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China: as cidades como catalisadoras da justiça social

Em gráficos, a transição de uma sociedade rural e primária para urbana, industrial e rica em serviços. O salto da renda per capita que retirou um bilhão de chineses da miséria. O que ensina ao Brasil sobre aproveitamento do bônus demográfico



De OUTRASMÍDIAS, 28 de Outubro 2021
Por José Eustáquio Diniz Alves, no EcoDebate


A China teve grande sucesso na redução da extrema pobreza humana nas últimas décadas e também no crescimento da renda per capita da população (embora o país tenha ficado mais pobre em termos ambientais). A prosperidade econômica tem muitas causas, mas, cabe destacar o papel fundamental das transições urbana e demográfica.

A China fez a transição de uma sociedade rural e agrária para uma sociedade urbana, industrial e de serviços num espaço de tempo muito curto quando comparado com os demais países, especialmente as nações ocidentais.

O gráfico abaixo, com base nos dados da Divisão de População da ONU, do World Urbanization Prospects (2018 Revision), mostra que a população rural da China permaneceu acima de 80% da população total até 1980 e com a população urbana abaixo de 20%. Mas este quadro mudou rapidamente, com a população rural se igualando a população urbana (50%) por volta de 2010 e a estimativa de 80% da população urbana e de 20% da população rural em 2050.



Evidentemente, a transição urbana acontece com a mudança da estrutura econômica. O texto “China’s Epic Journey from Poverty to Prosperity”, publicado pelo “The State Council Information Office of the People’s Republic of China” (28/09/2021) apresenta uma série de dados sobre a trajetória econômica e social chinesa.

O gráfico abaixo mostra que em 1952 a produção primária (rural e agrária) representava 50,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da China, enquanto a indústria e o setor secundário representava somente 20,8% do PIB e o setor terciário (serviços) representava 28,7% do PIB. Mas este quadro mudou rapidamente, sendo que a indústria chegou a cerca de 50% no ano 2000 e, em 2020, a participação dos setores primário, secundário e terciário foi de 7,7%, 37,8% e 54.5% do PIB. Ou seja, a China atual é um país urbano com uma economia baseada na indústria e dos serviços. Como acontece em outras nações, a passagem de uma economia rural e agrária para uma economia urbano-industrial-serviços é acompanhada por um aumento da produtividade do trabalho e um avanço da renda per capita.



O gráfico abaixo mostra a renda per capita (US$ a preços constantes em poder de paridade de compra – ppp) do Brasil e da China, segundo dados do relatório WEO, do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado em abril de 2021. O Brasil tinha uma renda per capita de US$ 11,4 mil em 1980, enquanto a China tinha uma renda de US$ 674 (a renda brasileira era 17 vezes maior). Em 2013 o Brasil ainda tinha uma renda 40% maior, mas em 2017 houve empate e em 2020 a China já tinha uma renda de US$ 16,3 mil contra US$ 14,1 mil do Brasil. Ou seja, o Brasil tem uma renda estagnada por mais de uma década (2010 a 2020) enquanto a China marcha celeremente rumo ao grupo de países de renda alta.



O gráfico abaixo do site Our World in Data mostra a percentagem da população vivendo em condições de extrema pobreza no Mundo, Brasil e China entre 1981 e 2019. Nota-se que pobreza extrema na China era dramaticamente elevada e atingia 88% da população (equivalente a 1,24 bilhão de habitantes hoje em dia). Nesta mesma data, a extrema pobreza era de cerca de 40% no mundo e algo em torno de 20% no Brasil. Ao longo das últimas 4 décadas a pobreza extrema foi reduzida no mundo para 9,3% em 2017, para 4,6% no Brasil em 2019 (equivalente a quase 10 milhões de brasileiros) e para somente 0,2% na China em 2019 (equivalente a 2,8 milhões de chineses).

Ou seja, a extrema pobreza na China em 2019 apresenta um índice apenas residual e para uma população de 1,4 bilhão de habitantes significa que a China retirou mais de 1 bilhão de pessoas da miséria, contribuindo para a redução da pobreza global.



Considerando outras linhas de pobreza, o gráfico abaixo mostra que, em 1981, 88,1% da população chinesa estava abaixo da linha de $ 1,90 ao dia (dólares internacionais em poder de paridade de compra) e outros 11,2% estavam entre $1,90 e $3,20. Isto é, 99% da população da China vivia com menos de $3,20 por dia em 1981. Esta percentagem caiu espetacularmente e em 2017 eram somente 3,8% da população vivendo abaixo de $3,20 por dia. Ou seja, praticamente não existia uma classe média na China em 1981, mas o percentual de pessoas vivendo com mais de $10,0 por dia (limite mínimo da classe média) em 2017 passou para 48,3%. Assim, a população chinesa que era considerada extremamente pobre em 1981, passou a ser uma população majoritariamente de classe média 40 anos depois.



A América Latina e Caribe (ALC) tinha 27,9% da população em 1981 vivendo abaixo de $3,20 por dia e caiu para 9,3% em 2017. Portanto, a pobreza foi reduzida na ALC, mas num ritmo lento, enquanto a pobreza foi reduzida em grande intensidade e grande rapidez na China.

Indubitavelmente, as razões para o avanço asiático e a baixa performance latino-americana são muitas e fogem do escopo deste artigo. Mas cabe ressaltar que a China adotou a estratégia de desenvolvimento baseada na promoção das exportações (“Export-Led Growth”), enquanto o Brasil adotou a estratégia baseada na substituição de importações. A China buscou uma inserção soberana no processo de globalização e avançou rapidamente o processo de complexificação da estrutura produtiva do país. Como veremos mais à frente, a China adotou um modelo de crescimento que deu prioridade para a geração de emprego e para o avanço da educação com o objetivo de aumentar a produtividade geral da economia.

Mas a China não teria o sucesso econômico e a grande vitória na redução da pobreza se não tivesse impulsionado a transição demográfica, consequentemente, se não tivesse aproveitado o bônus demográfico. O gráfico abaixo, com dados das novas projeções demográficas divulgadas pela Divisão de População da ONU (revisão 2019), mostra a população total e por grupos etários da China entre 1950 e 2100. Como a China iniciou a transição demográfica no século XX, terá, no século atual, uma grande mudança na estrutura etária. A população total que era de 554 milhões de habitantes, em 1950, cresceu nas décadas seguintes, atingiu 1,4 bilhão em 2020 e deve o pico de 1,46 bilhão em 2031. A partir daí vai iniciar um processo de decrescimento até ficar com 1,06 bilhão em 2100. Do pico ao final do século a China deverá perder 399 milhões de habitantes.



Como a taxa de fecundidade chinesa começou a cair rapidamente no início da década de 1970, a população de 0 a 14 anos passou de 188,7 milhões de jovens para o pico de 370 milhões em 1976, iniciando um longo período de declínio, devendo ficar com 146,8 milhões de jovens em 2100 (uma redução de 223,5 milhões em 124 anos). Já a população em idade ativa (PIA) – que é fundamental para o desenvolvimento econômico de qualquer país – passou de 341 milhões de pessoas em 1950 para o pico de 1,02 bilhão em 2015. Portanto, a quantidade de pessoas em idade de trabalhar (15-64 anos) na China já está diminuindo e deve ficar com 579 milhões em 2100. Cabe destacar que a PIA vai ter uma perda de 443,6 milhões de pessoas em 85 anos, valor superior à perda da população total.

Enquanto caem a população de 0-14 anos e a população de 15-64 anos, cresce a população idosa. O envelhecimento populacional na China vai ser intenso e rápido. A população de 60 anos e mais que era de 41 milhões em 1950 vai continuar crescendo, mesmo depois do declínio da população total chinesa, e deve atingir o pico em 2052 com um montante de 490 milhões de idosos, caindo posteriormente para 402,8 milhões em 2100. A população de 65 anos e mais vai atingir o pico em 2057 com 400,1 milhões de idosos (quase o dobro da população brasileira). E a população de 80 anos e mais que era de somente 1,5 milhão de pessoas em 1950 deve atingir o pico de 157,6 milhões em 2072 e cair para 151 milhões em 2100.

O que os dados da dinâmica demográfica da China mostram é que o momento mais favorável do 1º bônus demográfico já passou, conforme mostra o gráfico abaixo. Em 1966, a População em Idade Ativa (PIA) representava 55,1% da população total e a Razão de Dependência (RD) estava em 81,4%. Portanto, a proporção de pessoas em idade de trabalhar era a mais baixa e a proporção de pessoas dependentes (jovens e idosos) era a mais alta. Mas a partir de 1967 a estrutura etária ficou mais favorável e, em 2011, a PIA representava 73,2% e a RD representava 36,6%. Ou seja, tinha alta proporção de pessoas em idade produtiva e baixa proporção de dependentes. Portanto, era o auge do bônus demográfico.



A partir de 2012 a PIA chinesa começou a crescer menos que a população total e a RD começou a subir. Portanto, a janela de oportunidade chegou ao ponto de abertura máxima e passou a reduzir a abertura. O impacto sobre o crescimento econômico é imediato, pois enquanto a janela se abria o crescimento do PIB chinês ficou em torno de 10% ao ano, mas depois que a janela começou a se fechar o crescimento do PIB diminuiu para a faixa de 6,5% ao ano. A PIA chegou ao pico em 2015 (1,02 bilhão de pessoas) e a disponibilidade de pessoas em idade ativa começou a diminuir e deve ser reduzida em 442,6 milhões de pessoas até 2100. Para lidar com esta diminuição na oferta de trabalho, a China tem investido em automação e robotização da linha produtiva. Mesmo assim, não será fácil elevar a produtividade para compensar a redução da PIA.

Ainda segundo o texto “China’s Epic Journey from Poverty to Prosperity” (28/09/2021), como mostra o gráfico abaixo, o número de pessoas ocupadas passou de menos de 200 milhões de pessoas em 1949 para quase 800 milhões de pessoas em 2010 e um número um pouco menor em 2020, já refletindo a redução da PIA. O interessante a notar é que a população da China em 2010 era de 1,29 bilhão de habitantes e a taxa de ocupação chegou a praticamente 60% da população total. Isto mostra que a China aproveitou o 1º bônus demográfico. Para efeito de comparação, o Brasil nunca chegou a 50% da população ocupada em relação à população total.

A redução da pobreza aconteceu porque a China gerou muitos empregos e fez a transição do trabalho rural para o trabalho urbano, ao mesmo tempo que avançava aceleradamente em termos educacionais. Assim, mais pessoas ocupadas e pessoas com maior qualificação em trabalhos mais produtivos possibilitou a redução da população em situação de pobreza e aumentou a quantidade de pessoas na classe média. O sucesso chinês está na efetivação da bandeira “Pleno emprego e trabalho decente”. Ou seja, a China apostou na ampliação do emprego e na geração de renda e não em programas de transferência de renda. Como mostraram Adam Smith e Karl Marx: “O trabalho é a fonte da riqueza das nações”. A China está se tornando um país rico em função do trabalho, potencializado pela educação e saúde.



O principal desafio econômico futuro será o intenso e rápido processo de envelhecimento populacional e a diminuição da PIA. Como vimos antes a população de 60 anos e mais que era de 41 milhões de pessoas em 1950 subiu e deve atingir o pico de 490 milhões em 2052. A população de 65 anos e mais era de 24,6 milhões em 1950 e deve atingir o pico de 400 milhões em 2057. A população de 80 anos e mais era de 1,5 milhão em 1950 e deve subir até o pico de 157,6 milhões (um aumento de cerca de 100 vezes). Depois do pico, as 3 categorias de idosos diminuem em termos absolutos. O Índice de Envelhecimento vai continuar crescendo ao longo de todo o século XXI.

Como mostrei no artigo “Envelhecimento populacional e terceiro bônus demográfico na China” (Alves, 15/09/2021) muitos analistas dizem que a China vive uma “crise demográfica” e que a diminuição do número de trabalhadores vai prejudicar a economia e que o envelhecimento populacional vai inviabilizar o crescimento da renda per capita. Reforça isto que o governo chinês deixou para trás de vez a política de filho único. Desde 2015 já era possível os casais terem 2 filhos e agora é possível ter o 3º filho. Todavia, a China está se preparando para lidar com a nova dinâmica demográfica do país. O gráfico abaixo, com base nos dados do FMI, mostra que a China mantém elevadíssimas taxas de poupança e investimento, bem superiores às do Brasil. Mesmo quando a renda per capita (em termos constantes em paridade de poder de compra – ppp) da China era bem menor que a brasileira, as taxas de poupança já eram maiores. Atualmente são mais do dobro.



Com o enriquecimento da China as taxas de poupança e investimento aumentaram, ficando acima de 40% do PIB. Outra característica é que a China é exportadora de poupança (capitais) e o Brasil é importador. Isto significa que a China aproveitou o 1º bônus demográfico e está aproveitando, também, o 2º bônus demográfico, enquanto o Brasil parece preso na armadilha da renda média. Agora que a população ativa (15-64 anos) da China já está diminuindo, o gigante asiático se prepara para aproveitar o terceiro bônus demográfico.

Desta forma, o processo de envelhecimento não implica necessariamente em cair na armadilha da renda média como no Brasil atual. Com altas taxas de investimento a China cria empregos mais produtivos, ao mesmo tempo em que avança com a tecnologia permitindo que o conjunto da força de trabalho fique mais eficiente, especialmente a população idosa. Embora a demografia apresente diversos desafios, é improvável que o ímpeto econômico da China nas próximas duas décadas seja desviado do curso e suas redefinições de políticas são projetadas para enfrentar o obstáculo ao crescimento no longo prazo (mesmo sendo um crescimento menor). Por exemplo, a China, com uma estrutura etária mais envelhecida do que a brasileira, mantém taxas de crescimento econômico muito superiores.

A questão demográfica não é o tema mais controverso na China atual e espera-se que os erros da “política de filho único” não se repitam e o país respeite os direitos sexuais e reprodutivos. O presidente Xi Jinping – que já está com uma nova “reeleição” garantida em 2022 – tem promovido uma onda de regulação, afetando as maiores empresas de tecnologia da China, como Alibaba e Tencent, o setor educacional, cultural, etc. O perigo é o governo adotar medidas autoritárias que inviabilizem o espírito inovador do povo chinês. As medidas regulatórias da China ocorrem quando o país muda de foco, passando do crescimento econômico desregrado para o objetivo da “prosperidade comum”, isto é, com o foco na redução da desigualdade social. Assim, em vez de pensar em manter o crescimento populacional a China está se preparando para crescer economicamente com menor desigualdade, na perspectiva de uma população menor e com uma estrutura etária mais envelhecida ao longo do século XXI. A crise do grupo imobiliário chinês Evergrande é uma demonstração que é impossível continuar aumentando o mercado de moradias se a população começa a diminuir.

Maior prosperidade contribui para manter as taxas de fecundidade em níveis baixos. Além de tudo, menor proporção de jovens e adultos contribui para a descarbonização da produção e do consumo. A prática de fazer uma jornada de trabalho 996, ou seja, das 9 horas da manhã às 9 horas da noite, seis dias por semana, deve ceder espaço para uma jornada menos estressante e com mais qualidade de vida.

Desta forma, o caminho para o enriquecimento da população chinesa parece ser avançar com a tecnologia, a educação, a produtividade, juntamente com a mudança na matriz energética (Alves, 29/09/2021), para aproveitar o segundo e o terceiro bônus demográfico e aumentar o bem-estar (“prosperidade comum”). A perspectiva para as próximas décadas, em um cenário otimista, é de decrescimento populacional, menor crescimento econômico, maior renda per capita, descarbonização da economia e uma desejada redução da poluição e da degradação ambiental.

O sucesso da China em vencer a pobreza e caminhar rumo a uma sociedade mais próspera ocorreu devido ao bom aproveitamento das aceleradas transição urbana e transição demográfica. A China chegou a ocupar 60% da população no auge do 1º bônus demográfico, enquanto promovia um grande desenvolvimento da educação. Assim, o aumento das taxas de ocupação de uma população com níveis educacionais cada vez mais altos, possibilitou que a China se tornasse a fábrica do mundo e uma economia com grande capacidade produtiva. Nas próximas décadas a taxa de ocupação vai cair (devido à mudança na estrutura etária) mas a produtividade pode aumentar se o país aproveitar o 2º e o 3º bônus demográfico (ver seminário IPEA, 23/06/2021).

Resta saber se a China vai conseguir realizar todas estas tarefas num clima de cooperação interna e externa e com mínimos conflitos econômicos, sociais e ecológicos, tanto a nível nacional, quanto internacional. A China tem aumentado o orçamento militar, investido na antiecológica corrida espacial, em outubro de 2021 testou um míssil hipersônico capaz de circular a Terra equipado com arma nuclear e tem ameaçado uma guerra pelo controle de Taiwan. A China é uma potência emergente e os EUA são uma potência submergente e isto abre espaço para a chamada “Armadilha de Tucídides” (Alves, 21/06/2018).

A tendência é que o ritmo do crescimento do PIB chinês diminua, enquanto decresce a população e a força de trabalho. Mas a renda per capita pode crescer se a diminuição do PIB for menor que o decrescimento da população. O futuro da China pode ser de decrescimento demoeconômico, com avanço do bem-estar humano e ambiental. A China terá uma população mais envelhecida e mais ocupada no setor de serviços ao longo do século XXI. Com cooperação, paz, liberdade, defesa do meio ambiente e solidariedade, o gigante asiático pode construir uma sociedade próspera e ajudar o mundo na trajetória para o regime de decrescimento da Pegada Ecológica, com justiça, bem-estar social e com muita regeneração ecológica.

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