Pages

O último vôo de águia de André Gunder Frank

Do IELA, 1 de Setembro de 2021
Por Nildo Ouriques



André Gunder Frank é intelectual decisivo para estudar América Latina. São dele e de sua vasta e fecunda obra, vários pontos de partidas para tirar o pensamento crítico latino-americano de armadilhas próprias e alheias na década de sessenta em diante. É também dele, agora longe das preocupações particulares de nosso errante continente, o alerta sobre a evolução histórica do mundo em que vivemos dando o xeque mate na historiografia eurocêntrica.

Num ensaio atinado, o filósofo equatoriano Bolívar Echeverría (Las ilusiones de la modernidad) estabelece importante diferença entre Marx e Braudel: ao alemão, a primazia da crítica; ao francês, o esforço da compreensão. Na obra Re-Orient. A economia global na era do predomínio asiático, Frank não poupa ninguém: a compreensão e a crítica devem começar precisamente na radical revisão da história comum a ambos.

É claro que Braudel tem enorme dívida intelectual para com Marx, reconhecida pelo próprio “biógrafo” do Mediterrâneo. Ao contrário dos braudelianos que apressadamente se fizeram anti-marxistas, Braudel não tem vacilação diante da estatura de Marx; basta ler entrevistas ou mesmo sua obra mais conhecida para dar-se conta da presença marcante de Marx na qual podemos reconhecer as pistas marxianas orientando sua longa e ambiciosa reconstrução do capitalismo e da civilização material. No entanto, o projeto de Braudel era, de fato, produto de uma antiga indicação de Hegel, de inequívoco caráter eurocêntrico.

O mestre alemão da dialética afirma nas Lições sobre a filosofia da história universal que “o mar Mediterrâneo é o elemento de união dessas três partes do mundo, e ele se converte no centro de toda a história universal... o Mediterrâneo é o eixo da história universal. Todos os grandes Estados da história antiga se encontram em torno desse umbigo da terra... Sem o Mediterrâneo não caberia imaginar a história universal... A Ásia Oriental remota está afastada do processo da história universal e não intervêm nele”.

Não podemos ignorar que é de Hegel a pretensão de uma genuína história universal ao descrever os fundamentos geográficos da trajetória humana ao indicar precisamente a Ásia como o início de tudo, região onde “despontou a luz do espírito, a consciência de algo universal, e com ela, a história universal”. No entanto, a economia mundial, unida às condições asiáticas, não permitiriam que seu desabrochar ocorresse na China e, somente mais tarde, sob outras circunstâncias poderia finalmente figurar sob roupagens concretas na Europa que teria se transformado no centro do mundo... Eis a origem filosófica do assim chamado “excepcionalismo europeu” e base para a visão eurocêntrica – portanto, não universal – do mundo tal como o conhecemos segundo a historiografia dominante.

O eurocentrismo é para Frank antihistorico e anticientífico, é uma ideologia de que Polanyi, Braudel, Wallerstein, Tonybee, Weber e até mesmo Marx são cativos. A tese central de Frank é simples: ao contrário do que supunham ideologicamente Braudel e Wallerstein, jamais existiram diversas economias mundiais na Idade Moderna, mas uma única economia mundial na qual o tão cantado excepcionalismo europeu não era e jamais poderia ter sido hegemônico. Portanto, a Europa como centro do projeto de pesquisa e de suas teorias, constituiu não somente erro grave, mas pura produção de ideologia. Com mais precisão ainda: “em termos econômicos a escala mundial, nem Portugal no século XVI, nem os Países Baixos no século XVII nem Inglaterra do século XVIII foram de maneira alguma “hegemônicos”. Tampouco em termos políticos. Nada disso! Em todos esses terrenos, as economias da Ásia estavam muito mais “avançadas”, e impérios como o Ming/Ching chinês o dos mongóis na Índia e inclusive o da Pérsia dos sefarditas e o turco otomano possuíam um peso político e inclusive militar muito superior a qualquer dos impérios europeus do período”.

Eis a dimensão da heresia de Frank. Anota aí: uma heresia não é um arroubo acadêmico! Gunder Frank estuda a economia mundial desde sempre como poucos pensadores de nosso tempo (Acumulação mundial – 1492-1789) e, em consequência, seu último voo de águia revoga também suas próprias ilusões e erros do passado. Nada escapa de seu vigoroso revisionismo pois até mesmo a especificidade que Marx julgava decisiva na análise histórica – aquela diferença especifica que poderíamos verificar no reino da produção ocorrida a esteira da revolução industrial – ou seja, o “modo de produção capitalista” é, para ele, uma completa miopia, fruto da imaginação de Marx, sem fundamento histórico algum! À luz de sua pesquisa, tampouco teria existido uma “Grande Transformação” no século XVIII; ao contrário, a transformação de fato ocorre muito tempo antes e jamais na Europa. Não se trata de pista nova pois Frank já esboçara elementos importantes desse programa de pesquisa em Five Thousand Year World System History publicado um ano antes da obra que comentamos.

Na mesma toada, Enrique Dussel (Ética de la liberación) alertou – a partir dos rastros deixadas por Frank e Samir Amim – o caráter ideológico de qualquer excepcionalidade europeia na constituição da economia mundial ao afirmar que “tudo que um Max Weber atribuiu como fatores “internos” medievais ou renascentistas europeus para a gênese da Modernidade, se realizou com mais força no mundo mulçumano séculos antes”. Frank, portanto, não está sozinho nesse novo capítulo da historiografia que todavia não ganhou força na América Latina e, com pesar reconheço, menos ainda no Brasil. Aqui, ninguém ousa algo sem autorização do meridiano de Paris e menos ainda sem permissão da academia estadunidense.

Além da tese central, Frank oferece formulações para uma nova história do carrossel do comércio global que joga por terra a hipótese de Marx segundo a qual a conquista da América teria dado início ao “mercado mundial”, obviamente, uma enorme simplificação. Ora, nos séculos XIII e XIV, a economia mundial se apoiava predominantemente na Ásia; mesmo Veneza e Genova, tão cantada em verso e prosa pelos historiadores econômicos eurocêntricos, não passavam, segundo Frank, de entrepostos entre a demanda da Europa de produtos asiáticos.

Ademais, se o mercado mundial tinha na Ásia seu centro durante vários séculos e tampouco era marginal quando a “revolução industrial” teria deslocado o centro da acumulação mundial para a Europa, outro tanto, com igual força, ocorreria o mundo do dinheiro que no livro de Frank ganha o nome de “cassino global” na clara pretensão de indicar um fenômeno que todavia não encontra uma solução nos dias atuais como algo absolutamente natural no sistema mundial... desde sempre! Assim, a prata, que coloca América Latina numa posição privilegiada no cassino global é observada em Re-Orient desde a centralidade asiática, um giro não somente espetacular mas completamente novo para a análise historiográfica ainda dominante no Brasil e na maior parte dos países latino-americanos.

A retrospectiva história realizada por Frank é de fôlego longo. Sua crítica espeta não somente o esquecimento dos historiadores sobre os séculos anteriores para os quais tudo teria começado com a lenta desagregação do feudalismo europeu, mas também implica uma radical revisão de fontes sobre o período no qual os estudos de história econômica se realizam precisamente para avaliar a centralidade europeia na economia mundial, ou seja, o período a partir de 1492. Frank indica que mesmo no altar sagrado da “competitividade e produtividade” típicos de uma economia capitalista, o subcontinente asiático e a China eram, entre 1500 e 1750, muito mais avançadas que qualquer outra parte do planeta. É por essa razão e não por outra qualquer, que a capacidade de absorção do dinheiro mundial (prata) pela China era produto precisamente de importante diferença de custos de produção e preços em escala internacional em certo período do século XVII. No entanto, a despeito da multiplicidade de fontes, análises e evidências, a historiografia hegemônica jamais deu o braço a torcer e simplesmente ignorou o tamanho do mundo preferindo, em oposição, reduzir tudo à escala europeia.

Agora, se as vidências em favor de uma nova história das finanças e do comercio mundial seriam suficientes para iniciar o processo de uma verdadeira história universal não mais orientada pelo eurocentrismo, igualmente decisiva é análise das instituições existentes na Ásia em comparação com a Europa. Ainda que revisando apenas parcialmente a história das instituições “extra europeias”, Frank nos coloca num terreno mais firme que a ideologia dominante: precisamente na Ásia existia um complexo e sofisticado sistema de crédito e atividades bancárias correspondentes ordenadas por uma divisão internacional do trabalho na qual precisamente os asiáticos – especialmente a China – detinham uma posição produtiva superior a dos europeus.

Os homens são sempre cativos das armadilhas intelectuais e políticas de sua época, razão pela qual não é fácil observar para além dos fogos e artifícios inerentes aos acontecimentos, o lento movimento das estruturas quase imperceptível aos olhos desavisados do presente. Também ocorre o contrário, quando os homens de ciência se fixam nas estruturas, não de maneira ingênua, mas precisamente para esterilizar ou mesmo desprezar acontecimentos que são relevantes, aqueles mesmos responsáveis pelo movimento das estruturas como se, de fato, nenhuma mudança radical – revolucionária – pudesse ocorrer no curto tempo de nossas vidas.

A China fez sua revolução social em 1949 sob comando de Mao e as massas camponesas. É uma revolução extraordinária profundamente ignorada entre nós por decorrência necessária da hegemonia liberal que comanda a vida tanto da esquerda quanto da direita no Brasil. O espanto diante da “emergência chinesa” próprio dos neófitos é produto dessa mesma historiografia eurocêntrica denunciada por Frank em cada linha de seu último livro como uma armadilha que precisamos descartar rapidamente se acaso pretendemos entender os “ares do mundo”.

Agora mesmo as atenções se voltam para a China, não para compreendê-la e menos ainda para criticá-la, mas, precisamente para ignora-la. A apologia do economicismo vulgar em afirmar o “modelo chinês” como saída para a periferia capitalista é expressão cotidiana dessa ignorância que se pavoneia no especialista em assuntos chineses, especialmente acentuada entre os economistas, mas não restrito a eles. Na mesma medida, a ciência política que informa tanto os liberais de esquerda quanto os de direita, recusa o sistema político chinês como se, de fato, fosse possível transportá-lo para os povos andinos ou o nosso sertão! Ora, sabemos que as revoluções não se exportam!! Manoel Bomfim espetou os liberais no início do século passado diante da pretensão de reclamar aqui as universidades francesas: “O Brasil quer ter agora as universidades alemãs; a ideia é pelo menos genial – transportar para o Brasil as universidades germânicas! E por que não transportam o Santo Império, o Dr. Fausto. A Declaração de Lutero e o Anel dos Nibelungos?! ... Um pedaço de Idade Média e um pouco de teologia não fariam mal...” Ora, outro tanto ocorre hoje quando tomam a China como um “modelo” a ser seguido esquecendo o detalhe da totalidade sem a qual o gigante asiático seguiria em estado “estacionário” como pensava Adam Smith.

A ignorância sobre a China é, portanto, vício antigo no Brasil. No entanto, temo que não é privilégio nacional. O filósofo moral Adam Smith, autor da Teoria dos sentimentos morais, escreveu em 1776 na Riqueza das nações – seu livro mais festejado, mas não o mais importante! – que a China estava em estado estacionário. No entanto, Smith também alertou que nem sempre foi assim, pois a China teria sido “durante muito tempo um dos países mais ricos, melhor cultivados, mais férteis e industriosos, e um dos mais povoados do mundo... Marco Polo, que a visitou há mais de 500 anos, descreve seus cultivos, população e indústria quase nos mesmos termos que o fazem os viajantes de nossa época.”

Samir Amim avançou nessa direção antes mesmo de Frank quando escreveu O eurocentrismo. Crítica de uma ideologia” sem realizar o longo e rico percurso do autor de Re-Orient. De fato, a crítica de Samir Amim anuncia a necessidade de “uma teoria social não eurocêntrica” mas inscreve o desenvolvimento capitalista na Europa como o nascimento precoce nas formações sociais feudais da Europa, então uma forma periférica das sociedades tributárias. É sem dúvida uma alerta importante que Frank levou até suas últimas consequências... Essa forma que Amin chamou tributária é para o egípcio a forma geral de todas as sociedades pré-capitalistas avançadas, das quais o feudalismo não é mais que uma espécie particular’...

No entanto, enquanto Samir Amim avançou na senda da teoria do valor de Marx contribuindo com o debate tão decisivo do “valor mundializado”, Frank descartou Karl Marx na análise histórica diluindo a notável linha marxiana numa interpretação histórica de longa duração que certamente despertaria inveja a Braudel.

O revisionismo de Frank não é para amadores: até mesmo seus textos anteriores, tão marcantes e decisivos para evolução intelectual do pensamento crítico latino-americano, foram renegados explicitamente à luz de Re-Orient. No entanto, é indiscutível que o método atual de Frank pode ser reconhecido quando escreveu ainda nos anos sessenta o luminoso ensaio Sociologia do desenvolvimento y subdesenvolvimento da sociologia: um exame do traje do imperador, destinado a exterminar o positivismo dominante nas ciências sociais na América Latina, tendência filosófica compartilhada em larga medida inclusive por gente de esquerda que se reivindicava marxista. Ora, quando examinou a “validez empírica, a suficiência teórica e a efetividade política” das teorias do desenvolvimento, revelando seu conteúdo ideológico para justificar o desenvolvimento do subdesenvolvimento – uma fórmula impecável segundo o mestre Ruy Mauro Marini – Gunder Frank deu um tiro de morte na ideologia desenvolvimentista, uma filha bastarda do eurocentrismo dominante. Por certo, aquela crítica devastadora sobre a qual recaiu em nosso país um enorme silêncio como resposta tradicional – como se de fato, André Gunder Frank jamais tivesse existido – reaparece no final de sua longa e produtiva vida ao publicar a obra que comentamos. De fato, tanto em 1962 quanto em 1996, podemos ver a velha forma de Frank agora destilando uma sólida crítica a Marx, longe das limitações temporais a que mesmo os gênios estão submetidos, no sentido de buscar uma visão efetivamente totalizante do sistema capitalista mundial desde suas origens.

É Marx, portanto, o interlocutor principal de Frank. É precisamente a grandeza de Marx que ainda recebe os golpes certeiros de Frank ao reivindicar uma interpretação holista para a evolução humana contra o eurocentrismo do gênio alemão. No entanto, estou convencido que Frank planta em terreno já arado pelo próprio Marx, que, na última fase de sua vida, deu indícios claros de um abandono do eurocentrismo ao estabelecer estreitos contatos com os russos – os populistas russos –, fato que mudaria em larga medida sua própria e original interpretação da História universal. Aquela mesma “Europa difícil”, assim caracterizada por Braudel, recebe então especial atenção de Marx e as exigências derivadas da luta pelo socialismo num país com uma instituição tão original quanto a “comuna russa”. Não é fácil se desfazer de Marx! Há quem encontre inclusive antes da correspondência com Vera Zasulitch e Nicolai Danielson pistas valiosas para uma análise mais rigorosa da interpretação marxiana da História longe do eurocentrismo que Frank ataca com vigor convocando-nos a interpretar o mundo sem as limitações da ciência social dominante que tantos problemas nos criou, especialmente para os povos da periferia capitalista.

Ora, precisamente contra essa ciência social dominante, cujo caráter eurocêntrico foi denunciado por Wallerstein como um mero produto da especificidade europeia, Frank indica um caminho e um novo programa de pesquisa muito mais desafiador, profundo, exigente, no qual os esquemas simplificadores do “sistema-mundo” ou da escola dos Annales não poderão reagir a não ser que confesse suas próprias limitações. Agora, após a leitura de Re-Orient não basta apenas “impensar as ciências sociais” ou ainda indicar os “avatares do eurocentrismo” sem romper a lógica da armadilha ideológica sustentada na fraude histórica e teórica da excepcionalidade europeia supostamente vigente entre os séculos XVI e XVIII. A insuficiência da auto-crítica ou ainda a tentativa de corrigir os rumos nos marcos da ideologia ou da apologia dos movimentos anti-sistêmicos, não fará menos que reproduzi essa mesma fraude novamente sob outras formas, igualmente mistificadoras e rigorosamente falsas. Enfim, após a crítica de Gunder Frank, a tentativa de renovar um programa de pesquisa a partir da renovação da própria ideologia, sem ruptura com suas hipóteses de base, será cada dia mais impotente pois Re-Orient colocou abaixo todo o edifício dessa ideologia que seduziu a consciência liberal de esquerda em muitos países da América Latina para tão somente simular uma alternativa para os becos sem saída dessa tradição teórica dominante em nossos centros de ensino universitário atravessado pelo colonialismo e pela jaula de aço da dependência e do subdesenvolvimento.

André Gunder Frank foi mesmo genial. No seu último suspiro nos deixou uma obra contra ou a partir da qual os historiadores terão que pelear durante muito tempo. Não é um acaso ou descuido qualquer o fato de que Re-Orient ainda não recebeu tradução em nosso país, pois aqui a concepção eurocêntrica de mundo é dominante entre os liberais de esquerda e de direita. No entanto, no turbilhão da crise atual, aos hereges que permanecem, sempre se abrem novam possibilidades, razão pela qual teremos a companhia de Frank por muito mais tempo.

****

Texto publicado originalmente na Revista REORIENTE, do LECH/UFRJ

Nenhum comentário:

Postar um comentário