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Vozes da seca

Do A Terra É Redonda, 26 de Outubro 2021
Por LUIZ ROBERTO ALVES*



Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze),
[sem título], c.1937-50.

O ente financeiro travestido de algumas notas de reais veste o dia a dia dos humilhados e ofendidos do Brasil por meio de distintas significações

Luiz Gonzaga e Zé Dantas entenderam bem os avatares econômicos do populismo na canção Vozes da Seca, em que se lê: “[…] uma esmola a um homem que é são/Ou lhe mata de vergonha/Ou vicia o cidadão”. Os autores sabem mover as linguagens da política, entre o subterfúgio do adjutório, a esmola e a garantia da vida comunitária e social, também presente sob a forma de grandes projetos de atividade perene diante das secas e do desequilíbrio regional, seja o açude, seja o manejo dos instrumentos econômicos adequados e, portanto, garantidores da “comida a bom preço”.

Sabem trabalhar com o ou e o e, bem como a adversativa mas. Enquanto o ou faz acumular dois males psicossociais, a vergonha e o vício, a conjunção aditiva é suposta na lista de ações permanentes e transformadoras. A esmola é revertida pela governança competente, operadora e justa, quase uma utopia na história administrativa do Brasil.

Tais avatares não são o que se entendeu por renda mínima, jamais levada a sério. De fato, se definem pelas ajudas circunstanciais dos governos aos que se aproximam ou avançam na miséria resultante das próprias políticas dos governos em que a miséria cresce. No fundo, o adjutório, que cabe muito bem no conceito de esmola em Gonzaga, jamais considerou quais são as “máquinas trituradores dos pobres”. Ao não fazê-lo, concordou com elas e tomou o chá da tarde com seus fabricantes, os donos e atravessadores dos capitais e sua mais-valia crescente.

O ente financeiro travestido de algumas notas de reais veste o dia a dia dos humilhados e ofendidos do Brasil por meio de distintas significações: a compensação no jogo desigual do capitalismo, o direito do grupo familiar à comida mais de uma vez ao dia, o apoio no interregno dos desajustes na empregabilidade, o ato circunstancial de favorecer a frequência à escola, a apropriação do apoio eleitoral das milhões de famílias e sua provável lealdade partidária, o desaguadouro orçamentário na penúria ou na ausência de efetivas políticas e mesmo a emulação comparativa entre governantes e legisladores, cada qual oferecendo valores-avatares com alguma distinção relativa a outros que já haviam oferecido tais esmolas.

Nenhum dos trajes vestidos na ação doadora é digno. São trapos-avatares que, no máximo, satisfazem a consciência, feliz ou infeliz, dos doadores. Mas sinalizam, sempre, o fracasso das políticas que fortaleceriam todo o tecido social e garantiriam a massa crítica em face de revezes futuros das políticas perenes. Um governo que não é capaz de garantir alguma perenidade nas interações sociais do futuro e na garantia da dignidade fundamental da res publica só pode ser considerado fraco e incompetente. Como ocorre com a educação e o ensino. Se o trabalho dos supostos educadores não garante a formação de movimentos estudantis a favor da ciência, da justiça social, das boas políticas, da independência do pensamento e do exercício pleno da cidadania, com certeza não foram educadores ou educadoras. Uma educação de avatares, fogos-fátuos.

A leitura do Gonzagão e seu parceiro vem a propósito como dado radical no contexto da campanha eleitoral já iniciada. E ela está na rua porque o advento das redes sociais, da multidão de avatares providos pela inteligência artificial.

Luiz Roberto Alves é professor sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP.

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