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PEQUENOS FASCISMOS, GRANDES NEGÓCIOS

O bolsonarismo como empreendedorismo – e o que isso diz sobre a natureza da direita e do capitalismo hoje



Por Rodrigo Nunes
Da Revista Piauí, Edição 181, Outubro 2021


As pesquisas mais recentes sugerem que o coquetel de inépcia, descaso, erosão institucional e, agora, corrupção graúda finalmente começou a minar a base de apoio de Jair Bolsonaro. Algumas coisas, no entanto, se mantêm inalteradas; entre elas, como ficou evidente nas manifestações do Sete de Setembro, está a fidelidade dos eleitores mais velhos, dos mais ricos e dos que se declaram empresários.

Não surpreende que o empresariado permaneça bolsonarista, já que este foi o único setor com o qual o governo demonstrou algum cuidado ao longo da pandemia. Em meio ao fluxo de desinformação que jorrava diretamente do gabinete presidencial, uma das poucas mensagens constantes dizia que nenhuma preocupação era maior que a economia, e era ao bem dela que todas as outras estavam subordinadas.

Não que isso se traduzisse em incentivos às empresas e medidas enérgicas para proteger empregos. O apoio de Bolsonaro aos empreendedores expressou-se de maneira essencialmente simbólica, mas nem por isso ineficaz. Deu-se na sabotagem permanente às medidas restritivas de estados e municípios; na crítica ao fechamento do comércio e nos acenos aos movimentos organizados por empresários para exigir que seus negócios continuassem funcionando; e, sobretudo, na afirmação reiterada de que não haveria mais nada a fazer senão seguir trabalhando normalmente enquanto as mortes se acumulavam.

A relação entre bolsonarismo e empreendedorismo não se esgota aí, porém. Seria apressado entender a popularidade de Bolsonaro entre os empresários e os mais ricos como sendo essencialmente a mesma coisa. Apesar da perda de apoio entre as classes mais baixas, continua havendo tanto um bolsonarismo de classe alta quanto um bolsonarismo popular, justamente porque o bolsonarismo é um fenômeno interclasses. Para que essa aliança entre classes fosse possível, foi preciso que algumas imagens e palavras produzissem identificação entre setores muito díspares da sociedade. Assim como “mamata” (que constrói um inimigo que vai da “velha política” até os cotistas nas universidades) e “cidadão de bem” (que tem sentidos diferentes para diferentes pessoas), “empreendedor” foi um desses signos. Afinal, trata-se de um termo que não só cobre realidades muito distintas – do executivo ao trabalhador informal, do proprietário de uma cadeia de magazines ao pequeno lojista –, como, ao representar um objeto de aspiração, pode se referir tanto à realidade quanto a um desejo. Num mundo em que as pessoas são constantemente exortadas a admirar os empresários e enxergar as coisas a partir de sua posição, não é de estranhar que uma candidatura que se apresentava como defensora dos empreendedores pudesse atrair ricos e pobres ao mesmo tempo.

Mas a função de operador ideológico de uma aliança entre diferentes classes também não diz tudo sobre o papel do empreendedorismo na política atual. É preciso entender o bolsonarismo não apenas como pró-empreendedor, mas como um fenômeno empreendedorístico em si mesmo. Desde a viragem que transformou o progressismo difuso de 2013 nos protestos pró-impeachment de 2015, “ser de direita” (gradualmente, de extrema direita) tornou-se uma opção de carreira para uma série de pessoas. Esse “empreendedorismo político” teve um papel fundamental na construção da onda que alçou Bolsonaro à Presidência – e, evidentemente, atingiu outro patamar com a tomada do poder.

A
ideologia do empreendedorismo prevalente nas últimas décadas possui diversas fontes, que vão do neoschumpeterianismo do teórico da administração Peter Drucker à generalização do “empreender” como praticamente sinônimo da ação humana pela Escola Austríaca de Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek. Em países como o Brasil, sua disseminação a partir dos anos 1980 se deveu sobretudo a quatro fatores. Os dois principais foram, naturalmente, a hegemonia absoluta das ideias neoliberais no debate público e as políticas inspiradas por essas ideias, que favoreciam o mercado como mecanismo de alocação de recursos em detrimento de direitos sociais e serviços públicos, aumentando a coerção econômica sobre as pessoas e intensificando a lógica do “matar ou morrer”. Mas pesaram também a penetração crescente de igrejas evangélicas pregando a chamada “teologia da prosperidade” e o boom da indústria da autoajuda e do coaching. Esta última, uma espécie de ouroboros do empreendedorismo, no qual a demanda constante de auto-otimização para o mercado é ela mesma transformada em oportunidade de negócios, consiste no curioso ramo em que um indivíduo cujo único negócio é ele mesmo ensina a outros indivíduos os segredos para ter sucesso nos negócios.

Os governos de esquerda que prosperaram na América Latina no início deste século não representaram um momento de refluxo da ideologia do empreendedorismo. Conforme aponta a cientista social argentina Verónica Gago em seu livro A Razão Neoliberal: Economias Barrocas e Pragmática Popular, eles a mobilizaram amplamente ao mesmo tempo que, num certo sentido, a “democratizavam”. Nesse período, as condições econômicas favoráveis e a aposta em políticas distributivas e no mercado consumidor interno criaram as bases para um “empreendedorismo popular” como fonte de dinamismo econômico e de ascensão social. Com isso, o progressismo contribuiu para a consolidação daquilo que Gago denomina de “neoliberalismo desde baixo”: uma condição em que as classes populares, cada vez mais habituadas à privatização dos riscos e aos discursos de legitimação da ordem econômica promovidos pelo neoliberalismo, internalizam a lógica do “empreendedor de si mesmo” e passam a conceber nesses termos suas próprias estratégias de vida.

Mesmo em condições normais, o mercado sempre produz muito mais perdedores que vencedores. Aliás, a ficção de que ele seria um espaço em que os indivíduos florescem exclusivamente por seus méritos normalmente serve para que os vencedores disfarcem todas as vantagens que tiveram (na forma de riqueza intergeracional, boas conexões e acesso privilegiado ao poder político, por exemplo). Mas a força da ideologia do empreendedorismo provém do fato de que a identificação com ela não só não precisa de uma base material (ela se refere mais a uma atitude que a uma atividade), como tende a tornar-se mais forte, e não mais fraca, diante da impossibilidade de se realizar. Quando se crê que o êxito depende exclusivamente do esforço individual, o fracasso não é experimentado como sinal de que os dados estão viciados, mas como culpa, vergonha e chamamento para dar ainda mais duro. O sucesso e a própria figura do empreendedor se tornam, assim, objetos daquilo que a teórica norte-americana Lauren Berlant, recentemente falecida, chamou de “otimismo cruel”: o apego a uma promessa de felicidade que não só nunca se concretiza como nos impede de obter felicidade, mas à qual retornamos de novo e de novo com a esperança de que “dessa vez vai ser diferente”.

Acumulada ao longo de décadas, essa repetição produz tanto solidariedade negativa (o sentimento de que “se eu tenho que passar por isso, todo mundo também tem”) quanto ressentimento (o ódio oriundo da experiência de não obter aquilo que se imagina merecer). Vem daí muito do material que Donald Trump e outros líderes de extrema direita tiveram para trabalhar nos Estados Unidos e na Europa. Mas o ressentimento também se pode produzir num tempo bem mais curto, caso haja um achatamento súbito do horizonte futuro, como ocorrido no Brasil. Sem dúvida não foi apenas a onipresença e o apelo perverso da ideologia do empreendedorismo que atraíram pessoas de realidades bem díspares à candidatura de Bolsonaro em 2018. Foi também a crise econômica iniciada em 2014, que frustrou expectativas tanto na parte de cima quanto na parte de baixo da pirâmide social. A explosão concomitante de um grande escândalo de corrupção ofereceu ao mesmo tempo uma explicação causal simples e um alvo fácil para o ressentimento: a culpa fora da “velha política” e da “roubalheira do PT”. Como os anos de roubalheira do PT haviam sido também vantajosos para determinados grupos sociais, o ódio podia ser estendido ao porteiro que tinha conseguido viajar para Nova York, à filha da empregada doméstica que entrara na universidade pública, aos indígenas cujas terras foram reconhecidas, às pessoas LGBTQIA+ que ganharam proteções legais ou organizaram eventos com apoio da Lei Rouanet.

O ressentimento súbito causado pela crise podia, assim, comunicar-se com um ressentimento que se acumulara progressivamente ao longo da década anterior, e talvez até antes. Ao contrário do primeiro, comum a ricos e pobres, o segundo estava mais concentrado num estrato social determinado – a baixa alta classe média.

Quando Trump ganhou as eleições de 2016, a surpresa foi quase inteiramente posta na conta da mítica “classe operária branca” das regiões desindustrializadas por décadas de globalização neoliberal. Embora esses eleitores talvez tenham de fato decidido o resultado da votação em seus distritos, essa análise confundia anedota e fato ao ignorar que apenas 25% dos eleitores de Trump correspondiam ao perfil de pessoa branca, sem diploma universitário e com renda familiar abaixo da mediana nacional, ou não ver que eleitores pobres em relação à mediana nacional se revelavam relativamente afluentes na comparação com as áreas em que viviam (“nacionalmente pobres”, mas “localmente ricos”). Da mesma maneira, no Brasil, enquanto a esquerda foca nos milionários que apoiam o governo e a direita tenta se apresentar como a verdadeira voz do povo, talvez devamos identificar o coração do bolsonarismo com um estrato que poderíamos chamar, aproveitando a expressão de George Orwell em O Caminho para Wigan Pier, de “baixa alta classe média”.

No Brasil de hoje, muito distinto da Inglaterra eduardiana em que Orwell cresceu, o que esse rótulo designaria é um estrato de pessoas constantemente assombradas pelo fantasma da mobilidade social negativa. Embora sua renda as situe na classe média ou média alta, faltam-lhes a riqueza acumulada em ativos e o capital cultural e social de pessoas com padrões de vida semelhantes. Essas carências as deixam particularmente sensíveis às diferenças de status e expostas às flutuações da economia. Frutos da ascensão social de primeira ou segunda geração, ou herdeiras de famílias que viram a riqueza encolher, elas estão permanentemente numa espécie de meio do caminho: consumo elevado, mas à custa de endividamento; diploma universitário, mas sem brilho e em instituições de pouco prestígio; empresa própria, mas nunca operando numa margem inteiramente confortável.

A condição de “lúmpen-elite” as torna presa fácil de um ressentimento dirigido tanto para cima quanto para baixo. Para cima, ressentem-se de uma elite cultural que domina códigos que lhes escapam (e que elas veem como simples marcadores de distinção social), uma elite social que possui as conexões que lhes faltam (e que se apresentam como uma rede fechada de compadrio) e uma elite econômica que detém a riqueza a que elas almejam (objeto de inveja ao mesmo tempo que de emulação). Para baixo, ressentem-se da ameaça de perda dos próprios marcadores de distinção: a exclusividade no acesso a bens de consumo como viagens internacionais, espaços como a universidade ou serviços como o trabalho doméstico. Essa ansiedade em torno do status implica, por sua vez, uma alta vulnerabilidade a perturbações naquilo que o filósofo político norte-americano Corey Robin chamou de “vida privada do poder” – e que podemos compreender estendendo a ideia do sociólogo norte-americano W. E. B. Du Bois de um “salário psicológico da branquitude” para falar também de relações de classe e gênero. O ressentido frequentemente encontra compensação na possibilidade de sentir-se superior ao garçom, à empregada doméstica, ao negro (no caso do branco), à mulher (no caso do homem), ao gay ou trans (no caso do cis-hétero) – e por isso se ressente de qualquer risco de perder essas vantagens.

A baixa alta classe média não deixou de se beneficiar com os anos da bonança lulista, mas viu seus ganhos diminuídos na comparação com os lucros dos mais ricos e os avanços simbólicos e materiais dos mais pobres. Foi nesse ambiente que a pregação de figuras como Olavo de Carvalho encontrou terreno fértil, ao situar, no mesmo quadro de uma grande conspiração contra os valores ocidentais, a frustração do concurseiro que não era aprovado em concursos (e passou a culpar as cotas raciais), do homem que não conseguia ser um macho alfa (e passou a culpar o feminismo), do adulto que se sentia intelectualmente diminuído (e passou a culpar o marxismo cultural) e do empreendedor malsucedido, para quem o problema eram as políticas redistributivas, entendidas não como mecanismos de fomento à atividade econômica e reparação de desigualdades históricas, mas como subornos dados pelo governo a grupos de interesse. Com isso, os sentimentos de fracasso e impotência encontravam não só uma explicação, mas um espaço de abrigo e organização. Nesse sentido, a formação da nova direita brasileira de 2013 até o presente, com seus protestos ocasionalmente delirantes e seus pânicos morais em torno de universidades e exposições de arte contemporânea, talvez tenha sido o maior programa de saúde mental que o Brasil já conheceu.

É no nicho da baixa alta classe média que o bolsonarismo mais convicto se criou e se mantém. A própria família Bolsonaro, aliás, provavelmente pertenceria a ele se não tivesse descoberto um tino certeiro para a política. Mas daí não sai apenas a maioria dos seguidores mais aguerridos da nova direita, senão também muitos de seus organizadores e intelectuais orgânicos. Na medida em que a instabilidade política e econômica revelou a existência desse filão, centenas de empresários falidos, roqueiros decadentes, atores fracassados, jornalistas de reputação duvidosa, subcelebridades “ativistas”, traders batalhadores, coaches medíocres, policiais e militares buscando complementar a renda – toda a fauna pitoresca dos agitadores “conservadores”, “patriotas”, “liberais” e “anarcocapitalistas” – encontraram nele a oportunidade de uma nova carreira.

Fosse pela criação de movimentos habilitados a captar recursos de destinação nebulosa, fosse pela conquista (ou reconquista) de espaços na mídia tradicional, fosse pela monetização de canais no YouTube e perfis no Instagram, eles constituíram um circuito em que a acumulação de capital político se convertia facilmente na acumulação de capital econômico, e vice-versa. Essa convertibilidade é, aliás, simultaneamente o meio pelo qual a trajetória de empreendedor político se constrói e um fim. Ao consolidar-se como influenciador, o indivíduo se cacifa para pleitear um cargo público, seja por eleição ou indicação; o cargo público, por sua vez, traz notoriedade e uma audiência fiel, retroalimentando a performance nas redes sociais. Mesmo quando não conduz a uma carreira na política, esse tipo de empreendedorismo sempre envolve vantagens pecuniárias, tanto diretas (convites para palestras, contratos publicitários e editoriais, venda de produtos como camisetas e adesivos, verbas públicas) quanto indiretas (perdão de dívidas fiscais, empréstimos, acesso a autoridades).

É nesse sentido que a onda de extrema direita que surpreendeu a muitos em 2018 deve ser entendida também como um grande movimento empreendedorístico. Esse é, por sinal, um dos pontos em que fenômenos como Bolsonaro e Trump mais se distinguem dos movimentos fascistas históricos do período entre guerras. Enquanto aqueles contavam com organizações de massa altamente disciplinadas, concebidas à imagem de um exército paralelo, seus epígonos contemporâneos se assemelham mais a um enxame de empreendedores desbravando um nicho de mercado.[1] Empregando plataformas digitais em vez de formas mais tradicionais de organização, eles conectam uma demanda (frustrações, mágoas e desejos variados) a uma oferta (acolhimento, explicações, soluções e válvulas de escape). Uma vez que a base sobre a qual se dá esse encontro é a fragilidade emocional gerada pela incapacidade de corresponder às próprias expectativas, há um terreno fértil aí para oportunistas e aproveitadores de todo tipo.

Nisso, aliás, a agitação de extrema direita e o mundo do coaching se assemelham bastante: em ambos os casos, para alimentar o “otimismo cruel” que sustenta a crença no empreendedorismo, é essencial que os candidatos a influenciadores saibam interpretar o papel de objetos de admiração. Mesmo sem ter jamais tido qualquer atuação empresarial, é preciso projetar a atitude do empreendedor; e por mais que a nova carreira esconda um fracasso na anterior, eles devem se apresentar como vitoriosos no mundo competitivo do mercado, grandes expoentes em suas respectivas áreas, autoridades cujos méritos autoevidentes só deixaram de ser reconhecidos por causa de algum complô. Daí que a militância bolsonarista mais aguerrida apareça tão claramente dividida entre aqueles que sofrem por não atingir as alturas prometidas por sua visão de mundo e aqueles que dizem conhecer algum segredo oculto ou fórmula do sucesso. Para cada Ricardo Vélez Rodríguez – um ressentido de província à moda antiga, carola e nostálgico – há sempre um Markinhos Show, o assessor especial nomeado pelo general Eduardo Pazuello para o Ministério da Saúde, cujo site o descreve como “Palestrante Motivacional, Master Coach, Analista em Neuromarketing, Especialista em Marketing, SEO, Hipnólogo, Mentalista, Practitioner em PNL, Músico, Empreendedor e Especialista em Marketing Político”. Mesmo o ministro Paulo Guedes, o quadro supostamente “técnico” do governo Bolsonaro, é alguém cuja capacidade intelectual nunca foi tida em alta conta por seus pares, mas que logrou converter o êxito como operador da Bolsa num cargo ministerial em que combina a função de animador de auditório dos investidores com a venda constante de terrenos na Lua.

Dado que foi nesse meio do empreendedorismo freestyle que o bolsonarismo recrutou boa parte de seus quadros, não surpreende que o governo agora se revele infestado de picaretas negociando com falsários, conforme sugerem as farsas que a CPI da Pandemia tem revelado. Mas as oportunidades de negócios não se esgotaram com a distribuição de cargos comissionados para apoiadores sem quaisquer qualificações perceptíveis, nem com a destinação de recursos públicos a influenciadores digitais amigos, nem com despesas com comidas e bebidas de luxo possivelmente superfaturadas, ou com o relaxamento dos mecanismos de controle, o sigilo do cartão corporativo ou a entrega de nacos da administração e do orçamento a parceiros. O fenômeno do “tratamento precoce”, promovido por uma rede de influenciadores do mundo médico em sinergia com laboratórios farmacêuticos e um governo interessado em se eximir da responsabilidade pelo combate à Covid-19, mostra que o bolsonarismo segue produzindo enxames e celebridades de nicho habilitadas a voos mais altos num futuro não muito distante.

Há fortes indícios de que, pelo menos no seu estado atual, a agitação nos Estados Unidos é tanto um conto do vigário quanto um movimento político”, escreveram Leo Löwenthal e Norbert Guterman no clássico Prophets of Deceit (Profetas do engano), um estudo recentemente republicado da retórica utilizada por propagandistas de extrema direita. O ano era 1949. “Não devemos esquecer que o agitador confia que sua audiência seja feita de ‘otários’”, afirmam os autores. “Pessoas que carregam uma mágoa do mundo porque sentem que foram passadas para trás, e que são, portanto, inseguras, dependentes e confusas.” Mais recentemente, o historiador Rick Perlstein apontou que a longeva promiscuidade entre interesses comerciais e propósitos políticos no interior do movimento conservador norte-americano torna impossível dizer onde acabam os negócios e começa a ideologia. “Eles são duas faces da mesma moeda, o golpe da cura milagrosa para doenças do coração que custa apenas 23 centavos se transformando infinitesimalmente no golpe das minúsculas taxas marginais de imposto como a cura milagrosa para os problemas nacionais.”[2] O conservadorismo, “nesse aspecto como em muitos outros”, conclui Perlstein, é igual aos esquemas de pirâmide ou ao famigerado “marketing multinível” de empresas como a Amway – um velho ímã da baixa alta classe média.

No discurso da meritocracia, a promessa aparentemente democrática de que todos podem “chegar lá” por seu próprio esforço se equilibra precariamente com a celebração aristocrática dos que efetivamente “chegam lá” como indivíduos dotados de faro e coragem acima da média. Era assim, por exemplo, que o economista Joseph Schumpeter exaltava a “destruição criativa” promovida pelo empreendedor, um revolucionário cujos feitos estão “fora das atividades rotineiras que todos entendem”. Num mundo extremamente desigual, essa dualidade inevitavelmente produz, numa ponta, o sofrimento altamente individualizado do fracasso e, na outra, a esperança de que a sorte grande esteja sempre logo ali, ao alcance de quem souber reconhecê-la. O elogio do esforço facilmente se converte, assim, na valorização da esperteza e do golpe de sorte.

Isso fica ainda mais claro quando passamos da narrativa épica de Schumpeter para aquela, mais modesta, de Friedrich von Hayek – na qual o herói não é um inovador radical, mas alguém que sabe tirar vantagem de uma informação privilegiada. Para Hayek, o mercado é um grande processador de informação que comunica diferenças vantajosas nas condições de produção por meio das variações de preço. É o fato de possuir uma informação exclusiva – como obter mão de obra ou transporte mais barato, por exemplo – que permite a um agente vender a um preço mais baixo. Ao fazê-lo, ele estará ao mesmo tempo tirando um proveito econômico desse conhecimento e trazendo uma novidade útil para o restante do sistema. É assim que, como escreve Hayek em Direito, Legislação e Liberdade, “quando só uns poucos já estão inteirados de um importante fato novo”, serão “os tão difamados especuladores” que “logo tratarão de difundir essa informação relevante através de uma oportuna mudança de preços”. O caminho mais curto para o sucesso é a descoberta, seja ela de uma pequena vantagem marginal ou da próxima grande ideia. E, naturalmente, onde há muita gente buscando um atalho, sempre haverá espertos cujo atalho é convencer os outros de que eles acharam um.

A coisa se complica ainda mais quando saímos do eixo produção-comércio e passamos para as finanças. Enquanto no primeiro caso a vantagem contida na informação privilegiada se verifica imediatamente no barateamento do produto, a vantagem de um investimento costuma estar no futuro: aposte hoje nessa ideia e ganhe amanhã por tê-la descoberto primeiro. O mercado financeiro põe a próxima grande ideia potencialmente ao alcance de qualquer um, mas ao mesmo tempo faz com que o negócio lucrativo, o esquema de pirâmide, a cura milagrosa, o conto do vigário e a teoria da conspiração tenham todos fundamentalmente a mesma forma: a promessa de que uma informação ora restrita a um pequeno círculo em breve se provará uma verdade revolucionária, trazendo ganhos pecuniários e/ou psíquicos a quem primeiro ousou abraçá-la.[3] A diferença entre a oportunidade perdida e a aposta milionária pode estar na ousadia do “pensamento freelance” – para tomar emprestada a expressão com que Tucker Carlson, apresentador da Fox News, descreveu o movimento conspiratório QAnon.

As semelhanças não param por aí. Tal como nos esquemas de pirâmide, a melhor maneira de ganhar dinheiro com finanças é ser o primeiro a entrar e o primeiro a sair. Dado que o valor de um ativo depende da percepção que as pessoas têm do valor que ele virá a ter, quem investe primeiro tem a oportunidade de ver sua aposta inicial apreciar-se até que o ativo se torne tão valorizado que já não tenha como render o retorno que se espera. Será então a hora de vender – antes que o mercado chegue à mesma conclusão e o preço comece a cair. Essa trajetória descreve todas as bolhas especulativas da história, da Febre das Tulipas na Holanda do século XVII à crise do mercado imobiliário que quebrou a economia mundial em 2008. Mas esses momentos supostamente excepcionais não revelam nada senão aquilo que o mecanismo normal do mercado faz quando não há nada para controlá-lo.

Se essa lógica permanece a mesma desde o nascimento do mercado financeiro, dois fatores mudaram nas últimas décadas. De um lado, deu-se um encurtamento do feedback entre percepção pública e valor monetário: as duas coisas agora interagem muito mais rápido. De outro, proliferaram os meios e técnicas de manipulação da percepção.

Ao conectar mercados e nações por todo o planeta, a globalização do fim do século passado criou um mundo em que o dinheiro nunca dorme, e os ativos financeiros estão continuamente sujeitos às flutuações de humor de um público internacional que responde em tempo real às redes sociais e a um noticiário de 24 horas. Com isso, um gesto tão pequeno como o do craque português Cristiano Ronaldo, ao ocultar duas garrafas de Coca-Cola durante uma coletiva de imprensa, pode ter impacto quase imediato nas ações da marca. O outro lado da moeda, porém, é que há uma quantidade cada vez maior de artifícios à disposição de quem quer inflar o valor de ativos, ideias e empresas. Se o valor de um ativo depende de que ele seja percebido como valioso, quem consegue gerar essa impressão inevitavelmente o verá valorizar-se. É assim que uma máquina de hype bem azeitada é capaz de inflar um investimento tão furado quanto o já lendário Fyre Festival.[4]

É nesse ponto que finança e influencer economy se cruzam. Não apenas no sentido de que os influenciadores são grandes dispositivos de manipulação da opinião, mas também porque ambas têm como centro exatamente o mesmo problema: a gestão da percepção pública como mecanismo de geração de valor.[5] Dada a centralidade dessa questão hoje, parece perfeitamente justo que uma das figuras mais marcantes de nosso tempo seja Donald Trump: um autodeclarado bilionário cuja principal fonte de renda neste século foi interpretar o papel de bilionário num reality show e licenciar seu nome como marca registrada.

Quando percepção pública e dinheiro estão tão imbricados, nada importa mais que a autenticidade: quando todos tentam aparentar, vale mais aquilo que é “para valer”. O problema, claro, é que falsificar o autêntico nunca foi tão fácil. Numa sociedade global hiperconectada, com bilhões de produtores e consumidores de informação, o que não falta são meios de fazer propaganda sem parecer, semeando conteúdo que tem cara de “orgânico” e “espontâneo” a fim de gerar um engajamento que seja efetivamente essas duas coisas. Os instrumentos de manipulação das métricas de redes sociais, como click farms e contas robôs ou ciborgues; a multiplicação de fontes de notícias falsas; a contratação de influenciadores para publicidade não declarada; a criação de ecossistemas comunicacionais multiplataformas que formam um circuito fechado onde progressivamente se constroem mundos paralelos – tudo indica que vivemos numa espécie de era de ouro da fraude. Se no passado um bom embusteiro sempre plantava um ou dois cúmplices no meio do público para ajudá-lo a atrair suas vítimas, na internet ele pode ter tantos cúmplices quanto lhe couberem no orçamento. Do Brexit até Bolsonaro, a história da guinada à direita da política mundial nos últimos anos é inseparável do fato de que as democracias contemporâneas ainda não possuem anticorpos para lidar com essa transformação.

Ofato de ter sido inflada por indivíduos interessados em obter vantagens pessoais não torna essa onda menos real. Pelo contrário, sua realidade deve ser entendida justamente como o produto de um processo de retroalimentação entre uma demanda real (ressentimentos, angústias, frustrações e desejos efetivamente existentes) e a oferta suprida pelos empreendedores políticos. Nem a demanda nem a oferta estavam prontas e dadas antes que a retroalimentação começasse: base e agitadores cresceram juntos. O filão foi sendo construído à medida que era descoberto: os agitadores foram se tornando quem se tornaram ao observar quais discursos produziam quais reações, ao mesmo tempo que a base adotava suas ideias e incitava-os a subir o tom, os dois lados entrando, assim, numa espiral de radicalização. Seria um erro, por exemplo, ver na trajetória política do falecido senador Major Olímpio, da centro-direita ao extremo, um simples sintoma de um deslocamento geral da população em direção à direita; o sintoma, nesse caso, é também causa.

Que os empreendedores políticos da extrema direita sejam oportunistas tampouco quer dizer que sua relação com as ideias que defendem seja meramente cínica e instrumental. É verdade que seu compromisso com a moralidade pública, a retidão e a veracidade é, na melhor das hipóteses, elástico. Mas a chamada hipocrisia dos cidadãos de bem é, na realidade, um compromisso sincero com outra coisa. Os agitadores, e muitos de seus seguidores, efetivamente acreditam numa sociedade em que cada um “sabe o seu lugar”: onde mulheres são recatadas e do lar, negros andam no elevador de serviço, meninos são meninos, meninas são meninas, e ninguém reclama do pouco que tem. Mas eles acreditam nisso não pelo valor intrínseco desses valores, mas pela distribuição de poder e benefícios pessoais que eles estabelecem. Acreditam, sobretudo, em seu direito de ocupar a posição que esses valores lhes destinam nas relações de classe, gênero, raça: a de quem pode exercer a própria vontade sem limites. É esse lugar, simultaneamente real e imaginado, que eles temem perder, lamentam ter perdido e almejam alcançar.

Essa noção de que a cidadania plena não está na reciprocidade de direitos e deveres, mas na excepcionalidade de quem se encontra acima das leis, é uma forte herança do passado escravagista na cultura brasileira. Mas ela é também o ponto onde arcaísmo e atualidade neoliberal se encontram. Porque se a competição é elevada à condição de fundamento da vida social, e a luta pela sobrevivência no mercado é equiparada à seleção natural, pode-se esperar que, para um número crescente de pessoas, a força se torne a única lei, e o sucesso, o único critério. Isso faz com que constrangimentos legais ou morais apareçam como limitações impostas à liberdade de competir, e estar sujeito a eles, como um sinal de fraqueza. Para vencer, é preciso estar preparado para quebrar regras, e o prêmio para quem vence é estar numa posição na qual as normas que se aplicam aos outros – pagar impostos e ser punido por infrações, por exemplo – se tornam facultativas. O topo da pirâmide do empreendedorismo contemporâneo não é, portanto, muito diferente da posição do antigo senhor de engenho ou do patriarca; e quem realmente quiser chegar lá deve estar preparado para operar no limite da lei e da moralidade.

Aqui é preciso atentar, novamente, para aquilo que o simbolismo das ações de Bolsonaro comunica. Sua afinidade familiar com o garimpo, seu apoio ostensivo a madeireiros ilegais e fazendeiros armados, o largo histórico de relações com a milícia (uma espécie de movimento empreendedorístico dos agentes das forças de segurança), a vendeta pessoal contra o Ibama, a obsessão com a flexibilização das regras de trânsito, para não falar no armamento da população – tudo isso sinaliza que o presidente é alguém que entende que, “para ser empresário no Brasil, não dá para operar dentro da lei”, e promete um Estado que abdica de fiscalizar, multar, regular ou fazer valer as leis existentes. Ele reconhece o jeitinho, a esperteza e mesmo a violência como parte integral da esfera de liberdades daqueles que “querem trabalhar”, ao mesmo tempo em que promete a quem “chegar lá” o livre gozo de seus privilégios. Essa é uma mensagem que pode soar bem a qualquer um que se sinta “por cima”, mesmo que seja apenas na esfera privada do ambiente familiar. E cai como música nos ouvidos da baixa alta classe média, um estrato em que respeitar leis e honrar dívidas pode ser a distância que separa o lucro da falência, e que vive entre a inveja de quem possui mais privilégios e o medo de perder os que têm.

A confusão entre disciplina e permissividade sempre foi central para o apelo de Bolsonaro. Ele era ao mesmo tempo aquele que seria duro com o aborto, mas trataria o abuso de menores por parentes como questão de foro privado; que acabaria com a corrupção, mas entendia que é o excesso de leis que obriga o cidadão a dar seus jeitinhos. O segredo para isso funcionar é que cada um de seus seguidores se imagina sempre no rol dos relevados e não no dos reprimidos. Entre os agitadores que ajudaram a construir o bolsonarismo, contudo, nunca houve dúvida de que a permissividade era a tendência dominante – e a forma como tem se dado a ocupação do aparelho estatal deixa claro que foi ela que venceu.

A vida republicana brasileira combina quatro modelos de apropriação da máquina estatal: o tradicional, derivado das velhas estruturas de poder local que sustentam dinastias políticas; o econômico, definido pelo acesso privilegiado do capital aos recursos e decisões do poder público; o corporativo, característico de setores como judiciário e militares; e aquele que podemos chamar, com algumas aspas, de “democrático”. Este nome se justifica na medida em que tal modelo é mediado pelo voto (trata-se da ocupação de postos na administração por membros ou apoiadores de uma força política vitoriosa nas urnas) e não deixa de ter uma função legítima (facilita, em princípio, que o projeto referendado pelos eleitores exerça sua direção sobre o funcionalismo de carreira).

A falta de consistência orgânica do bolsonarismo, sua condição de apanhado de tendências e enxame de empreendedores políticos, fez dessa apropriação democrática um instrumento essencial para assegurar-lhe alguma solidez. Ao destroçar as carreiras de Estado, a reforma administrativa almejada pelo governo pode torná-la um instrumento infinitamente mais poderoso, dando ao presidente a prerrogativa de empregar até 90 mil cabos eleitorais. Já o programa ultraliberal de Paulo Guedes e a promessa de desregulação em todas as áreas acenam desde a campanha com possibilidades fabulosas de apropriação econômica.

Mas nada impressiona tanto quanto a intensificação da apropriação corporativa, sobre cuja defesa o ex-capitão construiu sua carreira de deputado. Além de proteger militares e juízes da reforma da Previdência e lotar o governo com oficiais das três armas, o presidente não para de oferecer mimos às forças de segurança, tais como os 100% de financiamento da casa própria para policiais e as bolsas de estudos no exterior para membros das Forças Armadas. Depois de inchar o orçamento do Ministério da Defesa enquanto cortava Saúde e Educação em cerca de um quarto em 2021, o governo planeja destinar 55 milhões de reais em 2022 a uma bonificação extra exclusiva para os fardados com cargos comissionados. Com o orçamento secreto e a oficialização do casamento com o Centrão, fecha-se o bingo da captura do aparelho estatal e traz-se para o centro da gestão a fina flor da apropriação tradicional – dando aos aventureiros de primeira viagem das últimas eleições a oportunidade de conhecer os verdadeiros profissionais do empreendedorismo político.

Sobre esses quatro pilares, Bolsonaro segue se equilibrando apesar de tudo: um governante tanto mais valioso quanto mais fraco, já que sua fraqueza se traduz para aqueles que o sustentam na multiplicação das oportunidades de negócios.

[1] A organização paramilitar não necessariamente desaparece, mas é, por assim dizer, “terceirizada” – e, em casos como o do Brasil, constitui-se ela mesma como atividade empresarial. No fim, é preciso reconhecer que nem mesmo as formas de organização da extrema direita escaparam incólumes às transformações impostas pela revolução neoliberal.

[2] Neste ponto, é interessante lembrar que, afora a defesa dos interesses corporativos da caserna, a atuação do deputado Jair Bolsonaro praticamente se resumia à militância por curas milagrosas como o nióbio, o grafeno e a fosfoetanolamina, a chamada “pílula do câncer”. Esta última foi objeto de um dos dois únicos projetos de lei aprovados por ele em três décadas, posteriormente barrado pelo STF por atropelar as atribuições da Anvisa. Quem observou de perto os protestos pró-impeachment em 2015 lembrará que faixas pedindo a legalização da pílula integravam o heterogêneo pacote de demandas dos manifestantes.

[3] Num artigo já clássico, os antropólogos John e Jean Comaroff descrevem esquemas de pirâmide como “o capitalismo de cassino para pessoas que não possuem o capital fiscal ou cultural para […] apostar em mercados mais convencionais”. Ou seja, uma espécie de Dow Jones dos pobres (ou da lúmpen-elite). Em artigo publicado recentemente no Blog do Labemus (Laboratório de Estudos de Teoria e Mudança Social), a antropóloga Letícia Cesarino usa a observação dos Comaroff sobre a proliferação desse tipo de esquema para analisar o empreendedorismo em torno do “tratamento precoce”.

[4] O Fyre Festival, um evento musical de luxo marcado para acontecer em 2017 numa ilha nas Bahamas, tornou-se um caso exemplar da intersecção entre mercado financeiro, cultura dos influenciadores e fraude: sua propaganda inicial foi tão bem-sucedida que acabou fazendo com que os organizadores, inexperientes em eventos do gênero, tivessem de cumprir uma série de promessas publicitárias que não tinham quaisquer condições de realizar. O resultado foi um desastre para as aproximadamente quinhentas pessoas que viajaram até as Bahamas, dúzias de processos legais, a prisão de um dos promotores e dois documentários.

[5] Um cruzamento literal das duas economias tem sido, aliás, a tendência de contratar influenciadores digitais para promover criptomoedas, criando pequenas bolhas para o benefício dos investidores iniciais – uma prática comum no mercado de ações, conhecida como pump and dump (“inflar e largar”).


Rodrigo Nunes

Professor de filosofia moderna e contemporânea na PUC-Rio, é autor de Neither Vertical Nor Horizontal: A Theory of Political Organisation (Verso)

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