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Afeganistão, o século XXI começa em Cabul

Do IHU, 01 Setembro 2021
Por Bernard Guetta



"Vamos acordar porque precisamos da Aliança Atlântica mais do que nunca e a única forma de fazê-la durar no tempo é transformar a Europa num ator estratégico. Vamos acordar porque como é certo que o século XX começou em Sarajevo no verão de 1914, não há dúvida de que o século XXI começou em Cabul no verão de 2021", escreve Bernard Guetta, jornalista e homem político francês, especialista em geopolítica internacional, eleito deputado europeu em 2019, em artigo publicado por La Repubblica, 30-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Vamos dizer claramente, a sangue frio, mas não importa. A fuga frenética dos franceses da Argélia foi mais atroz e diferente do que os momentos horrendos vividos em Cabul. Em Saigon, os Estados Unidos perderam a guerra contra o bloco comunista. Quanto aos atentados como os de quinta-feira, 26 de agosto, nem sequer são contabilizados desde 11 de setembro. Nada de novo aconteceu em Cabul, exceto que de repente todos viram o que já sabiam, sem realmente ter se dado conta.

Todos sabiam que os tempos da onipotência dos EUA chegaram ao fim, que foram ilusórios e que, em comparação com o desafio com a China, para os Estados Unidos tudo agora parece secundário. Sabia-se desde que Obama fez vista grossa aos crimes de Assad. Era difícil não entendê-lo no slogan "America First!" de Trump, mas pensamos que afinal tratava-se de Trump, enquanto agora Biden - um veterano em relações internacionais, formado nos dias da Guerra Fria - está oficialmente encerrando o século estadunidense e abandonando o Afeganistão ao obscurantismo dos Talibãs e ao jihadismo do Isis.

Sim, diante de pessoas estraçalhadas pelas bombas e destruídas pelo desespero em Cabul, diante da determinação com que a primeira potência do mundo se retira de um país que afirmava reconstruir em vinte anos, a opinião pública mundial está atordoada, porque não consegue mais entender a mensagem que recebe. Não existe mais um xerife, nem bom nem mau. Não existe mais guarda-chuva. Não existe mais uma defesa na qual confiar. Não existe mais uma aliança sólida como uma rocha, existe apenas os EUA que se distanciam do mundo para se recolher sobre si mesmo, para investir na modernização, para economizar o dinheiro e os homens de que vai precisar para não ceder o primeiro lugar para a China, deixando Europa, África e Oriente Médio na incerteza dos equilíbrios e das relações de força a serem repensadas do zero.

Vamos acordar, então! Em vez de perder tempo discutindo sobre o acolhimento de refugiados afegãos, vamos nos perguntar - sim, nós, europeus – se temos certeza de como os EUA reagiriam se Putin marchasse sobre Kiev ou anexasse a Ucrânia oriental. Vamos nos perguntar e teremos que confessar que não temos mais certeza de nada depois que em 2008 Bush se limitou a observar a invasão russa da Geórgia, depois que em 2013 Obama ficou imóvel quando o regime sírio usou armas químicas, depois que Biden provoca a humilhação nacional para se retirar de Cabul a qualquer custo.

No entanto, o que sabemos, Putin também sabe. O Kremlin está hoje convencido de que não haveria reação dos EUA mesmo que deslocasse seus mercenários nos Bálcãs, se aumentasse sua presença no Báltico, na Líbia e na África Subsaariana ou se, no futuro, unisse forças com os generais argelinos.

Todas essas são suposições previsíveis, mas o que poderíamos fazer? Nada. Não poderíamos fazer nada ou quase nada, porque o único verdadeiro exército que resta na União Europeia é aquele francês, presente em demasiadas frentes. Portanto, sim, antes de nos encontrarmos expostos diante da ditadura russa, chinesa e até turca, vamos acordar! Vamos enfrentar as realidades do novo século antes de reaprender que impotência significa submissão, antes de não vermos chegar a cavalaria estadunidense uma terceira vez para salvar a Europa.

Não vamos permitir a ninguém dizer que a UE não é capaz de se defender sozinha. Pode fazê-lo porque deve fazê-lo. Pode fazê-lo porque o tabu de uma defesa comum europeia já foi minado pela eleição de Trump e porque agora Biden fez entender aos 27 Estados-Membros o que eles ainda não haviam admitido. A União hoje deveria fazer apenas uma coisa: acelerar uma evolução que já se arrasta há seis anos. Deve fazê-lo porque, se suas capitais permanecessem incapazes de se munir de uma defesa de nome e de fato, os Estados Unidos não teriam motivo para correr em ajuda de aliados semelhantes.

Vamos acordar porque os EUA, tendo que enfrentar a China, um dia poderiam preferir uma Rússia forte a uma União inexistente, poderiam ter consideração pelo Kremlin e encontrar um entendimento em vez de ir morrer por Tbilissi, Vilnius ou Kiev. Vamos acordar porque precisamos da Aliança Atlântica mais do que nunca e a única forma de fazê-la durar no tempo é transformar a Europa num ator estratégico. Vamos acordar porque como é certo que o século XX começou em Sarajevo no verão de 1914, não há dúvida de que o século XXI começou em Cabul no verão de 2021.

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