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Literatura para esperançar corações aflitos

Arlete Mendes e Zá Lacerda têm estilos distintos e trajetórias diversas – mas compartilharam vivências num sarau em um boteco de quebrada. E seus poemas de primavera são impregnados de vida em elevadas elaborações estéticas



De OUTRASPALAVRAS, 3 de Setembro 2021
Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes


Compartilho neste texto a leitura de dois livros que repõem o encanto no centro de nossas vidas. São livros de primavera. Refiro-me a Vértices Poéticas (Edições Sarau do Binho, 2018), de Zá Lacerda e Retalhos (Editora do Autor, 2019), de Arlete Mendes. Ambas as autoras são do Campo Limpo, periferia da Zona Sul de São Paulo e ligadas ao Sarau do Binho. Arlete tem formação em Letras, com graduação e mestrado na USP e escreve com um estilo esmerado na academia, mas sem firulas e pedantismos formais. Zá é poeta forjada no sarau. Não me consta que tenha frequentado universidades, mas tem uma escrita tão elaborada quanto sua colega graduada.

O livro de Arlete não tem um formato convencional. É uma elegante caixa de papelão alaranjada (há versões com outras cores) na qual o título e o nome da autora estão estampados em retalhos de pano. Os poemas estão impressos em cartões formato postal (10 x 15 cm). Apesar do projeto gráfico artesanal, a obra tem ficha catalográfica e ISBN. Arlete que hoje mora em Cotia, município da Grande São Paulo, criou com outras companheiras, a Vicença Editorial, uma editora voltada para a produção literária de mulheres. Além de suas atividades editorias e poéticas, Arlete é professora de rede pública de ensino e sua vinculação e a Escola foi o elo que a aproximou do Sarau do Binho em função das ações de promoção da leitura que faziam em parceria.

Zá Lacerda é diarista e se tornou poeta no Sarau do Binho, cuja iniciação se deu em virtude da morte da irmã em julho de 2005 que era frequentadora do recital e havia, por vezes, convidado Zá para conhecer o evento que rolava todas as segundas no Bar do Binho, no Campo Limpo. A perda da irmã a fez escrever seus sentimentos e no Sarau ela pode expressá-los por meio de textos. Foi acolhida calorosamente e, desde então, passou a ser assídua presença no espaço. Ela participou da primeira antologia do Sarau que foi publicada em 2013, com o poema Insônia, mas não aparece na segunda antologia que saiu em 2015.

Cada uma ao seu estilo, Zá e Arlete oferecem em seus livros textos que exploram os afetos, nem sempre aprazíveis, da vida cotidiana. Não são poemas de punho em riste, nem buscas ancestrais longínquas. Tampouco são sentimentos de desespero e dor dilacerantes. As autoras nos brindam com um repertório vasto de reflexões sobre a vida com rabiscos e jogo de contrários numa escrita que tem profundidade e leveza com pinceladas de humor. Uma leitura para a primavera, para esperançar, como dizia Paulo Freire, cujo centenário se comemora na estação das flores.
Retalhos

Abrir a caixinha onde estão contidos os poemas de Arlete Mendes, nos faz ter contato com uma obra em retalhos, como sugere o título. Cada poema está numa cartela como já foi dito. Há poucos casos em que se tem um poema distinto em cada lado do cartão. Com isso, a autora conseguiu dar forma ao que apresenta como conteúdo, fundindo as duas dimensões, como pede uma boa obra artística em que forma e conteúdo não são dimensões separadas.

Os 20 poemas de Retalhos, formam uma densa reflexão sobre o sentido da vida e a condição humana. Pelo menos nove textos podem assim ser classificados como filosóficos e introspectivos. Todos os demais têm algum traço metafísico mesmo aqueles aparentemente mais despretensiosos. Há um conjunto de cinco que são experimentais, cuja elaboração explora a sintaxe, a fonética e outros artifícios da linguagem. Três poemas tratam do próprio ofício da poeta e outros três têm a mulher como tema central.

Entre os poemas filosóficos, há quatro deles de teor mais introspectivo que discutem temas existenciais. Em Desenhista, a autora escreve um devaneio poético em torno do dilema do artista em face da folha branca que lhe desafia. Sutil e elegante, o poema faz de tal situação uma metáfora para pensar nosso lugar no mundo: “ acha-se sentido/ em tanto teimar/ emaranhado de traços….” Persistente, o desenhista, às vezes, se rende: “afasta a folha ao longe/ mira-se/ admira-se:/ eu rabisco”. Arlete faz uma reflexão sobre as descontinuidades que de tão presentes, faz da vida um “descontinuado-contínuo”. Já em Meta-morfose, a discussão é sobre a vida ordinária que “caleja a gente/ deixa duro/ disforme/ FEIO”. Mas anuncia que no “profundo derme/ dorme alguém” que espera por romper a “casca-casulo”. Esse processo libertário é a meta.

Nos primeiros versos de Espio pelas frestas, tem-se a impressão de ser um texto lúdico ao estilo dos que classifiquei aqui como experimentais. Só que não. Remete à vício de infância. Mas não se trata de buscar nos vãos os segredos de alcova alheios e sim uma vereda, pois, “passam pelas frestas/ eu/ meu/ filho”. Passam “um trem/ navio/ o/ mar”. A fresta é superação do vedado que lhe pune, uma porta entre aberta que atrai. Que na canção de Gonzaguinha é a “palavra mais certa” e por ela, “espia/ o átomo/ o universo/ que explode/ expande”, diz Arlete. “Explode coração!” diz o filho do Gonzagão na voz de Maria Bethânia.

Nos poemas metafísicos está o que dá título ao livro. Retalhos é um poema lírico farto em imagem em virtude da metáfora da costura: “descendo de um povo/ feito de retalhos”. Alegórico: “do ponto em cruz/ herdamos uma leve dormência nos sentidos”. O colorido da junção de retalhos produz um “efeito caleidoscópio”. As diferenças sociais são identificadas em meio à trama: “alguns de nós/ trabalham escondidos/ em rendas de luto/ outros se ocupam/ em exibir seus brocais de luxo”. Ela estampa essa diversidade de um povo em “desatinado destino” e defende: “ só os retalhos nos unem”. Em Semeador ela suplica para que as flores que brotam na primavera deem lugar a dor do semeador. Em Estaca zero ela dá forma poética a uma reflexão sobre um dilema que nos perturba diariamente: a recusa aos apelos que a vida. Ela elabora a ideia da “experiência nula” que pode ser entendida como omissão: deixar de ter vivido.

Já em É difícil, ela faz uma alegoria em um poema narrativo. O título tem um duplo sentido: a dificuldade e a edificação. Trata-se de um inspirado aforismo sobre a visão que se tem do alto de um edifício por meio da qual se vê mirando para baixo, pessoas “que habitam caixas” nas quais se “abafam delitos e/matam mosquitos”. Enquanto que, ao se mirar para o alto se veem “pessoas-pássaras”, estas sim, libertas, “voam vizinho/ de ninho em ninho”. Em Poemas dos sem-face, a autora especula filosoficamente sobre as dimensões da existência em face das certidões lavradas em cartório. O protocolo do escrivão no registro sentencia a existência de alguém que não existe do ponto de vista metafísico. Ou, no outro sentido, quando não mais existir fisicamente, ainda existirá em outra dimensão, colocando em xeque aqui, a certidão de óbito que ela não cita, mas eu acrescento ampliando as possibilidades de compreensão do texto.

Os poemas que são exercícios de metalinguagem, ou seja, abordam o ofício da escrita em versos, são três. Num rabisco, a autora, mais uma vez faz uso da metáfora do rabisco, agora não como metáfora existencial e sim como recurso de escrita. Em Poesia?! ela cria um universo abstrato e etéreo: “ quem será visto/ no abismo brilhante/ das nebulosas?” para chegar numa conclusão bem realista: “ a palavra é/ matéria escura/ o poema/ uma fagulha/ o poeta?/ pouco importa/ apenas uma porta”. E termina a tríade contribuindo para responder à pergunta do poema anterior com Poesia é. Neste texto, Arlete meio que conclui o exercício num poema de quatro versos que condensa a reflexão presente em seus poemas: “a vista apertada/ a letra espremida/ um breve rabisco/ da efêmera vida”.

Arlete gosta mesmo é de brincar com os vocábulos. Faz isso, especialmente em cinco poemas. Em Convite, ela fala da chegada de alguém e pede: “passe naquela esquina/ e traga –me um AMOR/ daqueles bem graúdo/ vermelho… maduro”. Já em Cristo-cola, associa à crença em Cristo ao famoso refrigerante globalizado: “ tomai e bebei/ este é meu corpo/ artificialmente/ adocicado/ saborizado/ gaseificado”. A presença da coca-cola é muito maior do que a de Jesus, pois é suprarreligiosa e consumida com uma fidelidade maior do que a dos cristãos. Olhos é uma alegoria: “duas redinhas/ piscam e pescam/ piscam e pescam”. Dói? Doi! É um pequeno tratado poético sobre as dores da vida: unhas roídas, gravidez interrompida, a lágrima ou a dor da lua quando o sol some. “dói a lambida do cão na ferida/ o peito em eterna despedida”. E Pé é um poema concreto sobre passo a passo (pé com pé) do pular que antecede o voo.

Nos três poemas que têm a figura da mulher como argumento central, dois deles homenageiam grandes mulheres anônimas já exaltadas no título dos textos. Irene, mulher preta amigável. Filha de Iansã, tem corpo fechado. Não vai pedir licença a nenhum homem quando for ao Olorum. Salve Benedita, aquela que miraculava todas as noites, sucumbiu ao homem que lhe prometeu os céus. Benedita hesitou. Benedita se foi. “ficaram seus gritos/ fincados à unha/ em nossos ouvidos”. O terceiro poema é uma narrativa mitológica: Eu vi a mulher vestida de tempo. A composição reconta a criação do universo como um rebento parido de uma mulher: “sorrateiro veio o vento/despiu-a do tempo/soprou em seus ouvidos/fez-lhe crescer o ventre/ primeiro pariu a lua, já cheia/depois o sol, a terra, vênus e marte (…)” E muitos foram seus filhos. Terminada a prole, a mulher que é uma entidade cósmica que traz na sua linhagem Ariadne, Diane e Andrômeda, se recolhe no mar de quem “ficou prenhe de eternidade”. Este é o poema que abre o livro e nos passa a impressão de que estamos diante de uma obra feminista onde a questão do gênero permearia os demais textos. Nem a temática e tampouco o estilo mítico estão presentes de forma preponderante, mas estão nas sutilezas.

Vértices poéticas


O livro de Zá Lacerda começa com um texto que não é dela e termina com dois outros de autoria alheia também. Meu Lar, que abre os caminhos da obra, é assinado por Carla Cerutti. Um poema em prosa que faz apologia de um lugar todo descrito como algo tão paradisíaco que parece estar em outro plano. Um lugar imaginário: “o sol brilha a me iluminar em um céu claro, com nuvens que parecem de algodão ( …) “Ao meu lado corre um rio de águas límpidas que me curam ao tocar…”. Parece que a autora se refere a uma instância que se alcança, segundo certas crenças, após a morte. No texto seguinte, Comentários sobre o Sarau do Binho, a autora faz menção à morte da irmã que era frequentadora do sarau a que se refere o título. Na sequência vem um poema em prosa chamado Que saudades! no qual ela fala da perda de um dos irmãos desfazendo o sexteto harmonioso e feliz.

Esse conjunto inicial de textos conduz o leitor a uma atmosfera de luto, porém, não é um clima fúnebre. Para se referir à irmã, Zá sempre faz uso de imagens delicadas e alegres, certamente para ter uma correlação com o suposto perfil festivo da falecida irmã, cuja descrição feita no poema final e no penúltimo também, ambos de Raissa Padial, indica que se tratava de uma pessoa de forte expressividade: “Anjos eram cheios de voar na aura de Ana”, é o verso que abre o poema dando a medida do carisma da irmã de Zá, cujo nome Ana, só aparece aqui na derradeira página do livro no poema de Raissa.

As referências à morte da irmã ficam por aí. Entre os primeiros e últimos textos há outros 25, a maioria em prosa que navegam por outros mares. O conjunto é bem variado. É difícil estabelecer um fio condutor que unifique os textos, mas há predominâncias. E a maior delas é um grupo de oito textos que classifiquei de mundanos, pois tratam de coisas simples e triviais do cotidiano. São poemas, contos, crônicas e fábulas, alguns com acentuado humor. Há outros quatro textos que exploram as perturbações da alma e mais quatro que são de crítica social, onde se destaca a defesa das mulheres. Também são quatro os textos passionais e mais dois que falam dos poetas e dos saraus. Ela ainda dedica poemas para a mãe, a neta, à lua e aos anjos. Ninguém ficou de fora nesse belo livro que viceja generosidade, cuidado e uma gana de viver.

Entre os poemas que expressam uma tensão introspectiva há um que é de superação e destoa dos outros três. Denominado Resistência, o poema é uma profissão de fé; um ato de cura: “invisto agora só em mim/ Aprendi a duras penas que morrer, às vezes, é preciso/ Viver… já nem tanto…” Mas a autora diz que não morre e tampouco corre. Ela renasce feito Fênix: “brilhante, reluzente e revigorada”. Em Momentos, Zá expressa sentimentos dispersos: “eu em pedaços/ desfazendo nós/ refazendo laços”. Aqui aparece um traço recorrente da poética de Zá que é a tentativa de equilibrar sentimentos contraditórios, algo que fica mais nítido nos dois poemas seguintes.

Ainda que tardia é sobre a liberdade que lhe bate à porta. Ela hesita: “pensei em segurá-la, retê-la/ mas para que? Se tudo já me sufoca/ E acaso, alguém se importa?” A poeta se julga refém da culpa e dos remorsos e desencoraja a liberdade que parece insistir. A poeta retruca: “não aponte para mim/ o teu dedo em riste/ já tenho dedos demais/ a mim apontados”. E, enfim manda a liberdade embora: “vá e não voltes, nunca mais me tentes/ acaso não percebes a força destas invisíveis correntes?”. Em Insônia retrata uma noite em que o eu lírico esta atormentado por uma dor da alma. Mas o objeto da dor não é explicitado. Ela fala em “Atrozes dúvidas da existência”. Por meio da escrita, ela enfrenta, solitária, a dor que lhe aflige. Assim como a liberdade no poema anterior, ela aparentemente se recusa a superar o mal que lhe consome e fica resignada perante a dor que, afinal, lhe faz poetisa.

Os poemas passionais de Zá não flertam com a sofrência. Nossa história, é uma declaração de amor a um homem que parece ser o companheiro do eu lírico. Em Intencional, ela faz um poema delirante e apaixonado. Revela um êxtase profundo: “quando te abraço e te estreito/ é tudo tão bom! É divino!/ simplesmente é perfeito/ eu sinto fluir, sinto emanar uma energia transcendental”. Apela para a imagem dos contrários: “vértices horizontais/ horizontes verticais”. E o poema fica nesse plano etéreo. Já em Sempre seguir ela fala de despedida. O eu lírico se põe conformada frente os “anseios de felicidade e o desejo de liberdade do parceiro (ou parceira).

Por fim, em Sou, a autora joga com os contraditórios num poema retórico: “ quando queres mar/ sou terra/ quando queres fogo/ sou água.” O poema, porém, não oferece um desfecho. A autora na nota de rodapé diz ter sido influenciada por um poema não especificado de Jenyffer Nascimento. Poderia ter sido Caetano Veloso na canção O quereres. Este compositor, porém, fecha a letra com uma reflexão síntese dos contrários que habita em nós: “E eu querendo querer-te sem ter fim/E, querendo-te, aprender o total/Do querer que há e do que não há em mim”, ou seja a incompletude do desejo que me parece também o vértice de Zá Lacerda.

A crítica social de Zá não é politizada no sentido de não questionar o sistema, mas as atitudes e situções. É a manifestação do inconformismo com a injustiça e a defesa da dignidade humana. Assim é Baseado em fatos reais, umacrônica que fala do contato com um homem em situação de rua que lhe abordava chamando-a de princesa. A voz do homem era bem postada e tinha um tom levemente galanteador e com isso atraia a simpatia de sua interlocutora. Pediu 1 real; ela deu. No segundo dia, ele não pediu dinheiro; estava trabalhando catando material reciclável. Depois o homem sumiu e seus cachorros também. Ficou apenas a carroça abandonada no local em que ela o encontrava.

Os outros três textos deste grupo falam de mulheres. Em Deixe viver, ela refaz a trajetória de um casal desde o primeiro flerte até a consolidação do amor. Mas, no final ela revela seu inconformismo diante da repulsa que esse casal causa a certas pessoas e revela o motivo: uma se chama Luana e a outra Jacira. Já em Mulher, Zá faz apologia da mulher falando de si mesma: “mulher eu sou, apenas uma/ mas, ás vezes, pareço ser até mais. Há quem diga/ sou mãe, esposa, conselheira; sou amiga”. Seu desejo, porém, é ser poetisa e eternizada como o sorriso da Monalisa. Mulheres fecha o bloco e é mais engajado. Trata-se de um poema feminista hétero: “nem sempre na mão, o controle da TV/ mas geralmente no comando. Sempre temos o que resolver/ do controle da educação dos filhos ao orçamento mensal/ e ainda temos que controlar a tensão menstrual”. Ao final, exige respeito dos homens “ que amamos”.

Os textos mundanos têm um traço de ironia e alguns flertam com o cômico revelando o talento cronista da autora. Celular é uma crônica em forma de poema. A história se passa no ônibus no percurso da Praça Ramos, no Centro da cidade até o Terminal Campo limpo. A autora estrutura na forma de poema a conversa de uma mulher ao telefone em contato com seu namorado. Conversa picante e bem humorada sobre sexo: “a cama, nem precisa arrumar/ eu quero mesmo é bagunçar!/ tá usando a cueca que eu te dei?/ Aquela bem apertada? Sim eu sei”. Sobre botecos é outra crônica sobre os botecos pé sujo de quebrada, cujos donos são chamados pelo nome do seu lugar de origem: boteco do Ceará, do Bahia, do pernambucano. A coluna que atrapalha o jogador de bilhar e o banheiro imundo são retratados com humor. Mas lá é o lugar amado por muitos. É interessante perceber o olhar de uma mulher para um espaço ocupado, tradicionalmente, por homens.

Te cuida malandro, por sua vez, é um poema deboche da vingança da ex. Ela levou o caso para um bruxo que fez um feitiço com: “cílios de morcego/ pedaço de tua unha encravada/ pelo de rabo de cachorro manco/ pó de verruga de macaco manso”. Tal combinação é denominada como “anti-viagra” e resultou na impotência sexual do traste. Já ela: “ to saindo aí com um carinha/ A idade? Sei lá, dezenove ou vinte…” Em Carnaval, a autora volta à crônica para contar a história de um casal de baixíssima renda que não consegue ter carne para as refeições. O marido que gosta tanto dessa mistura quanto de ver TV, no dia do pagamento, aparece em casa, não com um pacote de carne, mas com uma TV de última geração. Ambos se regozijam diante da tela, ele vendo uma linda mulher passista (a quem chama de “carne”) e ela apreciando o belo ator de TV no carro alegórico.

Confronto é também uma crônica, mas com enredo de conto e forma de poema, numa prova de que Marcelino Freire está certo: o gênero é o texto que vai dizer e não necessariamente o autor. Neste texto híbrido, a autora cria uma atmosfera de tensão que envolve o leitor diante da iminência de um ataque. Ela na rua, bolsa a tiracolo e na mão uma sacola pesada da feira. Tudo leva a crer que fosse um assalto. Diante da inimiga incógnita para o leitor ela abandona a sacola. Um rapaz a aborda tentando acalmá-la dizendo que não é ladrão, mas não era ele o motivo do temor. Já o texto SP anfitriã já é bem enquadrado numa moldura de crônica, pois tem o tempo e o espaço bem definidos. Nele, Zá discorre sobre a diversidade da Cidade de São Paulo, suas contradições e tensões captadas em momento de aguçada sensibilidade numa madrugada etílica e animada entre poetas durante a Virada Cultural.

Esse bloco de textos termina com uma fábula e um conto, cujos personagens são animais. Julia e Vanessa é uma fábula que conta a história da formiga Julia e da cigarra Vanessa. Julia era submetida à rígida disciplina do trabalho; Vanessa vivia a cantarolar. Um dia Julia ouve Vanessa e fica encantada. A cigarra então convence a formiga a ouvir uma outra canção que dizia: “deixa a vida me levar…”. Sem deixar de cumprir sua sina de trabalhar, Julia se convenceu de que, às vezes, é preciso desacelerar. Eh! Maria! É um conto sobre uma gata, Maria que posa de dona do pedaço, zombando de Alice e Mel, mas teme a Denise de quem vive a fugindo.
Escrevivência e reexistência

Arlete Mendes e Zá Lacerda têm perfis distintos e trajetórias igualmente diversas. O destino de ambas se cruzou num boteco de quebrada em um sarau de múltiplas linguagens e forte presença de mulheres. Um lugar de partilha de vivências que, expressadas em escrita, produz o que Conceição Evaristo define como escrevivência. Esse conceito, embora múltiplo, tem seu sentido pleno na escrita de mulheres. As autoras dos livros aqui comentados, corroboram tal percepção. As autoras falam em seus textos das vivências e reexistências para usar outro conceito de mulher preta Ana Lúcia Souza, doutora como Conceição.

Vértices Poéticas e Retalhos são obras que, lidas à luz dessa epistemologia periférica negra, elevam a potência de seus textos impregnados de vida em elevadas elaborações estéticas. Literatura para esperançar corações aflitos. Leitura de setembro, pois “a primavera é o aniversário das borboletas”, disse Ana Clara, a neta de Zá Lacerda, citada como epígrafe no poema dedicado a ela. Essa frase que em si é um poema de verso único, expressa bem o que são os livros que compartilhamos neste texto.

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