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Carolina Maria de Jesus, para além de Quarto de despejo

Exposição em SP mostra escritora para além do rótulo de “favelada”: ciente que o poder tem cor, denunciou injustiças, mas elaborou sofisticado projeto literário, que desnudou os dramas do Brasil pós-abolição e da fome (também) existencial



De OUTRASMÍDIAS, 24 de Setembro 2021
Por Bianca Pyl, no Le Monde Diplomatique


Essa não é uma exposição sobre o livro Quarto de despejo, alerta Raquel Barreto, historiadora e curadora da mostra “Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros”, que estreia dia 25 de setembro no Instituto Moreira Salles de São Paulo. O aviso é importante porque o projeto literário de Carolina vai muito além desse clássico. “A Carolina é uma escritora que passou por vários gêneros literários como conto, poesia, crônica, dramaturgia, romance e pela escrita de diários. Nos últimos anos isso mudou bastante, mas por um bom tempo a crítica classificou a Carolina como escritora de um livro só. E o fato desse livro ser um diário diminuiu muito a perspectiva sobre a complexidade e a riqueza do projeto estético e literário da Carolina”, comenta Raquel, que divide a curadoria com o antropólogo Hélio Menezes, e tem a assistência de curadoria da historiadora da arte, Luciara Ribeiro.

A exposição é conduzida pela letra da autora, a partir do manuscrito original Um Brasil para os brasileiros, entregue por Carolina à pesquisadora Clélia Pisa. Atualmente, o manuscrito está sob posse do IMS. Em 1982, esse conteúdo foi publicado postumamente na França com o título Journal de Bitita. Posteriormente, foi traduzido para o português, em 1986, como Diário de Bitita. No livro, a autora elabora narrativas biográficas e autoficcionais sobre sua infância passada em Sacramento, na região do triângulo mineiro, no período do pós-abolição, até sua chegada em São Paulo. Carolina apresenta pontos de vista de pessoas que foram excluídas das narrativas oficiais escritas, majoritariamente, por autores homens e brancos. A escritora faz um contraponto aos cânones literários vigentes no Brasil. “Ela constrói o cânone pela margem”, resume a curadora da mostra.

As obras de Carolina sempre tiveram muita interferência de seus editores. “Essa foi uma prática editorial e a nossa hipótese é que o esvaziamento da autoridade da Carolina como escritora está relacionado com o fato de a autoria ser de uma mulher negra”, avalia Raquel. Na dissertação de mestrado “De Quarto de despejo a Le dépotoir, o processo de refração na escrita do diário de Carolina Maria de Jesus”, a pesquisadora Erica Cristina de Oliveira mostra como a intervenção do jornalista Audálio Dantas foi feita com o objetivo de reforçar o estereótipo de “escritora favelada”, que foi a forma como a imprensa se referia à Carolina. “Na transposição dos manuscritos ao livro publicado, Dantas substituiu quase todos os termos cultos por correspondentes coloquiais no intuito de reforçar o estereótipo da favelada que escreve. Ou seja, no trabalho de edição do Quarto houve a atuação de uma ideologia que buscou influenciar o modo como o público veria Carolina e leria seu diário”, diz um trecho da dissertação defendida na Universidade de São Paulo.

A Companhia das Letras lançou recentemente A casa de alvenaria em dois volumes: Osasco e Santana e esta é a primeira vez que o texto é publicado na íntegra, a partir dos manuscritos originais da autora.

A produção de Carolina deixa claro que a autora consegue elaborar uma análise de conjuntura do Brasil pós-abolição e também o caráter estrutural das desigualdades que ela vivia em seu cotidiano, consciente que a pobreza que vivia não era uma responsabilidade dela. “Ela narrou as violências e injustiças vividas por ela e por pessoas negras e mostrou como o sistema de Justiça opera contra pessoas negras”, explica Raquel.

“O fato que me horrorizou foi ver um soldado matar um preto. O policial deu-lhe voz de prisão. Ele era da roça. Saiu correndo assustado. O policial deu-lhe um tiro. A bala penetrou-lhe dentro do ouvido. O policial que lhe deu o tiro sorria, dizendo:
– Que pontaria que eu tenho! Vou ser campeão de tiro.
Com o pé ele movia o corpo sem vida do infausto e dizia:
– Deve ser baiano.
E eu fiquei pensando nos baianos, que eram obrigados a deixar a Bahia porque lá não chove e ser mortos pelos policiais sem motivo.” Não matarás[1]
Leitura da obra de Carolina, por vezes, é simplista e empobrecida

A leitura da obra de Carolina Maria de Jesus é, por vezes, muito simplista e empobrecida. “Quando leem fome, veem só a fome no sentido físico, da privação econômica. Quando ela está falando de fome, ela está falando de uma fome existencial também. A Conceição Evaristo faz sempre uma contraposição com a Clarice Lispector, quando se lê Clarice se consegue ver uma elaboração existencial, reflexões mais subjetivas. Mas o mesmo não acontece com a produção de Carolina”, explica Raquel.

Contudo, novas pesquisas, sobretudo feitas por mulheres negras, conseguem, a partir de um novo aporte metodológico e teórico, mostrar a riqueza de questões que aparecem na obra de Carolina para além da privação econômica. Como é o caso de Fernanda Miranda, que colaborou com a pesquisa para a exposição, ela é doutora em letras e estudou a obra de Carolina. Em sua dissertação de mestrado, “Os caminhos literários de Carolina Maria de Jesus: experiência marginal e construção estética”, Fernanda relata que Carolina se entendia e se afirmava poeta. “Ser poeta, do ponto de vista da autora, era – para além de escrever poemas – vocação, convicção, munição e destino. Contudo, os valores atribuídos ao seu texto negavam-lhe a possibilidade de sê-lo”, diz um trecho da pesquisa. A crítica e a imprensa restringiam Carolina à favela e fora do espaço de formulação subjetiva, “cabendo-lhe apenas documento o lado invisível da sociedade para deleite dos membros ‘legítimos’ da São Paulo moderna”, trecho da dissertação.



E a autora construiu um cânone pela margem, que abriu caminho para outras artistas trilharem. “A margem de onde brota a experiência é política, pois Carolina Maria de Jesus viveu, como milhares, à margem das benesses que o desenvolvimentismo e o progresso traziam para o país, e mesmo quando a circular pelos espaços centrais citadinos, devido ao poder aquisitivo e à fama que conquistara, era mantida como ‘outro’, como margem. A margem é social, pois sendo ela uma mulher negra de pouca escolaridade – no meio da intersecção de raça, gênero e classe – Carolina Maria de Jesus não passou ilesa pelas estruturas racistas da nossa sociedade. Ciente de que o poder tem cor, são dela as palavras: ‘Enfim, o mundo é como o branco quer. Eu não sou branca, não tenho nada a ver com estas desorganizações’. A margem também é literária: se a autora angariou um sucesso editorial fantástico no início do seu percurso, isto remete à perversidade da indústria cultural, que a incorporou para marginalizá-la, e à curiosidade mórbida que a elite nutria sobre a miséria”, diz trecho da dissertação de Fernanda Miranda.

A curadoria da exposição contou com um conselho consultivo externo composto por Bel Santos Mayer, educadora social e uma das criadoras do projeto Biblioteca Caminhos da Leitura; Denise Ferreira da Silva, filósofa e professora da University of British Columbia; Carmen Silva, escritora e liderança do Movimento Sem-Teto do Centro; Conceição Evaristo, doutora em literatura e escritora; Elisa Lucinda, escritora, poeta e atriz; Lúcia Xavier, assistente social e fundadora da ONG Criola; Mãe Celina de Xangô, yalorixá e gestora do Centro Cultural Pequena África; Paula Beatriz de Souza Cruz, professora e diretora da Escola Estadual Santa Rosa de Lima; Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, doutora em educação e professora emérita da Universidade Federal de São Carlos; Sueli Carneiro, doutora em educação, filósofa e fundadora da ONG Geledés; Zezé Menezes, bióloga e ex-coordenadora do Núcleo de Consciência Negra da USP; e a atriz Zezé Motta.

Para visitar a mostra, é preciso realizar agendamento prévio no site: https://sympla.com.br/imspaulista/. A entrada é gratuita.

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[1] Trecho de “Um Brasil para os Brasileiros”, caderno manuscrito inédito. Texto editado por Rachel Valença, coordenadora da área de Literatura do IMS.


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