Pages

Amazonas. As lições do tornado e o mutirão de solidariedade

Do IHU, 26 Outubro 2021
Por Egydio Schwade


"Assim, para além dos prejuízos, o tornado nos trouxe também este aspecto positivo: um chamado à criatividade solidária, inspirando uma nova maneira de ser administração. Um novo olhar sobre o município. Mudando a nossa rotina administrativa. Um olhar voltado para a população carente", escreve Egydio Schwade, filósofo e teólogo, um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário - CIMI e primeiro secretário executivo da entidade.

Eis o artigo.

Foi domingo, dia 17 de outubro pelas 10 horas da manhã. Em 10 segundos um tornado destelhou uma centena de casas, derrubou dezenas de arvores, entre elas o jambeiro na esquina das ruas Cupiúba e Acariquara, plantado pelo Doquinha em 1983, ano da instalação do município de Presidente Figueiredo. E o nosso abiuzeiro de 1987 que satisfez a lembrança de infância de muitos amazonenses. Muita família desabrigada!

Mas desta vez a reação da administração municipal não demorou. Uma ação maravilhosa e conjunta das secretarias, coordenada pela Prefeita Patrícia, se movimentou logo por toda a cidade. Dezenas de pessoas numa ação solidaria, com os próprios secretários à frente, buscaram as famílias atingidas. Vi o secretário da Defesa Civil, lá no alto, manejando a moto-serra, cortando galhos de árvores sobre as casas. Parabéns prefeita Patrícia! Parabéns secretários!

As sedes das secretarias e a própria prefeitura que muitas vezes acumulam funcionários(as), sem trabalho, tornando-se antros de fofocas, desta vez permaneceram vazias, esquecidas, abandonadas, inúteis. Todos na rua, junto e com o povo, encarnados na realidade, espalhando ânimo e solidariedade. Realizando vidas, numa alegria contagiante que embelezou a cidade e o município! Uma verdadeira lição de como deve funcionar uma administração pública! Faltaram os vereadores, as empresas terceirizadas, os donos das madeireiras e das mineradoras saqueadoras.

Se em plena tarde de domingo, dia considerado “inútil” para atividades oficiais, tudo isto foi possível, por que não acontece nos dias úteis, quando há até a possibilidade de uma preparação prévia? Falta criatividade para as tarefas do dia a dia ou para enfrentar a burocracia estagnante? Por que não iniciar assim uma nova maneira de administrar um município?

Por exemplo: Até hoje todas as administrações esqueceram as promessas de campanha para com as pessoas do interior do município que produz a maioria dos alimentos que consumimos. Vivem uma situação de grave e permanente abandono. É só olhar os ramais. A começar pelo mais próximo que inicia ali, do lado de lá da ponte do ramal do Urubuí, na saída da cidade.

E os índios? Existe um segmento da sociedade nacional mais esquecido e abandonado pelas administrações municipais, estaduais e federais? Aqui os Kiña ou Waimiri-Atroari. Alguma administração já deu atenção às queixas que vem das aldeias do rio Curiuaú, sobre o lixo que a população não-indigena joga nos rios e igarapés tributários, poluindo as águas que abastecem suas aldeias? E ao grito das aldeias do rio Alalaú, denunciando a lama poluente e radioativa que desce da Mineração Taboca, contaminando as aguas e os peixes do Alalaú, a “veia aorta” de seu território? E à sua luta contra o Linhão, obra cegamente apoiada pelo povo desinformado dos prejuízos que representará não só para os Waimiri-Atroari, mas também para as gerações vindouras do município?

Cito apenas duas urgências que reclamam uma ação imediata e conjunta, envolvendo todas as secretarias.

Assim, para além dos prejuízos, o tornado nos trouxe também este aspecto positivo: um chamado à criatividade solidária, inspirando uma nova maneira de ser administração. Um novo olhar sobre o município. Mudando a nossa rotina administrativa. Um olhar voltado para a população carente.

Finalmente, revelo uma visão profética que tive a propósito dos meus 86 anos de vida:

Ainda não se tinham passado outros 500 anos. Me foi dado rever a cidade de Pres. Figueiredo. Não é possível descrever tudo o que vi. Tudo estava diferente. Me detenho no que vi na quadra da SEFAZ, dos bancos. Os prédios do Banco do Brasil, Bradesco e Caixa da Economia fake, estavam cobertos de cipós: titica, abuta, escada de jaboti e maracujás de várias espécies. Como sininhos, as frutas pendiam das paredes e no que restava dos telhados. A quadra toda rodeada de fruteiras: taperebazeiros, piquiazeiros, abiuzeiros, mangueiras e sob os jambeiros, o chão vermelho de flores caídas. Frente ao Banco do Brasil, uma enorme samaumeira florida, com um zum zum de abelhas, coletando néctar lá no alto. O trabalho lento e paciente das raízes das arvores, estourava o cimento e o asfalto, fazendo reaparecer a mãe-terra, preocupada pelo alimento dos seus filhos. No alto dos abiuzeiros e debaixo dos taperebás, a algazarra de meninas e meninos se lambuzando com as frutas. Uma mulher Kiña, de nome Tepe, administrava o município.

E enquanto os bis e trissavôs já padeciam alguns séculos no inferno de suas preocupações pelo lixo inútil que esconderam nas caixas eletrônicas daqueles prédios (ou nas Ilhas Caiman), aqui nenhum de seus descendentes figueredenses se interessava mais por esse lixo que ainda resistia sob aquele tapete verde. Querem, sim, ver sumir esta maldição. Escritórios e sedes não existiam mais. Também não vi mais nenhuma igreja. Mas, sim, pessoas andando pelos caminhos e trilhas, como o Cristo, de olhos abertos, vendo as necessidades do povo, iluminando as sementes e valores que um Desconhecido semeou em cada ser vivo no momento de sua concepção e que o torna original, divino e capaz de mudar a História e a face da terra.

Quando acordei do sonho estava parafraseando João Batista: “No meio de vocês está quem vocês não conhecem! Aquele que vai endireitar os caminhos para a festa.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário