de baixa inserção no mercado internacional;

5) O quadro internacional mais complexo com o acirramento da competitividade entre EUA, Europa e China, tornando ainda mais difícil o desafio brasileiro.

O plano para estancar a regressão e voltar a trilhar um caminho virtuoso que Cano tinha em mente foi descrito por ele, em 2012, também na revista Economia e Sociedade, da seguinte forma:

“O Brasil pode e deve enfrentar a crise estrutural reportando-se, em grande medida, ao mercado interno. Há quase 200 milhões de habitantes, um grande território e uma boa dotação de recursos naturais. Não se trata de uma atitude voltada exclusivamente para o mercado interno, mas complementada em um ‘Programa Nacional de Desenvolvimento’ que tenha, além desse vetor, uma estratégia específica de exportações, introjeção tecnológica e uma priorização setorializada e regionalizada de infraestrutura e alta tecnologia22.

Em contrapartida, tal via não pode estar voltada apenas para fins de crescimento e produtividade, mas contemplar, prioritariamente, os setores que atendem às necessidades básicas da população e do país como habitação popular, saneamento básico, educação e saúde pública, que, sem dúvida, deveriam encimar a agenda de planejamento.”

Reproduzimos a seguir a íntegra da apresentação da edição recém lançada da revista Economia e Sociedade em homenagem ao professor Wilson Cano.

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Wilson Cano, um farol contra o crepúsculo

Carolina Troncoso Baltar, Fábio Antonio de Campos e Fernando Cézar de Macedo

“Soñar el sueño imposible;
Luchar contra el enemigo invencible;
Soportar la pena insoportable;
Correr donde los valientes no se atreven a ir;
Enmendar el error incorregible;
Amar pura y castamente desde la distancia;
Intentar, aún cuando tus brazos estén muy cansados;
Alcanzar la estrella inalcanzable.”
Cervantes Saavedra, Miguel de (2002).

“O real não está no início nem no fim,
ele se mostra pra gente é no meio da travessia.”
Guimarães Rosa, J. (2010).

A revista Economia e Sociedade, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp), foi fundada no ano 1992, tem se consolidado como revista científica de referência na área de economia e busca a excelência acadêmica e o amplo uso e impacto social dos trabalhos publicados. O objetivo da revista, desde sua fundação, tem sido contribuir para o desenvolvimento da reflexão crítica em temas de amplo interesse nas áreas de teoria econômica, economia aplicada (nacional e internacional), história do pensamento econômico e história econômica, acolhendo a produção heterodoxa inspirada, sobretudo, pelas tradições de Marx, Keynes, Kalecki e Schumpeter, bem como pela reflexão latino-americana sobre o desenvolvimento econômico.

A revista completou 29 anos em 2021, publicou 72 números regulares e três especiais: o primeiro em dezembro de 2008, publicando contribuições de alguns participantes do Primeiro Encontro da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), realizado no IE/Unicamp; o segundo em dezembro de 2012, para comemorar os 20 anos da revista, publicando artigos acerca da problemática do Desenvolvimento e desenvolvimentismo(s) no Brasil; e o terceiro em dezembro de 2017, publicando contribuições de alguns participantes do Seminário Internacional “Financeirização e Dinâmica do Capitalismo Contemporâneo”, realizado no IE/Unicamp.

A presente edição da revista Economia e Sociedade presta homenagem ao professor Wilson Cano (1937-2020), e conta com a colaboração dos editores convidados Fernando Cézar de Macedo e Fábio Antonio de Campos, ambos professores do IE/Unicamp e pesquisadores do Centro de Estudos do Desenvolvimento Econômico (CEDE), centro organizado e estruturado pelo professor Wilson Cano que, através de um conjunto de pesquisas individuais e coletivas, coordenou formalmente suas atividades desde o início do anos 1990.

O professor Wilson Cano foi cofundador do IE/Unicamp e professor dessa instituição desde sua origem. A vasta obra do homenageado transita por diferentes áreas das Ciências Econômicas (Desenvolvimento Econômico, Desenvolvimento Regional e Urbano, História Econômica, Política e Planejamento Econômico, Economia Internacional e Setor Público), e está direcionada principalmente para análises das economias brasileira e latino-americana.

Herdeiro e um dos principais intérpretes do pensamento estruturalista que se formou a partir da CEPAL, Wilson Cano foi um pensador do Desenvolvimento Econômico. Não por acaso, ministrou essa disciplina na pós-graduação do IE até o final de sua vida. Intelectual genuinamente brasileiro e economista crítico, Wilson Cano manteve, sem concessões, compromisso com a luta pela superação do subdesenvolvimento brasileiro, só possível, para ele, por meio de um Estado autônomo capaz de estabelecer políticas soberanas que libertassem o país da dependência externa imposta pelo imperialismo.

Sua produção acadêmica coloca-o como um dos destacados estudiosos do Brasil nos últimos cinquenta anos, especialmente sobre a questão regional e urbana, área em que formou parcela majoritária dos pós-graduandos que orientou. Seus trabalhos são recorrentemente citados por pesquisadores de diferentes áreas, o que indica seu alcance para além da Economia.

As mais de cinco décadas em que se dedicou à docência e à pesquisa foram marcadas pela formação de estudantes. Sempre avesso aos modismos escolásticos que insistem em separar economia da política, ou da lógica neopositivista do survey cada vez mais referenciada por modelagens matemáticas nas ciências econômicas, Wilson Cano entendia a fundo o significado da palavra formação ante o servilismo acadêmico. Daí sua coragem em defender sonhos cada vez mais difíceis em sua travessia de intelectual público.

O formar alunos para nosso homenageado era pavimentar o futuro de jovens cientistas sociais que tivessem como raiz, por meio da rigorosa pesquisa, o compromisso ético com a superação do subdesenvolvimento, e não apenas com o currículo.

Desse modo, um projeto social de transformação estrutural da civilização brasileira estava sempre inscrito na totalidade da práxis do nosso Professor. A soberania era pensada por Wilson como a construção de condições republicanas de independência real para a reprodução material e cultural dos brasileiros e seus irmãos latino-americanos, assim como o desenvolvimento estava muito além do crescimento econômico em si, visto que ele só fazia sentido subordinando o potencial produtivo brasileiro aos desígnios democráticos de uma sociedade justa, sem segregação social.

Os artigos que compõem este número especial dialogam com a vasta obra de Wilson Cano e refletem a diversidade temática trabalhada pelo homenageado que pode ser sintetizada no trinômio Soberania-Desenvolvimento-Sociedade, pensado e articulado em seus escritos em múltiplas escalas, por meio do fio condutor da história econômica.

O primeiro bloco desta edição da revista é aberto com o texto de Carlos Medeiros de Aguiar e Fernando Sarti, cujo título reproduz o tema mencionado: Soberania, Desenvolvimento e Sociedade. Os autores discutem a evolução e transformações nas estratégias de acumulação e nas políticas econômicas latino-americanas nas últimas décadas, com particular destaque para o que vem ocorrendo no Brasil no século XXI.

O diálogo é, sobretudo, com o livro Soberania e Política Econômica na América Latina de Wilson Cano. O argumento dos autores é que o declínio das políticas econômicas expansionistas e distributivas praticadas pelos governos da região no início do século XXI – e que foram interrompidas no Brasil – foi uma iniciativa autoimposta internamente. Ou seja, diferente da rodada de neoliberalização dos anos 1980 e 1990 quando os EUA impuseram o “Consenso de Washington”, essa rodada de “disciplina dos mercados” não decorreu de crises externas, mas “tornou-se uma iniciativa essencialmente autoimposta por decisões políticas internas”. Como resultado, as estratégias de desenvolvimento são interditadas com o desmonte do desenvolvimentismo e a “consolidação do neoliberalismo e de uma estratégia nacional passiva e subordinada de integração” como projeto da região em geral, e do Brasil em particular.

O artigo seguinte - Soberania, industrialização e integração nacional: Wilson Cano e os mosaicos do desenvolvimento brasileiro, de autoria de Danilo Severian e Antônio Côrrea de Lacerda, resgata um dos pontos centrais da obra de Wilson Cano: o papel da industrialização na integração do mercado nacional e na definição da dinâmica regional brasileira com a concentração econômica em São Paulo. Aponta a importância da integração e unidade das regiões dentro de um projeto nacional de desenvolvimento que recupere a centralidade do mercado interno e da indústria para a economia do país. Para tanto, é preciso resgatar, também, a formulação e, principalmente, a execução de políticas explicitamente direcionadas para o desenvolvimento regional, o que vem sendo sistematicamente interditado pela política econômica em curso. Ao interditar o desenvolvimento do país, esta inviabiliza políticas regionais de inclusão produtiva.

Em Aspectos políticos da economia política do desenvolvimento e do subdesenvolvimento em Wilson Cano, Evaldo Gomes Junior, Pietro Caldeirini Aruto e Vitor Hugo Tonin analisam – a partir de categorias marxistas – a política econômica da América Latina, porém centram o estudo para o caso brasileiro, e tomam como referência os escritos do homenageado, especialmente seus estudos regionais e urbanos. Observam o rigor metodológico de Cano, que tem “uma preocupação em relacionar vários níveis de abstração a partir do espaço e dos territórios, sem perder de vista os determinantes gerais da acumulação de capital, traduzidos em sua preocupação com a periodização do desenvolvimento capitalista da região”. Os autores propõem uma nova leitura para a questão da formação espacial brasileira, que supere a interpretação dos desequilíbrios regionais atrelados principalmente ao predomínio do capital mercantil na periferia regional do país. Com isso, apontam que a superação das mazelas sociais e econômicas na formação espacial brasileira (e latinoamericana) não pode ser superada no capitalismo dependente, visto que as desigualdades são ampliadas por ele no território. Mediante um particular padrão de reprodução, circulação e apropriação de capital, se aprofundam neste capitalismo dependente da transferência de valor, da submissão externa e das iniquidades espaciais.

O artigo Complexo econômico e complexidade econômica: originalidade e atualidade em Wilson Cano, de Bernardo Campolina e Clélio Campolina Diniz, resgata o conceito de complexo econômico de Wilson Cano, desenvolvido no primeiro capítulo de seu livro Raízes da Concentração Industrial em São Paulo, de modo a discutir sua atualidade teórica e metodológica para analisar países de grande dimensão e com diversidade territorial, como é o caso do Brasil. Por meio desse conceito, Wilson Cano estabeleceu “os encadeamentos entre os fatores econômicos, políticos, sociais e geográficos para explicar a trajetória do desenvolvimento paulista e as limitações à trajetória verificada em outras regiões”, ou seja, criou um método de análise para compreender o desenvolvimento do Brasil colocando no centro a questão territorial e as múltiplas escalas espaciais de análise. Os autores apresentam um contraponto entre a contribuição de Cano e autores da metodologia da complexidade econômica, e indicam que o primeiro incorporou elementos históricoestruturais que tornam sua contribuição mais totalizante para a compreensão da realidade.

De Antônio Carlos Diegues, o artigo Os limites da contribuição da indústria ao desenvolvimento nos períodos Lula e Dilma: uma nova versão do industrialismo periférico? aborda o que possivelmente foi o tema de pesquisa sobre o qual Wilson Cano mais se debruçou nos anos finais de sua vida: os caminhos e descaminhos da indústria no Brasil e o processo de desindustrialização que ele identificou, diferente da grande maioria dos autores, como possuindo raízes nos anos 1980. Especificamente neste texto, Diegues não se restringe apenas a reproduzir o debate acerca da desindustrialização e especialização regressiva que se estabeleceu no país neste século, mas procura “mostrar empiricamente a incapacidade da indústria brasileira nos anos 2000 de engendrar um processo virtuoso de crescimento associado à transformação estrutural”, além de “mensurar e analisar as especificidades de tais limitações segundo diferentes blocos setoriais”. Conclui o autor pela incapacidade da indústria no Brasil em viabilizar uma estratégia de desenvolvimento virtuoso, com maior produtividade, maior nível salarial e sofisticação das exportações, consolidando uma nova versão com o “industrialismo periférico”.

Fábio Lucas Pimentel de Oliveira, no artigo O mito do imperialismo paulista revisado, resgata e atualiza um polêmico ponto da questão regional que surgiu com a integração do mercado nacional e a interdependência das economias regionais e a de São Paulo, e que foi criticado por Wilson Cano: a ideia advogada pelas elites regionais de que “a desgraça do Nordeste se deve à felicidade de São Paulo”. O autor afirma que embora esse discurso subsista, mesmo com menor força, ele faria cada vez menos sentido com a seletividade dinâmica do território que reordenou as articulações das economias regionais entre si e com o exterior, tornando a tese do imperialismo paulista mais frágil ainda.

O texto de Maria do Livramento Clementino Economia Regional e a produção do urbano crítico: lições de Wilson Cano traz uma oportuna atualização das contribuições do homenageado sobre o processo de urbanização brasileira, com particular destaque para o Nordeste. A autora recupera três lições de Wilson Cano, centrais para o entendimento dos diferentes processos de urbanização que emergiram das grandes mudanças estruturais decorrentes da industrialização do país: i) a análise do urbano a partir de suas inter-relações com o rural; ii) o papel do Estado via ações e omissões nas urbanizações regionais; e, iii) a função do capital mercantil na formação dos espaços regionais e de seus processos de urbanização.

O segundo bloco desta edição é dedicado a depoimentos de ex-colegas de trabalho que conviveram em diferentes situações com Wilson Cano. Como será possível observar, há uma convergência no reconhecimento da importância dele como Professor que se dedicou integralmente à docência e à pesquisa, fazendo da vida universitária um sacerdócio, como escreveu um dos depoentes. Essa dedicação integral de Wilson às atividades acadêmicas e a defesa intransigente da universidade pública são reconhecidas em todo o país e não surpreende ser repetidamente destacada nos depoimentos. Atesta acima de tudo a determinação inabalável de Wilson ao ofício que abraçou e revela o compromisso de homem (e servidor) público. Foi, na verdade, um Mestre, em maiúsculo, visto que sempre acreditou ser possível estabelecer dentro da universidade uma trincheira de luta e de resistência que ajudasse na construção da nação, formando estudantes e construindo um pensamento crítico que não se curvasse ao pensamento hegemônico e conservador. Wilson jamais se furtou ao debate.

Também é amplamente reconhecido o legado de sua obra, que é estudada em cursos de graduação e pós-graduação de Economia, mas não apenas. Sua capacidade para formar quadros fez dele um dos mais influentes acadêmicos de sua área, com discípulos espalhados por todo o país. Foram mais de sessenta dissertações e teses orientadas por ele. Tudo isso é de conhecimento público, sendo mais de uma vez destacado nos depoimentos. Todavia, eles trazem uma face do Mestre pouco conhecida, só familiar para os que tiveram a oportunidade de conviver mais intimamente com ele: sua generosidade, seu acolhimento e seu espírito fraterno, sempre preocupado com a situação de seus colegas e estudantes, que ele recebia em sua casa em eventos de confraternização, ou com quem dividia a mesa do bar, especialmente às sextas-feiras, após o expediente que ele cumpria ritualisticamente até o último minuto.

Essa totalidade, em ser e viver formando críticos corajosos e comprometidos com a construção da soberania, por meio do desenvolvimento e da organização social, estava igualmente na descontração, no culto à festa e no bem viver destas relações de intimidade. Cano, por ter uma origem humilde, de grandes batalhas pessoais, conseguia vincular sua elevada sofisticação intelectual com a sabedoria popular que solda nossas mais ricas diferenças regionais, exprimindo uma brasileiridade autêntica. Para ele, o erudito e o popular desconheciam fronteiras, pois se intercambiavam, bailavam-se, em nome do que há de melhor em nós. Estar com o Professor nessa intimidade significava, portanto, deixar o conhecimento vibrar tanto pela exigência acadêmica, quanto pelo pendor especulativo, improvisado, sincopado, que só uma mesa de bar pode produzir.

Tamanha sabedoria do Mestre talvez se deva a conhecer desde cedo o real, a concretude dos dramas de viver e de conquistar identidade em terras opressivas onde a economia subdesenvolvida se renova; em que nem mesmo uma de suas maiores utopias, a industrialização, conseguiu superá-la.

Pelo contrário, o desenvolvimento industrial brasileiro e sua crise, sem romper com os gânglios mercantis do passado e com o imperialismo, também produziram sua negação, e com ela o fim de um sonho desenvolvimentista que tanto nutriam as expectativas do Professor. Estamos agora naquele lusco-fusco em que o neoliberalismo é muito mais que uma política econômica contra a qual Wilson sempre lutou em sua existência, mas um modo de vida crepuscular, inclusive acadêmico, que drena nossas melhores energias para manter a engrenagem funcionando. Que o farol intelectual e de grande caráter de Wilson Cano nos resgate contra tudo isso, nos lançando novamente aos sonhos impossíveis nos quais ele sempre nos fez acreditar, em sua invejável travessia de intelectual público.

Boa leitura!

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