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Enquanto discutimos sobre o Green Pass, três quartos do mundo não têm vacinas

Do IHU, 04 Agosto 2021
Por Francesco Rocca, Emanuele Capobianco,
La Stampa, 03-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini


"Como na pandemia da Aids, corremos o risco de uma parte do globo ser protegida e outra ser infestada pelo vírus por anos. A resposta a essa crise sanitária, econômica e ética criada pelo Covid deve ser política", escrevem Francesco Rocca, Presidente da Cruz Vermelha Italiana e Presidente da Federação Internacional da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho, e Emanuele Capobianco, Diretor de Saúde da Federação Internacional da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho, em artigo publicado por La Stampa, 03-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O acalorado debate sobre o Green Pass e a vacinação obrigatória é um luxo reservado aos países ocidentais que em poucos meses conseguiram proteger mais da metade de sua população por meio de campanhas de imunização capilar com vacinas de comprovada segurança e eficácia.

Essas campanhas levaram a uma redução drástica na mortalidade da Covid, reabriram os hospitais para pacientes não-Covid e agora estão permitindo o retorno gradual a uma sociabilidade de que todos sentimos profundamente a falta no último ano e meio.

Na Europa e na América do Norte, apesar do recente aumento de casos, é possível entrever o fim da pandemia nos próximos meses, depois que a variante delta tiver feito o seu curso, infectando principalmente os não vacinados e matando em número bastante menor em comparação com as ondas anteriores. O resto do mundo, por outro lado, vive uma situação dramática: muitos países, como Namíbia, Indonésia, Equador e Brasil, apresentam atualmente taxas de mortalidade muito elevadas. A ideia do green pass, lá como em outros lugares, é inconcebível: 73% da população mundial até agora não recebeu nenhuma vacina e em países de baixa renda 99% das pessoas ainda estão esperando pela primeira dose.

Quem gostaria de receber a vacina não pode porque não há vacinas: os países ricos as garantiram para si nos últimos meses de acordo com uma lógica de mors tua vita mea, que deixou bem pouco para o resto do mundo. A Comissão Europeia e vários países ocidentais têm tentado corrigir essa vergonhosa iniquidade global por meio da criação da Covax, uma plataforma internacional para a distribuição de vacinas nos países mais pobres. Até o momento, a Covax distribuiu 150 milhões de doses, uma conquista importante, mas uma gota no oceano em comparação com os 4 bilhões de doses administradas em todo o mundo.

Nos mapas que colorem os países com base na cobertura de vacinação, o hemisfério sul e a África em particular permanecem de um branco ofuscante. Neste 2021 estamos testemunhando o mesmo fracasso internacional que trinta anos atrás condenou milhões de africanos a morrer de Aids quando o norte do mundo já tinha os antirretrovirais à disposição, mas a custos muito altos para os países pobres. Como na pandemia da Aids, corremos o risco de uma parte do globo ser protegida e outra ser infestada pelo vírus por anos. A resposta a essa crise sanitária, econômica e ética criada pelo Covid deve ser política.

Esse resultado foi conseguido em julho de 2001, quando o G8 aprovou a criação do Fundo Global contra a Aids que nos últimos vinte anos salvou 38 milhões de vidas e que hoje permite o acesso gratuito aos antirretrovirais para 20 milhões de pessoas. Como aconteceu na época, quando a Índia se tornou o principal produtor de medicamentos antirretrovirais e o custo anual do tratamento por pessoa caiu de US $ 10.000 para US $ 100 em poucos anos, assim é necessário que uma decisão política sobre patentes permita que as vacinas sejam produzidas em todo o mundo, através da transferência de tecnologia e conhecimento para os países mais pobres.

É preciso um maior apoio financeiro para a plataforma Covax e é necessário acelerar e aumentar a doação de vacinas de países ricos para países mais pobres. O mundo não precisa de caridade, mas de uma mudança radical, visando o fortalecimento sustentável da capacidade dos sistemas de saúde nos países mais pobres, que possa durar muito além de Covid. Essa mudança deve estar firmemente ancorada no princípio da solidariedade, porque só podemos sair desta pandemia se estivermos unidos, entre povos e entre indivíduos. Financiar programas internacionais para acelerar a vacinação em países de baixa renda e em contextos humanitários significa não apenas salvar milhares de vidas, mas também contribuir para evitar o surgimento de variantes mais letais e resistentes às vacinas que podem voltar a atingir o mundo ocidental em um futuro não distante. Ao nível individual, solidariedade significa se vacinar, protegendo a nós mesmos, mas também aos que não podem ou não querem ser vacinados.

Também a aceitação de regras que visam proteger nossas comunidades do vírus, como o green pass, é uma expressão de responsabilidade civil e respeito pelos outros. Enfim, solidariedade significa ouvir quem tem dúvidas, como fazem milhões de voluntários da Cruz Vermelha em todo o mundo, respondendo aos medos e confiando na opção pela vacinação. Porque toda vacinação é um passo em direção ao fim da pandemia, e ninguém estará realmente seguro até que todo o mundo inteiro seja vacinado.

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