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Para Sérgio Mamberti, ‘desesperançar nunca foi uma opção’

A cultura sempre foi seu instrumento para a construção do país com “que nós todos sonhamos”. Mamberti “adoraria poder dizer ‘raios e trovões’ para ‘afugentar’ o governo Bolsonaro”




Da  RBA, 3 de Setembro 2021
Por Clara Assunção 


"Tenho a cultura como esse instrumento fundamental para a gente conseguir fazer com que o Brasil cumpra o seu destino e seja esse país que nós todos sonhamos", dizia Sérgio Mamberti, morto nesta sexta (3)

São Paulo – No prólogo do livro Sérgio Mamberti – Senhor do Meu Tempo, lançado em abril pela Edições Sesc, é a atriz e escritora Fernanda Montenegro que melhor define o ator, intelectual, produtor cultural e ativista político Sérgio Mamberti. “Nunca o vi sem a sagrada esperança ativa”, descreve, na autobiografia produzida pelo amigo em parceria com o jornalista Dirceu Alves Júnior. De fato, numa entrevista concedida dois meses após o lançamento da obra ao jornalista Juca Kfouri, no programa Entre Vistas, da TVT, Mamberti confidenciou que o verbo “esperançar”, conjugado pelo patrono da educação brasileira, Paulo Freire, era o que melhor dava a dimensão de sua vida.

“Eu sou uma pessoa ousada e atrevida porque sonho. É sempre sonhar, mas sonhar concretamente com luta, não pode deixar de lutar e resistir. Isso é o mais importante. E essa energia se adquire através desse treino que a vida vai te dando. De que a persistência se torna uma coisa absolutamente fundamental para que você continue sonhando e tendo perspectivas de mudanças e transformações”, contou o ator, que não negava também um lado seu subversivo, que o caracterizava em toda a sua trajetória na esquerda de luta por justiça social e pela participação da sociedade no processo político.


“Subverter é realmente tentar participar de um processo de transformação democraticamente. Nesse sentido, sou absolutamente subversivo. Em termos de costume, de visão política, e também tendo a cultura como esse instrumento fundamental para a gente conseguir fazer com que o Brasil cumpra o seu destino e seja esse país que nós todos sonhamos”, garantia ele.

Mensagens de despedidas


De tão marcante seu afeto e esperança, diante da notícia de sua morte na madrugada de hoje, aos 82 anos, em decorrência de falência múltipla de órgãos por conta de uma infecção nos pulmões, assim Sérgio Mamberti foi lembrado em inúmeras mensagens de despedidas. Algo que o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva com quem o ator compartilhou sua militância em cargos durante seu governo no Ministério da Cultura, explicou: “se o povo brasileiro o admirava pelo seu talento, quem o conhecia de perto o admirava pela sua humildade, carinho e inteligência”.

Já a ex-deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), em pesar, declarou “que triste perder você, querido amigo. Que triste vê-lo partir num momento tão triste de nosso país. (…) Mamberti nos deixou e, definitivamente, o Brasil está mais triste e menos, muito menos afetuoso”.

O ator Cássio Scapin, intérprete do Nino no programa Castelo Rá–Tim–Bum, onde contracenava com Mamberti, também colocou em palavras o tamanho da perda do artista “que lutou pelo progresso e desenvolvimento da nação brasileira, com as armas que tinha, a cultura e a arte!. Fará imensa falta a sua força!”, escreveu em suas redes sociais.

Resistência de jovem


Para que o Brasil ganhasse esse dramaturgo que fez história em mais de 50 anos de carreira e que ajudou a fundar o PT ao lado de outros “artistas, intelectuais e operários”, como dizia, o país precisou perder um futuro diplomata. Esta era a carreira que seus pais defendiam como natural por conta das habilidades do então garoto, natural de Santos, litoral de São Paulo, com outros idiomas. Por ironia do destino, foi uma outra paixão dos pais, só que pelas artes, que levou ele e seu irmão, Cláudio Mamberti, morto em 2001, a trilharem os primeiros passos como atores. Ainda jovem e já no teatro, Mamberti se filiou ao Partido Comunista, “vanguarda na época”, como ressaltou a Juca Kfouri.

Às vésperas de 31 de maio de 1964, ele estava em Porto Alegre para estrear uma peça quando soube dos boatos de que havia um golpe militar em marcha. Se inscreveu no exército revolucionário de defesa dos princípios democráticos, convocado pelo líder Leonel Brizola. Mas por falta de experiência de combate, decidiu atuar na construção da Rádio Legalidade, onde convocava à resistência outras companhias teatrais. Até que foi impedido, pouco depois, de continuar com a atividade por militares. “Ali soube que estávamos entrando em dias complicados”, observou ao jornalista.

Luta por democracia


Ao longo dos 21 anos de ditadura, continuou resistindo por meio da cultura. “Sempre um entrave aos governos autoritários”, destacava. Nos anos 1990, Mamberti se juntou ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ao qual garantiu que se chegasse ao Ministério da Cultura pelo PT, consagraria a arte no campo e para a formação de novas lideranças. Prometeu e cumpriu. Sob os mandatos dos governos Lula e a primeira gestão de Dilma Rousseff, de 2011 a 2014, Mamberti fundou a Secretaria de Identidade de Diversidade Cultural. E, em uma parceria com o Teatro dos Oprimidos, formou 300 lideranças culturais do MST. “Foi algo extraordinário, um momento muito bonito”, lembrava.

‘Raios e trovões’


Foram 12 anos afastados dos palcos, mas ele garantia que em nenhum momento sentiu que estava perdendo tempo. “Frequentei outras dimensões do país por estar no centro do governo.” Àquela altura, o ator já tinha na dramaturgia uma coleção de personagens consagrados, como Eugênio da novela Vale Tudo (1989). Ou o senador Victor Freitas da minissérie Agosto (1993) até outros clássicos que destacou à TVT ter muito orgulho. Em especial, o personagem Doutor Victor, do Castelo Rá-Tim-Bum. “Sempre acreditei nesse elo fundamental da educação junto com a cultura para a transformação. E aí o doutor Victor formou várias gerações, então tenho muito orgulho desse trabalho.”

Mamberti contou que gostaria de direcionar ao governo de Jair Bolsonaro um pouco da sabedoria do personagem. “Nem em 64 tivemos um desmonte da cultura da maneira como feito agora, e também dos direitos dos trabalhadores”, apontou. “E o doutor Victor, quando precisava colocar os pingos nos is, colocava. Quando o Nino saía do riscado, do que estava combinado, ele brigava e falava aquele famoso ‘raios e trovões’. Adoraria com esse ‘raios e trovões’ exorcizar esse momento.”

Desesperançar jamais


Com a sua resistência e resiliência, o ator enfrentou a perda precoce de sua companheira, a atriz Vivian Mahr, também ativista política, então aos 37 anos. Ao lado dela, teve os filhos Eduardo, Carlos e Fabrício Mamberti. Anos depois, adotou Daniele, a filha caçula. Em 2019, lidou com a morte do companheiro Ednardo Torquato, com quem viveu 37 anos. Pelas perdas afetivas, Sérgio Mamberti comentava que tinha encarado “o processo da vida”.

Aos 82 anos, quando precisou fazer um tratamento de coluna, notou sinais internos que mostravam a ele “que o tempo passa”. Sempre disposto, não negava que, apesar desse “senhor temporal”, ele estava “com a mesma energia. Com a paixão pela vida”. Para Sérgio Mamberti, desesperançar nunca foi uma opção.

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