Pages

Ecologia política: referências para uma cartografia




Do IHU, 11 Agosto 2021
Por 
Guillaume Carbou


Crítica da mercantilização do mundo e do pensamento economista, crítica da técnica e crítica social, a ecologia como filosofia política se distingue de uma simples preocupação com o meio ambiente. A reflexão é de Guillaume Carbou, em artigo publicado por Alternatives Économiques, 09-08-2021. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Atualmente, é delicado usar o termo ecologia. Ele desperta o entusiasmo de alguns, provoca aversões em outros e muitas vezes se encontra no centro de agressivas controvérsias. Apesar de sua exposição, temos que admitir que é muito difícil dar uma definição clara. Marcada o tempo todo pela propaganda, pelas declarações políticas, pelos movimentos sociais ou pela mídia, a ecologia acaba formando uma espessa névoa verde na qual às vezes é difícil se achar.

O objetivo deste artigo é esclarecer um dos aspectos abrangidos pelo termo, respondendo à seguinte pergunta: o que é a ecologia enquanto filosofia política? Para designar este campo, falaremos de ecologia política ou de ecologismo por mimetismo com outras filosofias políticas estabelecidas, como o socialismo, o liberalismo, o monarquismo ou mesmo o conservadorismo. Fazemos uma distinção capital entre o que compete à simples “proteção da natureza” (1), que pode fazer parte de todas as filosofias políticas, e o ecologismo propriamente dito, que inclui um conjunto de ideias que vão muito além das meras questões ambientais.

Os teóricos da ecologia política não costumam se afirmar como “ecologistas” e são muito críticos para com os partidos políticos verdes e as políticas liberais de proteção da natureza (impostos, rótulos, normas, etc.,). Como todas as filosofias políticas, a ecologia política é atravessada por várias correntes e influências, mas é possível identificar uma tradição de pensamento relativamente homogênea. Esta tradição de pensamento se constrói em oposição à economia de mercado, ao desenvolvimento tecnológico permanente e à cultura do excesso em todos os campos. Diante disso, a ecologia política se propõe a construir uma sociedade baseada em atividades não mercantis, em técnicas simples e democraticamente escolhidas e em uma relação humilde e harmoniosa com os ambientes de vida.

Antes de detalhar essas ideias, apresentaremos brevemente a história do ecologismo na França e discutiremos alguns dos seus principais expoentes.

A nebulosa da ecologia política

Entre os historiadores das ideias da ecologia política, a metáfora mais recorrente consiste em descrever essa tradição de pensamento como uma nebulosa. Na verdade, é surpreendente notar a ausência de um autor incontestável, de um congresso fundador ou mesmo de um manifesto unificador. Ao contrário, a construção intelectual ecologista está dispersa entre uma multidão de atores e diferentes momentos de efervescência teórica.

A década de 1970 é, frequentemente, designada como o período principal no desenvolvimento dessas ideias. Marcado pelo desenvolvimento de tecnologias capazes de desencadear fenômenos de escala planetária (nuclear, química sintética, poluição do ar, etc.), esse período levou a importantes reflexões filosóficas, como as de Günther Anders ou de Hans Jonas, sobre a postura ética que a disponibilidade de tal poder destrutivo implica para os seres humanos.

Ao mesmo tempo, as lutas ambientalistas, somadas aos movimentos de emancipação a partir de Maio de 68, constituem importantes centros de reflexão ecológica. Através da oposição às usinas nucleares ou das tentativas de inventar uma vida alternativa no planalto de Larzac, grupos militantes teorizam suas lutas e produzem toda uma “literatura cinzenta”, relativamente efêmera e dispersa. Jornais engajados como La Gueule Ouverte, Le Sauvage ou Silence ecoam essas reflexões. Finalmente, os anos 1970 viram os alertas ecológicos assumirem uma escala sem precedentes (2). Em 1962, Primavera Silenciosa, o best-seller mundial da bióloga Rachel Carson, abordou os perigos que representava para a biodiversidade a disseminação em massa de pesticidas.

Por sua vez, o famoso Relatório Meadows, encomendado pelo Clube de Roma (1972), modela os vários riscos de colapso ecológico que a nossa sociedade em crescimento pode enfrentar. Pode ser visto como a certidão de nascimento da corrente do decrescimento, cujas análises bioeconomistas (3), posteriormente desenvolvidas por Nicholas Georgescu-Roegen, estão presentes até na ecologia política contemporânea.

Este tríplice terreno (sociedade de risco, ativismo pós-68 e alertas ecológicos) é, portanto, o momento em que várias figuras importantes do ecologismo publicam seus ensaios mais famosos – na França, André Gorz, Ivan Illich, Serge Moscovici, Françoise d 'Eaubonne e Félix Guattari.

Embora essa efervescência teórica ganhe visibilidade particular na década de 1970, o ecologismo tem sua origem bem antes. Por exemplo, Bernard Charbonneau e Jacques Ellul, com destaque no panteão dos pioneiros da ecologia política, iniciaram suas reflexões no período entre guerras, particularmente no contexto da busca de uma “terceira via” entre o capitalismo liberal e os autoritarismos soviético e nazista. Denis de Rougemont ou Bertrand de Jouvenel, outros autores com sotaque ecologista, também construíram seu pensamento neste período. É também nesse contexto intelectual que Simone Weil, uma filósofa muitas vezes subestimada mas importante do século XX, lançará as bases para o ecofeminismo libertário.

Mas aqui, novamente, esses autores são em grande parte os herdeiros de um pensamento ecológico, cujos traços são bem anteriores a eles. A meticulosa arqueologia do pensamento ecológico liderada por Serge Audier [2017] mostra a presença de inúmeras reflexões “pré-ecológicas” ao longo do século XIX (4). Na verdade, uma reflexividade crítica sempre acompanhou o desenvolvimento científico e industrial, apontando não apenas seus riscos para os ecossistemas (poluição, degradação estética de paisagens, destruição dos habitats naturais, superexploração dos recursos, etc.), mas também seu potencial alienante para os seres humanos (trabalho em cadeia, padronização cultural, dissolução do saber fazer tradicional na tecnologia, frenética corrida rumo ao “progresso”, etc.) (5).

Hoje, e depois destes vários momentos de efervescência, o pensamento ecológico volta a estar na linha de frente, a favor das convulsões ambientais que se tornam mais claras ou se amplificam. Os reveses do “desenvolvimento” e as promessas não cumpridas de melhorar a vida de todos através da economia de crescimento contribuem para dar eco aos autores da tendência de decrescimento, como Serge Latouche, Vincent Cheynet e Paul Ariès.

No entanto, o ambientalismo ainda está lutando para ser incorporado a figuras da mídia, movimentos e mais ainda a programas políticos. Assim, a ecologia política raramente é encontrada nos partidos políticos (os grandes partidos “verdes” na Europa tendem a ter linhas socialdemocratas de esquerda), mas muito mais no mundo associativo, e não necessariamente entre os chamados “ecologistas”: associações de educação popular, disruptores de publicidade, neoludditas, coletivos que promovem modelos alternativos de produção (Amap, SEL, oficinas cooperativas, oficinas low tech, etc.), jornais e mídia especializados (Reporterre, L'Age de Faire, La Décroissance, etc.), ativismo mais ou menos radical (Alternatiba, Extinction Rebellion, Colibris, Shift Project, Pour un réveil écologique, ZAD, etc.) e, em menor medida, ONGs (Amigos da Terra, Oxfam). Movimentos de “filosofia popular” como a sobriedade feliz (Pierre Rabhi), a colapsologia (Pablo Servigne) ou a ecopsicologia (Joanna Macy) podem ser inscritos na nebulosa do ecologismo, embora muitas vezes despertem nela uma relutância bastante forte. Seu caráter individualista ou espiritualista é às vezes considerado muito distante da crítica social e política geralmente presente na ecologia política.

Outra esfera social muito produtiva hoje em termos de difusão de ideias da ecologia política é a esfera acadêmica. Após um longo silêncio sobre o assunto, a universidade francesa vem adotando nos últimos anos esta abordagem ao mesmo tempo como um objeto de estudo e como uma filosofia política a ser desenvolvida. Portanto, os trabalhos sobre o tema frequentemente constituem análises e aprofundamentos. Podemos citar, sem ordem ou classificação particular, autores como Jean-Baptiste Fressoz, François Jarrige, Emilie Hache, Dominique Bourg, Christophe Bonneuil, Sophie Gosselin, Michael Löwy, Malcolm Ferdinand, Bruno Latour, Pierre Madelin, Jérôme Baschet, Virginie Maris, Vinciane Despret, Pierre Charbonnier, Baptiste Morizot, Catherine Larrère, Fabrice Flipo, Serge Audier, Geneviève Azam, Alice Canabate, Eloi Laurent (6) e periódicos acadêmicos como Écologie & Politique, La Pensée Économique, EcoRev’ ou mesmo Terrestres.

Aqui está o estado atual da ecologia política na França: de um lado, uma baixa audiência com o público em geral devido à névoa verde que mencionamos na introdução; e, de outro, uma dinâmica intelectual e associativa poderosa mas dispersa, que muitas vezes não se autodenomina ecologista. A visibilidade pública do ecologismo também durante muito tempo é limitada pela resistência de ideologias políticas dominantes. Esta tradição de pensamento sempre se opôs às duas grandes forças ideológicas do século XX que são o liberalismo e o socialismo produtivistas, uma vez que pretendem solapar a sua base comum, a saber, o primado do mercado, a inovação tecnológica e o desenvolvimento das forças produtivas sobre a conduta dos assuntos humanos. Existem, portanto, muitas razões para a imprecisão do conteúdo ideológico desta filosofia. A fim de esclarecê-lo, e correndo o risco de sobrepujar a diversidade de correntes que o constituem, oferecemos na seção seguinte um resumo de suas ideias norteadoras.

As grandes ideias da ecologia política

Em primeiro lugar, é importante entender que o que chamamos aqui de ecologismo ou ecologia política não é uma filosofia política focada nas questões de proteção da natureza. É a combinação de uma análise racional dos limites físicos do crescimento material e um protesto filosófico contra o caráter alienante de certos aspectos da modernidade.

Essa dupla crítica ecológica (os modos de vida modernos são ao mesmo tempo materialmente insustentáveis e restritivos para os indivíduos) aplica-se, portanto, a todos os níveis organizacionais da nossa sociedade e, em particular, aos níveis econômico, técnico e filosófico. Para melhor compreendê-lo, apresentaremos as ideias ecológicas nestes três níveis, procurando esclarecer cada vez, por um lado, as razões da contestação e, por outro, as propostas de organização alternativa.

A crítica econômica

Como detrator da trajetória da modernidade industrial, o ecologismo é invariavelmente uma contundente crítica de uma de suas estruturas básicas: seu sistema econômico. Seu eixo maior é o destaque dos fundamentos materiais da produção e da circulação de mercadorias. Assim, o ecologismo aponta para os danos ambientais e sociais das economias de crescimento e do produtivismo em todas as suas formas, capitalista ou socialista.

O ecologismo considera nossa organização econômica como insustentável por várias razões. Primeiro, aponta que a busca pelo crescimento material se depara automaticamente com um limite físico. Hoje, a ideia de um possível “crescimento verde” é, além disso, amplamente refutada por estudos econômicos cada vez mais numerosos e sólidos [Wiedenhofer et al., 2020]. Segundo, aponta os crimes sociais e ambientais de uma economia baseada na concorrência internacional: na ausência de uma ilusória regulamentação global forte e os agentes econômicos são sempre estimulados a localizar suas atividades ali onde os padrões sociais e ambientais sejam os menos restritivos. Além disso, a competição generalizada provocada pela economia de mercado leva a uma corrida individualista para obter recursos, em vez de uma sábia administração comum deles. Por fim, o atual sistema capitalista produz inevitavelmente um aumento contínuo das desigualdades, embora representem muitos problemas do ponto de vista ambiental (7).

Em um nível de análise mais profundo, a ecologia política deplora o caráter reducionista do próprio modo de pensamento economista. De fato, os indicadores econômicos (PIB, taxa de crescimento, cotização da bolsa, valor monetário, etc.) que norteiam as dinâmicas econômicas são amplamente insensíveis ao curso concreto dos acontecimentos e, notoriamente, aos danos sociais e ambientais que podem acompanhá-los. Assim, o sucesso econômico de uma empresa pode perfeitamente andar de mãos dadas com uma destruição irreversível do meio ambiente em que faz negócios, e o PIB de um país nada diz sobre a felicidade da sua população. A abstração econômica é, portanto, inteiramente voltada para atingir um objetivo: a criação de valor financeiro. No entanto, ao fazê-lo negligencia as atividades cujo valor não é mensurável em termos econômicos, mas que, não obstante, são essenciais. André Gorz [2003] denunciou particularmente esse fenômeno ao mostrar como as atividades de cuidado das pessoas e dos ambientes de vida que não são diretamente “produtivas” tendem a ser negligenciadas ou distorcidas por sua transformação em trabalho remunerado.

Contra a pegada ambiental e a colonização da vida pela ideologia economista, o ecologismo oferece vários caminhos. O mais reformista consiste em uma revisão dos indicadores econômicos e dos modelos contábeis. Na verdade, se o problema decorre da cegueira das ferramentas econômicas para as consequências sociais e ambientais, então parece necessário reinserir a economia em seu substrato biofísico e sociocultural, como preconizava Karl Polanyi. A economia e a contabilidade ecológicas oferecem um conjunto de indicadores alternativos de desempenho que levam em consideração os fluxos de energia e de matéria, o esgotamento dos recursos ou mesmo os limites planetários.

Além dessas propostas que consistem em tornar a economia mais ecológica, o ecologismo costuma avançar em posturas mais radicais de “saída da economia” [Jappe e Latouche, 2015]. Assim, pelo menos para determinados setores-chave, seus teóricos desenvolvem modelos de atividade que não se baseiam principalmente na relação de mercado, mas favorecem as relações de cooperação. Em uma escala local, isso pode consistir na multiplicação de atividades associativas: oficinas para consertar objetos, jardins compartilhados, construção colaborativa, uso coletivo de objetos, sistemas de troca locais (SEL), algumas formas de moedas locais, associações do tipo Amap [Associação para a Manutenção da Agricultura de Proximidade], etc. Em um nível de gestão mais global, as propostas ecológicas encontram-se sob o que se chama de controle social da produção, ou seja, uma forma de planejamento democrático, que pode ser centralizado (este é o credo das chamadas correntes ecossocialistas) ou localizado via procedimentos autogestionários (este é o credo das correntes ecoanarquistas). Em todo o caso, o desafio é impedir que a produção de bens e serviços seja orientada pelo lucro, mas pelo desejável e, portanto, pelo sustentável. Por exemplo, uma organização ecossocialista poderia decidir, após deliberação democrática, convidar as empresas da construção civil a construir apenas com palha/terra/madeira ou ainda reservar a aviação para as atividades que são de prerrogativa do Estado e atividades ligadas à saúde.

A crítica técnica

O ecologismo não considera a economia como o único motor de nossas sociedades modernas. Alimentado por reflexões tecnocríticas [Jarrige, 2014], bem como pela história e pela filosofia das técnicas (8), ele também considera que as técnicas que os humanos desenvolvem têm de certa forma seu próprio poder de ação. Longe de serem “neutras”, as técnicas têm efeitos no mundo em que são introduzidas. Esse poder transformador pode, por exemplo, ser visto na forma como elas moldam o nosso estilo de vida. O exemplo mais comum na literatura ambiental é o do automóvel particular: este, por sua própria existência, possibilita a centralização das atividades econômicas em zonas industriais e permite a existência das cidades-dormitórios e dos centros comerciais na periferia dos aglomerados, a desertificação dos centros das cidades, etc. Além disso, ao ampliar as distâncias entre os diferentes polos essenciais da vida (casa, trabalho, médico, escola, família, etc.), o carro vai se tornando gradualmente obrigatório: quem não tem, ou não tem meios para manter um, é amplamente marginalizado em certas áreas geográficas.

Tocamos aqui em um segundo aspecto importante da crítica ecológica das técnicas: de acordo com a famosa análise de Ivan Illich, a partir de um certo limiar de desenvolvimento, elas se tornam contraproducentes e tornam os indivíduos dependentes em vez de libertá-los. Assim, o carro acabou aumentando o tempo médio despendido em transporte por dia e por pessoa. O desenvolvimento da eletrônica tornou as pessoas dependentes de especialistas de todos os tipos para lidar com a menor pane. A indústria agroalimentar exterminou o campesinato e os saberes tradicionais autossuficientes a ele associados, vinculando nossos destinos aos da distribuição em massa. Assim, o desenvolvimento tecnológico breca os estilos de vida possíveis e leva a depender de tecnologias ou atividades ambientalmente insustentáveis.

Um último aspecto e mais contemporâneo da crítica ecológica da tecnologia diz respeito ao chamado “solucionismo tecnológico”. Com efeito, diante das grandes mudanças ambientais em curso, a ecologia política questiona a tendência moderna de querer resolver todos os problemas através do desenvolvimento técnico-científico. Isso lhe parece irreal por várias razões (deslocamento da poluição, efeito rebote, ausência de “tecnologia milagrosa”) e, acima de tudo, uma forma de evitar se fazer a pergunta central da sobriedade energética. De forma mais geral, o ecologismo aponta que as tecnologias como são concebidas hoje inevitavelmente se enquadram na lógica dominante da economia de crescimento: desenvolvem-se tecnologias “limpas” acima de tudo pela sua vantagem competitiva e não para realmente economizar energia (caso contrário, a Renault não fabricaria carros híbridos mas carros de pedais).

Do conjunto de todas essas reflexões o ecologismo tira uma conclusão fundamental: não se pode permitir que as técnicas se desenvolvam livremente; pelo contrário, devem ser submetidas a um controle democrático estrito. No entanto, esse controle, não mais do que o da produção, não pode, por si só, constituir uma salvaguarda suficiente. Na verdade, não há nada que indique, especialmente em uma sociedade fechada como a nossa, que os indivíduos não farão escolhas insustentáveis. A ecologia política, portanto, oferece uma série de guias na escolha das tecnologias desejáveis. Sobre este ponto, a literatura ecológica desenvolve um conjunto de conceitos semelhantes: ferramentas conviviais (Illich), tecnologias apropriadas (Schumacher), tecnologias libertadoras (Bookchin), tecnologias democráticas (Mumford), low tech, etc.

Sem entrar em detalhes sobre as diferenças entre esses conceitos, devemos lembrar que, para o ecologismo, uma técnica ideal é ao mesmo tempo energeticamente eficiente e controlável por seu usuário. Este segundo ponto é parte de sua promoção da máxima autonomia. Assim, uma técnica terá o aval do ecologismo se for fácil de usar, puder ser produzida e reparada localmente, não envolver dependência de uma rede de especialistas e não se tornar essencial por si mesma. Dar-se-á assim preferência a um fogão a lenha tradicional a uma bomba de calor de última geração para aquecimento de prédios, porque não necessita de treinamento para ser utilizado, pode ser abastecido com combustível local, as suas avarias podem ser reparadas pelo próprio usuário, não convida ao excesso (vemos a pilha de madeira diminuir e sabemos a dificuldade do seu abastecimento) e não implica em qualquer dependência de uma rede de especialistas.

Afinal, quando se trata das técnicas ou de qualquer outra coisa, o ecologismo defende uma organização em escala humana, sóbria, local, que mantenha o maior grau possível de autonomia dos indivíduos e que seja pensada de acordo com propósitos sociais e ecológicos globais e não de produtividade ou de desempenho restrito a um determinado setor. Podemos assim compreender que, longe das caricaturas do “retorno à vela”, a ecologia política é uma filosofia que se distancia tanto da tecnofobia como da tecnofilia. Ao colocar com lucidez a técnica no centro de suas reflexões, ela é simplesmente tecnocrítica.

Crítica cultural

O terceiro grande eixo da crítica ecológica diz respeito a um conjunto de traços culturais característicos das nossas sociedades modernas. Em um nível filosófico, os autores do ecologismo põem em questão primeiro a separação filosófica entre o ser humano e a natureza, e sobretudo o projeto cartesiano de dominação desta última pelo primeiro. Muitos veem nisso o fundamento da atitude predatória e exploradora que nossa civilização pode adotar em relação ao planeta. As correntes ecofeministas (Val Plumwood, Vandana Shiva, Carolyn Merchant, etc.) também se aplicam a mostrar o quanto essa oposição constitui a matriz de outras relações de exploração moderna: homem/mulher, civilizado/primitivo, modernidade/arcaísmo, erudito/ignorante, razão/emoção, etc. Em contraponto, o ecologismo nos convida a adotar relações menos assimétricas com os seres que nos rodeiam e uma postura de cuidado do mundo em vez de dominação (9). Frequentemente se inspira na antropologia de cosmologias não ocidentais para as quais os humanos são apenas um elemento constitutivo de um grande todo que os ultrapassa [Escobar, 2018].

Em um nível completamente diferente, a crítica cultural ecológica abarca o que podemos chamar de hubris moderna, ou seja, as lógicas do excesso, do “sempre mais”, a busca frenética por desempenho, melhoria ou racionalização. Com efeito, o ecologismo vê na incapacidade moderna de se contentar com o suficiente um dos motores da destruição do planeta, do aumento das desigualdades e da insatisfação permanente da população. Esses temas foram amplamente desenvolvidos na crítica da sociedade de consumo na década de 1970 por autores como Jean Baudrillard, Henri Lefebvre e Guy Debord (10). A ecologia política deplora a maneira como muitas famílias em nossa sociedade (a escola, o esporte, a empresa, as indústrias culturais do entretenimento, etc.) promovem o desempenho individual, a competição e a ganância.

Outro aspecto importante da crítica cultural ecológica diz respeito à tendência da racionalidade instrumental (ou tecnicista, ou gerencial) de se estender a todas as esferas da existência. Na linha das análises dos filósofos da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer e Marcuse), trata-se de observar como a busca pela racionalização e otimização de todo comportamento humano produz uma forma de desencantamento do mundo. Querer medir tudo, tudo calcular, levaria assim, em última instância, a se afastar daquilo que constitui a autêntica complexidade da vida, a ponto de correr o risco de destruí-la. Por fim, o ecologismo denuncia fortemente as palavras-chave que a nossa sociedade erigiu em totens: o progresso, o desenvolvimento, a modernidade... Considera que estes termos que se pretendem universais só servem de fato para promover uma determinada visão de mundo: o progresso como simples novidade tecnológica e não como progresso social ou humano; o desenvolvimento como participação no grande jogo da economia globalizada e não como emancipação coletiva; e a modernidade como ponta de lança da industrialização do mundo e da exclusão dos estilos de vida tradicionais considerados “arcaicos”.

Ao contrário da agitação moderna em que se vê apenas a luta de todos contra todos e as tiranias do gozo imediato, a ecologia política defende uma atitude de sabedoria e de moderação. Filosofia exigente, ela não acredita na abundância fácil. Ao contrário, os trabalhos físicos e manuais, bem como o esforço intelectual, ocupam um lugar importante, mas não com vistas à acumulação infinita. Além disso, de acordo com o slogan decrescimentista “menos bens, mais relações”, o ecologismo convida a se voltar para as relações humanas simples ao invés da profusão de objetos para encontrar a felicidade. Contra qualquer forma de gigantismo ou de expansionismo, promove a vida em escala humana e o enraizamento local antes dos desejos em outros lugares. Diante da aceleração geral da vida, defende a desaceleração das existências e a humilde aceitação de não poder ver tudo, fazer tudo e conhecer tudo (11).

Em vez do individualismo e da competição, a ecologia política propõe a ajuda mútua, a amizade, o cuidado com os outros e a união. Oferece, assim, a proposição de uma vida simples e alegre (o “bem viver”, a “vida boa”, o “buen vivir”), contra a busca vã de um “sempre mais” fantasmático.


Bibliografia:

AUDIER, S. La Société écologique et ses ennemis, La Découverte, 2017.

ESCOBAR, A. Sentir-penser avec la Terre, Le Seuil, 2018.

FRESSOZ, J.-B. L’Apocalypse joyeuse, Le Seuil, 2012.

GORZ, A. As metamorfoses da questão social. São Paulo: Annablume, 2003.

ILLICH, I. La Convivialité, Le Seuil, 1973.

JAPPE, A.; LATOUCHE, S. Pour en finir avec l’économie, Editions Libre & solidaire, 2015.

JARRIGE, F. Technocritiques, La Découverte, 2014.

WIEDENHOFER, D. et al. “A systematic review of the evidence on decoupling of GDP, resource use and GHG emissions”, Environmental Research Letters n° 15, 2020.


Notas:

1. Essa preocupação pela terra pode ser chamada de “ambientalismo”. Imposto sobre o carbono, proibição da caça com cola ou manifestação contra a poluição do ar são todas expressões do ambientalismo que também se enquadram em diferentes modalidades políticas (respectivamente a regulação econômica, a regulação estatal e a expressão democrática). É esse caráter muito geral e, portanto, facilmente recuperável, do ambientalismo que pode fazer parecer que “a ecologia está em toda parte”.

2. Os primeiros alertas ecológicos são, na verdade, muito mais antigos, como mostra a história do risco tecnológico de Jean-Baptiste Fressoz (2012). A modernidade não se tornou repentinamente “reflexiva” graças a uma tomada de consciência tardia, mas, pelo contrário, lutou muito contra essa tomada de consciência, pela fé cega no progresso científico e também no desenvolvimento econômico, apenas através do árduo trabalho de lobby de muitos grupos de interesse.

3. A bioeconomia consiste na integração de elementos materiais nas análises econômicas (disponibilidade de recursos, fluxo de materiais e de energia, etc.).

4. Se procurarmos, iremos encontrá-los até nas sabedorias antigas.

5. Nessa época, as figuras dessa crítica eram, por exemplo, o geógrafo anarquista Elisée Reclus na França ou o filósofo Henry David Thoreau nos Estados Unidos.

6. Esses acadêmicos se inscrevem em diferentes, muitas vezes divergentes, correntes do ecologismo. No entanto, eles dialogam amplamente juntos e, portanto, constituem a cabeça de ponta da reflexão ambiental institucional de hoje.

7. Para uma lista de argumentos sobre a ligação entre as desigualdades e o meio ambiente, ver, por exemplo, este artigo [em francês] do economista Eloi Laurent.

8. Estamos pensando aqui nas análises muito influentes de Lewis Mumford, Jacques Ellul e Ivan Illich.

9. Ver a contribuição de Aurélien Berlan p. 71.

10. Que foram os principais interlocutores da nebulosa da ecologia política nos anos 1970.

11. Essas temáticas são particularmente desenvolvidas hoje pelo sociólogo Hartmut Rosa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário