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Bruna Belaz

Do A Terra É Redonda, 25 de OOutubro 2021
Por LUIS FELIPE MIGUEL*



Imagem: Animesh Srivastava


Comentário sobre a atuação política da presidente da UNE

Pode ser só desinformação minha, mas parece que a União Nacional dos Estudantes (UNE) anda bem apagadinha. Já a presidente da entidade anda ganhando um banho de visibilidade do jornal Folha de S. Paulo.

Faz uns dias, ela estrelou uma entrevista de página inteira, para denunciar uma suposta “rede de ódio da esquerda” – por conta dos ataques que estaria sofrendo em redes sociais, de pessoas que discordam de suas posições políticas.

Em seguida, apareceu como co-autora de um artigo de opinião, em defesa do “protagonismo feminino” na formação da “frente ampla”. As outras autoras eram Simone Tebet, Isa Penna e Tabata Amaral. Belaz, a presidente da UNE, é a única das quatro que não detém mandato parlamentar.

Só passei os olhos pela entrevista, o suficiente para achar que o destaque era despropositado. A “rede de ódio” é o debate acalorado, com excessos eventuais, é verdade. Generalizar o excesso como se fosse a regra parece uma forma de promover o silenciamento.

Mas li o artigo a oito mãos, que era exatamente o que dava para esperar: um verniz de representatividade identitária recobrindo a defesa, pouco articulada e pouco argumentada, de uma política de capitulação. A confluência entre emedebismo, Fundação Lemann e mesmo o pecedobismo (na figura da presidente da UNE) não chega a causar espécie. A presença do PSOL, sim.

Pois hoje eis que Belaz está novamente na Folha. Matéria de mais de meia página falando de novo sobre os “ataques” sofridos nas redes – após a entrevista na própria Folha. A reportagem fala que ela foi alvo de ameaças, de incitações à agressão física, de racismo e de machismo. Sim, este tipo de coisa ocorre com perturbadora frequência. Por vezes, parte de pessoas à esquerda. Deve ser combatido com veemência.

Mas o que a reportagem apresenta concretamente é uma postagem de José de Abreu (faz-se questão de acrescentar que ele “pretende ser candidato pelo PT”), que compartilhou a entrevista e comentou: “Vergonha”. Também cita o tuíte de um (ao menos para mim) anônimo e um artigo no site do PCO, que diziam que a presidente da UNE está “a serviço da casa grande”. E só.

José de Abreu e PCO têm histórico de excessos. Mas, no caso, a partir do que está escrito na reportagem e até onde posso ver, são manifestações críticas legítimas, concorde-se ou não com elas. Construir a partir delas uma denúncia da “intolerância” da esquerda é negar a possibilidade do debate – assim como refugiar-se no pertencimento identitário para ganhar imunidade a qualquer tipo de crítica.

Parece-me que a presidente da UNE está costeando o alambrado. O nome da coisa é oportunismo.

Aliás, Isa Penna também. A gente já sabia que tem uma ala do PSOL querendo apoiar o Lula, outra a favor de candidatura própria. Mas pelo jeito tem quem namore também com a ideia de “terceira via”…

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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