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As sequelas da covid, vastas e misteriosas

Problemas no fígado, pulmões, estômago, pele, dentes, humor. Depressão, ansiedade e amnésia. Queixas dos pacientes multiplicam-se. A medicina ainda não encontra explicações. E mais: a crise na produção de diagnósticos e drogas contra o cãncer


De OUTRASAÚDE. 21 de Setembro 2021
por Leila Salim e Raquel Torres



O QUE É, O QUE É

Já falamos aqui na newsletter sobre como grupos organizados de pacientes com covid longa têm criticado a forma como cientistas veem sua condição, e como, desde o ano passado, precisaram se organizar e estudar por conta própria antes que seus sintomas duradouros começassem a ser levados a sério. Na New Yorker, o médico Dhruv Khullar escreve sobre seu contato com o maior desses grupos – o Survivor Corps –, e sobre questões delicadas relacionadas à própria definição do que é covid longa.

O Survivor Corps é um grupo de Facebook em que os participantes conversam sobre sintomas, desabafam e trocam dicas de tratamento – alguns cientificamente fundamentados, outros não. Sua criadora, Diana Berrent, se infectou em março de 2020 e foi uma das primeiras a alertar médicos sobre os sintomas que pacientes continuavam relatando depois de muito tempo. Hoje, ela se reúne regularmente com funcionários do governo e cientistas importantes e há pesquisas em vários países sobre os efeitos de longo prazo da covid-19.

Berrent e outros pacientes acreditam que essas pesquisas ainda são insuficientes para dar conta de toda a extensa gama de sintomas que aparecem nas discussões: problemas no fígado, nos pulmões, no estômago, na pele, nos dentes, no humor. De acordo com eles, o trabalho científico deve partir dos dados já coletados por grupos como o Survivor Corps, com base nos que os pacientes estão relatando há meses. Embora essa demanda faça sentido, avalia Khullar, ela deixa de lado as preocupações dos cientistas em distinguir o que é ou não apoiado por evidências.

Existe certo consenso de que a covid longa existe, mas não sobre o que ela é. Alguns médicos sugerem que certos sintomas poderiam ser psicossomáticos ou causados por outras doenças não relacionadas à covid-19, e ambas são hipóteses possíveis, mas ainda não se sabe ao certo. Como o número de infectados pelo coronavírus é muito, muito grande, aumenta a chance eles compartilharem também outros agravos que podem ter sintomas em comum. Além disso, alguns tratamentos contra a covid-19 usados para outras doenças podem gerar problemas duradouros – é o caso do uso de ventiladores, que está associado a fraqueza prolongada, perda de memória, ansiedade e depressão.

Em entrevista a Khullar, o médico Vinay Prasad, especialista em medicina baseada em evidências da Universidade da Califórnia, diz que para definir direito a covid longa seria preciso caracterizar melhor seus sintomas e pesquisar se eles estão sendo causados pelo vírus ou por outra coisa. As pesquisas mais relevantes feitas até agora têm limitações nesse segundo ponto, pois não comparam a prevalência de sintomas entre quem teve covid-19 e quem não teve. Mas Prasad diz também que, no fim das contas, o que interessa é reconhecer o sofrimento das pessoas, qualquer que seja a sua causa: “Quando alguém sente algo em seu corpo, isso é real – esteja ou não relacionado à covid-19. As pessoas gastam muita energia mental perguntando se algo é covid longa ou não. Mas, em última análise, a profissão médica é sobre compaixão. Do ponto de vista médico, se os pacientes estão sofrendo, precisamos descobrir como ajudá-los”.

PRELIMINARES

A Pfizer divulgou ontem resultados preliminares de seu ensaio de fase 2/3 com crianças de cinco a 11 anos. Nas 2,2 mil crianças avaliadas, a vacina se mostrou segura e capaz de induzir uma resposta imune robusta.

Não foi avaliada a eficácia, ou seja, a capacidade de o imunizante proteger as crianças em comparação com quem não tomou. No entanto, segundo a empresa, a quantidade de anticorpos produzidos pelas crianças foi comparável à dos adultos – e isso com uma dosagem reduzida (de 10 microgramas, contra 30 microgramas usadas para maiores de 12 anos). Foram duas doses, com 21 dias de intervalo entre elas. Os efeitos colaterais também foram consistentes com os observados em adultos.

O grupo dessa faixa etária faz parte de um ensaio que envolve ao todo 4,5 mil crianças de seis meses a 11 anos em quatro países: Estados Unidos, Finlândia, Polônia e Espanha. A Pfizer espera liberar anda este ano os resultados de outros dois grupos (seis meses a dois anos; dois a cinco anos). Todas as crianças com menos de cinco anos de idade receberam doses abaixo de 3 microgramas.

A Pfizer não divulgou os dados completos, mas eles devem ser enviados em breve às agências reguladoras dos Estados Unidos e da União Europeia. Como o ensaio foi muito pequeno para detectar problemas de segurança menos comuns, esses órgãos devem ter que tomar suas decisões com base em dados mais limitados do que gostariam. Após o começo da administração em larga escala os benefícios e eventuais problemas ficarão mais claros.

Ao mesmo tempo, esperamos ter em breve dados de “mundo real” sobre a aplicação da CoronaVac em crianças, que já foi liberada em países como China e Chile.

SEM RELAÇÃO

E ontem foi a vez de a Anvisa se manifestar sobre a investigação da morte da adolescente de 16 anos que havia tomado, uma semana antes do óbito, a primeira dose da vacina da Pfizer. A agência referendou a nota informativa do Centro de Vigilância Epidemiológica do governo do estado de São Paulo, divulgada na última sexta, e afirmou que os dados disponíveis são consistentes, mostrando que “não houve relação causal” entre a administração da vacina e a morte da jovem. A análise conduzida por 70 especialistas concluiu, na última sexta, que a menina era portadora de uma doença autoimune chamada Púrpura Trombótica Trombocitopênica (PTT), que causou sua morte. Segundo o estudo, não é possível atribuir à vacina o desencadeamento do quadro.

A declaração da Anvisa veio após representantes do órgão se reunirem com a Coordenadoria de Controle de Doenças da secretaria de Saúde de São Paulo, um especialista do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde e técnicos dos centros de Vigilância Sanitária e Vigilância Epidemiológica do estado. A agência disse ainda que irá notificar a OMS e apresentar informações técnicas ao International Coalition of Medicines Regulatory Authorities (ICMRA), um conselho que reúne autoridades regulatórias para discutir a segurança das vacinas. O Comitê Interinstitucional de Farmacovigilância de Vacinas e outros Imunobiológicos (CIFAVI), que conta com representantes do Ministério da Saúde, da Fiocruz e da própria Anvisa, também será notificado.

CONCESSÃO?

Diplomatas brasileiros tentam, segundo apurou o Estadão, convencer Jair Bolsonaro a divulgar uma agenda positiva no discurso que fará hoje na abertura da Assembleia-Geral da ONU em Nova Iorque. A sugestão é que, para minimizar o desgaste internacional, ele anuncie a doação de vacinas contra a covid-19 para países latinoamericanos que enfrentam mais dificuldades no combate à pandemia, como Paraguai e Haiti.

Por vias muitíssimo tortas – e motivado unicamente por um cálculo pragmático – o governo que dificultou e dificulta o acesso de milhões de cidadãos aos imunizantes (seja negligenciado contratos, priorizando negociatas duvidosas ou mesmo alimentando desconfianças quanto à segurança e eficácia dos produtos) pode reconduzir momentaneamente o Brasil ao papel de ponto de apoio e referência para campanhas de imunização em outros países da região.

Se Bolsonaro aceitar a recomendação do Itamaraty, pode, como adiantou a coluna de Jamil Chade, abrir mão de parte dos imunizantes da Covax Facility, o mecanismo da OMS de distribuição de doses. O governo brasileiro encomendou 43 milhões de doses da Covax, e recebeu apenas 14 milhões até agora. Assim, parte do restante poderia ser disponibilizado ao acordo.

Enquanto isso, o negacionismo de Bolsonaro e sua trupe seguem orgulhando – só que não – brasileiros e causando problemas. Ontem, o prefeito de Nova Iorque, Bill de Blasio declarou que líderes mundiais em visita à cidade para a Assembleia da ONU deveriam estar vacinados, ou então não “deveriam se dar ao trabalho de ir”. Depois, em post no Twitter, indicou a Bolsonaro um link com os locais de vacinação contra a covid-19 na cidade. Também ontem, a CNN e a Folha informaram que um integrante da comitiva presidencial, provavelmente hospedado no mesmo hotel de Bolsonaro, testou positivo para covid-19.

BOA NOTÍCIA

O governo indiano anunciou ontem que irá retomar a exportação de vacinas contra a covid-19 em outubro, o que deve dar novo gás à distribução global de imunizantes. Como se sabe, o país é o maior produtor do mundo e havia interrompido as exportações em abril deste ano – seu momento mais trágico na pandemia – para vacinar a própria população.

A expectativa agora é a de privilegiar as entregas para a Covax Facility e para países vizinhos. Segundo o ministro da Saúde, Mansukh Mandaviya, a produção mensal mais do que dobrou desde então, e está prevista para aumentar ainda mais, chegando a 300 milhões de doses no próximo mês.

PRODUÇÃO SUSPENSA

A produção de radiofármacos fundamentais para diagnósticos por imagem e tratamentos de câncer está suspensa desde ontem no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Com isso, há risco de desabastecimento durante algumas semanas e até dois milhões de pessoas podem ser prejudicadas.

O motivo da paralisação é a falta de insumos importados. O presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), George Coura Filho, disse ao Estadão que já procurou vários ministérios para tentar resolver o problema, mas nunca recebe resposta. Segundo Luis Antonio Genova, pesquisador do Ipen, a situação da iminente falta de insumos era conhecida desde o começo deste ano: quando o orçamento foi informado, se sabia que o Ipen só teria recursos até agosto.

Um projeto de lei do Executivo que garante a verba necessária está em pauta, mas só deve ser votado na semana que vem.

MAIS UM POUCO

Vai demorar mais um pouco para que as conclusões e encaminhamentos sugeridos pela CPI da Covid sejam conhecidos. É que o relator Renan Calheiros (MDB-AL) anunciou ontem o adiamento da entrega do relatório final, que estava prevista para a próxima sexta. A perspectiva agora é que o texto fique pronto na primeira semana de outubro, e seja entregue após uma cerimônia oficial de encerramento da CPI.

O adiamento foi motivado pelos desdobramentos recentes envolvendo a intermediária Precisa Medicamentos e a operadora privada Prevent Senior. Na última sexta, a Polícia Federal cumpriu um mandado de busca e apreensão na sede da Precisa, investigada por sua atuação nas negociações para compra do imunizante indiano Covaxin. A cúpula da CPI aguarda a análise do material apreendido e o depoimento de Danilo Trento, diretor de relações institucionais da empresa, que está previsto para a quinta-feira.

Além disso, os senadores pretendem ganhar tempo para aprofundar as investigações e colher depoimentos relativos ao caso da Prevent, acusada de promover ensaios clínicos ilegais para tratamento da covid-19 com hidroxicloroquina nos hospitais de sua rede. Pedro Batista Junior, diretor-executivo da operadora, deve ser finalmente ouvido pelos senadores na próxima quarta. A empresa diz que vai provar à CPI que os médicos responsáveis pelas denúncias mentiram. A equipe jurídica da Prevent declarou ao Estadão que as informações foram “baseadas em documentos e mensagens internos editados e fora de contexto”.

Em tempo: o depoente de hoje será o ministro Wagner Rosário, da Controladoria-Geral da União (CGU). O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), afirma que Rosário teria prevaricado, por ter tomado conhecimento e não agido em relação às suspeitas de irregularidades envolvendo as negociações para compra de vacinas pelo ministério da Saúde.

CRIME NA PANDEMIA

O processo de compra de respiradores para combate à covid no Amazonas levou Wilson Lima (PSC), governador do estado, ao banco dos réus. Ontem, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu por unanimidade aceitar a denúncia que o enquadra por organização criminosa, peculato, fraude a licitações e embaraço às investigações na condução das negociações dos aparelhos. A Procuradoria-Geral da República, responsável pela denúncia, aponta que o preço inicial ofertado pelos respiradores estava muito acima do praticado no mercado à época, mesmo considerando o contexto da pandemia. O laudo elaborado pela Polícia Federal identificou nada menos que 133,67% de superfaturamento por preço unitário. O prejuízo total estimado na negociata é de, no mínimo, R$ 2, 2 milhões.

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