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“O terror é uma motivação política e não religiosa”, afirma Ahmad Ali, imigrante palestino

Imigrante palestino em diáspora no Brasil desde os anos 1950, líder religioso fala do preconceito e da situação do país


"Precisamos rever os conceitos de humanidade e construir possibilidades de humanos mais humanos", afirma o fundador da Associação Cultural Islâmica RS - Igor Sperotto | Extraclasse

Por Fabiana Reinholz
Do Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) | 11 de Outubro de 2021
 

Qual o papel da religião em meio a uma pandemia com a dimensão da covid-19? O que líderes religiosos pensam destes tempos que estamos vivendo? Estas e outras respostas buscamos neste Especial Religiões, onde entrevistamos lideranças religiosas dos mais diferentes matizes, do espiritismo à matriz africana, da igreja luterana ao budismo.

O islamismo é a segunda maior religião no mundo, ficando atrás dos cristãos. Tem mais de 1,5 bilhão de praticantes, 25% da população mundial. Segundo um levantamento do instituto americano Pew Research Center, que analisou a evolução demográfica entre as principais religiões do mundo, o islamismo será a maior religião do mundo em 2070. Em 2010, havia 1,6 bilhão de muçulmanos e 2,17 bilhões de cristãos no planeta. Em 2050, serão 2,76 bilhões de muçulmanos e 2,9 bilhões de cristãos, aponta o estudo.

No Brasil, a presença muçulmana/islâmica tem início na época da escravidão. Nesse contexto, os muçulmanos foram protagonistas de uma das mais importantes revoltadas de escravizados, a Revolta dos Malês, que ocorreu em Salvador, em janeiro de 1835. Com caráter racial, a revolta teve como motes propulsores a luta contra a escravidão e a imposição da religião católica.

Atualmente, de acordo com dados do último Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há em torno de 35 mil praticantes do islamismo no Brasil. O Rio Grande do Sul é o terceiro estado com o maior número praticantes, 3.375, atrás de Paraná, 8.706, e São Paulo, 14.778.

Em entrevista ao Brasil de Fato RS para o Especial Religiões, o membro da comunidade muçulmana, Ahmad Sameh Asad Muhd Ali, conhecido como Ahmad Ali, fala sobre o preconceito sofrido pela religião no país. "No Brasil os muçulmanos são a segunda religião que mais sofre intolerância, em primeiro estão às religiões de matriz africana. O preconceito aos poucos vai tomando contorno mais agressivo, é como se no tempo atual as regras de convivência tivessem abolido valores fundamentais. Os xingamentos são constantes, há destruições de templos, pregações excludentes", afirma.

Advogado de formação, Ahmad Ali é membro fundador do Diálogo interrreligioso do Rio Grande do Sul e Porto Alegre. É o fundador da Associação Cultural Islâmica RS. Imigrante Palestino em diáspora no Brasil desde os anos 1950 do século passado, ele vive atualmente em Porto Alegre.

Abaixo a entrevista completa:

Brasil de Fato RS - A partir da experiência que você tem com sua comunidade, orientação religiosa, qual a avaliação da situação pela qual passa o país, no contexto social e político?

Ahmad Ali - O cenário político da atualidade no Brasil é o de distanciamento das questões relevantes para a existência humana. Este fato ficou evidenciado na Assembleia Geral da ONU que aconteceu no último mês de setembro. O destaque fica para fala do atual presidente sobre a concessão de visto “humanitário” para afegãos cristãos.

Vivemos sobre o discurso da “felicidade” que somente será possível com o neopentecostalismo e aversão às pautas identitárias. É o país da xenofobia, do racismo, e falo neste momento como árabe-palestino e muçulmano vivenciando a “arabofobia” e “islamofobia”.

É o retorno ao obscurantismo, às justificativas para as cruzadas, que construiu narrativas que justificavam a carnificina: “o muçulmano terrorista”, “ruim”, “perigoso”...


A religião deve ser a manifestação de defesa da vida

Costuma-se dizer que viver é um ato político, a religião, a espiritualidade também seria?

A presença da pluralidade religiosa no campo da política é a representação da democracia. É a possibilidade da diversidade da crença, a construção do Estado laico que é antagônico à intolerância religiosa, sejam aos chamados religiosos e aqueles não religiosos. Viver é um ato político e na democracia de fato devemos estar constantemente impulsionados pelo desafio de convivência com a diversidade religiosa, cultural.

A espiritualidade não deve ser sustentação para necropolítica, para justificar o extermínio de etnias, de centros religiosos, pois isso não é religião. A religião enquanto ferramenta é para a construção de uma sociedade de bem-estar.

Todas as religiões possuem os seus valores, alguns são compartilhados: o amor, a solidariedade, o respeito. A religião deve ser a manifestação de defesa da vida. A manifestação do que está escrito no livro sagrado “Alcorão”: Justiça, Solidariedade, Respeito. De construção da vida com paz que somente é possível quando há justiça.

Qual o papel da religião e da fé diante do que estamos vivendo?

Quando há o rompimento de alguns princípios básicos que movimentam a fé na relação com a vida, citados anteriormente (respeito, solidariedade, o amor, comuns às crenças monoteístas ou politeístas), existe o desaparecimento dos princípios humanistas, da construção de sociedades que possuam como princípio básico a possibilidade do bem-viver, do bem-conviver, da evolução sustentável.

Qual a importância da espiritualidade na vida das pessoas?

A espiritualidade é o combustível para a vida em sociedade. É o norte do convívio, da possibilidade de união entre os diversos.

Nesse mais de um ano de pandemia, o Brasil é o segundo país com o maior número de vítimas fatais. Apesar da morte ser algo inerente à vida humana, como sua tradição religiosa lida com ela, em especial nesse momento? Há lições para tirar desta pandemia?

A pandemia escancarou a apartheid em que vivemos. A própria distribuição das vacinas demonstrou claramente isto.

Especificamente no Brasil colhemos o resultado da necropolítica, da política de descaso com a vida. Das informações contraditórias, da irresponsabilidade do Estado. Rompemos com os valores das religiões. Isso é inaceitável, as mortes poderiam ter sido evitadas, caso a política atual no nosso país fosse de defesa da vida.

A pandemia expôs no nosso país a desigualdade, o desinvestimento nas políticas públicas. Retrato da brutalidade do atual cenário no Brasil.

Como a religião pode ser um caminho para a construção de uma sociedade mais justa e um planeta mais sustentável?

A religião deve ser a manifestação de defesa da vida. A manifestação do que está escrito no livro sagrado “Alcorão”: Justiça, Solidariedade, Respeito. De construção da vida com paz que somente é possível quando há justiça.



Ahmad Ali, Ricardo Breier e rabino Guershon Kwasniewski, na cerimônia do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, em 2016, em Porto Alegre. / Foto: Reprodução do Site Glorinha Cohen

Quantos seguidores do islã existem no Brasil? A religião ainda atrai especialmente os filhos e netos dos imigrantes do Oriente Médio ou tem crescido também em outros contingentes?

Não há um número exato. Importante destacar que os muçulmanos chegaram ao Brasil ainda na época da escravidão, registrado na Revolta dos Malês. Há no país uma grande comunidade árabe, na sua maioria muçulmana, mas a comunidade muçulmana é composta por diversas etnias e muitas línguas, provenientes de diversos continentes.

Hoje também é comum a conversão de brasileiros ao Islã, o que corresponde à realidade de ser a segunda maior religião. A religião que mais cresce no mundo.

Como um(a) adepto (a) do Islã lida com a confusão estabelecida entre uma minoria extremista que optou pelo terror e a imensa maioria dos fiéis que nada tem a ver com isso?

O islamismo não pode estar associado ao terror! O islamismo não professa o ódio! O islã trouxe ao mundo inovações como as universidades, a ciência, a justiça, a medicina.

Este questionamento retoma a segunda pergunta: o terror é uma motivação política e não religiosa. Islã, em árabe, significa paz, o cumprimentar “Assalamu alaikum” tem a tradução literal de "a paz esteja com você".

No entanto, no campo da política, na relação dos limites de fronteiras, da disputa de poder... há o reforço da imagem propagada desde as cruzadas trazendo à tona a reconfiguração da palavra Jihad, que nos textos sagrados refere-se à batalha pessoal e espiritual.


Precisamos rever os conceitos de humanidade e construir possibilidades de humanos mais humanos

Muitas vezes, o muçulmano lida com dois preconceitos: o de professar a sua fé e o de ser, com frequência, de origem árabe? O que mais ouviu e pode contar sobre tais preconceitos?

No Brasil os muçulmanos são a segunda religião que mais sofre intolerância, em primeiro estão às religiões de matriz africana. O preconceito aos poucos vai tomando contorno mais agressivo, é como se no tempo atual as regras de convivência tivessem abolido valores fundamentais. Os xingamentos são constantes, há destruições de templos, pregações excludentes.

Todos nós já sofremos em algum momento o racismo, o preconceito. Tem algumas brincadeiras que são muito comuns: “cuidado ele vai explodir tudo”, “o turco”...

Precisamos rever os conceitos de humanidade e construir possibilidades de humanos mais humanos.



Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Marcelo Ferreira

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