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‘Exportação brasileira caminha na contramão do mundo’, afirma grupo do Cedeplar

Do IHU, 27 Agosto 2021
Por Luana Macieira, publicada por Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, 25-08-2021



Uma vez que o perfil exportador de um país diz muito sobre a sua economia, as mudanças no padrão de exportação do Brasil são preocupantes, segundo estudo do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas e Desenvolvimento (GPPD) do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar). Na nota técnica Mudanças no padrão de exportação brasileira entre 2016-2020: o Brasil na contramão do mundo, o grupo de pesquisa da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) da UFMG mostra que, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, o Brasil está seguindo uma estratégia de crescimento focada em setores primários e baseada em recursos naturais.

Essa estratégia, associada à maior emissão de gases de efeito estufa e maior degradação ambiental, ocorre em detrimento das exportações de produtos advindos de setores de maior intensidade tecnológica e que gerariam maior crescimento econômico e menos impacto no meio ambiente.

Para chegar a essa conclusão, o grupo utilizou informações do UN Comtrade, banco de dados comerciais globais. Segundo o professor do Departamento de Ciências Econômicas da Face João Prates Romero, tal mudança no perfil exportador brasileiro mostra que o país está fazendo o caminho oposto ao das nações mais ricas do mundo.

“Isso é negativo para a nossa economia. Os setores de maior intensidade tecnológica são os que geram empregos de melhor qualidade e os mais dinâmicos. A demanda tende a crescer mais rápido e, por isso, exige maior capacidade produtiva. A redução da participação desses setores no perfil exportador do país mostra que estamos perdendo capacidade produtiva e que há uma tendência de o país crescer mais devagar, gerando empregos de pior qualidade e com menos contribuição para nossa produtividade. Por isso é tão preocupante exportarmos mais produtos primários e menos produtos de maior intensidade tecnológica”, explica.

A exportação de produtos de setores primários, que inclui a madeira bruta e o ouro, por exemplo, aumentou de 37,2%, em 2016, para 44,3%, em 2020. No caso da madeira bruta, as vendas aumentaram 542% desde 2016. A quantidade de ouro exportado, por sua vez, subiu 30% entre os anos de 2018 e 2020, gerando, assim, o alerta de que parte desse aumento possa ser oriundo de atividades ilegais e de degradação ambiental, principalmente no Norte do país. No caso dos produtos de média tecnologia, a exportação caiu de 20,2% para 14,2%. Em se tratando dos produtos de alta tecnologia, a queda foi de 5,2% para 3,1%.

“Os setores de média e alta tecnologia incluem as indústrias de máquinas e equipamentos mais sofisticados, além das fábricas de produtos químicos e farmacêuticos, aeronaves, aviões, veículos automotivos, caminhões etc. Trata-se de um setor que exige maior uso de conhecimento científico e de pesquisa na produção. Enquanto a Europa e os Estados Unidos se planejam para crescerem investindo em pesquisa que gere tecnologias verdes, o Brasil gasta cada vez menos em ciência e tecnologia, focando na exportação dos bens primários e extrativos. Ao concentrarmos nossos investimentos na produção de bens primários, a possibilidade do crescimento verde fica cada vez mais distante”, diz.

Investimento em ciência é primordial

O índice de complexidade econômica (ICE) mede o nível de conhecimento produtivo presente em cada economia. Economias complexas são aquelas competitivas em um número elevado de indústrias nas quais poucos países são especializados, ou seja, a elevada complexidade da economia de um país está relacionada à diversificação produtiva em setores onde atuam poucas nações.

Em se tratando da diversificação brasileira, o estudo do Cedeplar mostrou que o Brasil tinha 196 indústrias competitivas em 2016. Esse número caiu para 167 em 2020, em um universo de 999 indústrias. A quantidade de produtos competitivos aumentou somente no grupo de produtos primários, passando de 47, em 2016, para 49, em 2020.

Romero destaca que a estratégia exportadora assumida pelo governo federal é responsável pela perda de competitividade e de diversificação da produção brasileira. Segundo ele, essa perda pode ser sanada com o aumento do investimento em ciência e tecnologia.

“A falta de investimento econômico e a crise política já ocasionavam a perda de competitividade do Brasil no cenário mundial, mas quanto mais drasticamente o país reduz os aportes em pesquisa e ciência, mais a nossa indústria deixa de ser competitiva. Os avanços tecnológicos e científicos são essenciais para melhorar a competitividade da indústria nacional”, explica.

O professor alerta que a estratégia de desenvolvimento do governo atual precisa ser revista urgentemente para que o país consiga se desenvolver no futuro próximo. “A continuidade de políticas que priorizem o capitalismo predatório em detrimento do avanço em setores mais tecnológicos e mais limpos, além de gerar maior degradação ambiental, pode ser um entrave para o nosso desenvolvimento. É urgente que o Brasil deixe de andar na contramão do mundo.”

A nota pode ser lida na íntegra aqui.

Autores: João Prates Romero, Danielle Carvalho, Arthur Queiroz e Ciro Moura

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