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NÃO TEMOS TEMPO A PERDER

Estamos às vésperas da 26ª reunião mundial sobre mudanças climáticas e ainda insistimos em caminhar rumo à destruição ambiental. Por quê?

Por JOICE FERREIRA
Da Revista Piauí, 01out2021

Ilustração: Carvall




ACOP-26, nova edição da conferência anual das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, se aproxima e eu não consigo esquecer a ECO-92. Lá foi plantada a semente. Tenho saudades daquela época, dos anos 1990. Um saudosismo desmedido. Eu estava com 17 anos, e aos meus olhos o mundo se desdobrava de maneira tão suave e morna que mais parecia uma cascata de chocolate. As notícias que chegavam pela tevê se referiam à ECO-92 (ou Rio-92) como a Cúpula da Terra, o maior encontro de todos os tempos para discutir o meio ambiente. O Brasil sediava o evento quatro anos após o homicídio do seringueiro e ativista Chico Mendes, que aprofundou nossas feridas socioambientais. A inflação galopava, a democracia engatinhava, e o presidente Fernando Collor estava à beira do impeachment. A televisão na casa de minha família já era colorida. Significa dizer que não precisávamos mais colocar uma tela com listras nas cores do arco-íris diante do aparelho para colorir o preto e branco (hoje entendo que as cores surgiam mesmo era de um efeito psíquico). Assim, pude ver com riqueza de detalhes a policromia das cerimônias e dos festivais que se sucediam durante a ECO-92. Chefes de Estado e diplomatas pretos, brancos, pardos e amarelos, de todas as nacionalidades e etnias, compartilhavam preocupações e visões sobre o futuro no Rio Centro, onde aconteciam as reuniões oficiais. A quilômetros dali, no Aterro do Flamengo, organizações não governamentais, militantes e lideranças indígenas com cocares se aglomeravam no chamado Fórum Global.

O clima vivaz do Rio de Janeiro acentuava o caráter único da imensa conferência. Os eventos ao ar livre eram emoldurados pela muralha de montanhas, com formas diversas, que compõe a paisagem da cidade. A mídia destacava o sucesso do Planeta Fêmea, espaço do Fórum Global que reuniu cerca de 30 mil mulheres interessadas em discutir o protagonismo feminino por um mundo melhor. A potência feminina nas lutas ambientais me tocou de alguma forma. Era a adulta despertando em mim, a menina que se despedia, embora eu não tivesse muita compreensão sobre o fenômeno. Demorei a tomar consciência plena da condição social de ser mulher. Minha mãe, uma professora rural, era feminista. Porém, nem ela nem eu sabíamos disso. Abandonar o sertão de Goiás (hoje Tocantins) para estudar, trabalhar fora de casa e não se subjugar ao marido (meu pai) eram atos revolucionários.

Um terremoto chacoalhava o planeta e tinha o Rio como epicentro. Uma garota canadense ousou deixar o mundo boquiaberto e me arrebatou naquele junho de 1992, bem no meio dos meus devaneios adolescentes, entre um acorde e outro de Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, ou de Tempo Perdido, do Legião Urbana. Com apenas 12 anos, Severn Suzuki falou por seis minutos para os principais líderes mundiais. O discurso simples e assertivo dela os deixou petrificados, como se atingidos pelas lavas do Vesúvio em Pompeia. “Vocês, adultos, devem mudar suas atitudes!”, clamou a menina. “Eu estou aqui para lutar pelo meu futuro. Perder meu futuro não é como perder uma eleição. Estou aqui para falar em nome de todas as gerações que estão por vir.” Silêncio.

Três anos depois, em 1995, como resultado da ECO-92, Berlim abrigou a primeira de muitas COPs. Genebra, Quioto, Buenos Aires, Marrakech, Nova Delhi, Milão, Montreal, Nairóbi, Bali, Copenhagen, Cancun, Lima e Paris, entre tantas outras cidades, receberiam as edições seguintes da conferência. A criação da Convenção do Clima também foi um dos mais importantes frutos da ECO-92, assim como o surgimento da Convenção para a Biodiversidade. Sem sombra de dúvida, as alterações climáticas e as perdas de biodiversidade constituem hoje as duas maiores crises da humanidade. Em cada um desses encontros periódicos, renovam-se os compromissos políticos em torno de um desenvolvimento mais equilibrado, avaliam-se os progressos dos acordos feitos anteriormente e identificam-se lacunas e temas emergentes. ONGs e centenas de instituições e indivíduos do mundo todo se aglomeram em debates paralelos às cerimônias oficiais. Cientistas se apressam para publicar seus resultados de pesquisa.

A COP-26 ocorrerá em Glasgow, na fria Escócia, entre 31 de outubro e 12 de novembro. Não à toa, um grupo numeroso de cientistas brasileiros e estrangeiros, do qual faço parte, publicou recentemente o artigo A Degradação da Floresta Amazônica Deve Ser Incorporada na Agenda da COP-26. De maneira simplificada, estamos tentando dizer ao mundo algo como: “Parem e olhem para a degradação das nossas florestas.” Aqui vale ressaltar que degradação e desmatamento são fenômenos diferentes, embora ambos derivem da ação humana. A degradação destrói a floresta aos poucos, ainda que a mantenha de pé. A exploração não sustentável de madeira e as queimadas, por exemplo, desencadeiam esse processo. Já o desmatamento pressupõe a remoção da floresta, que geralmente é substituída por pastos ou monoculturas. A área de florestas degradadas na Amazônia é hoje maior do que toda a superfície desmatada. No artigo, explicamos que, entre 2003 e 2015, os incêndios e a fragmentação das florestas na região causaram emissões de carbono para a atmosfera 88% maiores do que as provocadas apenas pelos desmatamentos. Somente essa elevação já nos fez voltar diversas casas no jogo da sobrevivência humana.

É compreensível, portanto, que a destruição da Amazônia ocupe o topo de nossas preocupações. As incríveis riqueza e beleza da floresta justificam por si mesmas tanta inquietação. Quando pensamos no clima global, porém, não podemos esquecer que a Amazônia é simplesmente o maior reservatório de carbono acima da terra em todo o planeta. Na hipótese terrível de ela ser varrida do mapa, mais de 100 bilhões de toneladas de carbono, aprisionadas principalmente em árvores enormes, seriam lançadas à atmosfera sob a forma de CO2, o que teria o mesmo efeito que uma queima gigantesca de combustíveis fósseis. O acúmulo excessivo de gases, como o CO2, na faixa de 100 km ao redor do planeta (trecho que, vale lembrar, começa a ser atravessado por muitos milionários cegos ao que acontece abaixo dele) é a raiz dos nossos males. Os níveis de CO2 atmosférico que temos hoje (414 partes por milhão) revelam-se quase 50% superiores aos da era pré-industrial. Múltiplas são as causas para tamanho espessamento da camada de gases: dos desmatamentos e queimadas à queima de combustíveis fósseis. Mas o fato é que tal espessamento dificulta a dissipação do calor, o que gera uma cascata de mudanças, incluindo o aumento de temperatura e de eventos climáticos extremos. Essas alterações comprometem quase todas as nossas condições de vida confortável e tranquila na Terra.

Vivemos num ritmo frenético e nos impomos demandas crescentes. Precisamos devorar muita energia para nos transportar convulsivamente de um lugar a outro. Temos de sustentar indústrias que cospem fumaça como dragões e produzem massivamente para satisfazer nosso apetite voraz. Florestas, cerrados e outros biomas cedem lugar velozmente a pastos e campos agrícolas que irão nos alimentar. A verdade é que já não conseguimos imaginar um mundo diferente do nosso. Sente-se pena ou desprezo por qualquer povo ou cultura que escolha caminhar a passos lentos e olhe para outras direções que não levem a mais lucro e mais “progresso”.

Em 1992, as emissões totais de gases do efeito estufa no Brasil, segundo o Observatório do Clima, ultrapassaram 2,2 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (medida que combina todos os gases passíveis de aquecer o planeta). Em 2003, esse valor superou os 3 bilhões e atingiu o pico. Depois, foi caindo até 2010, quando chegou a 1,7 bilhão, o menor índice na história dos registros. A queda se deu em consequência de uma significativa redução dos desmatamentos na Amazônia. Em 2019, as emissões subiram de novo e alcançaram 2,17 bilhões. Ou seja, regredimos aos patamares de 1992. As Mudanças de Uso da Terra e Florestas – jargão que engloba os desmatamentos para utilização agrícola do solo – continuam sendo nossa principal fonte de emissões gasosas para a atmosfera. Em 1992, essas mudanças provocaram 67% de todas as emissões e, em 2019, quase 45%.

Desde a ECO-92, as emissões globais de gases aumentaram em torno de duas partes por milhão ao ano. São abundantes as evidências da ciência sobre os impactos negativos desse crescimento demasiado. Não vou repetir todos aqui. A mídia está suficientemente focada em tais impactos. Eles aparecem com frequência nos jornais, assim como nos relatórios coloridos e bem ilustrados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC. Trabalhos a esse respeito jorram dos laboratórios de cientistas brasileiros que brilham no Brasil e no exterior, mesmo sem orçamento nacional decente. Nossos problemas não são a falta de números e, sim, a apatia diante deles. Por isso, não vou enfatizar o quanto a temperatura no planeta, no Nordeste brasileiro e na Amazônia aumentou. Prefiro deixar a “página” em branco – um branco tão alvo quanto o gelo já derretido das calotas polares. Infelizmente, não vai dar para congelá-lo de volta… Tampouco relatarei o quanto o mar subiu em virtude do degelo, nem o quanto subirá, mudando a geografia de países e regiões. Também deixarei suspensa no ar a espessa nuvem de umidade que desce da Amazônia e leva chuva para o Sul do continente americano. Não lembrarei das cheias intensas no Rio Amazonas nem das secas severas e do fogo na Amazônia. Não vou me ater aos mapas que anunciam para as próximas décadas a redução de chuvas na Bacia do São Francisco ou o excesso delas no Sudeste do Brasil. Ficarei em silêncio, ainda, sobre a produção minguada de café e soja no futuro, as perdas econômicas estratosféricas e suas consequências no dia a dia de pessoas como você, eu e principalmente as mais vulneráveis.

Difícil entender o que ocorreu com a humanidade ao longo dos quase trinta anos que nos separam da ECO-92. Foram 25 COPs desde então. E agora, às vésperas da 26a., é como se nossos pés estivessem virados para trás e nossos corações vazios. Busco explicações sobre o que nos impediu de contornar a rota de destruição que foi pavimentada lá na Revolução Industrial. Na Rio+20, em 2012, Severn Suzuki, à época com 32 anos e mãe de duas crianças, tentou explicar a repercussão do seu discurso de 1992: “O mundo estava faminto por essa mensagem, e a humanidade estava desesperada para escutá-la.” Creio que sentíamos mesmo fome de nos emocionar, e nada mais potente do que o discurso simples e genuíno de uma criança. Emoção, mágoa e raiva foram sentimentos que também experimentamos em 2019, quando a adolescente sueca Greta Thunberg se dirigiu aos líderes mundiais numa reunião da ONU. O arrepio atingiu em cheio a minha espinha assim que a garota lançou sua famosa indagação: “How dare you?”. A expressão de fúria destoava de seu rostinho de menina. Ela disse basicamente o seguinte: “Como vocês ousam não ter feito mais para combater as alterações climáticas? Vocês roubaram os meus sonhos e a minha infância com as suas palavras vazias.”

Ansiedade climática e eco-ansiedade – o sentimento de angústia relacionado com o clima e as crises ambientais – têm crescido à medida que as pessoas ficam mais conscientes das ameaças globais que presenciamos. Os adolescentes e os jovens se mostram mais suscetíveis ao fenômeno em razão do seu estágio de desenvolvimento psicológico, físico, social e neurológico. É o que aponta um estudo abrangente, mas ainda sem revisão, publicado pelo periódico científico Lancet Planetary Health e intitulado Young People’s Voices on Climate Anxiety, Government Betrayal and Moral Injury (Opiniões dos Jovens sobre Ansiedade Climática, Traição Governamental e Dano Moral). O levantamento, realizado em 2021, abrangeu 10 mil indivíduos de 16 a 25 anos, que moram em dez países, incluindo o Brasil. Eles declararam que os problemas ecológicos os fazem sentir uma gama de emoções negativas, como medo, raiva, tristeza, desespero, culpa e vergonha. Também os deixam confusos, sem perspectiva de futuro e com a impressão de que os adultos e os governantes os traíram ou abandonaram.

No livro Meditações, o imperador romano Marco Aurélio escreveu: “Considere também as vidas uma vez vividas por outros muito antes de você e as vidas que serão vividas depois de você.” Tenho imenso orgulho dos meus pais e avós, que cresceram com tradições simples e camponesas. Quando criança, eu sentia a ansiedade boa de reencontrar minha avó, a quem tenho a alegria de rever até hoje. Ela preparava em grossas panelas de ferro os alimentos que nossa própria família cultivava e cujos sabores ainda guardo na memória. Nos campos floridos, em meio ao canto melodioso das rolinhas fogo-apagou, extraíamos a pluma do caroço do algodão que minha avó havia plantado e que, graças às suas mãos habilidosas, viravam fios e tecidos. Penso em quais serão as memórias das gerações futuras se elas tiverem pela frente um mundo mais árduo e menos belo. Precisamos de toda a potência transformadora que eclodia do Planeta Fêmea de 1992. Precisamos igualmente da energia que ecoa de tantas vozes ativistas contemporâneas. Mudemos nossos transportes. Mudemos nossa forma de produzir alimentos. Mudemos nosso consumo. Mudemos nosso voto. Só não podemos seguir apáticos, sem ação, petrificados pelas lavas e usando uma tela com listras de arco-íris para crer que o mundo está colorido.




JOICE FERREIRA

É doutora em ecologia, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e uma das fundadoras da Rede Amazônia Sustentável (RAS)


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