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Cultura inútil: Sobre pessoas inúteis

De Leonardo da Vinci a Kafka, passando por Guimarães Rosa, Raul Seixas, Clarice Lispector, Dalai Lama e Tati Bernardi, Mouzar Benedito seleciona frases sobre as inutilidades da vida.

Do Blog da Boitempo, 3 de Agosto 2021
Por Mouzar Benedito.


Uma vez, em Minas Gerais, querendo descascar uma laranja, pedi emprestado a um sujeito um canivete que vi em seu bolso, e ele me mostrou: era só o cabo do canivete, não tinha lâmina. Para que servia? Pra nada, mas ele andava com aquele objeto inútil o tempo todo. Uns gozadores me disseram que ele tinha também uma gaiola sem porta, canetas esferográficas sem tinta, lâmpadas queimadas e outros objetos que não tinham uso nenhum. Era um colecionador de coisas inúteis.

Não quer dizer que fosse uma pessoa inútil. Só gostava de coisas inúteis. Aliás, não vou entrar no mérito aqui. Só fiquei pensando: escrevo tanto sobre cultura inútil, coisas inúteis… mas não tinha pensado em falar de pessoas que parecem inúteis.

Recentemente, lendo um livro sobre Leonardo da Vinci, vi uma frase dele, feroz, sobre pessoas inúteis e me senti estimulado a procurar outras por aí. E logo de cara me lembrei de uma que não li, ouvi: “A gente somos inútil”, de uma música cantada por Roger Moreira, do Ultraje a Rigor.

Na época, parecia a mim e a todo mundo que era uma crítica a um governo controlador, com vocação autoritária. Mas passados uns anos, o próprio vocalista defendeu a ditadura, dizendo que vivia muito bem durante o seu período. Marcelo Rubens Paiva se espantou com a opinião do cantor (que, se me lembro bem, tinha boas relações com ele) e falou do “desaparecimento”, na verdade assassinato sob tortura do seu pai, Rubens Paiva, pela ditadura. E Roger Moreira, falando com estilo Bolsonaro, respondeu que na família dele ninguém foi vítima da ditadura porque “ninguém fez merda”. Precisa comentar?

Melhor ir logo às frases, não só sobre gente, mas também sobre umas outras inutilidades da vida, incluindo a inutilidade de tentar “melhorar” algumas pessoas.

Aí vão.

Leonardo da Vinci: “Alguns há que não passam de uma passagem de comida, contribuindo tão-só para aumentar o excremento e encher privada, porque através deles nenhuma outra coisa no mundo, nem quaisquer bons efeitos são produzidos, já que deles nada resulta além de privadas cheias”.

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Tati Bernardi: “Pessoas inúteis, opiniões inúteis”.

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Charles Bukowski: “Acho que a gente devia encher a cara hoje, depois a gente fala mal dos inúteis que se acham super importantes”.

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Bukowski, de novo: “O tempo existe para ser desperdiçado, o amor fracassa e a vida é inútil”.

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Guimarães Rosa: “Inútil fugir, inútil resistir, inútil tudo”.

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Miguel Unamuno: “É inútil querer discutir e tirar de alguém as suas ideias; as pessoas não querem deixar-se convencer; o melhor é deixá-las”.

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Marguerite Yourcenar: “Quando se trata de pessoas comuns, é inútil atribuir-lhes qualquer sabedoria. Basta que lhes atribuamos cegueira, apenas cegueira”.

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Karl Kraus: “O cientista não traz nada de novo. Só inventa o que tem utilidade. O artista descobre o que é inútil. Traz o novo”.

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Raul Seixas: “Tem gente que a vida inteira fica travando inútil luta com os galhos, sem saber que é lá no tronco que tá o coringa do baralho”.

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Érico Veríssimo: “Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente”.

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Clarice Lispector: “Inútil querer me classificar, eu simplesmente escapulo não deixando. Gênero não me pega mais”.

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Clarice Lispector, de novo: “Vou dormir porque não estou suportando este meu mundo hoje, cheio de coisas inúteis”.

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Dalai Lama: “A mais profunda raiz do fracasso em nossas vidas é pensar, ‘Como sou inútil e fraco’. É preciso pensar poderosa e firmente, ‘Eu consigo’, sem ostentação ou preocupação”.

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Jean Jacques Rousseau: “Em política, tal como na moral, é um grande mal não fazer bem, e todo o cidadão inútil deve ser considerado um homem pernicioso”.

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Jean Paul Sartre: “O homem é uma paixão inútil”.

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Laini Taylor: “Nada faz você se sentir tão inútil quanto a dor de outra pessoa”.

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Jack Kerouac: “Inútil, inútil / a forte chuva / mergulha no mar”.

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Robert Louis Stevenson: “Nenhum homem é inútil enquanto ele tem um amigo”.

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Jean de la Bruyere: “Todo o espírito que existe no mundo é inútil para quem não o tem; ele não tem perspectivas sobre nada e é incapaz de aproveitar as dos outros”.

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Sócrates: “É inútil tentar fazer um homem abandonar pelo raciocínio coisa que não adquiriu pela razão”.

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Shirley McLaine: “É inútil responsabilizar uma pessoa por qualquer coisa que ela diga enquanto está apaixonada, bêbada ou concorrendo a um cargo”.

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Marquês de Maricá: “Não há inimigo desprezível, nem amigo totalmente inútil”.

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Benjamin Disraelli: “Quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis”.

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Sêneca: “Dar conselhos a um homem culto é supérfluo, aconselhar um ignorante é inútil”.

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Sêneca, de novo: “É melhor saber coisas inúteis do que não saber nada”.

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Voltaire: “O melhor governo é aquele que tem o menor número de homens inúteis”.

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Charles Dickens: “Ninguém será inútil neste mundo se aliviar o fardo de outra pessoa”.

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Oscar Wilde: “A única justificativa para algo inútil e que seja profundamente admirado”.

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Veronica Roth: “Ele é o tipo de pessoa desprezível que não tem nenhuma compreensão de como é desprezível, e eu atormentá-lo com insultos não mudará nada isso. Em vez de ficar com raiva, me sinto pesada, inútil”.

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Omar Khayam: “Se enxertaste em teu coração a rosa do amor, tua vida não foi inútil”.

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Paul Valèry: “Se tudo fosse claro, tudo nos pareceria inútil”.

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Mário Quintana: “A ironia atinge apenas a inteligência. Inútil desperdiçá-la com os que estão longe do seu alcance. Contra estes ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível”.

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Pablo Picasso: “Os computadores são inúteis. Eles só podem dar respostas”.

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Franz Kafka: “Um quadro de minha existência mostraria uma inútil estaca de madeira coberta de neve, cravada, numa escura noite de inverno, inclinada e sem muita firmeza, num campo lavrado à beira de uma imensa planície”.

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Charlie Harper: “Não sou um completo inútil, posso servir de mau exemplo”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2017, e-book). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às terças.

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