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Recomeça a luta contra o apartheid global das vacinas

Líder de organização indiana denuncia: país é o maior produtor de imunizantes, mas vacinou só 16% de sua população. E novas doses produzidas, em vez de beneficiarem países do Sul, serão levadas pela Janssen aos Estados Unidos…



De OUTRASAÚDE, 27 de Setembro 2021


Achal Prabhala: ““O fato de essas doses estarem sendo produzidas com mão de obra indiana, em solo indiano, nos dá o direito de dizer algo sobre para onde elas vão. E queremos que eles vão para a Índia, para a União Africana e para a Covax Facility – e para nenhum outro lugar”

FRACASSO PASSADO, PRESENTE E FUTURO


Mais de seis bilhões de doses contra a covid-19 já foram administradas no mundo. Se todas fizessem parte de um regime de duas doses e tivessem sido distribuídas de forma equânime, cada país teria conseguido vacinar totalmente quase 40% de suas populações. É um número excelente, muito superior à singela meta estabelecida pela OMS em maio: a de que, até o fim de setembro, 10% da população de cada país deveria ser vacinada. No entanto, mais de 50 nações ainda não bateram esse percentual. E menos de 2% das pessoas em países de baixa renda receberam ao menos uma dose. Considerando as evidências recentes de que a proteção conferida aos mais vulneráveis é menos robusta, esses números são ainda piores.

As promessas de doação – o governo dos Estados Unidos anunciou recentemente que vai disponibilizar mais 500 milhões de doses, e o da França, 120 milhões – são boas, mas demoram a se concretizar. No caso do governo Joe Biden, uma doação de 600 milhões já tinha sido anunciada no começo do ano, mas só um sexto foi entregue até agora. “O que precisamos é de uma ajuda realmente robusta e sustentável para que sejam entregues agora – não em seis ou 12 meses”, pediu o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus.

Na semana passada, falamos aqui sobre a retomada das exportações da Índia, que deve acontecer agora em outubro e pode imprimir velocidade à distribuição para os países de baixa renda. Porém, até em relação a isso paira incerteza. Isso porque o país deve finalizar nos próximos meses a produção de 600 milhões de doses do imunizante da Janssen para exportação, mas, de acordo com os contratos vigentes, essas vacinas devem ir para os Estados Unidos e a Europa, onde não falta vacina.

Há uma pressão de entidades da sociedade civil para que os contratos sejam revistos e as doses sejam revertidas para onde são efetivamente necessárias. A própria Índia, que decidiu retomar as exportações após ultrapassar sua primeira e gigantesca onda com a Delta, não está em situação muito confortável: tem apenas 16% da população vacinada. “O fato de essas doses estarem sendo produzidas com mão de obra indiana, em solo indiano, nos dá o direito de dizer algo sobre para onde elas vão. E queremos que eles vão para a Índia, para a União Africana e para a Covax Facility – e para nenhum outro lugar. A história recente sugere que a J&J não estabelecerá prioridades racionais e humanas, a menos que os obrigemos a isso”, diz Achal Prabhala, coordenador do Projeto AccessIBSA, no The Caravan.

A Biological E, empresa indiana que está produzindo as doses da Janssen, não sabe para onde elas irão. O governo da Índia e a Johnson & Johnson ainda não deram nenhuma indicação nesse sentido.

Na última sexta-feira, a a primeira-ministra de Barbados, Mia Amor Mottley, usou sua fala na Assembleia-Geral das Nações Unidas para criticar o excesso de discursos – e a escassez de ações. “Quantas mais variantes do covid-19 devem chegar antes que um plano de ação mundial de vacinação seja implementado? Quantas mais mortes devem ocorrer antes que 1,7 bilhão de vacinas em excesso na posse dos países avançados do mundo sejam compartilhadas com aqueles que simplesmente não têm acesso? (…) Optamos por não fazê-lo. Não é porque não temos o suficiente, é porque não temos a vontade de distribuir o que temos“, disse. Segundo o colunista do UOL, ela “chacoalhou” a ONU. Resta saber se o sacolejo vai ser capaz de gerar movimento contínuo.

PRIMEIRA IMPRESSÃO

Cientistas uruguaios divulgaram na sexta-feira os primeiros resultados sobre a aplicação de terceiras doses no país: o uso do imunizante da Pfizer aumentou em 20 vezes o nível de anticorpos de quem antes tinha recebido as duas doses da CoronaVac.

O trabalho está sendo conduzido pelo Instituto Pasteur de Montevidéu e pela Universidade da República. Ele envolve mais 200 voluntários, irá durar dois anos e prevê a coleta de sangue periódica dos participantes. Porém, os dados preliminares ainda não foram publicados. Não foi relatada a idade dos voluntários, por exemplo – embora saibamos que, no Uruguai, a vacina da Sinovac foi oferecida inicialmente somente a adultos com menos de 70 anos.

No fim de julho, o país anunciou a oferta de uma dose da Pfizer a todos os que haviam completado o regime com a CoronaVac; há três semanas, decidiu administrá-la também a todas as pessoas com mais de 60 anos, independentemente do imunizante utilizado antes. Praticamente a população inteira está elegível. Segundo o governo federal, 77% da população tomou uma uma dose, 73% recebeu as duas e quase 30% já está com a terceira.

É preciso lembrar que o nível de anticorpos, sozinho, não atesta a eficácia, mas é um indicativo dela. Para comparação, a terceira dose de CoronaVac (para quem já tinha recebido duas doses do mesmo imunizante) também foi avaliada recentemente em dois artigos, ainda sem revisão de pares. Segundo o Instituto Butantan, em adultos saudáveis com menos de 60 anos os níveis de anticorpos aumentaram de três a cinco vezes; em idosos, o aumento foi de sete vezes.

PARA PROFISSIONAIS DE SAÚDE

No Brasil, profissionais de saúde também vão receber uma terceira dose, preferencialmente da Pfizer. A decisão foi anunciada pelo ministro da Saúde Marcelo Queiroga, e tomada em conjunto com os conselhos de secretários estaduais (Conass) e municipais (Conasems).

O estudo encomendado pelo Ministério para avaliar o reforço com diferentes vacinas ainda está em andamento. A coordenadora da pesquisa, Sue Ann Clemens, da Universidade de Oxford, disse ao Globo que apresentou à pasta a ideia de se testar a aplicação de apenas meia dose, porque alguns estudos internacionais mostram que isso gera uma resposta imunológica alta. “Se conseguirmos mostrar que o ‘booster’ de meia tem um efeito excelente, a gente dobra nossa capacidade. Pode ser uma salvação para o mundo”, diz ela. A ver.

MAR DE INCERTEZAS

Durante a pandemia, cresceram 30% as mortes por causas mal definidas no Brasil. Os dados, obtidos no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do ministério da Saúde, foram compilados por Fatima Marinho, médica epidemiologista e especialista da organização global Vital Strategies. Ela aponta que o salto desse índice pode indicar a subnotificação de mortes por covid-19 no Brasil, como contou reportagem da Folha.

Em 2020, foram 97.436 os óbitos registrados em domicílios ou hospitais sem assistência ou com causa desconhecida. Em 2019, esse número foi de 74.972. As mais de 20 mil mortes por causas mal definidas representam 11,5% das 194.976 mortes por covid registradas no ano passado no país. Quando consideradas apenas as mortes sem causa definida em domicílio, o aumento de 2019 a 2020 foi de 45%. As registradas em hospitais, isoladamente, cresceram 19%.

Especialistas ouvidos pelo jornal explicam que, além da falta de assistência médica, são também consideradas mortes por causas mal definidas as que decorrem de sintomas não identificados ou por parada cardiorrespiratória, insuficiência respiratória aguda e SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) sem uma causa específica.

Segundo Marinho, “eventos como parada cardiorrespiratória, SRAG e insuficiência respiratória são (…) consequências da verdadeira causa que levou à morte”. Considerando a alta justamente no primeiro ano da crise sanitária, isso leva a crer que, em muitos dos casos, a covid-19 esteja por trás dos óbitos. A impressão é reforçada por Diego Xavier, pesquisador da Fiocruz. Ele destaca que a alta na classificação de mortes como causa mal definidas coincide com os picos da pandemia no Brasil.

NINGUÉM SABE, NINGUÉM VIU

O Ministério da Saúde não soube explicar onde foram parar mais de 300 respiradores mecânicos destinados a estados e municípios no ano passado. Os equipamentos, decisivos para salvar vidas de pacientes graves de covid-19, custaram mais de R$ 18 milhões. As informações são de uma auditoria feita pela Controladoria Geral da União (CGU) sobre a prestação de contas do ministério em 2020. Os técnicos da CGU identificaram que, no total, quase cinco mil respiradores foram doados aos entes federativos, a um custo total de mais de R$ 270 milhões – mas perceberam que não há comprovantes da entrega de nenhum deles. Após rastreamento junto aos estados e municípios, 336 dos respiradores não foram encontrados. Ninguém sabe, ninguém viu.

Segundo a CGU, há “graves inconsistências entre os registros de entrega do Ministério da Saúde e os registros de recebimento dos entes federativos”. Além disso, a auditoria – que será usada pelo Tribunal de Contas da União para julgar os custos do ministério em 2020 – encontrou muitos exemplos de mau uso e desperdício de verbas públicas no primeiro ano da crise sanitária. No relatório, o órgão destacou que ao longo do ano passado já havia alertado a Pasta sobre prejuízos em compras, mas que as notificações não foram levadas em conta.

A CGU mostrou ainda que, em 10 meses, nada menos de 30 toneladas de medicamentos foram descartadas. Dessas, mais de 29 toneladas de vacinas pentavalente e tríplice foram incineradas, o que custou R$ 21 milhões. Além da incineração, há registro de perdas de medicamentos por extravio, incluindo remédios de alto custo. Um exemplo foram 66 doses de um deles – cujo custo individual é de R$ 12 mil –, que saíram do estoque do ministério sem destino conhecido. O prejuízo total com o sumiço foi de R$ 840 mil. Vacinas BCG e contra febre amarela, gripe e hepatite aparecem na lista das que perderam a validade antes de serem usadas.

O relatório completo, que pode ser acessado na íntegra aqui, foi disponibilizado na semana passada. Após a repercussão da auditoria, o Ministério não explicou coisa alguma: apenas declarou que vai se manifestar dentro do prazo cabível.

DESDE A SEGUNDA GUERRA

Desde a Segunda Guerra Mundial, países da Europa Ocidental não tinham uma redução tão grande na expectativa de vida como a que foi observada no ano passado, por conta da pandemia de covid-19. Na Europa Central e Oriental, a redução agora excedeu a que veio após a dissolução da União Soviética.

As informações são de um estudo que será publicado hoje pela Universidade de Oxford, e que reuniu os dados de mortalidade de 29 países, abrangendo a maior parte do continente europeu, os Estados Unidos e o Chile – que publicaram seus registros oficiais de óbitos de 2020.

A situação é pior para os homens. Em 15 países, sua expectativa de vida no ano passado ficou pior do que em 2015 – e o maior declínio foi nos Estados Unidos, com uma queda de 2,2 anos. Nações que levaram em média 5,6 anos para aumentar sua expectativa de vida em 12 meses viram esse progresso ruir ao longo de 2020.

PESAR

Na última sexta, morreu, vítima de complicações da covid-19, o médico sanitarista Carlos Neder, aos 67 anos. Neder, que foi também fundador do PT, estava internado desde o dia 8 de agosto. Natural de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Carlos Neder era mestre em saúde pública pela Unicamp, foi vereador em São Paulo por quatro gestões e deputado estadual em duas. Foi também secretário municipal de saúde na gestão de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo, entre 1990 e 1992. Militante histórico pela saúde pública, participou dos movimentos populares em saúde nos anos 1970, quando era estudante da USP, e foi voz destacada na construção do SUS. “Neder vive em nós, porque somos um projeto político que teima em garantir uma vida com direitos, assim como ele teimou”, diz a nota de pesar publicada pelo Coletivo Cidadania Ativa, do qual fazia parte.

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