Pages

Governo Bolsonaro também superfaturou máscaras

Reportagem revela: esquema no ministério da Saúde para pagar mais — e possivelmente receber troco “por fora” — começou já em 2020. E mais: como a pandemia amplia os casos de demência. EUA reconhecem: China não usou vírus como arma


De OUTRASAÚDE, 30 de Agosto 2021
Por Leila Salim e Raquel Torres


PIORES E MAIS CARAS

Um padrão? Não foi só na compra de vacinas que o governo Bolsonaro colocou em segundo plano a negociação direta com fabricantes para priorizar intermediárias e atravessadores. Segundo apuração da Folha, o mesmo caminho foi percorrido para a compra de máscaras de proteção pelo Ministério da Saúde, ainda no começo da pandemia. O resultado: o governo pagou, por máscaras impróprias a profissionais de saúde que acabaram não sendo utilizadas, mais que o dobro do que havia pagado por respiradores PFF2, modelo que oferece a melhor proteção. Para completar, mais de uma vez omitiu essa informação do Ministério Público Federal (MPF).

Desde fevereiro, a Procuradoria da República investiga a aquisição, em 2020, de máscaras do tipo KN95, consideradas impróprias para profissionais da saúde que atuavam na linha de frente do combate à covid. Em março, a Folha revelou que a Anvisa havia elaborado parecer sobre a inadequação dos modelos e avisado a pasta sobre “riscos adicionais” aos profissionais de saúde caso as máscaras sem especificações corretas fossem utilizadas. Mesmo assim, os contratos foram mantidos.

Quando os equipamentos chegaram, no entanto, foi confirmada a impossibilidade de uso pelos profissionais de saúde. As máscaras ficaram um tempo ociosas em galpões e foram depois distribuídas para uso fora do ambiente hospitalar. A intermediária 356 Distribuidora, Importadora e Exportadora, cujo dono atua no ramo de relógios suíços de luxo, comprou os equipamentos de uma empresa de Hong Kong. Por 40 milhões de unidades da KN95, o valor unitário ficou em R$ 8,65.

Só que que, no mesmo momento da pandemia, o Ministério havia comprado peças filtrantes do melhor modelo, PFF2, por apenas R$ 3,59 cada. O contrato para a compra das PFF2 – firmado sem intermediários, diretamente com a 3M do Brasil – acertou a compra de 500 mil máscaras.

Quem assinou os contratos foi Roberto Dias, o ex-diretor do Departamento de Logística do ministério da Saúde afastado por suspeita de pedir propina para a compra de vacinas. O MPF solicitou que ele e Élcio Franco, então secretário-executivo da Pasta, entregassem os documentos referentes a todos os acordos para compras de máscaras feitas pelo governo durante a pandemia. Em pelo menos três ocasiões, Dias omitiu o contrato com a 3M do MPF. Somente após muita insistência dos procuradores, em maio deste ano, a tabela com os dados dessa negociação foi enviada aos responsáveis pela investigação.

VACINA ANTIMENTIRA

A checagem dos fatos tem um papel importante para identificar e desmentir falsas notícias que correm internet afora, mas ao mesmo tempo a tarefa é um eterno enxugar gelo. E se houvesse formas de evitar que as pessoas caíssem em fake news, em vez de somente correr atrás de cada novo boato?

Pois isso está sendo proposto, estudado e testado. A reportagem da Wired conta como diferentes cientistas começaram a bolar uma espécie de “imunização” contra notícias falsas relacionada a vacinas, depois de analisarem como a desinformação tem sido construída nos últimos séculos. Elas seguem uma receita básica, apoiando-se em clichês extremamente previsíveis, que só mudam de roupagem com o tempo. Exemplo: a primeira vacina foi inventada em 1796, contra a varíola, a partir da varíola bovina. O boato na época era a de que os inoculados seriam transformados em híbridos humano-vacas. Bom, a vacinação era algo totalmente novo e o processo da descoberta tinha sido um tanto arriscado, mas até hoje ninguém virou vaca, o que poderia eliminar esse tipo de suspeita. No entanto, pulando para 2021, temos influenciadores nas mídias sociais partindo do mesmo princípio ao alegar que imunizantes podem mudar o nosso DNA. E, dependendo de onde se vive, há também o sério risco de o presidente do país sugerir que podemos virar jacarés…

Os clichês funcionam bem porque, quando já o vimos uma vez, tendemos a reconhecê-lo na próxima. “Essa familiaridade pode ajudar a criar um curto-circuito no pensamento crítico que normalmente usamos para avaliar uma nova informação. Para agravar esse problema, os clichês são ótimos para simplificar demais questões complexas, como as origens de uma vacina ou os motivos de um protesto”, explica a reportagem. No entanto, a hipótese que apoia a possibilidade de uma imunização antimentira se apoia justamente no fato de os clichês serem tão recorrentes e prevalentes: é que, com isso, eles podem ser previstos.

A “inoculação psicológica”,que tem sido usada desde os anos 1960 para ajudar as pessoas a ganharem defesas mentais contra propagandas enganosas de fumo, por exemplo, começou a ser aplicada recentemente para combater teorias da conspiração. A ideia é fazer com que as pessoas reconheçam os fundamentos de uma mentira, expondo-as a eles. No ano passado, pesquisadores das Universidades de Bristol e Cambridge desenvolveram vídeos curtos de animação desmascarando preventivamente alguns clichês de desinformação. Em um experimento envolvendo mil pessoas, 85% das que viram esses vídeos foram capazes de depois detectar desinformação sobre vacinas, uma melhora de 8,7% em relação aos que viram um vídeo de controle.

Psicólogos de Cambridge também desenvolveram um jogo online com essa mesma finalidade, obtendo bons resultados em cinco países. Segundo a Wired, milhões de pessoas já foram “vacinadas” com esses jogos em fóruns de discussão ou por meio de parcerias com governos e grandes organizações – incluindo a OMS – que passaram a incorporar os jogos em campanhas estratégicas de anti-desinformação. É algo bem interessante de se acompanhar.

CASOS MAIS GRAVES

Entre pessoas não vacinadas, infectados com a variante Delta do coronavírus têm mais que o dobro de risco de serem hospitalizadas do que os que pegam a Alfa, segundo uma grande pesquisa britânica publicada este fim-de-semana no periódico The Lancet. Os autores analisaram dados de mais de 43,3 mil casos da doença na Inglaterra identificados entre 29 de março e 23 de maio. Tomando apenas o número de pessoas em cada grupo (com e sem vacina), o percentual de hospitalizados foi semelhante: 2,2% para Alfa e 2,3% para Delta. A diferença apareceu quando os números foram ajustados para idade e outros fatores conhecidos por afetar a gravidade da doença.

Como menos de 2% das pessoas no estudo estavam totalmente vacinadas na época, ele não traz dados suficientes para fornecer conclusões sobre esse grupo. No entanto, uma série de análises em países como Estados Unidos, Israel e Reino Unido tem apontado a manutenção da efetividade das vacinas contra hospitalizações e mortes, mesmo com a Delta.

“Nossa análise mostra que, se não dispuséssemos da vacinação, uma epidemia ligada à variante Delta implicaria em uma carga mais pesada no sistema de saúde do que a que se teve com a variante Alfa”, destacou Anne Presanis, estatística da Universidade de Cambridge e uma das principais autoras.

Nos Estados Unidos, onde pessoas ainda não vacinadas estão novamente levando sistemas de saúde ao colapso, hospitais na Flórida, Carolina do Sul, Texas e Louisiana estão com escassez de oxigênio. A Flórida tem 52% da população totalmente vacinada; os outros três estados têm menos de 50%.

No Brasil como um todo, 28,3% estão com o esquema vacinal completo.

Em tempo: não bastasse a sobrecarga dos hospitais da Louisiana por conta da covid-19, o estado foi atingido ontem pelo furacão Ida com uma potência categoria 4 – apenas um abaixo do máximo possível. O presidente Joe Biden declarou situação de desastre e ordenou ajuda federal para complementar os esforços de recuperação nas áreas afetadas.

EM PERSPECTIVA

Reportagem da Folha salienta um aparentemente contrassenso do Brasil, que decidiu aplicar a terceira dose de imunizante entre idosos mesmo tendo ainda um percentual pequeno da população totalmente vacinada. O país tem 62% da população com pelo menos uma dose e 28% com o regime completo, e essa a diferença de 36 pontos é a terceira maior do mundo, segundo o jornal: “Mesmo países que iniciaram a vacinação quase ao mesmo tempo ou depois do Brasil, como Japão, Jordânia e Colômbia, já têm fatias maiores dos habitantes com o esquema completo”, aponta a matéria.

Mas isso é explicado pelo intervalo adotado no Brasil entre a primeira e a segunda doses. Quando o Canadá – que adotou intervalos ainda maiores – tinha 28% de sua população totalmente vacinada, dois meses atrás, 67% estava com ao menos uma dose: uma diferença de 39 pontos. Com o tempo, essa diferença foi obviamente se achatando. Japão, Jordânia e Colômbia têm menos vacinados com a primeira dose do que o Brasil.

A própria reportagem traz especialistas defendendo que a ampliação do intervalo foi correta, pois a primeira dose já confere alguma proteção e, meses atrás, havia pouca vacina disponível. Eles também defendem a terceira dose em idosos e imunossuprimidos neste momento, sem prejuízo das demais faixas etárias. Agora os imunizantes estão chegando com regularidade e o Ministério da Saúde reduziu de 90 para 60 dias o intervalo entre as doses, no caso da Pfizer/BioNTech e Oxford/AstraZeneca. A tendência é que, em pouco tempo, o percentual de totalmente vacinados no Brasil aumente bastante.

(MAIS) ATENÇÃO AOS IDOSOS

A pandemia pode causar um aumento significativo na epidemia de demência que já acontece no mundo. O tema foi discutido em reportagem da BBC Brasil que ouviu Fábio Porto, neurologista especializado em demência e professor da Universidade São Camilo, sobre sua experiência clínica e os estudos mais recentes sobre o assunto. Dados da OMS mostram que, hoje, há 50 milhões de pessoas vivendo com a doença neurológica no mundo, e que esse número deve ultrapassar 150 milhões em 2050 – isso sem contar os efeitos da pandemia.

Segundo o pesquisador, a ausência de interação social provocada pelo isolamento produz uma queda brusca em estímulos cognitivos, o que pode ser facilitar o desenvolvimento da demência em organismos já fragilizados. É o caso dos idosos que, como explica Porto, vivem com “reservas cognitivas” menores e mais desgastadas. As reservas são como um banco de informações, conhecimentos e ideias que vão abrindo novas conexões em nossos cérebros. As sinapses – ligações entre neurônios – são geradas a cada novo conhecimento adquirido e funcionam como uma espécie de estrada.

Quando há algum bloqueio em um “caminho neurológico” – causado por alguma doença degenerativa, por exemplo –, quanto mais estradas alternativas tivermos, mais recursos teremos para chegar ao “destino”, e mais preservadas estarão nossas funções cerebrais. Com as reservas cognitivas fragilizadas, os idosos são mais duramente afetados pela interrupção abrupta de atividades que estimulam o desenvolvimento de sinapses, o que gera uma descompensação neuropsiquiátrica e pode ser um fator de risco para quadros de demência, segundo o professor.

Além desses efeitos “indiretos” da pandemia, causados pelo isolamento, ele destaca ainda os efeitos diretos, ou seja, o impacto das infecções e adoecimentos por covid no cérebro, que também precisam ser levados em conta. Alguns dos dados, no entanto, ainda são preliminares.

Para o professor, é preciso utilizar o momento para aprofundar os conhecimentos sobre o efeito do estresse e do isolamento no cérebro humano. Lembrando que os impactos da pandemia nesse sentido só serão perceptíveis com mais clareza no futuro, ele destaca que, agora, é preciso proteger os idosos e grupos mais vulneráveis levando a sério a criação de alternativas para o desenvolvimento de atividades estimulantes à cognição durante a pandemia.

AGORA, O DOCUMENTO

Na última sexta, foi disponibilizada uma versão resumida do relatório encomendado pelo presidente dos EUA, Joe Biden, às agências de inteligência para investigação das origens do novo coronavírus. A versão integral, secreta, havia sido entregue a Biden no início da semana, como contamos aqui. As investigações não conseguiram concluir se a pandemia foi iniciada a partir de um acidente em laboratório ou através do contato humano com animais infectados. Mas, mais uma vez, foram taxativas ao dizer que o SARS-CoV-2 não foi criado como uma “arma química” e que é pouco provável que tenha sido projetado geneticamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário