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''As torres, o Afeganistão e o depois''

Da Carta Maior, 13  de Setembro 2021
Por Claudia Antunes




Créditos da foto: O economista e sociólogo José Luís Fiori (Marco Antônio Cavalcanti/O Globo/28-11-2008)

Na época da invasão do Afeganistão, você escreveu que os EUA estavam sendo empurrados por uma espécie de regra básica e universal do sistema interestatal: a necessidade de suas grandes potências seguirem se expandindo para manter a posição já adquirida. Algo que você chamou, num outro livro, de “paradoxo do hiperpoder”. Mesmo assim, depois desta derrota consagrada pela ocupação talibã de Cabul no dia 15 de agosto, você acha que os norte-americanos têm menos poder do que antes?

Bem antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, logo depois do fim da Guerra Fria, um grupo de trabalho criado pelo presidente George Bush e liderado por Dick Cheney já havia definido como principal objetivo estratégico dos EUA, na virada do século XXI, consolidar o poder conquistado em 1991, impedindo o aparecimento de um novo concorrente regional ou global do tipo URSS. Naquele momento, falaram da necessidade de algo parecido com um novo Pearl Harbour para mobilizar apoios e viabilizar a imposição “legítima” do poder global americano. Por isso hoje está absolutamente claro o que na época era menos visível devido ao trauma provocado pela derrubada das torres gêmeas de Nova Iorque: os atentados do 11 de Setembro cumpriram o papel do “acontecimento traumático” preconizado pelo grupo de trabalho de Dick Cheney, e em sentido mais amplo, o ataque imediato ao Afeganistão teve menos a ver com a caça de Osama Bin Laden e a destruição das redes de apoio do Al Qaeda, do que com a necessidade americana de reafirmar ativamente o seu poder e sua decisão de exercê-lo através de suas armas. O Talibã não estava envolvido com os atentados e até hoje não foram apresentadas provas inequívocas de que o antigo “guerreiro da liberdade” inventado e formado pelos EUA, para combater a URSS no próprio Afeganistão, tenha sido o verdadeiro cérebro ou responsável pelos atentados de Nova Iorque. De qualquer forma, o ataque ao Afeganistão serviu como cartão de apresentação da nova “guerra global ao terrorismo” declarada pelo presidente Bush, que foi uma guerra tipicamente imperial, por duas razões fundamentais: dentro dos EUA, justificou a criação de uma brecha legal que permitia e ainda permite ao governo declarar guerras e atacar “terroristas” em qualquer parte do mundo sem necessitar da aprovação prévia do Congresso Americano; e em segundo, durante alguns anos pelo menos, permitiu que os norte-americanos definissem quem fossem os terroristas em qualquer lugar do mundo, por cima da soberania dos povos escolhidos e atingidos pelos ataques punitivos das forças norte-americanas.

A “guerra ao terror” significou um passo à frente no objetivo americano de criação e consolidação de um império militar global. Tudo isto são fatos que hoje já pertencem à História. Mas a Guerra do Afeganistão pode e deve ser lida de um ponto de vista mais amplo e de longo prazo, a partir da própria história de formação e expansão do sistema interestatal “inventado” pelos europeus. Durante toda a história desse sistema, sempre existiram Estados ganhadores e Estados perdedores, e seus “Estados-membros” foram obrigados a competir e fazer guerra para sobreviver numa disputa permanente pela conquista do poder global, e pela acumulação de uma riqueza capitalista que se transformou numa peça fundamental da própria luta pelo poder. Costumo sempre citar um autor alemão, Norbert Elias, que disse, numa obra clássica, que a regra básica deste sistema interestatal e capitalista era que nele “quem não subia, caía”; uma regra que se aplica a todos, e mais ainda para as grandes potências que já se encontram na frente dessa corrida sem fim. Ou seja, mesmo as chamadas “grandes potências” desse sistema estão obrigadas a se expandir aumentando seu poder e sua riqueza, para seguir ocupando as posições que já ocupam. Por isso mesmo, no sistema em que vivemos, a preparação para a guerra e o início de novas guerras é uma necessidade quase impositiva de todas as grandes potências e em particular da “potência líder” ou “hegemônica”, que no caso vem a ser os Estados Unidos. Como escrevo e repito muitas vezes, o poder é fluxo, é conquista, e só existe enquanto é exercido, e é imposto, mesmo que seja através de guerras que afinal se transformam em derrotas, como no caso de quase todas as guerras de que os Estados Unidos participaram, depois da Segunda Guerra Mundial.

O poder internacional precisa ser temido mais do que amado, como diria Maquiavel, e ele é temido por sua capacidade de destruição, e não por sua capacidade de construção ou reconstrução. E por isto que os EUA perderam a guerra do Afeganistao mas seguem mantendo o seu poder de punir e destruir quando considerem necessário. Neste sentido, por mais absurdo que isto possa parecer, neste sistema internacional em que vivemos é mais importante que sua potencia dominante faça guerras sucessivas e demonstre seu poder militar do que as ganhe. Neste sentido, não há a menor dúvida de que os Estados Unidos acabam de sofrer uma derrota verdadeiramente humilhante no Afeganistão, mais humilhante até do que seu fracasso no Iraque. Apesar disso, seguirão em frente e já estão envolvidos numa competição sem limites com a China, que pode não acabar em uma guerra direta, mas que deverá ser o guarda-chuva sob o qual estarão sendo travadas as novas guerras locais desta primeira metade do século XXI.

Você também disse que a chamada “guerra ao terror” era um projeto imperial que se propunha a combater um “método”, na ausência, naquele momento, de interesses ou ameaças nacionais concretos que justificassem as guerras que se seguiram aos atentados. Essa “guerra ao terror” ainda tem a mesma importância e o mesmo lugar dentro do sistema internacional, já na terceira década do século XXI?

O “terrorismo” sempre existiu através de toda a História, como uma forma particular de luta de grupos, etnias, seitas e “nações” em defesa de seus direitos contra potências mais poderosas. E seguirá existindo, com toda certeza, em qualquer tempo e em qualquer lugar do futuro, com consequências mais ou menos dramáticas, mesmo quando não alcancem o nível de intensidade e dramaticidade do “atentado das Torres Gêmeas”, ou mais ainda, do “atentado de Sarajevo” que esteve na origem da Primeira Guerra Mundial e, portanto, se poderia dizer também, do fim de pelo menos quatro grandes impérios multinacionais.

Não há dúvida de que “a guerra global ao terrorismo” declarada pelo presidente George Bush, em 2001, ocupou um lugar particular na história de expansão do poder americano. E também é verdade o que você diz, que naquele momento não havia no cenário mundial nenhum país que pudesse ameaçar o poder militar dos EUA. Mas hoje a situação é distinta: a guerra global ao terrorismo acabou se transformando numa “guerra santa” quase inteiramente travada dentro do mundo mulçumano, e contra o governo de Estados situados na região do Grande Médio Oriente. Em algum momento os EUA chegaram a bombardear o território de seis países ao mesmo tempo, todos eles de maioria muçulmana, e sempre em nome do combate ao terrorismo fundamentalista islâmico. O resultado final dessas guerras foi um gigantesco morticínio, e um verdadeiro terremoto demográfico, com a fuga de milhões de pessoas de suas terras, quase sempre na direção da Europa. E em nenhum caso, os norte-americanos e seus aliados cristãos e da OTAN conseguiram construir Estados democráticos, ou impor seus próprios valores, que acabaram sendo rechaçados de forma explícita e humilhante, como aconteceu nas últimas semanas com as declarações de vários líderes talibãs de que não queriam rigorosamente saber nem incorporar os valores, costumes e instituições ocidentais. Criou-se uma situação realmente grotesca no Conselho de Defesa dos Direitos Humanos das Nações Unidas, quando as potências ocidentais recém-derrotadas demonstravam grande preocupação pelo respeito talibã aos direitos humanos cristãos e ocidentais, depois de terem iniciado uma guerra para castigar Osama Bin Laden, que durou 20 anos, matou cerca de 100 mil afegãos e provocou uma onda de mais de 2 milhões de refugiados expulsos de suas casas na direção da repulsa xenófoba dos países e povos que foram seus próprios agressores. De qualquer forma, você tem razão ao dizer que hoje os EUA já estão desafiados e competindo com outras grandes potências e estão deixando de lado seu projeto imperial “da guerra global ao terrorismo”. Os inimigos agora são outros, mas a saga do poder americano segue em frente.

Você já identificava, na época, fragmentação e incerteza política dentro dos Estados Unidos, com o impeachment de Clinton pelos republicanos de Gingrich, a eleição contestada de Bush filho. Nesse sentido, Trump foi realmente uma exceção, como muita gente o vê hoje, ou uma continuidade?

Acho que não é necessário relembrar a Guerra Civil Americana (1851-1865), a mais violenta de todo o século XIX, ou os presidentes americanos que foram assassinados, ou mesmo os números da violência racial do sul dos EUA até hoje; ou ainda o tamanho da população carcerária norte-americana, para demonstrar que a divisão e a violência fazem parte essencial da história americana. Não se trata de um fenômeno recente, nem de uma exceção, assim como o próprio Trump não é nenhuma exceção. Pode ser uma figura exótica e extremamente inculta, mas não teria chegado aonde chegou se não fosse a expressão de uma parte importante não apenas da sociedade, mas também do establishment norte-americano, incluindo suas elites militares e empresariais. Sua própria estratégia internacional não caiu do céu, nem saiu de sua cabeça de animador de televisão e especulador imobiliário. Pelo contrário, seu nacionalismo e seu anticosmopolitismo sempre existiram e tiveram presença ativa através da história dos EUA, e mesmo no século XX, quando os EUA se transformaram realmente numa potência global e o liberal- internacionalismo se transformou na principal bandeira de sua política externa; sua sociedade seguiu dividida entre esse cosmopolitismo e o nacionalismo provinciano, tacanho e agressivo de boa parte de sua população, sobretudo das regiões agrícolas do centro-oeste americano, liberal e em geral mais intelectualizada. Não há dúvida de que esta divisão e polarização social e política aumentou muito nas últimas décadas, ao mesmo tempo que a desigualdade e a fragmentação da sociedade americana atingiram níveis altíssimos, sobretudo depois da grande crise financeira de 2008. É desse período o aumento do peso das seitas religiosas e do fanatismo racista que acabou permeando o Partido Republicano com o movimento Tea Party, até sua culminação com a vitória de um outsider como Donald Trump. A força desse movimento conservador e de extrema-direita é muito grande e seguirá atuando e fragilizando internamente o Estado americano e sua própria capacidade de se impor internacionalmente. Daí vieram a energia e a inspiração do discurso raivosamente provinciano e antiliberal de Donald Trump – discurso que não morreu e deverá reaparecer nas eleições parlamentares de 2022, quando o Partido Republicano deverá recuperar a maioria no Senado e ser capaz de paralisar o governo Biden.

Você fala da existência de um “buraco negro” dentro do sistema internacional que se desloca através do tempo e onde se concentra a energia destrutiva e bélica do sistema. E chega a dizer que o Oriente Médio ocupou este lugar nas últimas décadas. Mas agora, depois da saída americana do Afeganistão e do Iraque, para onde você acha que o ponteiro desse relógio ou bússola estará se deslocando? A China já é esse inimigo, é possível falar numa bipolaridade agora?

É verdade que falei de “buraco negro” num artigo logo antes do início da guerra do Iraque, em 2003, para chamar a atenção ao fato de que o sistema interestatal sempre possui algum lugar no mundo onde ode se concentra o seu “foco bélico”, onde as grandes potências “exercitam” seus novos armamentos e enviam sinais para seus aliados e inimigos sobre o seu real potencial militar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Guerra do Golfo em 1991/2, quando os EUA expuseram ao mundo seus novos arsenais teleguiados, que deixaram claro o distanciamento, naquele momento, entre o poder de fogo dos americanos e o dos demais países e eventuais concorrentes. Esse “buraco negro” se desloca no espaço e no tempo, exercendo ao mesmo tempo uma espécie de força gravitacional sobre todo o sistema, mantendo-o junto e hierarquizado. Depois da Segunda Guerra Mundial, esse centro gravitacional saiu da própria Europa e se deslocou na direção dos ponteiros do relógio: para o nordeste e sudeste asiático, com as guerras da Coreia e do Vietnã, entre 1951 e 1975; e depois para a Ásia Central, com as guerras entre o Irã e o Iraque, e contra a invasão soviética do Afeganistão, na década de 80; com a Guerra do Golfo, no início dos anos 90; e com as guerras do Iraque e do Afeganistão na primeira década do século XXI, e depois se transferiu para o Líbia, a Síria etc. Os ponteiros deste relógio já estão se deslocando para algum novo foco, mas neste caso, há que distinguir um foco de tensão e negociação permanente, como é o caso de Taiwan, de um foco de guerra aberta que ainda não está claro onde se situará agora nesta terceira década. A China já é o novo grande inimigo bipolar dos EUA, mas com certeza não será o epicentro ou o “buraco negro” do sistema.

Outro aspecto são as divergências entre os Estados Unidos e seus aliados tradicionais na Europa, que se manifestaram na invasão do Iraque. Você identificou na Alemanha o núcleo dessa tensão, e falou do temor de uma aproximação entre Berlim e Moscou. O quão mais forte ou mais fraca essa tendência está hoje?

Esta é uma ideia central do geopolítico inglês Halford Mackinder (1861-1947), que foi formulada teoricamente no início do século XX, e um papel central na estratégia geopolítica de conquista do poder global por parte das duas grandes potências anglo- saxônicas que dominaram o sistema interestatal nos últimos 200 anos: impedir ou bloquear, de qualquer maneira, o surgimento de uma aliança estratégica entre Alemanha e Rússia. Esta tese for formulada no início do século XX, mas foi de fato uma sistematização e racionalização daquilo que a Inglaterra já vinha fazendo desde o fim das Guerras Napoleônicas, quando o Foreign Office inglês definiu, pela primeira vez, a Rússia imperial dos Romanov como principal concorrente do poder britânico na Europa, na Ásia Central e, inclusive, na América. A mesma estratégia depois se manteve no século XX, com relação à Rússia comunista de Lenin a Gorbachev, e segue vigente hoje, com relação à Rússia nacionalista e conservadora de Vladimir Putin. No final do século XIX, em particular durante o século XX, essa estratégia de isolamento da Rússia adquiriu nova dimensão e um objetivo mais específico, a partir da “primeira unificação” da Alemanha, em 1871, de não permitir jamais que a Rússia e a Alemanha estabelecessem entre si algum tipo de aliança estratégica ou integração econômica que lhes permitisse hegemonizar a Europa e, como consequência, controlar o poder mundial, segundo a teoria de Mackinder. Essa mesma ideia foi retomada pelo diplomata americano George Kennan, que defendia a necessidade de “contenção permanente” da URSS, ideia que foi referendada por Winston Churchill em seu famoso discurso no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, em 5 de março de 1946, quando propôs a criação de uma espécie de “cortina de ferro” separando a Europa Ocidental da URSS e seus países aliados da Europa Central. E essa mesma doutrina estratégica segue vigente até hoje, e já se transformou numa espécie de paradigma ou cacoete mental da maior parte do establishment militar e diplomático norte-americano.

A estratégia do governo Bush, de ataque e “conversão” do Grande Médio Oriente, começando pelo Afeganistão e o Iraque, provocou uma fissura grave entre os EUA e seus aliados europeus continentais. Esta fissura se transformou numa verdadeiro abismo durante o governo de Donald Trump, que hostilizou sistematicamente a Alemanha de Angela Merkel. E agora, finalmente, os EUA estão se retirando do Oriente Médio e da Ásia Central, e deslocando suas linhas de defesa e ataque para a região do Índico e do Sul do Pacífico, cercando e procurando conter a China. A diferença é que, neste caso, o país que está sendo cercado é um parceiro econômico fundamental da economia capitalista mundial e é um parceiro indispensável da Alemanha, seja como potência exportadora ou como país com alto potencial tecnológico necessitado dos investimentos chineses. O governo Biden está procurando reverter o isolacionismo e a animosidade contra a Alemanha de Trump, mas estas coisas não se revertem com tapinhas nas costas, e a experiência Trump não só pode se repetir em três anos mais, como ela é rigorosamente inesquecível. Rompeu-se ali uma relação de confiança mútua, como se rompeu agora a confiança dos pequenos protetorados militares do EUA na Ásia e na África, depois que os americanos deixaram para trás o Afeganistão afundado na sua própria miséria. Por tudo isso, resumindo, acho que a tendência à aproximação entre Alemanha e Rússia deve aumentar nos próximos anos, não apenas como distanciamento dos EUA, mas também como forma de equilibrar a influência mundial crescente dos chineses.

Uma das principais justificativas de Biden para manter a saída do Afeganistão, apesar das críticas, é que os EUA precisam se concentrar no que ele chamou de “batalhas do futuro”, que são principalmente a competição com a China, mas em especial no campo de tecnologia, incluindo as voltadas para a “transição verde”. Ele vai conseguir ou o sistema político americano continua tão fragmentado que vai tornar isso impossível?

Isto é verdade, mas o importante é entender que os novos “adversários” americanos nasceram da própria estratégia expansiva e agressiva dos EUA nos últimos 30 anos desde o fim da Guerra Fria. Foi a estratégia expansiva e agressiva que apressou o surgimento de uma resistência de dentro do próprio núcleo das velhas grandes potências do sistema interestatal, e da Rússia - no campo militar - e da China - em particular, no campo econômico e cada vez mais também no campo militar. Um momento decisivo dessa inflexão aconteceu na Geórgia, em 2008, quando o poder imperial dos EUA e da OTAN encontrou seu primeiro limite depois do fim da Guerra Fria. A chamada “Guerra da Geórgia” foi muito rápida e talvez até passasse despercebida na história do século XXI, se não tivesse acontecido o inesperado: a intervenção das Forças Armadas da Rússia, que em poucas horas cercaram o território da Geórgia, numa demonstração contundente de que a Rússia havia decidido colocar um limite à expansão das tropas da OTAN para o Leste, vetando a incorporação da Geórgia como novo Estado-membro da organização. Foi exatamente naquele momento que a Rússia demonstrou, pela primeira vez, sua decisão e capacidade militar de opor-se ou de vetar o arbítrio unilateral dos EUA dentro da nova ordem mundial do século XXI. Mais à frente, em 2015, a Rússia deu um novo passo nessa mesma direção, quando interveio na Guerra da Síria (2011-2019), sem consultas prévias e sem subordinação a nenhum outro comando que não fosse o de suas próprias Forças Armadas. Com sua intervenção militar na Síria, a Rússia já não estava se propondo apenas a vetar decisões e inciativas estratégicas dos EUA e da OTAN; impôs pelas armas seu direito de também arbitrar e intervir nos conflitos internacionais, mesmo que fosse contra os mesmos inimigos, e a partir dos mesmos valores defendidos por europeus e norte- americanos. E a partir de 2013, em particular depois do início da presidência de Ji Xiping, a China também assumiu plenamente seu projeto de afirmação de sua hegemonia militar regional, no Estreito de Taiwan e no Mar do Sul do Pacífico. E anunciou sua decisão de ser uma potência militar global até o ano de 2050.

O território e o armamento desses três países são gigantescos; eles controlam em conjunto cerca de um quarto da superfície territorial do mundo, e mais de um terço da população global, e já não admitem mais invasões ou conquistas do tipo clássico. Por isso, sua luta deve se deslocar para os territórios periféricos do sistema e para os espaços e fluxos sem fronteiras por onde circulam os recursos e a energia do sistema interestatal capitalista, onde deve assumir a forma de uma “guerra híbrida” quase permanente, travada em vários pontos simultaneamente, com mudanças súbitas e inesperadas de cenário, e com alianças cada vez mais instáveis, como se todo mundo fosse reproduzir no futuro, e em escala planetária, o que foi a história da formação da própria Europa.

De qualquer maneira, essa competição subterrânea e contínua entre os “três gigantes” deverá promover um dos saltos tecnológicos mais espetaculares de toda a História. E uma vez mais, como sempre ocorreu através dos anos, esse salto tecnológico deverá ser liderado pela pesquisa e pela inovação da indústria bélica, envolvendo uma mudança na matriz energética que move atualmente a infraestrutura militar desses países, e de todo o mundo. Não será uma guerra, mas uma longa “preparação para a guerra”, uma guerra que talvez nunca ocorra explicitamente, mas que estará sendo travada de forma oculta, em todos os planos, na terra, no mar, no ar, no mundo submarino e no espaço sideral. Muito provavelmente será um destes momentos em que a humanidade estará cruzando uma das “fronteiras” que alguns analistas chamam de” ponto de singularidade”. Ray Kurtzweil,1 por exemplo, “prevê que o crescimento da capacidade tecnólogica envolvendo computadores, robótica e biotecnologia alcançará um ponto “tendente ao infinito”, entre 2029 e 2045, o que significaria que as inteligências artificiais teriam superado as capacidades de todos os humanos combinados; a partir daí, a biologia humana e a máquina fariam parte de um mesmo complexo, sem que se pudesse distinguir onde um começa e o outro termina”.

2 de setembro de 2021

1 Kurtzweil, R. The singularity is near. New York: Viking Books, 2005.

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*Versão completa da entrevista para Claudia Antunes, para O Globo

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