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Policiais entram em aldeia e matam indígena na frente de crianças e mulheres

Do IHU, 17 Setembro 2021
Por Muvuca Popular


Lideranças indígenas acusam policiais de matarem o indígena Lourenço Karajá ao cumprir mandado de prisão contra ele nesta quinta-feira (16) na Aldeia Santa Isabel do Morro, a maior do povo Karajá, que fica na ilha do Bananal, na divisa de Mato Grosso com Tocantins.

Em vídeo, disponível aqui e enviado com exclusividade à nossa equipe, é possível ver policiais colocando o corpo, que seria de Lourenço Karajá, em um carro, enquanto se escuta o grito de várias pessoas ao redor.

Segundo relato das lideranças, policiais federais, sendo um grupo tático de Mato Grosso, estavam acompanhados de servidores da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o que gerou revolta na comunidade.

Operação foi realizada pela PC

Contudo, a ação faz parte da operação “Ordem Pública” deflagrada na região Norte Araguaia pela Polícia Civil (PC) e não pela Polícia Federal (PF) como afirmaram as lideranças em relato. Além disso, a assessoria da Polícia Civil informa que ao chegarem à residência do alvo ele saiu do imóvel com uma arma de fogo, calibre 380, apontada para a cabeça de sua companheira e usando-a como refém.

“Diante da situação, os policiais tentaram negociar com ele para que soltasse a mulher e se entregasse, porém, ele não obedeceu aos comandos e foram necessários disparos para salvaguardar a vida da vítima. Tão logo foi atingido com os disparos, o alvo foi socorrido até o hospital de São Félix do Araguaia, mas não resistiu e foi a óbito”, informaram em nota. Confira o documento na íntegra logo abaixo.

Indígenas questionam presença de servidores da FUNAI

Entretanto, as lideranças questionam a presença de servidores da FUNAI e a ação em si, que acabou sendo acompanhada por crianças e mulheres da comunidade. “Lamentavelmente a FUNAI, pela primeira vez, acompanha a Polícia Federal para matar o indígena no meio da Aldeia, na frente das crianças, da família. Tanta coisa, tanta necessidade que o nosso povo passa na assistência, como tirar documentação, ir no INSS, ir em lugares no nosso município, que é tão distante, e muitos anos a gente vem dependendo da SESAI e a SESAI vem fazendo o papel da FUNAI, porque a FUNAI não faz absolutamente nada nesses últimos anos”, relatou uma liderança ao MPopular.

A liderança ainda informou que os policiais chegaram fortemente armados com metralhadoras, mas ressaltou que ninguém na comunidade tem ou anda armado.

“Os policiais federais todos com metralhadora, aqui ninguém usa arma. Na minha casa não tem arma. Ninguém usa arco e flecha ou arma para atirar no outro. E os policiais chegaram todos com metralhadora e tinha muita criança aqui e mataram na frente das crianças e das mulheres, o que nunca tínhamos visto, acabou de acontecer”, declarou.

Porém, de acordo com a liderança, a comunidade também vem enfrentando outros problemas, como ataques vindo de posseiros, o que dificulta até a procura de alimento nos rios e mata.

“O sangue indígena tem sido muito derramado nos últimos anos. E agora começou na Aldeia, isso chegou agora na nossa casa. Então, espero que alguém faça alguma coisa. Agora, me sinto insegura, os posseiros estão entrando, atirando nos pescadores, daqui a pouco a gente vai ficar sem lago para pescar, sem lugares para caçar. Tudo o que a gente fazia era buscar o nosso recurso no meio do mato. Então, vai ficar difícil”, finalizou.
Outro lado

A equipe do MPopular entrou em contato com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a Polícia Federal (PF), por meio de suas assessorias, para saber sobre a operação, mas até a publicação da matéria não obteve retorno. Já a Polícia Civil de Mato Grosso encaminhou uma nota, que foi inserida à notícia, após a sua publicação.

Confira nota da Polícia Civil enviado à redação

Equipes das Polícias Civis de Mato Grosso e do Tocantins realizaram uma ação nesta quinta-feira (16.09) para cumprir dois mandados de prisão contra um indígena de 39 anos, investigado pela Delegacia de São Félix do Araguaia por diversos crimes cometidos na região, entre eles, homicídio qualificado.

Na manhã de hoje, equipes das Delegacias de São Félix do Araguaia e Alto Boa Vista e da GOTE, DEIC-Paraíso do Tocantins e Delegacia de Lagoa da Confusão seguiram até a aldeia Santa Isabel, no Tocantins, para dar cumprimento aos mandados expedidos pela Comarca de São Félix do Araguaia contra Lourenço Rosemar Filho de Mello.

Ao chegarem à residência do alvo, na aldeia da etnia Karajá, localizada na Ilha do Bananal, as equipes verbalizaram que se tratava da polícia e foram surpreendidas com a ação de Lourenço, que saiu do imóvel com uma arma de fogo, calibre 380, apontada para a cabeça de sua companheira e usando-a como refém. Diante da situação, os policiais tentaram negociar com ele para que soltasse a mulher e se entregasse, porém, ele não obedeceu aos comandos e foram necessários disparos para salvaguardar a vida da vítima. Tão logo foi atingido com os disparos, o alvo foi socorrido até o hospital de São Félix do Araguaia, mas não resistiu e foi a óbito.

O planejamento para cumprir os mandados foi executado com base em informações apuradas ao longo de um ano de investigações. Conforme a apuração realizada, Lourenço amedrontava os demais indígenas, que eram obrigados a permanecer calados diante da prática de diversos delitos cometidos pelo alvo dos mandados.

Além da pistola cal. 380 que estava municiada, no momento da ação Lourenço tinha um carregador extra e mais de R$ 9 mil nos bolsos da roupa. O dinheiro, arma e munições foram apreendidos e encaminhados à Delegacia de São Félix do Araguaia.

De acordo com a investigação, o alvo da operação era bastante conhecido na região pela alta periculosidade que representava e dizia que jamais se entregaria à polícia.

Ele respondia a inquéritos e ações penais por diversos crimes cometidos na região de São Félix do Araguaia, como receptação de produtos furtados (inclusive de veículos), comércio de arma de fogo, tortura e cárcere privado contra a própria família, estupro de vulnerável, maus contra e abandono de incapaz, lesão corporal seguida de morte e suporte para fuga de criminosos. Foi investigado também por atentar contra a vida da esposa e dos filhos mais velhos que não concordavam com suas ações, e fez ameaças contra os demais membros da família, com disparos de arma de fogo.

A operação foi acompanhada pelo coordenador técnico da Funai Araguaia-Tocantins e contou com apoio aéreo do Centro Integrado de Operações Aéreas (CIOPAer).

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