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A revolta do trabalhador estadunidense

Todas as economias felizes são parecidas: cada economia infeliz é infeliz do seu próprio modo


Da Carta Maior, 21 de Outubro 2021
Por Paul Krugman


Créditos da foto: (George Etheredge/NYT)

Como consequência da crise financeira de 2008, os problemas da economia eram todos sobre demandas inadequada. O boom da moradia tinha dado errado; consumidores não estavam gastando o suficiente para preencher a lacuna; o estímulo Obama, feito para estimular a demanda, era pequeno demais e breve.

Em 2021, por contraste, muitos dos nossos problemas parecem ser sobre fornecimento inadequado. Os bens não alcançam consumidores porque os portos estão entupidos; uma escassez dos chips semicondutores paralisou a produção de automóveis; muitos empregadores relatam que estão com dificuldade em arranjar trabalhadores.

Muito disso é, provavelmente, transitório, embora as interrupções na cadeia de fornecimento vão claramente durar por um bom tempo. Mas algo mais fundamental e duradouro pode estar acontecendo no mercado de trabalho. Trabalhadores estadunidenses que sofrem, são mal pagos e explorados há tempos e podem ter chegado aos seus limites.

Sobre as questões da cadeia de fornecimento: é importante perceber que mais bens estão chegando aos estadunidenses do que nunca antes. O problema é que mesmo com o aumento das entregas, o sistema não está conseguindo acompanhar essa demanda extraordinária.

No início da pandemia, as pessoas compensaram a perda de muitos serviços comprando coisas. As pessoas que não conseguiam comer fora, remodelaram suas cozinhas. As pessoas que não podiam ir para as academias, compraram equipamentos para se exercitar em casa.

O resultado foi um aumento impressionante nas compras de tudo, desde eletrodomésticos até eletroeletrônicos. No início do ano, gastos reais em bens duráveis estavam mais de 30% acima dos níveis pré-pandêmicos, e ainda está bem alto.

Mas as coisas vão melhorar. Enquanto a covid-19 enfraquece e a vida volta gradualmente ao normal, os consumidores comprarão mais serviços e menos coisas, reduzindo a pressão nos portos, caminhões e ferrovias.

A situação do trabalho, em contraste, parece uma redução genuína no fornecimento. O emprego total segue em cinco milhões abaixo do pico pré-pandêmico. O emprego no setor de lazer e hotelaria ainda está mais de 9% abaixo. Ainda assim, tudo o que vemos sugere um mercado de trabalho muito rígido.

Por um lado, os trabalhadores estão saindo dos seus empregos como nunca antes, um sinal de que estão confiantes para encontrar novos empregos. Por outro lado, os empregadores não estão somente reclamando sobre a escassez de mão-de-obra, estão tentando atrair empregados com aumentos salariais. Nos últimos seis meses os salários de trabalhadores do lazer e hotelaria aumentaram em uma taxa anual de 18%, e estão agora bem acima da tendência pré-pandêmica.

O mercado de vendedores também empoderou membros dos sindicatos, que estão muito mais dispostos a entrarem em greve após receberam ofertas contratuais que consideram inadequadas.

Mas porque estamos experienciando o que muitos estão chamando de Grande Resignação, com tantos trabalhadores ou se demitindo ou exigindo maiores salários e melhores condições de trabalho para permanecerem? Até recentemente, os conservadores culparam a extensão do seguro-desemprego, alegando que esses benefícios estavam reduzindo a iniciativa de aceitar empregos. Mas estados que cancelaram esses benefícios cedo não viram aumento na taxa de emprego em comparação com os que não cancelaram, e o fim nacional de benefícios no mês passado não parece ter feito tanta diferença na situação do emprego.

O que parece estar acontecendo, ao invés, é que a pandemia conduziu muitos trabalhadores estadunidenses a repensarem suas vidas e se perguntarem se era válido permanecer nos empregos medíocres que muitos tinham.

Ao passo que os EUA são um país rico que trata muitos dos seus trabalhadores muito mal, os salários são frequentemente baixos; ajustados de acordo com a inflação, o trabalhador homem médio não ganhava mais em 2019 do que seu homólogo ganhava 40 anos atrás. As horas são longas: os EUA são uma “nação sem férias”, oferecendo menos folgas do que qualquer outro país avançado. O trabalho também é instável, com muitos trabalhadores que recebem baixos salários – e trabalhadores não brancos em particular – sujeitos a flutuações imprevisíveis nas horas de trabalho que podem causar caos na vida familiar.

E não são somente os empregadores que tratam os trabalhadores de forma dura. Um número significativo de estadunidenses parece desdenhar das pessoas que fornecem serviços. De acordo com uma pesquisa recente, 62% dos trabalhadores de restaurantes afirmam ter recebido tratamentos abusivos dos clientes.

Tendo em vista essas realidades, não é de se surpreender que muitos trabalhadores estão se demitindo ou estão relutantes em voltar para seus antigos empregos. A pergunta mais difícil é: por que agora? Muitos estadunidenses odiavam seus empregos há dois anos, mas não seguiam esses sentimentos tanto quanto seguem hoje. O que mudou?

Bem, é somente especulação, mas parece bem possível que a pandemia, revirando a vida de muitos estadunidenses, também fez com que alguns deles reconsiderassem suas escolhas de vida. Nem todo mundo pode se demitir de um emprego odiado, mas um número significativo de trabalhadores parece pronto para aceitar o risco de tentar algo diferente – se aposentando mais cedo mesmo com o custo monetário, procurando por empregos menos desagradáveis em uma indústria diferente, e por aí vai.

E enquanto essa nova seletividade dos trabalhadores que se sentem empoderados está tornando a vida dos consumidores e dos empregadores mais difícil, sejamos claros: no geral, é uma boa coisa. Os trabalhadores estadunidenses estão insistindo em acordo melhores, e é do interesse da nação que eles consigam.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares

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