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Dissidência jovem no coração do sistema

Retrato da geração sub-35, nos EUA e Europa. Ela exaspera-se com dívidas, queda do padrão de vida e falta de perspectivas, Repudia desigualdade e devastação do planeta. Vê-se abandonada. E nutre discreta simpatia pelo socialismo e Karl Marx



De OUTRASPALAVRAS, 24 de Setembro 2021
Por Owen Jones | Tradução: Vitor Costa


Manifestação gigante em Berlim, na Greve pelo Clima de 24/9. Protestos, que se espalharam pelo mundo, marcaram a retomada do movimento, após a pandemia. Na Europa e EUA, o desencanto com o capitalismo tem como alvos centrais a denúncia da desigualdade, do domínio das corporações sobre a política e da devastação do planeta

Os jovens estão com fome e os ricos estão no cardápio. Essa “iguaria” apareceu pela primeira vez no século XVIII, quando o filósofo Jean-Jacques Rousseau supostamente declarou: “Quando o povo não tiver mais o que comer, comerá os ricos!” Hoje em dia essa frase está no Twitter e nas outras mídias sociais. No TikTok, vídeos virais mostram jovens imberbes levantando ameaçadoramente seus garfos para qualquer pessoa com carros de luxo ou geladeiras com dispensers de água e gelo.

Os bilionários do mundo – e os proprietários dessas geladeiras de luxo – deveriam começar a dormir com um olho aberto? Dificilmente. É claro que os chamados millennials (nascidos entre o início dos anos 80 e meados dos anos 90) e os zoomers (a geração seguinte) não estão realmente defendendo a violência. Mas também está claro que essa postura é mais do que apenas mais um meme.

Alexandra Ocasio-Cortez, a democrata rebelde de Nova York, resume perfeitamente o espírito da geração. Se o esquerdismo frequentemente parece ser o privilégio de nerds socialmente desajeitados e homens brancos mais velhos e rabugentos, ela é a referência dos garotos descolados que gostam de suas ideias de redistribuição de riqueza e poder combinados com a cultura popular mainstream.

Mas ela não agrada a todos: quando a congressista aceitou um convite gratuito para o superexclusivo Met Ball e foi com um vestido estampado com “Taxem os ricos”, até mesmo alguns esquerdistas juntaram-se à direita em indignação inflamada. Ainda assim, quer você julgue que foi uma performance audaciosa demais aparecer na festa exclusiva dos super ricos, quer ache que foi uma façanha compromissada, o evento mostrou que as elites não podem mais escapar da crítica política dos jovens.

De acordo com um relatório publicado em julho pelo Instituto de Assuntos Econômicos (IEA), de direita, os jovens britânicos decididamente viraram à esquerda. Quase 80% culpam o capitalismo pela crise imobiliária, enquanto 75% acreditam que a emergência climática é “especificamente um problema capitalista” e 72% apoiam uma vasta nacionalização econômica. Ao todo, 67% desejam viver num sistema econômico socialista.

Embora o Partido Conservador sinta-se hegemônico após derrotar o “corbynismo”, o instituto destaca que essas pesquisas são um “alerta” para os defensores do capitalismo de mercado. “A rejeição do capitalismo pode ser uma aspiração abstrata”, diz ele, “mas o Brexit também era.” Esse é um fenômeno impressionante do outro lado do Atlântico também: um estudo da Universidade de Harvard em 2016 descobriu que mais de 50% dos jovens que vivem no coração da economia liberal rejeitam o capitalismo, enquanto uma pesquisa Gallup de 2018 descobriu que 45% dos os jovens americanos viam o capitalismo de forma favorável, uma queda brusca ante os 68% em 2010.

Jack Foster, um bancário de 33 anos de Salford [distrito da metrópole britânica de Manchester], mostra como uma experiência vivida alimentou sua desilusão com o capitalismo. Depois que ele largou a universidade e trabalhou em um call center – um “trabalho horrível” – a crise financeira moldou suas atitudes políticas, como aconteceu com grande parte de sua geração. Mas a questão do aluguel também ganhou muita importância. “Eu pagava aluguel e pensava:‘ Como poderei comprar uma casa? ’. Minha mãe era faxineira, meu pai era inválido e os conhecidos que podiam pagar uma casa tinham ajuda dos pais. Não basta ter um emprego e economizar; você tem que ser herdeiro.”

Os aplicativos de namoro são outra maneira menos formal de ver para onde o vento anda soprando. Na Grã-Bretanha, estas redes têm se tornado cada vez mais espaços proibidos para os conservadores. Dado que o Partido Trabalhista tinha uma vantagem de 43 pontos entre os menores de 25 anos na última eleição (ao contrário de 1983, quando os conservadores tinham uma vantagem de nove pontos, entre os eleitores mais jovens) as possibilidades de encontros do jovem “true blue” [direita convicta] encolheu. “No Tories – é sem chance”, “Absolutely no Tories (a esquerda é mais sexy, fato)”, “Deslize para a direita se você vota à esquerda” e “Apenas procurando alguém para dar as mãos na revolução”, são frases que adornam os perfis em redes como o Tinder, Hinge e Bumble.

Muitos jovens concluíram que uma economia que os penaliza, juntamente com uma “guerra cultural” que avilta muitos de seus valores, equivalem a uma declaração de guerra dos conservadores contra sua geração. Qualquer pessoa que aceite isso é, portanto, considerada profundamente broxante antipática.

Para Kristian Niemietz da IEA, isso se deve em parte a uma “mudança de reputação” do socialismo. Antes associado a “grupos desviantes”, ele pensa que o termo agora é mais “uma declaração da moda, inclusive nas redes sociais, onde as pessoas às vezes constroem uma persona socialista que usam para fins de imagem”. Entretanto, ele concorda com a esquerda que a imensa crise habitacional também tem seu pape. na renovada atração pelo socialismo.

“Quer você pergunte a defensores do livre mercado, a conservadores, a centristas, a centro-esquerda ou aos socialistas, todos acreditam que o Reino Unido tem uma crise de habitação, que é um problema enorme. Mas cada um tem uma resposta diferentes sobre de onde ela surgiu e o que fazer a respeito, ” ele diz. “Se as pessoas estão sendo enganadas e pensam que o mercado está armando contra elas, a única maneira de reagir a isso é generalizar: ‘Assim são o capitalismo e o mercado’, tornando-as mais simpáticas às ideias socialistas . ”

Na década de 80, o mentor ideológico de Margaret Thatcher, Keith Joseph, descreveu a pressão pela casa própria como a retomada “do processo de ‘emburguesamento’ que foi tão longe nos tempos vitorianos”. A grande esperança, para muitos thatcheristas, era que o “direito de comprar” transformasse inquilinos trabalhistas em proprietários que apoiassem os conservadores, uma visão mais tarde ecoada por seu sucessor David Cameron e pelo ministro das Finanças George Osborne.

Mas, em vez da “democracia da propriedade” prometida pelo thatcherismo, a Grã-Bretanha se parece mais com um paraíso para os senhorios. Em 2017, 40% das casas alugadas pertenciam a proprietários privados, que cobravam o dobro do aluguel pago nas propriedades municipais. De fato, no período de duas décadas, as chances de um jovem adulto com renda média possuir uma casa caíram pela metade. Esses jovens são chamados de “geração do aluguel”. Cerca de metade dos que têm menos de 35 anos na Inglaterra alugam do setor privado, muitas vezes definido por aluguéis extorsivos e insegurança.

O pagamento de aluguéis na Inglaterra representa quase a metade do salário líquido dos inquilinos, e absurdos 74,8% em Londres, percentual que cresceu 30% desde o início do século. E se os millenials colocarem sua esperança de moradia no “barco salva-vidas” dos pais, a decepção também se manifesta: a idade média para acessar a herança está entre 55 e 64 anos, e a valor mediano é de cerca de £ 11.000 [R$ 80 mil], o que significa que mais da metade recebe menos que isso.

Não há razão racional, portanto, para os jovens defenderem esse sistema econômico. De acordo com uma pesquisa de 2019 feita pela instituição de caridade Barnardo’s, dois terços dos jovens com menos de 25 anos acreditam que sua geração terá um nível de vida pior do que a dos seus pais. Keir Milburn, acadêmico e autor de Generation Left – que argumenta que as simpatias esquerdistas generalizadas entre os jovens são um fenômeno moderno gerado pelas condições econômicas – afirma que esse pessimismo é novo. “Entre quem nasceu nos anos 60 e chegou à idade adulta, havia um sentimento de otimismo de que as coisas iriam melhorar”, diz ele. “Era o Iluminismo, a atitude modernista de que as coisas iriam avançar, a sociedade sempre progrediria. Agora apenas uma ínfima minoria pensa assim. ”

David Horner, 30, um trabalhador do setor de caridade em Londres, começou a se sentir desencantado com o sistema vigente quando estava na universidade. Agora que ele tem um filho a caminho, preocupa-se com o mundo que a criança terá para si. A partir de sua experiência com jovens de comunidades mais pobres e com as experiências de amigos que trabalham em serviços (em crise) de saúde e educação, ele não tem dúvidas sobre o problema. “Mas nos disseram que este é o ápice, o melhor que poderíamos obter como sistema político-econômico, qualquer alternativa – mesmo que aparentemente não tão radical – foi afastada, e é assim que as coisas deveriam ser”, ele diz. “À medida que fui ficando mais velho, tive uma sensação infeliz de que você não quer aceitar a forma como as coisas são, mas há muito poder, empresas e pessoas com interesses investidos no capitalismo e na forma como a economia funciona no momento.”

Foi dito a toda uma geração que era importante ir para a universidade para ter um salário com o qual se pudesse viver. Mas a diferença de rendimentos entre graduados e não graduados caiu substancialmente e, apesar de os graduados da Inglaterra acumularem uma dívida estudantil média de £ 40.280 [R$ 295 mil] em 2020, mais de um terço dos britânicos empregados com diploma trabalham em empregos que não exigem graduação. Nos anos que se seguiram ao colapso financeiro e à “austeridade” em particular, foram os salários dos jovens trabalhadores que mais caíram, em um prolongado arrocho nos padrões de vida sem precedentes desde a era vitoriana.

Educação formal e insegurança econômica formam uma mistura explosiva, mas estes não é o único fenômeno em jogo. Possibilidades “não-acadêmicas” para um padrão de vida seguro foram eliminadas, como os estágios de qualificação disponíveis no passado para os muitos adolescentes desistentes da escola. Os jovens eleitores da classe trabalhadora eram consideravelmente mais propensos a votar nos Trabalhistas em 2017 do que seus colegas da classe média.

Mas também uma profunda questão existencial tem levado muitos jovens a questionar todo o sistema econômico. “Eu vi um post no Instagram outro dia perguntando se você preferia viajar cem anos para trás ou para a frente no tempo, e todos os comentários perguntavam: ‘Estaremos ao menos por aqui daqui a cem anos?’” relata Haroon Faqir , um estudante graduado de 22 anos. “Esses comentários condensam o que pessoas da minha idade pensam e quais são as nossas atitudes em relação aos problemas que enfrentamos em um sistema capitalista.”

Emily Harris, de 20 anos, estudante de Londres, diz que sua maior preocupação é que “não haverá nem mesmo um planeta: temos Jeff Bezos se lançando ao espaço enquanto Las Vegas fica sem água e metade do mundo está em chamas. Se esses bilionários parassem de ganhar dinheiro, eles poderiam resolver todos esses problemas e ainda ter bilhões no banco”.

Embora grande parte da mídia convencional tenha pouca simpatia pelas inseguranças e aspirações dos jovens britânicos, a internet tem oferecido uma educação política. A jornalista Chanté Joseph tem 25 anos, situando-se na fronteira entre a geração millenial e a zoomer. “O Tumblr me radicalizou”, diz ela. “Ler sobre raça, identidade e classe me fez pensar: ‘Isso é tudo loucura’, e abriu meus olhos.”

Muitos de sua geração migraram para o Twitter e o TikTok, diz ela, “onde os jovens criam muito conteúdo político que é mais personalizável e identificável. É por isso que muitos jovens se sentem mais radicais: parece mais normal quando essas ideias são explicadas de uma forma em que você pensa: ‘Como é possível discordar?’ ”

Mais de um terço dos trabalhadores com contratos de “zero horas” – muitas vezes sem saber quanto vão receber por semana – têm menos de 25 anos, enquanto muitos outros estão em “trabalho autônomo falso”, onde são registrados como autônomos mas estão, na verdade, trabalhando sob contrato para um empregador, embora sejam privados de direitos como um salário mínimo ou férias remuneradas. O livre mercado lhes traria liberdade, disseram; em vez disso, deu-lhes insegurança.

Os sacrifícios feitos pelos jovens durante a pandemia cristalizaram ainda mais um sentimento de injustiça. Hannah Baird, uma estudante de 22 anos, cresceu em Rotherham e sempre se sentiu insatisfeita com o status quo. Seus temores sobre a emergência climática e a exposição a opiniões divergentes nas redes sociais aumentaram seu descontentamento. “Durante a pandemia, parece que muita culpa foi colocada nos jovens pelos casos”, diz ela. “Ainda tenho que pagar a mensalidade integral quando faço aulas exclusivamente online por um ano e meio – o que sinto como um tapa na cara – e sempre parece que as universidades são as últimas a serem mencionadas nos planos de reabertura. Em geral, parece que o governo não se importa realmente com a nossa geração, fomos deixados para trás ”.

Isso não significa que os jovens foram transformados em socialistas revolucionários comprometidos mas, entre os millennials que conhecem Karl Marx, metade tem uma visão positiva dele, em comparação com 40% da geração X e apenas 20% dos baby boomers.

Em Beautiful World, Where Are You, o último romance da autora millenial Sally Rooney, não é apenas o sexo que é sexy. Uma de suas personagens reflete sobre como todo mundo está falando sobre comunismo. “Quando comecei a falar sobre marxismo, as pessoas riram de mim”, diz. “Agora é coisa de todo mundo.” Embora provavelmente não seja a espinha dorsal das novas e agitadas boates em Newcastle ou Cardiff, não há dúvida de que a juventude pós-guerra fria está muito mais aberta a essa filosofia do século XIX, antes totalmente condenada.

Muitos colocaram sua fé na liderança de Jeremy Corbyn para oferecer soluções para suas queixas econômicas. Pesquisas recentes sugerem que os eleitores trabalhistas mais jovens têm quase o dobro de probabilidade de acreditar que ele seria um líder melhor do que Keir Starmer, [seu sucessor bem mais à direita].

A maioria dos jovens não está imersa na literatura radical, mas os zoomers e millennials politizados deixam uma marca ideológica em seus grupos de amizade. Isso não significa que a esquerda deva simplesmente apoiar as duas gerações emergentes, esperando que a demografia ao fim conceda a vitória política que até agora lhes escapou. Como advertiu o economista James Meadway em um artigo recente intitulado Generation Left Might Not Be That Left After All [a geração de esquerda pode não ser ‘aquela’ esquerda afinal], as respostas populistas da direita ao desencanto dos jovens podem gerar ruído. Na França, muitos jovens se voltaram para a extrema direita. No Reino Unido, poucos são membros de sindicatos, o que historicamente ajudava a criar atitudes anticapitalistas. Enquanto isso, alguns sentimentos tipicamente de direita coexistem com atitudes de esquerda entre muitos jovens.

Os ricos – cuja riqueza aumentou durante a pandemia – ainda não foram comidos. Mas é claro que os jovens não veem nenhum incentivo racional para apoiar um sistema que lhes parece oferecer pouco mais do que insegurança e crise.


Owen Jones
Colunista, escritor, comentarista e ativista político britânico, ligado à ala esquerda do Partido Trabalhista. Colunista do "Guardian" e do "New Statasman"

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